Pecuária

Gene bovino pode ajudar a reduzir metano

O que chamou ainda mais atenção foi a descoberta de como o próprio organismo do animal influencia esse processo.

Daniel Vilar
Especialista
3 min de leitura
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Uma descoberta publicada na revista científica PNAS pode abrir novos caminhos para a pecuária de baixo carbono. Pesquisadores chineses identificaram um mecanismo genético em vacas leiteiras capaz de influenciar a microbiota do rúmen e reduzir naturalmente a emissão de metano, um dos principais gases de efeito estufa produzidos pela atividade pecuária.

O estudo analisou dados genéticos, metabólicos e microbiológicos de 304 vacas Holandesas em lactação. Os resultados mostraram que a emissão de metano por quilo de matéria seca consumida possui herdabilidade moderada (h² = 0,42), indicando que a genética do animal exerce forte influência sobre essa característica. A influência genética observada foi superior ao efeito direto da microbiota ruminal, reforçando o potencial do melhoramento genético como ferramenta para reduzir emissões.

A pesquisa identificou uma bactéria específica do rúmen, a Prevotella_bryantii, como uma das responsáveis por reduzir a produção de metano. Segundo os autores, essa bactéria compete por hidrogênio com os microrganismos metanogênicos — arqueias responsáveis pela formação do gás. Ao consumir parte desse hidrogênio, a bactéria reduz a matéria-prima disponível para a produção de metano.

O que chamou ainda mais atenção foi a descoberta de como o próprio organismo do animal influencia esse processo. Os pesquisadores identificaram que um metabólito produzido pelo fígado, chamado 6-hidroximelatonina, estimula o crescimento dessas bactérias benéficas no rúmen. Experimentos de fermentação in vitro confirmaram que o aumento da concentração dessa substância favorece a presença de Prevotella_bryantii e reduz a produção de metano. Além disso, a 6-hidroximelatonina apresentou efeito mais intenso do que a própria melatonina na mitigação das emissões.

Os pesquisadores avançaram um passo além e encontraram uma variante genética associada a esse mecanismo. Animais portadores do genótipo TA em uma região específica próxima ao gene ITFG2 apresentaram menor emissão de metano por unidade de alimento consumido. O estudo sugere que esse marcador genético poderá futuramente ser utilizado em programas de seleção de bovinos com menor impacto ambiental.

Segundo os autores, a descoberta é relevante porque muitas estratégias atuais de mitigação dependem de aditivos alimentares ou mudanças na dieta, que podem aumentar custos ou apresentar resultados inconsistentes ao longo do tempo. A seleção genética, por outro lado, oferece uma alternativa permanente e cumulativa, já que as características desejáveis podem ser transmitidas para as próximas gerações.

Na prática, isso significa que a pecuária do futuro poderá combinar genética, microbiologia e nutrição para produzir leite e carne com menor pegada de carbono. Embora os resultados ainda precisem ser validados em outras raças e espécies de ruminantes, o trabalho fornece evidências sólidas de que é possível selecionar animais naturalmente mais eficientes na utilização da energia da dieta e menos emissores de metano.

O que isso significa para o produtor?

O metano não representa apenas um desafio ambiental. Sua produção também está associada à perda de energia da dieta consumida pelos animais. Estudos citados pelos autores indicam que entre 2% e 12% da energia ingerida pelos bovinos pode ser perdida na forma de metano. Reduzir essas emissões pode contribuir para melhorar a eficiência alimentar dos rebanhos.

🔧 Orientação prática

Embora a tecnologia ainda esteja em fase de pesquisa, vale acompanhar os avanços em genética de baixa emissão e seleção de animais mais eficientes. A tendência é que, nos próximos anos, programas de melhoramento incorporem cada vez mais características ligadas à sustentabilidade e à eficiência produtiva.

Fonte: Zhang et al. (2026), Host genetic regulation of rumen 6-hydroxymelatonin reduces methane emissions in dairy cattle, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

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