Agro brasileiro sofre 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos em 2026
Levantamento da Fortinet aponta crescimento de 638,49% nas atividades maliciosas contra o setor no mundo e alerta para riscos em tratores, drones e sistemas de refrigeração
O agronegócio brasileiro registrou 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos entre janeiro e setembro de 2026. Os dados são de um levantamento da FortiGuard Labs, divisão de inteligência da americana Fortinet, divulgado nesta semana. No mundo, foram identificadas 8,3 bilhões de atividades maliciosas direcionadas ao setor, um crescimento de 638,49% em relação ao mesmo período de 2025.
Segundo a empresa, a expansão da conectividade nas fazendas e agroindústrias amplia os riscos de sequestro de dados, manipulação de máquinas e paralisação da produção. O levantamento foi realizado com informações de mais de 1 milhão de sensores de monitoramento espalhados pelo mundo.
Ataque na França acende alerta
Um episódio ocorrido na França mostrou a dimensão do problema. Na noite de 11 para 12 de outubro, criminosos assumiram remotamente o controle de sistemas de refrigeração de centenas de supermercados. A ação atingiu unidades das redes Intermarché e Netto, do grupo Les Mousquetaires, que contabilizou cerca de 300 estabelecimentos afetados. Também foram atingidos cerca de 80 supermercados Carrefour, estabelecimentos da Coopérative U, cerca de 30 lojas Monoprix e unidades da E.Leclerc.
Os invasores exploraram vulnerabilidades de sistemas de controle de refrigeração associados à fabricante dinamarquesa Danfoss. Esses equipamentos são usados para monitorar e ajustar remotamente a temperatura de câmaras frias e congeladores. A ofensiva levou ao descarte de produtos perecíveis e à interrupção de operações comerciais. Em 2 de novembro, uma nova onda de ataques a sistemas de refrigeração atingiu estabelecimentos comerciais em países europeus, incluindo Suécia, Bélgica e Alemanha.
"É muito interessante quando se fala invadir um freezer, porque estamos mais acostumados a ouvir 'invadir um computador, invadir um celular, invadir um WhatsApp'", afirmou Alexandre Bonatti, vice-presidente de engenharia da Fortinet no Brasil. Segundo ele, os criminosos também exigiram pagamento para não comprometer os equipamentos.
Fazendas brasileiras ficam paradas por mais de 14 dias
No Brasil, a interferência em equipamentos conectados também aparece entre os riscos enfrentados pelas empresas agrícolas. Bonatti relatou casos de granjas que permaneceram com as operações interrompidas por mais de 14 dias após ataques cibernéticos. O executivo não identificou os estabelecimentos atingidos, por conta da confidencialidade e porque muitas empresas não querem se expor publicamente.
"As operações foram totalmente paralisadas", afirmou. No caso de uma operação avícola com capacidade de abate de 600 mil frangos por dia, uma interrupção de 14 dias representaria 8,4 milhões de aves que deixariam de ser processadas no período. Segundo o executivo, o cálculo é ilustrativo e não corresponde a perdas comprovadas nas granjas mencionadas, mas dá a dimensão do que pode ser um ataque.
A paralisação pode atingir o recebimento de animais, o transporte, a armazenagem refrigerada e o fornecimento de produtos aos compradores. A possibilidade de interromper a produção é um dos instrumentos empregados por criminosos em ataques de ransomware, modalidade que envolve o bloqueio de sistemas ou arquivos, acompanhado de exigência de pagamento.
Tratores e drones na mira
Segundo Bonatti, a relevância econômica da atividade agrícola e a dependência de processos contínuos aumentam o interesse dos criminosos pelo setor. A transformação das máquinas em equipamentos conectados amplia as possibilidades de invasão. Tratores autônomos, drones de pulverização, sensores de solo e sistemas de alimentação animal passaram a integrar redes que permitem monitoramento e comandos à distância.
"Hoje um empresário do agro consegue abrir o celular e operar ou verificar o GPS de um trator pelo celular. Isso está na internet", afirmou. Para ele, a expansão da conectividade por satélite nas propriedades rurais incorporou à internet equipamentos anteriormente operados em redes locais ou sem comunicação externa contínua.
O executivo citou o exemplo de um drone agrícola que pode ser comprometido caso os criminosos explorem vulnerabilidades em seus sistemas. "Aquele drone se, um invasor muda uma configuração para soltar 1 ml a mais de inseticida, isso pode acabar com aquela plantação", alertou.
Números do levantamento
O estudo da FortiGuard Labs identificou 1,6 milhão de atividades relacionadas a botnets, redes de equipamentos comprometidos que podem ser controlados remotamente por criminosos. Desse universo, 19 mil registros estão associados à família IoT-Mirai, conhecida por explorar vulnerabilidades em dispositivos conectados à internet.
O monitoramento também contribuiu para 1 bilhão de detecções de tentativas de negação de serviço, destinadas a interromper o funcionamento de sistemas, e 133,4 milhões de tentativas de exploração de falhas em softwares. Essas categorias representam modalidades distintas de atividade maliciosa, sem comprovar que todas resultaram em invasões.
A América do Norte concentra 81,2% das atividades maliciosas detectadas contra o agronegócio, seguida pela América Latina, com 12,6%, e pela região da Ásia-Pacífico, com 3,6%. Separadamente, o Brasil registrou 1 bilhão de tentativas no período analisado. O executivo ressalta que tentativas identificadas não significam necessariamente ataques bem-sucedidos.
Falta de investimento em segurança
Para Bonatti, no agro, a fragilidade não está somente nos equipamentos, mas na forma como a tecnologia tem sido incorporada às empresas. "O que estamos percebendo no agro é um investimento puramente em tecnologia. O setor está correndo com tecnologia, mas o investimento em cibersegurança não tem a mesma proporção", afirmou.
Além disso, muitos dispositivos da Internet das Coisas, ou IoT, não permitem instalar mecanismos tradicionais de proteção, como antivírus. Nesses casos, a segurança depende de controles nas redes, restrições de acesso, atualização dos sistemas e monitoramento de atividades suspeitas.
A recuperação dos sistemas após uma invasão também depende da preparação das empresas. "Existem soluções que restabelecem o ambiente sem que haja esse pagamento. Agora, é preciso de maturidade em cibersegurança", disse. Para o setor do agronegócio, faltam regulamentações específicas de comunicação de incidentes, o que dificulta conhecer a quantidade de ocorrências efetivas no país.
"O atacante não quer especificamente o agro; ele quer aonde ele vai ter um retorno financeiro com menor trabalho", concluiu o executivo.
🔧 Dica prática para você
Se você usa trator com GPS, drone, sensores de solo ou qualquer sistema de monitoramento conectado, trate esses equipamentos como parte da sua operação crítica. Comece pelo básico: troque as senhas padrão de fábrica, mantenha os sistemas atualizados e restrinja o acesso às redes da fazenda. Anote os contatos dos fornecedores de cada equipamento para agilizar o suporte em caso de incidente. E faça backups regulares dos dados de produção. Se sua propriedade depende de processos contínuos, como aviários ou câmaras frias, vale montar um plano simples de resposta: quem chamar, o que desligar e como retomar a operação. Segurança cibernética no campo não é mais assunto de informática: é gestão de risco do seu negócio.
Fonte: Forbes.