Atraso na safra de cacau ameaça portos da Costa do Marfim
Exportadores correm contra o tempo para enviar produto antes das novas regras da UE contra desmatamento; congestionamento é esperado para dezembro.
A Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau, enfrenta um cenário preocupante: o atraso no início da safra principal 2026/27 pode causar congestionamento nos portos de Abidjan e San Pedro, justamente quando exportadores correm para enviar o produto antes que as novas regras da União Europeia (UE) contra o desmatamento entrem em vigor no final do ano.
De acordo com fontes do setor ouvidas pela Reuters, a combinação de condições climáticas adversas, manutenção insuficiente das lavouras e a força da safra intermediária atrasou o desenvolvimento da safra principal. Uma fonte estimou que a colheita principal será adiada de oito a dez semanas. O conselho do cacau espera que as chegadas semanais fiquem abaixo de 15 mil toneladas em setembro e 25 mil toneladas em outubro, com os grandes volumes chegando apenas no final de outubro ou início de novembro.
O desafio logístico
O grande temor é que, com esse atraso, os embarques se concentrem em um curto período — especialmente em dezembro, mês que antecede a entrada em vigor das novas regras europeias. "Com esse atraso iminente, teremos que exportar quantidades enormes em um curto período em dezembro", afirmou um executivo de uma empresa de exportação europeia em Abidjan.
O conselho do cacau espera que o total de chegadas da safra principal (de setembro de 2026 a fevereiro de 2027) não ultrapasse 1,4 milhão de toneladas. Os exportadores projetam entre 1,4 milhão e 1,45 milhão de toneladas. No entanto, estima-se que cerca de 900 mil toneladas de cacau cheguem aos portos do país entre outubro e dezembro de 2026, contra 1,1 milhão de toneladas no mesmo período do ano anterior. Normalmente, os portos recebem de 800 mil a 1 milhão de toneladas ao longo desses três meses.
Novas regras da UE: o que muda?
A nova regulamentação da União Europeia, que entra em vigor no final de 2026, exige que os importadores comprovem que o cacau não foi produzido em áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. As empresas que não cumprirem a regra estarão sujeitas a multas e à proibição de vender seus produtos no mercado europeu.
Com o atraso na safra, os exportadores marfinenses terão menos tempo para realizar os embarques e garantir que os grãos cheguem à Europa dentro do prazo. O risco de congestionamento nos portos pode atrasar ainda mais as operações, complicando a logística e aumentando os custos.
Exemplo prático para o produtor brasileiro
O que acontece na Costa do Marfim afeta o mercado global de cacau e, por consequência, o bolso do produtor brasileiro. Se os embarques do país africano atrasarem ou forem dificultados pelo congestionamento portuário, a oferta global de cacau pode ficar mais restrita, pressionando os preços para cima.
Isso pode ser positivo para os produtores brasileiros, que poderão se beneficiar de preços mais altos. Por outro lado, se o congestionamento for severo, alguns importadores podem buscar outras origens, como o Brasil, para garantir o abastecimento, o que também aumenta a demanda e os preços.
🔧 Orientações:
Acompanhe os preços internacionais: fique de olho nas cotações do cacau em Nova York e Londres. Se a oferta da Costa do Marfim for restringida, os preços tendem a subir.
Planeje as vendas: com a perspectiva de alta nos preços, avalie a melhor estratégia de comercialização. Considere vender parte da produção agora e aguardar momentos de preços mais elevados.
Monitore a logística: fique atento aos custos de frete e à disponibilidade de contêineres, que podem ser afetados pelo congestionamento nos portos da África.
Mantenha a qualidade: com a demanda global aquecida, a qualidade do cacau brasileiro pode ser um diferencial competitivo para acessar mercados premium.
Fique de olho na regulamentação europeia: a nova regra da UE também afetará o Brasil. Certifique-se de que sua produção está em conformidade com as exigências de rastreabilidade e desmatamento zero.
O atraso na safra da Costa do Marfim e as novas regras europeias criam um cenário de incertezas, mas também de oportunidades para o produtor brasileiro. Estar bem informado e planejado é a melhor forma de aproveitar as oportunidades e evitar riscos.
Fonte: Reuters.