Sustentabilidade

Tipos de Adubos Orgânicos: Características e Manejo

Conheça e saiba como utilizá-los.

Daniel Scotá
Especialista
5 min de leitura
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Estercos Frescos

Estercos frescos são as excretas animais recém-produzidas, antes de qualquer processo de estabilização. Embora ricos em nutrientes totais, apresentam riscos agronômicos e sanitários quando usados sem tratamento:

•       Alto teor de amônia (NH₃): pode causar fitotoxidez às raízes ("queima") e perdas por volatilização

•       Presença de patógenos: Salmonella, E. coli e ovos de helmintos representam risco para culturas hortícolas

•       Alto teor de água: dificulta aplicação e aumenta custos de transporte

•       Fitotoxinas: compostos fenólicos produzidos durante a fermentação anaeróbia podem inibir germinação

Por essas razões, a Embrapa recomenda que estercos frescos não sejam aplicados diretamente em hortaliças ou culturas de ciclo curto. Quando utilizados em culturas de ciclo longo ou gramíneas, devem ser incorporados ao solo com antecedência mínima de 60 a 90 dias ao plantio.

Tipo de Esterco

N (%)

P₂O₅ (%)

K₂O (%)

Umidade (%)

C/N

Bovino fresco

0,5–1,0

0,2–0,5

0,5–1,0

75–80

15–20:1

Bovino curtido

1,0–2,0

0,5–1,0

0,5–1,5

30–50

12–18:1

Suíno fresco

0,5–1,5

0,4–0,8

0,3–0,6

70–80

10–15:1

Cama de frango

2,5–4,5

2,0–4,0

1,5–3,0

25–40

8–12:1

Ovino/caprino

1,2–2,0

0,6–1,0

1,2–2,0

60–70

12–16:1

Equino

0,5–1,2

0,3–0,6

0,5–1,0

65–75

18–25:1

Tabela 2. Composição média de estercos animais (base na matéria seca). Fonte: Kiehl (1985); Embrapa Hortaliças; Manual de Calagem e Adubação do Estado do RJ.

Esterco Curtido (Estabilizado)

O curtimento é o processo de envelhecimento natural do esterco fresco em condições aeróbias não controladas, resultando em material parcialmente estabilizado. O esterco bovino, por exemplo, deve ser mantido em montes cobertos (proteção contra chuva e sol) por 90 a 120 dias, com eventual revolvimento. O produto final apresenta:

•       Coloração marrom-escura a preta

•       Ausência de odor desagradável

•       Textura uniforme, sem fibras identificáveis

•       Redução de volume em 30 a 40% em relação ao material fresco

•       Eliminação parcial de patógenos e sementes de plantas daninhas

O esterco curtido é seguro para uso em hortaliças e pode ser aplicado próximo ao plantio (15 a 20 dias de antecedência). Para o esterco de aves (cama aviária), o período de curtimento pode ser de 60 dias, em função de sua maior concentração de nutrientes e patógenos.

Compostagem

A compostagem é o processo controlado de decomposição aeróbia termofílica de misturas de resíduos orgânicos, resultando em um composto maduro, estabilizado, rico em húmus e de alta qualidade agronômica. É o método mais eficiente de reciclagem de resíduos orgânicos na propriedade.

Princípios e Condições Ideais

Para que a compostagem ocorra de forma eficiente, são necessárias as seguintes condições:

•       Relação C/N inicial de 25–35:1: obtida com 75% de restos vegetais e 25% de esterco animal

•       Umidade de 50–60%: a massa deve estar úmida, mas ao comprimir na mão não escorre água entre os dedos

•       Aeração adequada: necessária para os microrganismos aeróbios responsáveis pela termofilia — revolvimentos a cada 15, 30 e 45 dias

•       Temperatura 55–70°C: durante a fase ativa, a temperatura deve atingir essa faixa por pelo menos 3 dias consecutivos (eliminação de patógenos e sementes daninhas)

•       pH entre 6,0 e 8,0: adequado para os microrganismos decompositores

Montagem da Leira

As matérias-primas (resíduos ricos em carbono e resíduos ricos em nitrogênio) são dispostas em camadas alternadas, formando uma leira de seção triangular ou trapezoidal. A largura basal deve ser de 2 a 3 metros e a altura entre 1,5 e 1,8 metros. A leira é coberta com palha ou lona para manter a umidade e deve ser instalada em local sombreado e protegido da chuva.

Maturidade do Composto

O composto estará pronto (maturado) após 90 a 120 dias, apresentando as seguintes características diagnósticas:

•       Temperatura inferior a 35°C (normalização após a fase termofílica)

•       Volume reduzido para cerca de 1/3 do volume inicial

•       Impossibilidade de identificar os materiais originais

•       Odor de terra úmida (petricor), agradável

•       Coloração marrom-escura homogênea

•       Facilidade de moldar com as mãos sem que se desfaça

⚠ Atenção: composto imaturo (fases iniciais de decomposição) libera compostos fitotóxicos e apresenta alta demanda bioquímica de oxigênio, podendo prejudicar a germinação e o estabelecimento das mudas. Nunca aplique composto recém-montado.

Vermicompostagem (Húmus de Minhoca)

A vermicompostagem é o processo de compostagem acelerado pela ação de minhocas (principalmente Eisenia foetida e Lumbricus rubellus) que fragmentam e homogeneizam os resíduos, intensificando a atividade microbiana. O vermicomposto ou húmus de minhoca é um dos fertilizantes orgânicos de maior qualidade disponíveis:

•       Teores de N, P e K superiores ao composto convencional

•       Alta concentração de substâncias húmicas (ácidos húmicos e fúlvicos de alto peso molecular)

•       pH próximo ao neutro (6,5 a 7,0), sem necessidade de calagem complementar

•       Presença de hormônios vegetais (auxinas e citocininas) que estimulam o desenvolvimento radicular

•       Alta atividade enzimática e microbiológica

Doses recomendadas variam de 2 a 6 t/ha em culturas de campo e 5 a 15 L/m² em horticultura intensiva.

Biofertilizante Líquido

O biofertilizante é o material líquido resultante da fermentação de estercos (bovino, suíno ou de aves), diluídos em água, com ou sem adição de outros resíduos orgânicos. A fermentação pode ser aeróbia (Biofertilizante Agrobio) ou anaeróbia (Supermagro), por períodos de 15 a 60 dias.

Aplicações via foliar (diluído a 2–5%) ou no solo via fertirrigação fornecem nutrientes prontamente solúveis e compostos bioativos (vitaminas, aminoácidos, enzimas) com efeitos biostimulantes. Somente biofertilizantes sem resíduos de origem animal podem ser aplicados via foliar em hortaliças.

Tortas e Subprodutos Agroindustriais

Tortas oleaginosas são resíduos ricos em nitrogênio provenientes da extração de óleo. As principais são:

•       Torta de mamona: 4–5% N, 1,5–2,0% P₂O₅, 1,0–1,5% K₂O — deve ser usada curtida (contém ricina tóxica no estado fresco)

•       Torta de filtro (vinhoto): subproduto da produção de açúcar, rico em K e Ca, amplamente usada na cana-de-açúcar

•       Torta de algodão: 6–7% N, aplicada em horticultura intensiva

•       Farinha de ossos: 3–5% N, 20–30% P₂O₅ — boa fonte de fósforo e cálcio

•       Borra de café: 2,5% N, acidificante do solo, útil para fruticultura de pH ácido (mirtilo, morango)

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