Clima

Possíveis Limitações Térmicas para Milho no Brasil

Daniel Vilar
Especialista
5 min de leitura
Possíveis Limitações Térmicas para Milho no Brasil
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É uma das culturas com distribuição geográfica mais abrangente no País, e isto se deve ao fato de ser uma cultura anual de estação quente, com ampla variabilidade segundo sua precocidade. O intenso trabalho de melhoramento genético possibilitou a obtenção de genótipos de elevada precocidade, permitindo uma grande expansão do cultivo de milho em latitudes próximas a 50º no Hemisfério Norte e 45º no Hemisfério Sul.

No Brasil, a cultura do milho está nas regiões mais frias da Região Sul, que não cultivavam o cereal até poucas décadas. Obviamente, nessas regiões frias o cultivo do milho se restringe a uma faixa estreita de semeadura e a genótipos mais precoces. Por outro lado, os mesmos genótipos superprecoces permitem a expansão de cultivo em lavouras semeadas ainda durante o inverno e em ciclo de verão-outono, nos cultivos de safrinha. Mesmo na Região Sul, isto está sendo feito como prática de escalonamento e diversificação de épocas, para reduzir (ou diluir) riscos por estiagens.

As limitações por baixas temperaturas podem ocorrer nas regiões mais frias e nas lavouras semeadas em épocas extremas, nas regiões Sul e Sudeste. O ingresso de massas polares e ocorrência de geadas, sobretudo no final de inverno e início de primavera, é um risco provável e o zoneamento da cultura deve ser observado. Por outro lado, enquanto o ponto de crescimento das plantas estiver abaixo do solo (até em torno de V3) geadas, granizo e vendavais têm pequeno ou nenhum efeito sobre o rendimento final da lavoura. No entanto, a inundação pode causar danos irreversíveis, pela morte das plantas. Em V6 as geadas serão mais danosas (assim como o granizo e vendavais), pois as plantas têm seu ponto de crescimento acima do nível do solo (RITCHIE; HANWAY; BENSON, 1993).

Limitações por altas temperaturas são mais complexas e de difícil detecção, sobretudo quando estão associadas a déficit hídrico durante estiagens com elevada demanda evaporativa atmosférica. O déficit hídrico em milho leva ao enrolamento de folhas e fechamento de estômatos. A redução do fluxo transpiratório modifica o balanço energético das folhas e pode causar acúmulo de calor, com elevação da temperatura dos tecidos.

Os danos podem ser parciais e reversíveis, mas podem causar senescência e morte de grande parte da área foliar. Durante o florescimento, a combinação de déficit hídrico e altas temperaturas diurnas afetam a polinização e a formação inicial dos grãos, resultando em diminuição do número de grãos por espiga. Noites quentes durante este período também podem reduzir o número de grãos, afetando a sobrevivência e desenvolvimento inicial dos grãos (RITCHIE; HANWAY; BENSON, 1993; NIELSEN, 2005).

Em condições de temperaturas elevadas, as plantas C4 apresentam taxa fotossintética maior que as espécies C3. Isto se explica, pois temperaturas elevadas afetam menos a fotossíntese de espécies como o milho, que têm metabolismo fotossintético C4 e não apresentam fotorrespiração, a qual tende a aumentar com elevadas temperaturas em plantas com metabolismo C3. Por outro lado, altas temperaturas (sobretudo durante a noite) podem reduzir a assimilação líquida das plantas, devido ao aumento das perdas por respiração.

Em regiões com verões quentes é frequente a redução do rendimento de grãos de milho em épocas tardias, devido a elevadas temperaturas. Trabalhando com diversos híbridos Gadioli et al. (2000) obtiveram maiores rendimentos de grãos em semeaduras de primavera e menores rendimentos em épocas posteriores, numa relação inversa entre produção de grãos e temperatura do ar. Brunini et al. (2006) também observaram que temperaturas noturnas elevadas podem prejudicar o desenvolvimento da cultura, embora a escolha de épocas apropriadas possa permitir escape a essas condições, inclusive mitigando estresses térmicos no período diurno durante o florescimento.

Avaliando as prováveis limitações do milho no Estado de São Paulo, Brunini et al. (2006) observaram que, em algumas situações, temperaturas noturnas elevadas podem comprometer o rendimento de grãos do milho. Segundo os autores, mesmo em locais de média latitude os riscos de altas temperaturas no florescimento ou formação de espigas podem comprometer a formação de espigas e grãos e reduzir a produtividade. Por outro lado, o uso combinado de sistemas de informações geográficas com técnicas de embasamento agrometeorológico pode constituir medidas de mitigação do estresse ambiental na cultura do milho.

Cenários de mudanças climáticas se caracterizam, sobretudo por elevação das temperaturas noturnas. Com isto, é provável que haja impactos negativos sobre o potencial produtivo do milho, pelo que foi exposto. Por outro lado, embora não haja uma projeção segura quanto à ocorrência de geadas, a expansão de cultivo para regiões mais frias e a ampliação do calendário de cultivo nas zonas de produção são bastante prováveis.

O encurtamento de ciclo pelo incremento no acúmulo de graus-dia também deverá ser considerado, em particular nos programas de melhoramento genético. Em resumo, a interação genótipo-ambiente deve ser continuamente revisada no sentido de adequar a cultura aos novos cenários de produção. Neste sentido, uma avaliação geral sobre os possíveis impactos das mudanças climáticas na fenologia das plantas foi feita por Bergamaschi et al. (2006), tomando por base efeitos combinados das principais alterações climáticas, em futuros cenários.

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Fonte

BERGAMASCHI, Homero; MATZENAUER, Ronaldo. O Milho e o Clima. 1ª ed. Porto Alegre - RS: Emater/RS-Ascar, 2014.

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