Pasto não é capim: é tecnologia de ponta
Pesquisador da Embrapa alerta: 80% das forrageiras usadas no Brasil são tecnologias defasadas e você pode estar perdendo dinheiro
Você sabia que o boi mudou, mas o pasto continua o mesmo? Essa é a provocação do pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), que abriu a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?” durante a 34ª Expoabra, em Brasília.
A feira segue até domingo (13), no Parque de Exposição Granja do Torto, e reuniu especialistas para debater os desafios e oportunidades da pecuária de corte. Mas o recado principal é direto: não é só capim. É tecnologia de ponta.
O peso da pecuária no Brasil
Vale lembrar a dimensão do que estamos falando. O Brasil tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, é o segundo principal produtor e o maior exportador de carne bovina. Em 2025, o valor bruto da produção agropecuária nacional foi de R$ 1,3 trilhão, sendo cerca de R$ 250 bilhões só da pecuária.
E onde tudo começa? No pasto. O país conta com 160,5 milhões de hectares de pastagens, sendo 62,7 milhões no Cerrado. Segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), 80,14% dos animais abatidos no Brasil no ano passado foram terminados a pasto.
“É um componente importante e muitas vezes relegado. Por causa disso, fazemos um produto diferente, que chamo de boi verde. Deveríamos estar recebendo um prêmio no mercado internacional por entregar um produto com essa qualidade”, argumentou Ayres.
O problema: escolha errada da semente
Entre os pilares da pecuária estão sanidade, genética, reprodução, nutrição e gestão. Mas, segundo o pesquisador, as propriedades têm priorizado a genética dos animais e deixado o pasto em segundo plano.
“Na hora de escolher a cultivar de forrageira, o preço é o que define a escolha do produtor. E isso representa apenas 10% do custo total de implantação do pasto. Por causa disso, em 2026 ainda estamos usando cultivares do século passado, desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990, com a lógica de um boi que não existe mais”, apontou.
O dado é alarmante: 80% das cultivares de forrageiras utilizadas pela pecuária brasileira são tecnologias defasadas.
A conta que você deixa na mesa
Ayres apresentou números dos ganhos econômicos das novas cultivares em relação a materiais antigos em apenas um ano de produção. Veja só:
- BRS Paiaguás (B. brizantha): ganho 7% superior ao da BRS Piatã — mais R$ 1.035/ha/ano.
- BRS Carinás (híbrido de Brachiaria decumbens): ganho 13% maior que a Basilisk — R$ 483/ha/ano a mais.
- BRS Zuri (Panicum maximum): mesmo ganho de 13% na comparação com o Mombaça.
- BRS Tamani (P. maximum): ganho 9% maior que o Massai — diferença de R$ 1.593/ha/ano.
- BRS Quênia (P. maximum): ganho de 17% — ou R$ 3.243/ha/ano — superior ao Mombaça.
- BRS Sarandi (Andropogon gayanus): ganho 20% maior que a BRS Planaltina — mais R$ 1.275/ha/ano.
“Esses números são o que os produtores estão deixando de ganhar por não usarem essas cultivares modernas. As diferenças de ganhos em apenas um ano certamente vão pagar a diferença de custo das sementes, que é pequena. Imaginem, então, esses valores multiplicados por cinco ou seis anos, que é o tempo que esses pastos ficarão na propriedade”, comentou Ayres.
Exemplo: a BRS Carinás
Lançada em abril deste ano, a BRS Carinás é um híbrido de Brachiaria decumbens que representa uma evolução em relação à tradicional Basilisk, o famoso “capim-braquiarinha”.
A planta é mais alta, tem folhas mais largas e compridas, e o crescimento é semiereto, o que facilita o manejo. Os numerosos perfilhos basais garantem mais folhas e mais qualidade de forragem. A BRS Carinás tolera solos mais ácidos e com baixos teores de fósforo, assim como a Basilisk, mas apresenta cobertura mais rápida, reduzindo a ocorrência de plantas invasoras.
