Laser Detecta uso de Pesticida Orgânico em Peças de Museu
O interesse pela tecnologia está relacionado à permanência desses produtos nos materiais.
Pesquisadores da USP e da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) estão testando uma tecnologia a laser capaz de identificar resíduos de pesticidas em peças de acervos históricos. O método, chamado de Espectroscopia Raman Intensificada por Superfície (SERS), foi utilizado para detectar permetrina, um inseticida empregado na proteção de objetos culturais contra fungos e insetos.
O interesse pela tecnologia está relacionado à permanência desses produtos nos materiais. A permetrina pode permanecer por décadas em peças tratadas, representando um possível risco para restauradores, pesquisadores e comunidades indígenas que mantêm contato com o patrimônio cultural.
Nos testes, o SERS foi aplicado em amostras de algodão, madeira, penas e fibras vegetais contaminadas com permetrina. A técnica também foi utilizada em um objeto pertencente ao acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.
O funcionamento combina um laser com nanopartículas metálicas, geralmente de ouro ou prata. Quando o laser incide sobre a amostra, produz um sinal conhecido como espalhamento Raman. Em contato com essas nanopartículas, o sinal é intensificado, facilitando a identificação de pequenas quantidades do pesticida.
Essa característica pode ser importante para a conservação de peças históricas. Métodos como a cromatografia conseguem identificar pesticidas orgânicos com eficiência, mas normalmente exigem a retirada de pequenos fragmentos do objeto para análise. Em peças de alto valor cultural, essa intervenção pode ser uma limitação.
Outra técnica utilizada na identificação de contaminantes é a fluorescência de raios X (XRF). Porém, o método apresenta limitações para determinados pesticidas orgânicos. Já alguns pesticidas inorgânicos que contêm elementos como arsênio e mercúrio podem ser identificados pela presença desses elementos.
Tecnologia também monitora descontaminação
Os pesquisadores avaliaram ainda se o SERS poderia acompanhar a redução da permetrina durante um processo de descontaminação por radiação gama, uma forma de radiação eletromagnética de alta frequência e elevado poder de penetração.
As amostras foram analisadas antes e depois da irradiação. Quando utilizadas nanopartículas de ouro, os pesquisadores observaram redução do sinal associado à permetrina após o tratamento.
O resultado indica que a tecnologia pode ter duas aplicações: verificar se uma peça apresenta resíduos de pesticidas e acompanhar a eficiência de procedimentos utilizados para reduzir esses contaminantes.
Esse acompanhamento é importante porque a descontaminação de objetos históricos precisa equilibrar a remoção das substâncias químicas com a preservação das características originais dos materiais.
Para os pesquisadores, o SERS pode ampliar as ferramentas disponíveis para instituições responsáveis pela conservação de acervos arqueológicos e etnográficos. A possibilidade de realizar análises com menor intervenção também pode ser relevante em objetos que não podem ser fragmentados.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do MAE, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen/CNEN), do Instituto de Química da USP e da UCLA. Os resultados foram publicados na revista científica Heritage Science, no artigo “Detection of organic pesticides in cultural heritage items by surface-enhanced Raman scattering”.
Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários novos estudos para avaliar o desempenho do método diante de outros pesticidas, materiais e condições encontradas em coleções históricas.
Além de ajudar a identificar resíduos químicos sem retirar grandes fragmentos das peças, o método pode permitir um acompanhamento mais preciso dos processos de descontaminação, contribuindo para preservar o patrimônio e aumentar a segurança das pessoas que trabalham ou têm contato com esses acervos.
Fonte: USP.