"Livre de BPA" pode ser armadilha comercial
Cinco dos plásticos mais usados no dia a dia – PET, PE, PP, PS e PVC – não contêm bisfenol A (BPA) em sua composição, nem em seu processo de fabricação .
Pesquisadores das universidades Federal do ABC (UFABC) e de São Paulo (USP) analisaram mais de 700 artigos científicos e chegaram a uma conclusão importante: cinco dos plásticos mais usados no dia a dia – PET, PE, PP, PS e PVC – não contêm bisfenol A (BPA) em sua composição, nem em seu processo de fabricação .
O estudo, publicado na revista Polymers , foi apresentado em coletiva na Escola Politécnica da USP. Os pesquisadores escolheram esses materiais porque eles representam mais de 90% dos plásticos presentes no mercado , incluindo garrafas PET, embalagens de polipropileno, canos de PVC e potes de polietileno.
De acordo com o professor Derval Rosa, da UFABC, primeiro autor do artigo, a pesquisa investigou as rotas químicas de produção desses polímeros. E, de forma sistemática, os cientistas mostraram que as reações envolvidas na fabricação não produzem nem emitem a molécula de BPA como subproduto .
Por que isso importa para o consumidor?
A preocupação com o BPA não é à toa: a substância é considerada um desregulador endócrino e pode trazer riscos à saúde. Por isso, muitos produtos estampam o selo "Livre de BPA" (BPA-Free). O problema, segundo os autores, é que esse rótulo muitas vezes aparece em produtos que nunca tiveram BPA – como as garrafas PET e as mamadeiras de polipropileno.
Isso, na visão dos pesquisadores, cria um alarme desnecessário e induz o consumidor ao erro, sugerindo que produtos sem o selo seriam perigosos. "Não podemos generalizar. O que nós estamos garantindo com essa pesquisa é que todos esses polímeros estudados não têm a presença de BPA", reforçou Rosa durante a coletiva .
Uma garrafa de água PET e um pote de margarina de polipropileno são seguros em relação ao BPA – eles nunca tiveram essa substância. A confusão surge porque o BPA é usado na fabricação de policarbonato (plástico rígido e transparente usado em alguns utensílios) e em resinas epóxi (presentes em revestimentos internos de latas). Mas esses são outros materiais, não os cinco polímeros analisados no estudo .
A ausência de BPA não significa segurança total
Os pesquisadores fazem um alerta importante: o fato de esses plásticos não terem BPA não é um atestado de segurança absoluta. A segurança final de um produto plástico depende de vários fatores: os aditivos usados (corantes, plastificantes, estabilizantes), as condições de processamento e o uso real no dia a dia .
O estudo também destaca que, em testes de laboratório, alguns plásticos podem liberar substâncias tóxicas não identificadas – os chamados NIAS (substâncias não adicionadas intencionalmente), que podem surgir durante a fabricação ou degradação do material .
🔧 O que fazer com essa informação?
Para o consumidor, a mensagem principal é: nem todo plástico tem BPA. Você pode usar garrafas PET, potes de polipropileno e embalagens de polietileno com mais tranquilidade em relação a essa substância específica. Mas isso não significa que todo plástico é inofensivo – a qualidade do produto, os aditivos usados e as condições de uso (como aquecimento) ainda fazem diferença.
Para quem trabalha com reciclagem ou manufatura de plásticos, a pesquisa reforça a importância da rastreabilidade digital e da gestão adequada de resíduos. O caminho para plásticos mais seguros e sustentáveis passa não apenas pela química, mas por cadeias de valor integradas, com reciclagem avançada e transparência sobre a composição dos materiais.
Fonte: USP.