Grupos usam lei europeia contra desmatamento para mirar a JBS
Entidades ambientais e de direitos humanos apresentam queixas em quatro países contra a gigante da carne e bancos financiadores, alegando suposto "bem de origem criminosa" na pecuária
Grupos ambientalistas e de direitos humanos estão se baseando na legislação europeia de combate à lavagem de dinheiro para buscar responsabilizar empresas pelo desmatamento associado à cadeia de pecuária no Brasil. A informação foi divulgada pela agência Bloomberg nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026.
A Transnational Legal Coalition (TLC) divulgou um comunicado informando que apresentou queixas legais contra a JBS. As entidades pedem investigações sobre supostas transferências de recursos por meio de diversos bancos, entre eles o Barclays e o Standard Chartered.
Onde as queixas foram feitas
As queixas foram apresentadas pela TLC junto a reguladores financeiros nos Países Baixos, Reino Unido, Alemanha e Irlanda. Trata-se de uma abordagem nova de grupos que no passado se dedicaram a rastrear o gado em áreas de desmatamento.
A TLC alega que o gado criado em terras desmatadas ilegalmente pode ser tratado como um "bem de origem criminosa". Com isso, os recursos transferidos pela JBS e instituições financeiras poderiam ser enquadrados dentro da legislação europeia de combate à lavagem de dinheiro.
O histórico da JBS
A JBS enfrenta há muito tempo questionamentos sobre compras de gado supostamente criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia. O desmatamento é um motor de emissões de carbono no país. A empresa deu passos para endereçar essas preocupações, e seu diretor executivo global disse no ano passado que a companhia estava comprometida com planos do governo brasileiro de rastrear 100% do gado.
Mas pode ser difícil rastrear a origem dos animais no Brasil. Isso porque o gado pode passar por diversas fazendas antes de chegar ao peso de abate. Produtores que atuam em etapas anteriores da cadeia pecuária, como operações de cria e recria, são muito alvo de críticas por abrirem novas áreas para a criação de gado.
Ações em vários países e resposta da empresa
As ações da TLC incluem uma notícia-crime contra a holding da JBS nos Países Baixos, apresentada ao Ministério Público local. Uma empresa da JBS no Reino Unido também foi alvo de representação perante a National Crime Agency.
Bancos como Barclays, Standard Chartered, Banco do Brasil, Rabobank, ING, BlackRock, EY e KPMG estão entre as firmas citadas em pedidos feitos a diferentes reguladores financeiros europeus.
Em nota, a JBS afirmou que lamenta que a campanha da ONG tenha omitido os supostos dados em que se baseiam as alegações contra a companhia, o que impede de tomar providências a respeito. A empresa de carne acrescentou que monitora fornecedores de gado na Amazônia desde 2010.
O que dizem os citados
Um porta-voz do Barclays afirmou que o banco cooperará plenamente com os reguladores. A KPMG e o ING disseram que não podem comentar porque não tiveram acesso às queixas. Standard Chartered, Rabobank e EY disseram que não podem comentar informações relacionadas a clientes ou relações de negócios específicas. A BlackRock não quis comentar. O Banco do Brasil afirmou que não teve acesso à denúncia, acrescentando que mantém políticas, procedimentos e controles destinados à prevenção à lavagem de dinheiro, em conformidade com as leis e regulamentações aplicáveis.
Próximos passos e histórico de fiscalização
As autoridades ainda vão decidir se devem abrir qualquer investigação, e não há garantia de que as queixas resultem em qualquer questionamento formal a nenhuma das empresas.
O uso da legislação de combate à lavagem de dinheiro na Europa é uma abordagem nova para os grupos que no passado focaram sobretudo nos registros de desmatamento. A estratégia legal foi em parte possibilitada por uma reorganização feita pela JBS em 2025, quando a empresa estabeleceu uma holding sediada nos Países Baixos como parte de um processo de listagem de suas ações em Nova York.
"Dividendos das operações brasileiras fluem para os Países Baixos, e portanto estão em descumprimento da lei de combate à lavagem de dinheiro", disse Jurjen de Waal, diretor nos Países Baixos da Mighty Earth, uma das entidades membro da coalizão.
Procuradores federais brasileiros usam desde 2009 acordos de adequação juridicamente vinculantes com frigoríficos da Amazônia para exigir a verificação das compras de gado. A conformidade da JBS melhorou nas auditorias realizadas no âmbito desses acordos no Pará, um importante estado fornecedor de gado. Embora a empresa ainda tenha registrado uma taxa de não conformidade de 2,3% na auditoria mais recente disponível, que abrangeu transações de gado realizadas em 2023 e 2024.
A JBS também foi multada em três fases de uma operação de fiscalização conhecida como Operação Carne Fria, conduzida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Na fase mais recente, em 2025, o Ibama também identificou gado que havia passado por propriedades embargadas antes de ser vendido à JBS por fornecedores diretos que aparentavam estar em situação regular. O que evidencia que infrações ocorridas em etapas anteriores da cadeia de fornecimento podem escapar de controles concentrados na fazenda que realiza a venda final.
🔧 Dica prática para você
Se você atua na pecuária, independentemente do tamanho da sua operação, a rastreabilidade deixou de ser apenas uma exigência de mercado e passou a ser uma questão de segurança jurídica e financeira. Mantenha o cadastro ambiental rural (CAR) atualizado, controle rigorosamente a origem dos animais que entram na sua propriedade e guarde as notas fiscais e guias de trânsito animal (GTA). Se você faz cria ou recria, saiba que as etapas iniciais da cadeia estão sob a mira de fiscalizações e de novas legislações. Exija de seus fornecedores e compradores a comprovação de origem. E fique atento às exigências do mercado europeu: comprovar que o gado não vem de áreas desmatadas ilegalmente é o novo passaporte para continuar vendendo. Informação e documentação em dia protegem o seu negócio.
Fonte: Bloomberg.