Tecnologias ajudam a proteger o algodão do semiárido
Embrapa apresenta na ExpoCariri 2026 bioinsumos, bactérias contra a seca e drones para controle do bicudo e redução de perdas na cotonicultura
O uso de bioinsumos, o controle biológico de pragas e as tecnologias de agricultura de precisão estão entre as estratégias para aumentar a resiliência e a sustentabilidade da produção de algodão no semiárido brasileiro. Esses temas foram apresentados por pesquisadores da Embrapa durante a ExpoCariri 2026, realizada em 30 de outubro, no Ceará. A programação foi voltada ao fortalecimento da cadeia produtiva do algodão e à difusão de tecnologias para pequenos, médios e grandes produtores. Se você planta algodão ou atua na região, essas novidades podem mudar a forma como você maneja a lavoura.
Os desafios da região
As apresentações abordaram alternativas para enfrentar dois dos principais desafios da cotonicultura no semiárido. O primeiro é a irregularidade das chuvas, associada às altas temperaturas. O segundo é a pressão de insetos-praga, especialmente o bicudo-do-algodoeiro. A proposta é integrar conhecimentos sobre solo, plantas e organismos benéficos, combinando práticas de manejo, biotecnologia e ferramentas digitais para reduzir perdas e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Bioinsumos e a força do solo
O pesquisador Paulo Barroso, da Embrapa Algodão, destacou que a biodiversidade presente no solo e nas plantas representa uma importante fonte de soluções para a agricultura. Segundo ele, os bioinsumos são produtos, processos ou tecnologias de origem biológica. Eles incluem microrganismos, macrorganismos e substâncias produzidas por seres vivos, capazes de favorecer o desenvolvimento das plantas e contribuir para o controle de pragas e doenças.
Barroso explicou que o solo abriga milhares de espécies de microrganismos e pequenos organismos que interagem entre si e desempenham funções essenciais para o equilíbrio dos sistemas produtivos. Bactérias que fixam nitrogênio, fungos que controlam insetos e organismos que disponibilizam nutrientes são exemplos de recursos biológicos que podem ser incorporados ao manejo agrícola.
"Quanto mais próximo a gente conseguir chegar com boas produtividades de um ambiente natural, melhor vai ser para o meio ambiente e maior sustentabilidade a gente vai ter", ressaltou Barroso. Para ele, a agricultura precisa aproveitar a biodiversidade existente para reduzir os impactos ambientais sem comprometer a produtividade necessária ao abastecimento de alimentos e à produção de fibras.
Projeto CaatÁgua: bactérias contra a seca
Uma das iniciativas apresentadas foi o projeto CaatÁgua, desenvolvido com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com a Rede Borborema de Agroecologia e três unidades da Embrapa: Algodão, Recursos Genéticos e Biotecnologia e Meio Ambiente.
A pesquisa busca identificar bactérias associadas a plantas da Caatinga, especialmente cactáceas e algodoeiros mocó e herbáceo, capazes de ajudar as culturas agrícolas a enfrentar o estresse hídrico. A estratégia considera que os microrganismos presentes nas raízes e no solo próximo a elas, região conhecida como rizosfera, podem contribuir para a adaptação das plantas às condições ambientais adversas.
De acordo com Barroso, dezenas de bactérias das centenas inicialmente isoladas apresentaram resultados promissores em experimentos com tomateiro. Sob estresse hídrico moderado, plantas inoculadas mantiveram o turgor, enquanto aquelas sem inoculação apresentaram murcha. O processo de seleção das melhores bactérias continua com experimentos em casa de vegetação e deverá orientar novas etapas de seleção e testes em outras culturas e condições de campo.
A equipe também investiga fungos entomopatogênicos, capazes de infectar e matar insetos, para desenvolver alternativas de controle do bicudo-do-algodoeiro. Em testes de laboratório, isolados de Metarhizium da coleção da Embrapa apresentaram mortalidade superior a 80% dos insetos expostos ao fungo. O desafio agora é aprimorar as estratégias para que os organismos entrem em contato com a praga nas condições de cultivo.