E tem mais: maior biomassa, mais folhas por hectare, teores de proteína de 13% a 14% e desempenho animal superior, com maiores taxa de lotação e ganho de peso por hectare — 13 arrobas/ha/ano.
Outras cultivares que merecem sua atenção
A BRS Paiaguás permite estender o período de pastejo na transição chuva-seca, porque as folhas envelhecem mais tarde. É superior à BRS Piatã em ganho médio diário por animal (cerca de 80%) e em taxa de lotação (cerca de 40%) durante a seca.
A BRS Zuri é voltada à intensificação com pastejo rotacionado. É uma cultivar de porte alto que ajuda no controle de manchas foliares, problema que afeta materiais como Tanzânia-1 e Mombaça. Responde à adubação nitrogenada e tem ganho médio diário e taxa de lotação 10% a 15% superiores ao Massai.
A BRS Tamani tem porte baixo e abundante massa foliar, sendo de fácil manejo e responsiva à adubação nitrogenada em sistemas intensivos.
A BRS Sarandi, lançada em 2022, é voltada a sistemas de cria e recria, solos de baixa fertilidade, com bom desempenho em solos pedregosos e arenosos. “Na transição seca-chuva, é o primeiro material que vai rebrotar quando começarem as chuvas, proporcionando um ‘respiro’ ao produtor nesse período”, explicou Ayres. A recomendação é usar em 20% a 30% da área da propriedade, em solos mais rasos e de menor fertilidade.
O futuro da pecuária
O pesquisador também trouxe dados sobre o panorama mundial. Segundo a FAO, cada pessoa necessita de no mínimo 1 grama de proteína por quilo de peso por dia. A demanda mundial por carne bovina cresceu 13% em 2026, e serão necessárias 76 milhões de toneladas para atender essa exigência.
“Isso nos leva à conclusão de que o Brasil será o maior fornecedor de proteína animal para o mundo. Mas ainda há um longo caminho a percorrer”, afirmou.
A produtividade média nacional é de 67,7 kg de carcaça/ha/ano, mas 76% dos produtores (1,12 milhão de propriedades) estão abaixo dessa média. A taxa de natalidade média é de cerca de 60% e a de desfrute de apenas 19%, o que representa 26,3 milhões de matrizes vazias todos os anos.
“Além de não oferecerem produtos (bezerros), essas vacas estão na propriedade dando despesa. Estamos falando de R$ 800 a R$ 1.200 por matriz por ano. É um número gigantesco e temos que buscar uma equação eficiente”, observou.
Se a taxa de desmame aumentasse de 60% para 80%, o país produziria mais 16,4 milhões de bezerros. Numa fazenda com 100 vacas, os 20 bezerros a mais representariam uma renda adicional de cerca de R$ 68 mil.
O que você pode fazer agora
A mensagem final do pesquisador é clara: se o boi mudou, o pasto também precisa mudar. Não se trata apenas de capim, mas de tecnologia de ponta, resultado de anos de pesquisa.
“Seu pasto precisa produzir mais, durar mais, responder melhor ao manejo, sustentar mais animais, gerar mais arrobas e entregar mais resultado. Esta é a oportunidade de mudar”, finalizou.
🔧 Dica prática: Acesse a Página de Cultivares da Embrapa (https://www.embrapa.br/cultivares) ou baixe o aplicativo Pasto Certo, disponível para Android e iOS, e também na versão desktop (https://www.pastocerto.com/). Lá você encontra informações detalhadas sobre todas as cultivares de forrageiras tropicais e pode comparar qual se adapta melhor à sua região e ao seu sistema de produção. Antes de comprar sementes, calcule o custo por hectare ao longo de cinco ou seis anos — não apenas o preço da saca. A diferença que parece pequena hoje pode ser o lucro que você deixa na mesa amanhã.