Relação Entre o Clima e Problemas Fitossanitários do Cafeeiro
A temperatura é o fator ambiental que mais influencia o desenvolvimento dos insetos, pois estes organismos não regulam sua temperatura corporal, a qual depende da temperatura ambiente. Em termos fisiológicos, um inseto deve acumular certa quantidade de calor para completar seu ciclo de vida.
O aumento da temperatura acelera a velocidade do seu metabolismo e, consequentemente, aumenta seu número de gerações durante o ano.
Assim, a temperatura é determinante nas variações sazonais e regionais dos níveis de infestação das principais pragas do cafeeiro no Brasil (a broca do café, o bicho mineiro e o ácaro vermelho), que são favorecidos pelo incremento da temperatura do ambiente durante períodos secos e quentes.
As condições microclimáticas do cafezal também determinam os locais de maior ou menor infestação, pois os insetos naturalmente tendem a procurar os ambientes mais adequados para seu desenvolvimento.
Por outro lado, períodos de seca e calor excessivo oferecem um cenário desfavorável para o desenvolvimento de algumas doenças do cafeeiro, tais como Pseudomonas, a mancha de phoma e a ferrugem, mas pode criar condições propícias para outras como Cercospora.
Já o excesso de umidade, no solo e no ambiente, favorece a presença de doenças como o mal rosado e a roseliniose.
A seguir são brevemente descritas as condições climáticas com maior efeito nas principais pragas e doenças do cafeeiro no Brasil.

Bicho mineiro (Leucoptera coffeella)
Esta é uma espécie de inseto sazonal, cujas populações são fortemente influenciadas pela chuva e pela temperatura, sendo sua atividade mais intensa durante períodos quentes e secos. Por outro lado, as populações da praga ficam bastante reduzidas quando se inicia a estação chuvosa.
Na região sudeste do Brasil as maiores infestações ocorrem no período de estiagem que, geralmente, se inicia em abril e perdura até setembro/outubro. Picos de infestação também são frequentes durante o verão, em anos em que há interrupção da estação chuvosa devido a veranicos ou em casos de seca intensa.
Culturas com fertilização deficiente e aquelas em que tem sido feitas aplicações de inseticidas e fungicidas de forma generalizada para o controle de outras pragas e doenças também são mais susceptíveis ao ataque desta praga.
Os danos ao cafeeiro são causados pelas larvas do inseto, que constroem galerias nas folhas, causando necrose da superfície foliar, diminuindo assim a capacidade fotossintética da planta. Quando as infestações são severas, podem provocar graves níveis de desfolha.
Dadas as condições de tempo seco, é a temperatura que determina a velocidade de aumento populacional do bicho mineiro, pois por cada grau que se aumente, se obtêm uma geração adicional da praga, devido ao menor tempo necessário para completar o ciclo de vida do inseto (Constantino, 2011).
No entanto, temperaturas máximas extremas (35ºC) são limitantes para a sobrevivência das larvas.

Broca do café (Hypothenemus hampei)
É uma das pragas que provoca maiores prejuízos à cafeicultura, pois, ataca os frutos, afetando diretamente a produção e a qualidade dos grãos.
A dinâmica populacional do inseto está estreitamente relacionada com a oferta de frutos na lavoura e com as características desses frutos para funcionarem como seu refúgio, fonte de alimento e local de oviposição.
A infestação pode ocorrer a partir do estado de chumbinho, mas as condições ótimas para oviposição ocorrem a partir dos 120 dias após a florada, quando o fruto se torna mais consistente (Ruiz-Cárdenas e Baker, 2010).
A broca do café apresenta uma tolerância térmica ampla e consegue se desenvolver em ambientes com temperaturas entre 14,9ºC e 32ºC, tendo seu desenvolvimento otimizado entre 25ºC e 27ºC (Jaramillo et al., 2009).
Assim, temperaturas altas e períodos prolongados de déficit hídrico são favoráveis ao inseto, pois nessas condições o seu ciclo de vida se acelera, determinando um maior número de gerações da praga por ano (Ramírez, et al., 2014).

