Agricultura

Certificação regenerativa cresce e mira 80 mil hectares

Rainforest Alliance deve fechar primeiro ciclo no Brasil com até 80 mil hectares e 1,6 milhão de sacas certificadas; adesão superou a meta inicial de 50 mil hectares

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
Compartilhar 𝕏 f WA in

Se você produz café e busca mercados que pagam por sustentabilidade, uma novidade merece atenção. A Rainforest Alliance deve encerrar o primeiro ciclo de sua certificação para agricultura regenerativa no Brasil com até 80 mil hectares e uma produção estimada em 1,6 milhão de sacas.

A informação foi apresentada com exclusividade à Forbes Agro por Yuri Feres, diretor da organização no Brasil. Os números finais ainda estão em processamento e devem ser apresentados na SIC 2026 (Semana Internacional do Café), entre 11 e 13 de novembro, na ExpoMinas, em Belo Horizonte.

Até agora, o dado já confirmado pela entidade é de 50 mil hectares e 1 milhão de sacas certificados pela nova norma. Isso dentro de um universo de 500 mil hectares vinculados à Rainforest Alliance no país.

Para quem vai em busca de produtos sustentáveis, o selo do "sapo verde" é uma referência. Sua história começou no final dos anos 1980, na Costa Rica, onde a organização iniciou seu trabalho de conservação de florestas.

A espécie escolhida foi a perereca-de-olhos-vermelhos, comum na região e considerada um bioindicador. Os anfíbios são sensíveis a mudanças na água, no solo e no ambiente ao redor. O animal acabou virando mascote e símbolo da certificação, que hoje aparece em produtos como café, cacau, chá e banana em diferentes países.

O novo padrão parte de um conceito que o executivo procura separar do uso amplo que o termo "regenerativo" ganhou no mercado de alimentos.

"A agricultura regenerativa são práticas voltadas à saúde e à qualidade do solo. É muito clara a definição", diz Feres.

No modelo da organização, o solo funciona como ponto de partida para práticas relacionadas à cobertura vegetal, nutrientes, biologia, disponibilidade de água, biodiversidade e capacidade produtiva da lavoura.

A norma adiciona requisitos ao padrão de agricultura sustentável que a Rainforest Alliance já utiliza em sua certificação.

No mundo, cerca de 2 milhões de hectares de café estavam certificados em 2025 pelo padrão de agricultura sustentável da Rainforest Alliance, distribuídos por 33 países e envolvendo cerca de 2 milhões de produtores e trabalhadores rurais.

Vale destacar que esses dois universos não devem ser confundidos: o dado internacional se refere ao padrão de agricultura sustentável, enquanto os 50 mil hectares confirmados e os até 80 mil previstos no país pertencem à nova certificação regenerativa.

"Possivelmente 80 mil hectares até o final do ano é a nossa expectativa quase confirmada", diz Feres sobre a norma lançada no final de 2025 e que em 2026 entrou em seu primeiro ciclo de aplicação, aberto aos produtores brasileiros.

A previsão inicial da organização era chegar aos 50 mil hectares, dado já confirmado. Mas a adesão avançou além desse patamar enquanto a safra ainda era encerrada.

"A gente não achou que o produtor brasileiro iria com tanta sede ao pote", comemora Feres.

A expansão da oferta encontrou compradores antes mesmo do fechamento do primeiro ciclo. A Rainforest Alliance trabalhou paralelamente com empresas que compram e vendem o grão, principalmente nos mercados europeu e americano, para formar uma cadeia comercial para o produto.

"Já nessa primeira safra temos quem que uma falta de café regenerativo por conta da demanda", diz Feres. Segundo ele, há compradores europeus procurando o produto e marcas preparando lançamentos identificados com o selo regenerativo.

"O produtor só faz certificação se tiver um mercado", afirma Feres.

Para ele, a demanda pela certificação também tem base porque ela passou a ser usada por produtores como instrumento de gestão da propriedade, com rotinas de monitoramento e exigências verificadas em auditoria. Mas a existência de compradores continua determinante para ampliar a área.

Esse movimento comercial é diferente de um segundo trabalho que a Rainforest Alliance mantém no Cerrado Mineiro e que antecedeu a aplicação da norma.

Em parceria com a IKEA, a organização acompanha 11 cafeicultores para colocar práticas regenerativas no campo, medir seus efeitos e identificar o custo e o resultado de cada intervenção ao longo de três anos. O projeto reúne 2,5 mil hectares de café e dispõe de 500 mil euros no período (R$ 2,9 milhões na cotação atual).

