Descrições Morfoagronômicos do Maracujazeiro
Introdução
O gênero Passiflora L. é o mais importante da família Passifloraceae, a qual apresenta cerca de 530 espécies, com ampla variabilidade genética (MILWARD-DE-AZEVEDO; BAUMGRATZ, 2004). No Brasil, apesar de haver grande variabilidade dos agroecossistemas e existir cerca de um terço das espécies do gênero Passiflora, o número de cultivares comerciais é pequeno, restringindo-se a poucas espécies de maior expressão econômica como P. edulis Sims. (maracujá azedo) e P. alata Curtis. (maracujá doce).
Para explorar o potencial desta cultura, as espécies silvestres de Passiflora têm sido utilizadas em programas de hibridações visando contribuir com o melhoramento genético do maracujazeiro comercial (MELETTI et al., 2005; JUNQUEIRA et al., 2005), por apresentarem a resistência a doenças e outras características interessantes, como longevidade, autocompatibilidade, período de florescimento ampliado, entre outras. Porém, é necessária a intensificação de estudos de caracterização para o melhor conhecimento dos recursos genéticos das Passifloras silvestres e comerciais.
Em levantamento das demandas de pesquisa na cultura do maracujazeiro, Faleiro et al. (2006) indicaram a caracterização, domesticação e desenvolvimento dessas novas espécies como pontos prioritários na pesquisa em maracujazeiros. Estudos de caracterização de germoplasma são importantes para reconhecer a variabilidade genética disponível, proteção de cultivares e para a identificação de duplicata e caracteres úteis aos programas de melhoramento genético. Essa caracterização pode ser avaliada pelo uso de diversos tipos de descritores como os morfoagronômicos, citológicos, bioquímicos, fisiológicos e moleculares (CRUZ; CARNEIRO, 2006). Neste artigo, são apresentadas informações recentes sobre os principais descritores morfoagronômicos utilizados na caracterização de recursos genéticos do maracujazeiro.
Principais Descritores Morfoagronômicos
Descritores da planta
As espécies do gênero Passiflora apresentam como principais características serem plantas trepadeiras herbáceas ou lenhosas de ramos cilíndricos ou quadrangulares, angulosas, suberificadas, glabras ou pilosas, podendo atingir 5 a 10 m de comprimento (TEIXEIRA, 1994). Esta característica da planta com crescimento escandente exige algum tipo de suporte para o desenvolvimento da planta, como as espaldeiras e latadas. A maioria das espécies apresenta crescimento vigoroso e contínuo, sistema radicular superficial, longo período de produção com florescimento e frutificação em vários meses do ano. A Figura 1 ilustra as principais estruturas das plantas de maracujá.

Descritores da folha
As diferentes espécies comerciais e silvestres do gênero Passiflora exibem uma grande diversidade em formato de folhas (lanceolada, ovada, cordada, oblonga, elíptica, fendida, partida ou seccionada) (JESUS et al., 2015a; 2015b), provavelmente devido à pressão evolutiva entre Passifloras (VANDERPLANK, 2000). Na maioria das espécies as folhas são simples e alternas, elípticas ou orbiculares, inteiras ou lobadas, margem geralmente inteira, base cordada, truncada, arredondada ou cuneada, pecíolo com ou sem glândulas, glândulas peciolares sésseis, estipitadas ou pedunculadas, algumas vezes com glândulas nos lobos dos sinus (Figura 2). Poucas espécies possuem folhas compostas (ULMER; MACDOUGAL, 2004). As gavinhas, geralmente solitárias, desenvolvem-se nas axilas das folhas e são ausentes em espécies lenhosas (CUNHA et al., 2002). As brácteas são pequenas ou foliáceas, verticiladas e involucrais ou alternadas no pedúnculo, algumas vezes decíduas.

Descritores da flor
Nas plantas do gênero Passiflora as flores são hermafroditas, grandes, vistosas com diferentes colorações (branca, rosa, magenta, diferentes tons de vermelho, azul ou roxa) (JESUS et al., 2015a; 2015b) e protegidas na base por brácteas foliares. A corona formada por vários filamentos ou fímbrias é sem dúvida a marca característica do gênero Passiflora, sua origem vem sendo investigada durante muitos anos e acredita-se ser derivada de sépalas e pétalas, e não de estames (Figura 3). No centro da flor, existe o androginóforo colunar bem desenvolvido com o ovário globoso, unilocular e multiovulado. A estrutura feminina tem três estiletes livres ou conectados na base, com estigmas capitados. A estrutura masculina é formada por cinco estames, com filetes livres ou conectados na base com anteras dorsofixas e versáteis. Dependendo da espécie, a abertura da flor pode ser no período matutino, vespertino ou noturno, sendo que algumas espécies são sensíveis ao fotoperíodo, ou seja, necessitam de dias mais longos para induzir o florescimento.

