Cafezais podem sentir novo El Niño
O tema ganhou força após análises meteorológicas indicarem aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial
A possibilidade de formação de um novo El Niño no segundo semestre de 2026 voltou a acender o alerta dentro da cafeicultura brasileira. O tema ganhou força após análises meteorológicas indicarem aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, condição associada ao fenômeno climático que costuma provocar excesso de chuvas no Sul do Brasil e temperaturas mais elevadas no Sudeste e Centro-Oeste.
O assunto foi debatido no programa do consultor e especialista em cafeicultura Gustavo Rennó, que reuniu diferentes análises meteorológicas e discutiu os possíveis impactos nas lavouras de café.
Entre os especialistas citados está o meteorologista Peter Schoer, que fez um alerta mais severo sobre o risco de um possível “super El Niño”, associado a eventos extremos como enchentes, excesso de chuva e temporais no Sul do país.
Já a meteorologista Chélia Pegorim trouxe uma análise mais cautelosa. Segundo ela, existe alta probabilidade de formação do El Niño entre junho e julho de 2026, mas ainda não é possível confirmar a intensidade do fenômeno. Dados da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, indicam chances semelhantes para cenários moderado, forte ou muito forte.
Para o cafeicultor, o principal ponto de atenção não é apenas o clima, mas a capacidade da lavoura de suportar períodos de estresse térmico e hídrico.
Segundo Gustavo Rennó, a rusticidade da planta passou a ser tão importante quanto a produtividade. Em outras palavras: não basta produzir muito, a lavoura precisa resistir melhor às oscilações climáticas cada vez mais frequentes.
O debate ganha relevância porque a cafeicultura brasileira já enfrenta uma sequência de problemas climáticos desde 2021, incluindo seca, geadas, primaveras quentes e chuvas irregulares. Mesmo em anos considerados positivos, muitos produtores observaram impactos fisiológicos ocultos nas plantas, como menor enchimento de grãos e redução de peneira.
Entre os fatores técnicos mais destacados no manejo estão o equilíbrio nutricional e o fortalecimento do sistema radicular. O programa reforçou que nutrientes como cálcio, magnésio, potássio e boro têm papel fundamental na resistência da planta ao calor, à seca e às oscilações de temperatura.
Os níveis citados como referência foram:
Cálcio acima de 4 cmolc/dm³
Magnésio acima de 1 cmolc/dm³
Potássio acima de 130 mg/dm³
Outro alerta importante foi sobre o excesso de nitrogênio nas lavouras. Segundo Rennó, muitos cafezais passaram a receber doses elevadas nos últimos anos devido ao café valorizado e à redução no custo dos fertilizantes. O problema é que o excesso de nitrogênio, sem equilíbrio com outros nutrientes, favorece crescimento vegetativo exagerado e reduz a resistência fisiológica da planta.
Na prática, isso pode resultar em maior sensibilidade ao calor, seca, desfolha precoce e danos no inverno e na primavera.
O programa também destacou que algumas variedades vêm demonstrando maior rusticidade climática, principalmente materiais do grupo Acauã, Sarchimor e Catimor. Já cultivares tradicionais como Catuaí e Mundo Novo tendem a apresentar maior sensibilidade em cenários extremos.
🔧 Orientação:
Se você produz café, este é um momento importante para revisar análise de solo, equilíbrio nutricional e manejo fisiológico da lavoura. Em anos de possível El Niño, investir apenas em produtividade pode aumentar riscos. Plantas com raiz profunda, nutrição equilibrada e boa estrutura fisiológica tendem a suportar melhor períodos de calor, seca e oscilações climáticas intensas.