Barroso explicou que o desenvolvimento de novos bioinsumos exige avaliações de eficácia e segurança para as pessoas e o meio ambiente, além de procedimentos para obtenção de registro. A expectativa é que soluções para o controle do bicudo, incluindo alternativas biológicas, possam estar disponíveis em um horizonte de três a seis anos, dependendo dos resultados das pesquisas e dos processos regulatórios.
Cuidados com a produção na fazenda
O pesquisador chamou a atenção para os cuidados necessários na produção de bioinsumos nas propriedades rurais, modalidade conhecida como on-farm. Embora a legislação permita essa produção, o processo exige conhecimento técnico, infraestrutura e controle de qualidade. Isso evita contaminações por microrganismos patogênicos e assegura a concentração adequada dos organismos desejados.
Tecnologia Auras: tolerância ao estresse climático
Outro destaque foi a tecnologia Auras, desenvolvida pela Embrapa em parceria com a empresa NOOA e apresentada por Lucas Carvalho. O produto utiliza a bactéria Priestia aryabhattai, anteriormente classificada como Bacillus aryabhattai, isolada no contexto de pesquisas sobre a adaptação de plantas da Caatinga às condições de seca.
A bactéria apresenta mais de 126 genes relacionados à resposta ao estresse abiótico. Aplicada às sementes ou no sulco de plantio, ela atua em associação com as raízes e contribui para o desenvolvimento radicular, a retenção de água nos tecidos vegetais, a ativação de enzimas antioxidantes e a disponibilização de nutrientes.
Segundo Lucas Carvalho, a tecnologia procura ampliar a capacidade de resposta das plantas diante de condições adversas, como deficiência hídrica, temperaturas elevadas e excesso de água. A associação entre a planta e os microrganismos benéficos pode ajudar a preservar as estruturas celulares durante o estresse e favorecer a retomada do crescimento quando as condições ambientais melhoram.
Na cultura do algodão, a resposta média de proteção produtiva apresentada foi de aproximadamente 18 arrobas por hectare em condições de estresse. A recomendação de uso informada é de 200 mililitros por hectare no sulco de plantio ou quatro mililitros por quilo de sementes. O produto também apresenta resultados em soja e milho.
O palestrante ressaltou que o produtor não consegue controlar o clima, mas pode preparar melhor a lavoura para enfrentar suas variações. Nesse sentido, o manejo biológico complementa o melhoramento genético e as práticas agronômicas, ajudando a reduzir perdas de produtividade.
Manejo integrado e o bicudo
O manejo integrado de pragas (MIP) foi apresentado pelo pesquisador Fábio Aquino de Albuquerque, da Embrapa Algodão. Ele chamou a atenção para a importância de combinar diferentes estratégias de controle. O algodoeiro pode abrigar cerca de 30 espécies de insetos, mas aproximadamente meia dúzia representa ameaça econômica relevante nas condições brasileiras.
Entre elas está o bicudo-do-algodoeiro, praga que se estabeleceu no País na década de 1980 e teve papel importante na enorme redução da área de algodão no Nordeste. Altamente adaptado à cultura, o inseto pode permanecer em plantas voluntárias e áreas antigas de algodão, mesmo depois de muitos anos sem cultivo comercial.
Para Albuquerque, uma das medidas mais importantes e econômicas de prevenção é o vazio sanitário. É o período em que não deve haver plantas vivas de algodão nas áreas de produção. A eliminação de rebrotas e plantas remanescentes interrompe a disponibilidade de alimento e locais de reprodução para o bicudo, reduzindo a população da praga entre as safras.
Experimentos apresentados demonstraram a importância dessa prática. Em uma área na qual foi simulada a ausência do vazio sanitário, permitindo a rebrota de plantas podadas, a infestação inicial de bicudos chegou a aproximadamente 40% na primeira amostragem. Isso ocorre porque plantas adultas rebrotam rapidamente e voltam a emitir estruturas reprodutivas, oferecendo condições para a multiplicação do inseto.
O pesquisador também destacou a importância de preservar inimigos naturais presentes no ambiente, como parasitoides e predadores. Entre os organismos de interesse estão Bracon vulgaris e Catolaccus grandis, este último associado à tecnologia de controle biológico conhecida como Jaliscoa.
