Sustentabilidade

Micróbios podem ajudar a explicar Marte

Além da contribuição para a microbiologia, o trabalho também pode beneficiar áreas como a astrobiologia, que investiga a origem e a distribuição da vida no Universo.

Daniel Vilar
Especialista
3 min de leitura
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Organismos capazes de sobreviver em ambientes extremamente salgados podem ajudar a responder uma das maiores perguntas da ciência: existe vida fora da Terra? Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da USP propôs um novo sistema de classificação para os chamados halófilos, microrganismos que vivem em altas concentrações de sal. A proposta busca padronizar um tema que, até hoje, ainda gera divergências entre pesquisadores.

Atualmente, não existe consenso sobre como classificar os diferentes tipos de extremófilos, grupo de organismos adaptados a condições consideradas extremas. No caso dos halófilos, os critérios utilizados variam entre estudos, dificultando a comparação dos resultados e a comunicação científica. Para resolver esse problema, a pesquisadora Ana Paula Schiavo analisou 1.298 espécies descritas entre 1967 e 2021 e desenvolveu uma nova metodologia baseada em critérios estatísticos objetivos.

Em vez de utilizar faixas arbitrárias de concentração de sal, a nova classificação considera o ponto de crescimento ideal de cada espécie e sua raridade estatística na natureza. A proposta estabelece como primeira referência a salinidade média dos oceanos terrestres. Abaixo desse limite ficam os organismos não halófilos e os halotolerantes, que conseguem sobreviver em ambientes salinos, mas preferem concentrações menores. Acima desse ponto, os microrganismos passam a ser classificados como levemente, moderadamente ou extremamente halófilos, conforme seu nível de adaptação.

A pesquisa surgiu durante estudos realizados na região ferrífera de Diamantina (MG), considerada um ambiente semelhante à superfície de Marte. O planeta vermelho possui alta concentração de sais e intensa radiação ultravioleta, condições que dificultam a existência de vida. Compreender como esses microrganismos sobrevivem em ambientes extremos pode fornecer pistas importantes sobre a possibilidade de vida em aquíferos subterrâneos marcianos.

Além da contribuição para a microbiologia, o trabalho também pode beneficiar áreas como a astrobiologia, que investiga a origem e a distribuição da vida no Universo. Um sistema de classificação padronizado facilita a comparação entre estudos e pode acelerar pesquisas sobre organismos capazes de resistir a condições semelhantes às encontradas em outros planetas.

O novo sistema de classificação foi apresentado em uma tese de doutorado financiada pelo CNPq e também deu origem a um artigo científico, atualmente em processo de revisão por pares na revista Extremophiles. Especialistas da área consideram a proposta um avanço importante por substituir critérios subjetivos por uma metodologia baseada em análises estatísticas.

🔧 Orientação: Embora seja uma pesquisa de ciência básica, estudos sobre microrganismos extremófilos também podem gerar aplicações futuras na agricultura, biotecnologia e recuperação de áreas degradadas. Compreender como esses organismos sobrevivem em ambientes hostis pode abrir caminho para novas tecnologias voltadas à produção de alimentos em condições cada vez mais desafiadoras.

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