Sustentabilidade

Brasil avança no cálculo de emissões de óxido nitroso da agricultura

Os resultados representam um avanço importante para os inventários brasileiros de gases de efeito estufa.

Daniel Vilar
Especialista
3 min de leitura
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O Brasil poderá calcular com muito mais precisão as emissões de óxido nitroso (N₂O) provenientes da agricultura graças a uma ampla revisão científica que reuniu dados de pesquisas realizadas em diferentes regiões do país. O trabalho, publicado na revista Environmental Monitoring and Assessment, propõe fatores de emissão específicos para cana-de-açúcar, culturas de grãos e pastagens, considerando diferenças de clima, solo, manejo agrícola e tipo de fertilizante utilizado .

De acordo com Sandra Furlan Nogueira, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do estudo, os resultados representam um avanço importante para os inventários brasileiros de gases de efeito estufa. Atualmente, muitas estimativas ainda utilizam fatores médios recomendados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que nem sempre refletem a enorme diversidade de condições encontradas na agricultura brasileira .

Por que isso importa

O óxido nitroso é um dos gases mais potentes no aquecimento global. Segundo o IPCC, seu potencial de aquecimento é cerca de 273 vezes maior que o do dióxido de carbono (CO₂) em um horizonte de 100 anos, e ele permanece na atmosfera por mais de um século . Grande parte dessas emissões está associada ao uso de fertilizantes nitrogenados e ao manejo do solo.

Segundo Nogueira, fertilizantes minerais respondem por aproximadamente 18% das emissões de gases de efeito estufa da agricultura brasileira . Com o crescimento da produção agropecuária e o aumento do consumo de fertilizantes nas últimas décadas, conhecer com maior precisão essas emissões tornou-se essencial para orientar políticas públicas e estratégias de mitigação .

O estudo em números

Para construir uma base sólida de informações, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica publicada nas bases Web of Science, Scopus e SciELO .

Ao final da seleção, foram analisados 56 artigos científicos, que reuniam 325 experimentos (tratamentos) realizados em sistemas agrícolas brasileiros: 173 em cana-de-açúcar, 41 em grãos e 111 em pastagens . Os estudos contemplaram lavouras de cana-de-açúcar, soja, milho e pastagens, além de áreas com deposição de urina e fezes de bovinos .

Resultados regionais

Um dos principais resultados do estudo mostra que as emissões variam significativamente conforme o sistema de produção :

- Pastagens: maiores fatores de emissão ocorreram principalmente no Cerrado e na Mata Atlântica, especialmente sob clima subtropical com inverno seco .

- Lavouras de grãos: maiores valores foram observados sobretudo em regiões subtropicais e de clima tropical de savana .

- Cana-de-açúcar: emissões mais elevadas ocorreram tanto em regiões tropicais quanto subtropicais .

Os pesquisadores verificaram ainda que diferentes tipos de fertilizantes produzem respostas distintas. Em áreas de cana, fertilizantes à base de ureia, principalmente quando associados a resíduos orgânicos, apresentaram fatores de emissão superiores aos observados para outras fontes de nitrogênio, como nitrato e sulfato de amônio. Nas pastagens, a deposição de urina pelos animais gerou emissões quase cinco vezes maiores do que aquelas associadas apenas às fezes (0,73% contra 0,15%) .

Fatores ambientais influenciam as emissões

Além do tipo de fertilizante, diversos fatores ambientais influenciam a emissão de óxido nitroso. "Características como acidez do solo, teor de carbono orgânico, temperatura, textura e regime de chuvas alteram a atividade dos microrganismos responsáveis pelos processos de nitrificação e desnitrificação, mecanismos naturais que produzem o gás", explica Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente .

"O estudo mostra que essas interações são complexas e variam entre regiões brasileiras, o que reforça a limitação de utilizar um único fator de emissão para todo o território nacional. Práticas de manejo também exercem forte influência", destaca Ramos .

Sistemas integrados de produção, agricultura de precisão, plantio direto, aplicação parcelada de fertilizantes, uso de culturas de cobertura e melhor sincronização entre adubação e demanda das plantas tendem a aumentar a eficiência do uso do nitrogênio e reduzir perdas para a atmosfera .

Fatores de emissão e impacto nos inventários

Os fatores de emissão encontrados variaram entre 0,14% e 1,63%, dependendo da cultura e das condições avaliadas . Em termos de médias nacionais ponderadas, o estudo chegou a 0,66% para cana-de-açúcar, 0,69% para grãos e 0,64% para pastagens com fertilização mineral — valores que ficam sistematicamente abaixo do valor-padrão de 1% adotado atualmente, uma diferença de até 40% .

Na prática, isso sugere que os inventários brasileiros podem estar superestimando as emissões diretas de N₂O da fertilização ao usarem o fator genérico do IPCC em vez de valores calibrados para as condições do país .

"Inventários mais precisos permitem avaliar com maior segurança os impactos ambientais da produção agrícola, orientar políticas públicas, melhorar estudos de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e fortalecer mecanismos de certificação ambiental, como o RenovaBio e os mercados de carbono", afirma Marilia Folegatti, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente .

Próximos passos

Apesar do avanço, os pesquisadores destacam que ainda existem importantes lacunas de conhecimento . Grande parte dos experimentos disponíveis foi realizada na Mata Atlântica, no Cerrado e no Pampa, enquanto a Amazônia está sub-representada. Para dois biomas, a Caatinga e o Pantanal, os pesquisadores não encontraram nenhum estudo publicado sobre o tema, uma lacuna total que limita, por ora, a extrapolação dos resultados para essas regiões .

"O próximo passo será evoluir dos atuais fatores de emissão do tipo Tier II, específicos para o Brasil, para metodologias Tier III, capazes de incorporar modelos mais detalhados sobre clima, solo, manejo agrícola e dinâmica do nitrogênio", explica Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente .

A pesquisa foi financiada pelo Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI), sediado na USP e apoiado pela Fapesp e pela Shell Brasil, com recursos adicionais da ANP e da Capes .

🔧 Orientações

1. Eficiência no uso de fertilizantes: aplicar nitrogênio no momento certo e na dose adequada reduz perdas e emissões, além de economizar insumos. Consulte seu engenheiro agrônomo para um plano de adubação baseado na análise de solo.

2. Adote práticas conservacionistas: plantio direto, rotação de culturas e uso de plantas de cobertura aumentam a eficiência do uso do nitrogênio e podem reduzir as emissões de N₂O.

3. Fique atento às novas tecnologias: ferramentas como a calculadora ABC+Calc e os fatores de emissão regionalizados serão cada vez mais usados para certificação ambiental e acesso a mercados de carbono.

4. Monitore o manejo de dejetos: em pastagens, a urina é uma fonte significativa de emissões. Estratégias de manejo que distribuam melhor a carga animal podem reduzir impactos.

5. Participe de programas de baixo carbono: iniciativas como o Plano ABC+ oferecem assistência técnica e incentivos para adoção de práticas sustentáveis que aumentam produtividade e reduzem emissões.

Fonte: Embrapa.

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