Outro desafio é a resistência de insetos às tecnologias de controle. Albuquerque observou que o uso intensivo de cultivares com tecnologia Bt, sem áreas de refúgio adequadas, contribuiu para aumentar a pressão de seleção sobre populações de lagartas. Em algumas regiões produtoras, isso tem levado à necessidade de cinco a oito aplicações de inseticidas para o controle dessas pragas, em particular de Spodoptera. A orientação é que o controle químico seja utilizado de forma racional, somente quando o monitoramento indicar que a população da praga atingiu o nível de controle.
Drones no controle biológico
O pesquisador Tardelly de Andrade Lima, doutorando da Embrapa, apresentou tecnologias de drones para diferentes operações agrícolas, com destaque para a liberação de macrorganismos utilizados no controle biológico. Além dos equipamentos de imageamento e dos drones de pulverização, a Embrapa trabalha com uma tecnologia específica para dispersar insetos benéficos nas lavouras.
O sistema utiliza pequenos tubetes para acondicionar os organismos e realizar a liberação durante o voo. A tecnologia permite distribuir parasitoides e outros agentes de controle biológico sem a necessidade de deslocamento manual de trabalhadores por toda a área cultivada.
Segundo Lima, com o equipamento é possível cobrir um hectare em aproximadamente oito minutos, reduzindo o tempo e o esforço operacional. Entre os organismos que podem ser liberados estão Jaliscoa grandis, utilizada no controle do bicudo, e espécies de Trichogramma, empregadas contra lagartas.
Para o controle do bicudo, a recomendação apresentada considera a liberação de aproximadamente 730 parasitoides por hectare. Cada tubete contém 30 indivíduos, sendo necessários cerca de 25 tubetes para cobrir um hectare. As liberações devem começar com o aparecimento dos primeiros botões florais, antes que a população da praga alcance o nível de controle.
O pesquisador também explicou que drones multiespectrais podem auxiliar no monitoramento das lavouras. Por meio de índices de vegetação, como o NDVI e o NDRE, é possível identificar diferenças de vigor e localizar áreas com possíveis problemas, como falhas no desenvolvimento, ataques de insetos ou doenças. Esses mapas ajudam a direcionar as equipes de campo para os pontos que precisam de avaliação, tornando o monitoramento mais eficiente.
Tecnologia para a agricultura familiar
A adaptação das tecnologias à realidade dos pequenos produtores foi um dos pontos destacados. Lima apresentou resultados de pesquisas para reduzir os custos de produção de parasitoides, substituindo materiais importados por alternativas mais acessíveis e reutilizáveis. Em um dos experimentos, a substituição de um material utilizado na criação dos insetos permitiu reduzir custos e ampliar a capacidade de produção. Com uma equipe de duas pessoas, foi possível produzir cerca de 2.500 parasitoides por semana.
O pesquisador Paulo Barroso também ressaltou que o Campo Experimental da Embrapa em Barbalha deverá funcionar como polo de testes e validação de tecnologias para a agricultura familiar, incluindo soluções para o controle do bicudo e para a tolerância das plantas à seca. A integração entre bioinsumos, monitoramento por drones, controle biológico e práticas culturais representa um caminho para tornar a cotonicultura mais eficiente e menos dependente de aplicações sucessivas de produtos químicos.
🔧 Dica prática para você
Se você produz algodão no semiárido, comece pelo básico e pelo que já está disponível: faça o vazio sanitário rigorosamente, eliminando rebrotas e plantas remanescentes de algodão na sua área e no entorno. Essa é a medida mais econômica para reduzir a população do bicudo entre safras. Se for usar bioinsumos, procure orientação técnica e certifique-se de que a produção on-farm siga padrões de qualidade. E fique de olho nas novas tecnologias apresentadas pela Embrapa, como as bactérias do projeto CaatÁgua e a tecnologia Auras, que devem chegar ao mercado nos próximos anos. Acompanhe também os resultados com drones e controle biológico, que tendem a reduzir custos e a dependência de inseticidas químicos.
Fonte: Embrapa.