Robusta aguenta calor? Rondônia mostra que sim
Pesquisador rebate generalização sobre fragilidade do café robusta ao calor e apresenta dados de lavouras que passam de 100 sacas por hectare a 28°C
Você que planta café robusta em região quente já deve ter ouvido que a espécie não aguenta calor. Recentemente, o pesquisador Aaron Davis afirmou em entrevista à Reuters que a resiliência climática do robusta seria um "mito da internet".
Mas essa generalização precisa ser contestada. E a realidade da cafeicultura brasileira, especialmente a de Rondônia, mostra por quê.
Calor e seca não são a mesma coisa
Tolerância ao calor e tolerância à seca são características diferentes. Um cafeeiro pode produzir muito bem sob temperaturas elevadas quando tem água disponível — e, ao mesmo tempo, ser vulnerável à falta dela.
Usar essa vulnerabilidade à seca para duvidar da resiliência ao calor é misturar duas questões distintas. E transmite ao público uma interpretação equivocada.
O que os dados de Rondônia mostram
Em várias regiões de Rondônia, lavouras bem manejadas ultrapassam 100 sacas por hectare, mesmo sob temperaturas médias anuais superiores a 25°C. Em condições experimentais, há registros de médias superiores a 200 sacas por hectare ao longo de três colheitas.
Dados medidos em uma propriedade de Nova Brasilândia d'Oeste, uma das principais regiões produtoras de robusta no estado, ilustram bem essa realidade.
Nos anos agrícolas de 2023/2024 e 2024/2025, as temperaturas médias anuais ficaram em torno de 28°C — muito acima da média histórica regional, entre 25°C e 26°C. Mesmo sob esse calor, as produtividades alcançaram 120 e 115 sacas por hectare, respectivamente.
O resultado de 2023/2024 é ainda mais expressivo. Foi obtido apesar de uma seca severa para os padrões rondonienses, com praticamente quatro meses sem chuvas, entre maio e setembro.
O que isso prova — e o que não prova
Esses dados não significam que o calor seja inofensivo. Nem que 28°C seja a temperatura ideal para todos os materiais. Tampouco permitem concluir que não houve perda por causa do calor ou da seca.
Mas eles mostram que genótipos selecionados de Coffea canephora podem florescer, frutificar e sustentar produtividades muito elevadas nessas condições. Isso contraria a ideia de que temperaturas acima de 25°C seriam necessariamente prejudiciais à floração e à frutificação dos robustas.
A temperatura "ideal" não vale para todos
O mesmo problema aparece na interpretação da temperatura tida como ótima, próxima de 20,5°C, estimada a partir de condições asiáticas.
Em experimentos em regiões brasileiras de maior altitude, com temperaturas médias em torno de 20°C, muitos clones de C. canephora crescem vigorosamente, mas produzem muito pouco. Alguns genótipos produzem relativamente bem, mas são minoria.
Para a maioria dos materiais avaliados nessas condições, temperaturas mais baixas não se traduzem em maior produtividade. Uma estimativa regional não deveria virar referência universal sem considerar a origem e a identidade dos materiais genéticos cultivados.
Diversidade genética importa
Essas diferenças remetem à ampla diversidade genética de C. canephora, espécie que reúne os cafés conhecidos como conilon e robusta, além de numerosos híbridos entre esses grupos.
Há diferenças expressivas entre genótipos quanto à produtividade e às respostas ao calor e à seca. Não basta reconhecer essa variabilidade ao longo do artigo se, ao final, limitações observadas em determinados materiais e ambientes são generalizadas para toda a espécie.
Também é inadequado usar as condições do habitat natural africano como se elas estabelecessem os limites dos materiais atualmente cultivados. A origem florestal da espécie ajuda a compreender sua biologia, mas não encerra sua história.
Ao longo da domesticação, pesquisadores e produtores selecionaram materiais capazes de se destacar a pleno sol e sob temperaturas mais elevadas. A cafeicultura brasileira contemporânea é resultado desse processo contínuo de seleção, combinado com avanços no manejo.
Raízes e água: nuances que faltam
As generalizações sobre o sistema radicular merecem cuidado semelhante. A concentração de grande parte das raízes nas camadas superficiais não significa incapacidade de explorar camadas mais profundas.
Em solos com acidez corrigida e sem impedimentos físicos, observa-se desenvolvimento profuso de raízes até a profundidade avaliada de 1,20 m. É provável que quantidades consideráveis de raízes ocorram abaixo dessa camada. O desenvolvimento radicular depende do genótipo e das condições físicas e químicas do solo — não é uma limitação fixa e uniforme de todos os robustas.