A emergência de adultos da broca a partir de frutos sobremaduros e secos, que ficam após a colheita na planta e no solo, se inicia com as primeiras chuvas.
Tal emergência de brocas aumenta consideravelmente quando as primeiras chuvas são antecedidas por períodos prolongados de déficit hídrico (Constantino et al., 2011).
Ácaro vermelho (Oligonychus ilicis)
Esta espécie de inseto, sobrevive na parte superior das folhas do cafeeiro, raspando e perfurando as células das folhas para sugar o seu conteúdo celular.
Esse processo induz o vazamento de líquidos que estão dentro da célula para a superfície da folha que ao entrar em contato com os raios solares, causam uma queimadura deixando as folhas com o aspecto "bronzeado" e causando redução na capacidade fotossintética da planta.
A infestação é maior em épocas de clima seco, principalmente em veranicos e durante a estação de inverno, ocorrendo com mais intensidade nos anos em que o inverno apresenta temperaturas mais elevadas do que o normal.
A combinação de altas temperaturas e seca, após um período de chuvas intensas, também pode provocar infestações generalizadas, mesmo em outras épocas do ano. Por outro lado, a água é prejudicial ao desenvolvimento do ácaro.
Assim, em locais com irrigação ou durante o período chuvoso é difícil haver ataques desta praga. Situações de desequilíbrio populacional na população dos inimigos naturais causadas pelo uso de inseticidas e fungicidas de amplo espectro também favorecem o aparecimento do ácaro.

Cercoporiose (Cercospora coffeicola)
Este fungo ataca folhas e frutos do cafeeiro, provocando desfolha, seca de ramos produtivos, chochamento, mal formação e queda de frutos.
A severidade da doença está diretamente associada ao depauperamento ou estresse das plantas, causado por desequilíbrios/ deficiências nutricionais, agravados por carga alta, por problemas físicos do solo que impedem o bom desenvolvimento do sistema radicular, ou por anormalidades climáticas como deficiência hídrica nos períodos críticos da cultura, excesso de insolação, entre outras.

Ferrugem do cafeeiro (Hemileia vastatrix)
A evolução desta doença nas lavouras de café está associada à combinação de três fatores, o ambiente (condições climáticas), o hospedeiro (cafeeiro) e o patógeno, havendo interação entre eles.
Os fatores climáticos favoráveis à doença são temperatura na faixa de 20ºC a 25ºC e umidade em níveis adequados à germinação dos esporos, condição favorecida pelas chuvas frequentes, principalmente as finas, pelo orvalhamento noturno e por ambientes sombrios.

Assim, os níveis de inoculação do fungo geralmente aumentam entre novembro e abril, período em que ocorrem maiores temperaturas e chuvas constantes. Com isso, as maiores infecções ocorrem em seguida, de junho a agosto.
A carga pendente nas plantas também tem sido apontada como um fator importante na evolução da doença, pois quanto maior a carga, mais susceptível fica a planta.
Já temperaturas médias inferiores a 20ºC situação comum nas áreas cafeeiras da região sudeste do Brasil nos meses de inverno, reduzem significativamente o potencial de inoculação do fungo.
Sob condições de altas temperaturas e seca, ou na ocorrência de chuvas pesadas, pode haver remoção (lavagem) dos esporos que cobrem as pústulas de ferrugem nas folhas (isto é, as estruturas de cor alaranjada responsáveis pela multiplicação e disseminação do fungo na planta), causando o abortamento da infecção.

Mancha de Phoma
É uma doença fúngica que ataca folhas, ramos novos, flores e frutos do cafeeiro. O maior prejuízo ocorre nos períodos de florada e pós-florada, causando queda de botões florais, mumificação e queda dos chumbinhos.
Além disso, a doença causa seca de ponteiros e de extremidade dos ramos, com morte descendente, até o quarto/quinto nó, e desfolha, resultando em perdas na produção.
A doença é favorecida por condições climáticas em que coincidem temperaturas amenas e umidade relativa elevada em função do período de chuvas, principalmente quando as chuvas são finas e há entrada de frentes frias.
Essas condições ocorrem principalmente em cafezais instalados em regiões montanhosas de altitude elevada como os encontrados nas mesorregiões Zona da Mata, Alto-Paranaiba e Sul de Minas Gerais, assim como no Espírito Santo e na Bahia.
Áreas sujeitas à incidência de ventos frios também são favoráveis à doença. A intensidade do ataque também é maior em lavouras com cafeeiros estressados, que sofreram desfolha por diversas causas, incluindo estiagem prolongada (Matiello, et al., 2013).

Por outro lado, a elevação das temperaturas tende a paralisar o desenvolvimento do fungo, levando a uma menor incidência da doença em anos mais quentes e secos.

Se você tem interesse em saber mais sobre a Pragas e Doenças do Café: Arábica e Conilon, te convido a conhecer a plataforma da AgricOnline. Ao fazer a sua assinatura, você tem acesso ilimitado a todos os cursos da plataforma. São cursos que vão desde produção vegetal, produção animal, mercado e carreira.
Ao término de cada curso, você tem direito ao certificado com a carga horária de cada curso, clique no link para conhecer.

Ou clique no link:
https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal
Fonte
RUIZ-CÁRDENAS, Ramiro. A Cafeicultura e sua Relação com o Clima. 1ª ed. Lavras - MG: Artes Gráficas Formato LTDA, 2015.