Agricultura

Pesquisa liga biodiversidade à qualidade da alimentação

Os pesquisadores alertam que a erosão genética já é uma realidade.

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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A diversidade de espécies de hortaliças pode ser uma das principais aliadas no combate à má alimentação e na construção de sistemas agrícolas mais resilientes. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Segundo os pesquisadores, conservar e ampliar o uso da biodiversidade das hortaliças deve ser uma prioridade para as políticas públicas de agricultura, alimentação e saúde.

Atualmente, a população mundial consome, em média, cerca de 40% menos hortaliças do que o recomendado para uma alimentação saudável. Além da produção insuficiente, fatores como preços elevados, barreiras culturais e a perda da diversidade genética das espécies reduzem a oferta e o consumo desses alimentos.

O estudo destaca que existem pelo menos 1.482 espécies de hortaliças no mundo. Essa riqueza genética é fundamental para o desenvolvimento de cultivos mais resistentes às mudanças climáticas, pragas e doenças, além de contribuir para a produção de alimentos mais nutritivos, ricos em vitaminas, minerais e compostos bioativos. No entanto, a homogeneização dos mercados, as mudanças no uso da terra e o abandono de variedades tradicionais têm reduzido essa diversidade ao longo dos anos.

Os pesquisadores alertam que a erosão genética já é uma realidade. Segundo a revisão apresentada no artigo, 80% dos estudos analisados registraram perdas significativas na diversidade das hortaliças ao longo dos últimos 100 anos. Além disso, cerca de 24% dos parentes silvestres das principais espécies cultivadas estão ameaçados de extinção, reduzindo uma importante fonte de genes utilizada no desenvolvimento de novas cultivares.

Outro desafio é que os bancos de germoplasma — locais onde são conservados materiais genéticos de plantas — ainda armazenam apenas uma pequena parcela dessa diversidade. Com isso, programas de pesquisa e melhoramento genético passam a trabalhar com uma base genética limitada, dificultando o desenvolvimento de variedades mais produtivas, adaptadas às diferentes regiões e capazes de enfrentar novos desafios climáticos.

Na prática, essa diversidade pode fazer diferença dentro da propriedade. Se você produz hortaliças, contar com variedades mais adaptadas ao clima local e mais resistentes a pragas e doenças pode reduzir perdas, melhorar a produtividade e ampliar a oferta de alimentos com maior valor nutricional. Já para quem trabalha com agricultura familiar, a diversificação da produção também representa novas oportunidades de mercado e maior segurança diante das oscilações climáticas.

Para reverter esse cenário, os pesquisadores propõem quatro ações principais: ampliar a conservação de variedades locais e espécies silvestres; fortalecer os programas de pesquisa e melhoramento genético; incentivar o consumo de uma maior diversidade de hortaliças, especialmente em programas de alimentação escolar; e incorporar a biodiversidade às políticas públicas de agricultura, saúde, educação e conservação ambiental.

Um exemplo apresentado pelo estudo mostra que essa estratégia pode gerar resultados concretos. Entre 2021 e 2024, um projeto realizado em quatro países africanos coletou mais de 17 mil variedades de hortaliças, fortaleceu bancos de germoplasma e implantou cerca de 7.200 hortas escolares, familiares e comunitárias, beneficiando mais de 120 mil pessoas, entre elas aproximadamente 30 mil crianças.

🔧 Orientação: Se você produz hortaliças, considere incluir diferentes cultivares adaptadas à sua região e valorize variedades locais sempre que possível. Além de reduzir riscos na lavoura, essa estratégia pode aumentar a resiliência da produção e contribuir para uma alimentação mais diversificada e nutritiva.

Referência: Van Zonneveld, M.; Khoury, C. K.; Herforth, A.; et al. Reversing vegetable biodiversity loss to diversify diets. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), v. 123, n. 31, e2532063123, 2026. https://doi.org/10.1073/pnas.2532063123.

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