Quanto à água, o contraste entre as regiões brasileiras é esclarecedor. No Espírito Santo, principal produtor de conilon, a produção é altamente dependente de irrigação, embora as temperaturas médias nas principais regiões girem em torno de 24°C.
Em Rondônia e outros estados amazônicos, temperaturas médias acima de 27°C são compatíveis com produtividades muito elevadas. A necessidade de irrigação depende da distribuição das chuvas, da capacidade do solo de armazenar água e da demanda da lavoura. Não é, por si só, evidência de intolerância ao calor.
A fisiologia básica da água
Há uma premissa fisiológica elementar nessa discussão: altas produtividades exigem suprimento elevado de água. Para incorporar CO² pela fotossíntese, a planta inevitavelmente perde água pelos estômatos.
Em termos simples, a planta troca água por CO², do qual retira o carbono usado na formação de folhas, caules, raízes e frutos. Quanto maior a produção, maior tende a ser o consumo de água. Isso não é uma deficiência dos robustas, mas uma condição comum às plantas terrestres.
É preciso distinguir a demanda hídrica associada à produção do desperdício causado por irrigação mal dimensionada. Uma lavoura muito produtiva pode usar mais água por hectare e, ainda assim, produzir mais café por unidade de água consumida.
Água se maneja, calor não
Essa distinção é relevante diante das mudanças climáticas. Onde há recursos hídricos e infraestrutura, os efeitos da irregularidade das chuvas podem ser parcialmente compensados com irrigação eficiente, armazenamento de água e manejo do solo.
O aumento da temperatura é um desafio muito mais difícil de controlar no campo. Seus efeitos podem ser atenuados pela escolha de genótipos, pela arborização e pelo manejo, mas o produtor não controla a temperatura do ar em uma lavoura.
Por isso, a capacidade de materiais selecionados produzirem sob temperaturas elevadas representa uma vantagem adaptativa relevante. A vulnerabilidade à seca não elimina a resiliência relativa ao aquecimento — principalmente porque o suprimento de água é, em muitos contextos, mais manejável do que o calor.
Sustentabilidade também é econômica
A discussão revela outra limitação na abordagem de Davis. Ao enfatizar a sustentabilidade ambiental, o autor parece relegar a segundo plano uma dimensão essencial: a sustentabilidade econômica e social do produtor.
Sustentabilidade não se resume a reduzir o uso de água, fertilizantes ou insumos. Para ser verdadeiramente sustentável, a atividade agrícola precisa gerar renda, remunerar o trabalho e permitir que o produtor permaneça no campo com dignidade.
Isso é especialmente importante para os pequenos produtores, parte expressiva da cafeicultura de C. canephora. Eles não cultivam café apenas para conservar recursos naturais — cultivam para sustentar suas famílias. Sem produtividade e renda, não há permanência no campo nem adoção duradoura de práticas responsáveis.
O que fica desse debate
Os alertas do estudo permanecem pertinentes. A expansão da cafeicultura deve estar vinculada ao planejamento hídrico, à conservação do solo, ao armazenamento de água e à irrigação eficiente. A busca por produtividade não justifica o desperdício nem o uso de água acima da capacidade das bacias.
Mas reconhecer essas exigências não autoriza descartar a contribuição dos robustas à adaptação da cafeicultura. Nem ignorar que produtividade e renda também integram o conceito de sustentabilidade.
O robusta não oferece garantia universal contra as mudanças climáticas. Nenhuma espécie oferece. Materiais selecionados, contudo, já demonstram capacidade de sustentar produtividades muito elevadas em ambientes quentes.
A dimensão dessa contribuição dependerá do genótipo, do ambiente e do manejo — inclusive da disponibilidade sustentável de água.
Questionar promessas exageradas é necessário. Generalizar as vulnerabilidades da espécie, sem dar o devido peso à diversidade genética, aos avanços do manejo e à realidade da cafeicultura brasileira, também é um exagero. Tratar a resiliência dos robustas ao calor como um mito não esclarece o debate: obscurece uma capacidade demonstrada nas lavouras brasileiras.
Se você produz café robusta em região quente, o recado é claro: o calor não é impedimento, desde que o manejo acompanhe. Invista em genótipos adaptados à sua região, corrija a acidez do solo para permitir raízes profundas e cuide da irrigação com base na demanda real da lavoura — não em calendário fixo. E não aceite generalizações: os dados das suas lavouras valem mais do que conclusões feitas a partir de realidades distantes da sua.
Fonte: Cafepoint.