A IKEA é uma empresa sueca de varejo fundada em 1943, com presença em 63 mercados no mundo, e que também é uma compradora importante de café para suas lojas e operações de alimentação.

"Estamos financiando coisas que o produtor também não financiaria. Por exemplo, o monitoramento completo de todas as propriedades", diz Feres. A equipe acompanha água, temperatura e qualidade do solo, além de análises que incluem componentes biológicos e carbono.

O projeto também financia sensores, equipamentos e intervenções de manejo, chegando em algumas propriedades à estrutura para produção de biológicos e criação de inimigos naturais dentro da fazenda.

O objetivo é entender o comportamento dessas práticas para além do cumprimento dos requisitos da certificação. Quando o projeto começou, conta Feres, uma das primeiras colocadas à mesa era que a agricultura regenerativa poderia aumentar o custo e reduzir a produtividade, compensando essas perdas com maior resiliência da lavoura.

Os dados coletados até agora no grupo brasileiro caminham em outra direção. "Conseguimos ver claramente uma redução de custo de produção", diz Feres. Segundo ele, a maior parte do movimento está associada à menor utilização de defensivos e agrotóxicos nas propriedades acompanhadas.

"A maior parte da redução do custo está aí. E o aumento da produtividade é expressivo", afirma.

O acompanhamento separou os produtores conforme o estágio de adoção das práticas e encontrou diferenças de rendimento entre esses grupos. Feres cita propriedades em estágio inicial na faixa de 30 sacas por hectare, um conjunto intermediário em torno de 40 sacas e produtores mais avançados chegando a cerca de 60 sacas por hectare.

Parte dos participantes já mantinha registros antes do início do projeto, o que permite comparar séries anteriores com o período monitorado pela Rainforest Alliance.

"Para nós já não é mais dúvida de que a agricultura regenerativa leva a uma maior produtividade natural", afirma Feres. A declaração vem acompanhada de uma ressalva operacional: "Mas não há almoço grátis."

Segundo ele, avançar no modelo exige investimento em monitoramento, análises de solo e uma gestão com mais variáveis do que a rotina convencional. "Você precisa investir em monitoramento, em medição de solo, o que pode significar um aumento da complexidade da gestão da produção."

Essa complexidade aparece na escolha das plantas usadas para cobertura do solo, por exemplo. O trabalho avalia quais espécies cumprem melhor funções como fixação, polinização ou atração de inimigos naturais, em vez de tratar a cobertura apenas como proteção física.

A experiência com os 11 do projeto com a IKEA funciona como um campo de medição mais detalhado, no qual a organização acompanha tecnologias que podem ir além do que é exigido para receber o selo.

"Esse projeto é um subgrupo de produtores que está disposto a estudar até onde a gente pode ir", diz Feres.

A Rainforest Alliance trabalha com a ampliação desse grupo. "Agora estamos brigando pela segunda fase", diz Feres. A intenção é manter os participantes atuais e adicionar propriedades, enquanto a primeira sequência de dados passa pelo processamento.

Se você produz café, a certificação regenerativa pode abrir portas para mercados que pagam mais por sustentabilidade. Os dados preliminares mostram redução de custo e aumento de produtividade — dois fatores que pesam no bolso.

Mas o próprio diretor da organização alerta: o modelo exige mais gestão, mais monitoramento e mais planejamento. Não é só trocar a prática e esperar o resultado.

Para quem compra café, a tendência é de mais oferta de produto com selo regenerativo nos próximos anos. Marcas europeias e americanas já estão se preparando para lançamentos nesse segmento.

Se você tem interesse em certificação regenerativa, comece medindo. Faça análise de solo completa, incluindo carbono e biologia, e registre os custos de produção por talhão. Sem esses dados, fica difícil saber se o modelo está funcionando. Procure a Rainforest Alliance ou a sua cooperativa para entender os requisitos e os prazos. E fique de olho na SIC 2026, em Belo Horizonte: os números finais do primeiro ciclo brasileiro serão apresentados lá. Em um mercado que paga prêmio por sustentabilidade, quem se prepara antes sai na frente.

Fonte: Forbes.

Mais de Agricultura

Ver todas →

Boletim Agriconline

O agronegócio na sua caixa de entrada, todo dia às 6h.

Cotações, clima, mercado e as principais notícias do campo — em 5 minutos de leitura.

Enviaremos um e-mail pra você confirmar. Sem spam — descadastre quando quiser.