Sustentabilidade

Novo Cálculo Revela Pegada Hídrica 116 Vezes Maior

Método da Embrapa mostra que herbicidas usados juntos na cana poluem muito mais a água do que se pensava

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Um novo método desenvolvido pela Embrapa permite estimar de forma mais abrangente o impacto de diferentes herbicidas que podem estar presentes ao mesmo tempo na água. Enquanto o cálculo tradicional avalia cada produto isoladamente, a nova abordagem considera os efeitos da ocorrência conjunta nos recursos hídricos.

Ao comparar os dois métodos, os pesquisadores constataram uma diferença de até 116 vezes entre as estimativas.

O que é pegada hídrica cinza

O cálculo usa a chamada pegada hídrica cinza. Esse indicador estima o volume hipotético de água necessário para diluir poluentes até concentrações consideradas seguras.

No estudo, o modelo foi aplicado a herbicidas usados na cultura da cana-de-açúcar. O método também leva em conta os mecanismos de ação dos produtos e seus efeitos conjuntos sobre organismos aquáticos.

A pesquisa foi desenvolvida por Lourival Paraíba, da Embrapa Meio Ambiente (SP). Ela não trata da mistura de produtos na calda — aquela preparação feita no tanque do pulverizador. O foco é a ocorrência conjunta de diferentes herbicidas nos recursos hídricos por consequência das aplicações agrícolas.

Como os herbicidas chegam à água

Na agricultura, parte dos produtos aplicados pode ser transportada pela chuva até rios e córregos. Outra parte se infiltra no solo e alcança as águas subterrâneas. Nesse percurso, resíduos de diferentes herbicidas podem ocorrer simultaneamente nos recursos hídricos. É essa situação que o novo método considera.

Segundo Paraíba, essa dimensão do impacto ambiental ainda é pouco percebida no campo.

"A pegada hídrica cinza é, em essência, a conta que a natureza paga para limpar a água supostamente contaminada pela agricultura", explica o pesquisador.

Ele ressalta que o indicador vem ganhando importância também em sistemas de certificação agrícola.

"Para os produtores de cana, isso é relevante porque as certificações internacionais — inclusive as que habilitam a exportação de etanol — já começam a exigir esse cálculo", afirma.

A diferença assustadora nos números

O estudo analisou 17 herbicidas pertencentes a sete grupos de classificação do Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC).

Com o novo modelo, a estimativa da pegada hídrica cinza dos 17 herbicidas foi cerca de 116 vezes maior do que a obtida pelo método tradicional.

"Quando calculamos a pegada hídrica cinza total dos 17 herbicidas pelo H-model, chegamos a 49,5 bilhões de metros cúbicos. Quando usamos o modelo que propusemos, o valor sobe para 5,74 trilhões de metros cúbicos", observa Paraíba.

A diferença não ocorre simplesmente porque o modelo abarca mais produtos. Ela existe porque o novo método considera o comportamento conjunto dos herbicidas de acordo com seus mecanismos de ação.

O método convencional trata cada herbicida de forma isolada. "O problema é que na cultura da cana são usados até 17 herbicidas diferentes em uma safra nacional", afirma o pesquisador.

Ao incorporar a ocorrência conjunta dos produtos nos recursos hídricos e considerar dados de toxicidade para organismos aquáticos (algas, crustáceos e peixes), o novo modelo produz estimativas mais elevadas. Nas simulações realizadas, em 95% dos casos a diferença em relação ao método tradicional variou de 69 a 195 vezes.

Efeitos das misturas na água

O diferencial do estudo é combinar a classificação HRAC com dois princípios usados na avaliação toxicológica de misturas: a adição de concentração e a ação independente (CA e IA).

Paraíba explica: "Quando duas substâncias atacam o mesmo mecanismo biológico, seus efeitos se somam. Quando apresentam mecanismos diferentes, agem de forma independente — e o efeito total é determinado pelo mais tóxico, não pela soma".

A classificação HRAC permitiu aplicar essa lógica ao cálculo da pegada hídrica cinza. Para testar a robustez dos resultados, foram realizadas 10 mil simulações de Monte Carlo, método estatístico que repete os cálculos variando parâmetros sujeitos a incertezas. Entre esses parâmetros estão a toxicidade dos produtos, o escoamento provocado pela chuva e sua degradação no solo.

"Isso é muito mais honesto do que um número pontual", avalia o pesquisador.

O peso do grupo HRAC

Um dos resultados mais relevantes foi a influência do número de herbicidas pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação. Nas simulações, um dos sete grupos analisados — formado por ametrina, diurom, hexazinona, metribuzim, tebutiurom e amicarbazona — predominou em 99,7% dos casos.

"O fato de a pegada hídrica cinza ser governada pelo tamanho do grupo HRAC, e não pela toxicidade individual de cada herbicida, parece contraintuitivo à primeira vista", salienta Paraíba.

Segundo o pesquisador, quanto maior o número de herbicidas pertencentes ao mesmo grupo, maior pode ser o impacto acumulado. Por isso, uma das recomendações práticas é evitar, sempre que possível, a combinação de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação.

Três recomendações para o produtor

Para quem planta cana-de-açúcar e quer reduzir a pegada hídrica cinza, a pesquisa apresenta três recomendações principais:

1. Priorize herbicidas de grupos HRAC pequenos ou isolados. O estudo aponta glifosato (G), isoxaflutol (F1) e clomazona (F4) entre os de menor impacto sobre a água.

2. Evite misturar dois ou mais herbicidas do mesmo grupo HRAC na mesma aplicação. Os efeitos podem se somar.

3. Se precisar escolher um mecanismo de ação, use apenas um representante do grupo. Evite combinar dois ou mais produtos da mesma classificação.

"Essas três regras têm o potencial de reduzir substancialmente a pegada hídrica cinza sem comprometer o controle de plantas daninhas — desde que o manejo integrado seja feito com critério e com orientações agronômicas", ensina Paraíba.

Serve para soja, milho, algodão e café

Embora o estudo tenha como foco a cana-de-açúcar, a metodologia proposta pode ser aplicada a outras culturas que recorrem a pesticidas.

"A metodologia desenvolvida — combinar a classificação HRAC com o princípio de ação independente (IA) e a simulação de Monte Carlo — é completamente transferível para qualquer outra cultura que use aplicações de vários herbicidas: soja, milho, algodão ou café", ressalta o pesquisador.

Paraíba também defende a atualização dos protocolos usados por sistemas de certificação agrícola. A ideia é que o cálculo da pegada hídrica considere de maneira mais adequada os efeitos das misturas nos organismos aquáticos.

Para ele, a preocupação central deve ser a proteção da água como recurso comum.

"A água é um bem compartilhado. O herbicida que o produtor aplica em sua lavoura hoje pode estar no rio que abastece uma cidade a quilômetros de distância amanhã. Isso não é uma acusação — é uma realidade física", pondera.

A pesquisa busca transformar conhecimento científico em alternativas aplicáveis ao campo.

"Pequenas mudanças nas escolhas de herbicidas podem reduzir significativamente esse impacto, sem comprometer a produção", conclui.

Se você usa herbicidas na sua lavoura, independentemente da cultura, vale rever as escolhas. Antes de comprar ou aplicar, confira a qual grupo HRAC cada produto pertence. Evite concentrar muitos herbicidas do mesmo grupo na mesma safra. E, sempre que possível, diversifique os mecanismos de ação.

Essa mudança simples pode reduzir bastante o impacto sobre a água — e ainda prepara sua propriedade para as exigências das certificações internacionais. Converse com seu agrônomo e ajuste o manejo.

Fonte: Embrapa.

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