Descritores do fruto
Os frutos do maracujá são usualmente bagas (Figura 4), indeiscentes ou cápsulas deiscentes, apresentando vários formatos (ovalado, oblongo, arredondado, oblato, elipsóide, fusiforme, oboval e periforme) e cores (verde, amarelo, laranja, rosado, vermelho e roxo) (VANDERPLANK, 2000; ULMER; MACDOUGAL, 2004; JESUS et al., 2015a, 2015b). Normalmente, as sementes são comprimidas, reticuladas, pontuadas ou transversalmente alveoladas, envolvidas por um arilo mucilaginoso. São do tipo ortodoxas ou ortodoxas intermediárias (NUNES; QUEIROZ, 2006).

Descritores agronômicos
Os descritores agronômicos estão relacionados ao desempenho das plantas quanto ao seu potencial para uso no melhoramento genético ou uso direto como plantas frutíferas, ornamentais e ou medicinais. Aspectos relacionados à fenologia reprodutiva, produtividade de folhas, flores e frutos, resistência a pragas e doenças, tolerância a estresse hídrico e características físicas e químicas dos frutos devem ser consideradas no processo de caracterização de recursos genéticos.
Estudos Sobre Uso de Descritores Morfoagronômicos na Caracterização de Recursos Genéticos
Para o maracujazeiro, existem alguns estudos voltados para a caracterização do germoplasma (CROCHEMORE et al., 2003; ARAUJO et al., 2008; VIANA et al., 2010) utilizando descritores qualitativos e quantitativos, entretanto até o presente momento, não existe uma lista de descritores morfológicos definidos pelo International Plant Genetic Resources Institute (IPGRI), que tem como um de seus fundamentos padronizar as caracterizações das espécies vegetais por meio de listas de descritores, abrangendo as espécies desse grupo. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil publicou as instruções normativas para execução dos ensaios de distinguibilidade, homogeneidade e estabilidade de cultivares de Passiflora e Passiflora edulis Sims (MAPA, 2008 a,b), na qual são mencionados os descritores mínimos para caracterização de genótipos de Passiflora para fins de proteção. Entretanto, muitas desses descritores a serem avaliados não são de uso comum até mesmo para especialistas em botânica ou melhoramento da cultura, e por isso, precisam ser mais bem descritas e apresentadas de forma visual. Nesse sentido, foram elaborados dois manuais para aplicação desses descritores para diferentes espécies e híbridos do gênero Passiflora (JESUS et al., 2015b) e também exclusivo para Passiflora edulis Sims. (JESUS et al., 2015c).
Considerando a importância da caracterização morfológica para coleções de germoplasma ex situ, Jesus et al. (2015a) elaboraram um catálogo descritivo em Passiflora com intuito de padronizar a avaliação dos caracteres morfoagronômicos, em estudos de caracterização de bancos de germoplasmas. Como um dos objetivos da caracterização é facilitar o intercâmbio e a utilização de germoplasma, é fundamental que os descritores morfológicos tenham maior uniformidade possível para que possam ser praticáveis, com fácil manipulação e compreendidos por usuários de todo o mundo (Figura 5).

O manual ilustrado (JESUS et al., 2015a) conta com os descritores da planta, da folha e dos frutos, além de exemplos ilustrados de escalas de notas para avaliação dos principais problemas fitossanitários. Vale salientar, que esses descritores fazem parte da lista utilizada para registro e proteção de cultivares de maracujazeiro (MAPA, 2008 a,b); UPOV, alguns listados por Gonçalves (2007), e outros estabelecidos por melhoristas experientes na cultura. Esperamos que esta publicação torne-se um guia útil prático em estudos de caracterização morfoagronômica e acessível a instituições que estudam o gênero Passiflora.
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Fonte
MORERA, Marisol Parra; COSTA, Ana Maria; FALEIRO, Fábio Gelape; CARLOSAMA, Adalberto Rodríguez; CARRANZA, Carlos. Maracujá: dos recursos genéticos ao desenvolvimento tecnológico. Brasília - DF: ProImpress, 2018;
