Pecuária

Ureia na silagem? Entenda os riscos e limites

o adicionar ureia + enxofre, a PB da cana sobe para até 11%, equilibrando a dieta e melhorando a produção animal.

Daniel Vilar
Especialista
3 min de leitura
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A cana-de-açúcar realmente tem baixo teor de proteína bruta (PB) — entre 2% e 3% —, enquanto o milho e o sorgo apresentam níveis mais elevados, na faixa de 7% a 9% de PB. Mas a história com a ureia vai além disso.

O uso de ureia na cana é bastante difundido porque ela é um volumoso com excelente energia (mais de 60% de NDT), mas muito pobre em proteína. Ao adicionar ureia + enxofre, a PB da cana sobe para até 11%, equilibrando a dieta e melhorando a produção animal.

Já as silagens de milho e sorgo já têm um bom equilíbrio entre proteína e energia. Por isso, adicionar ureia a elas é pouco comum e exige cuidados extremos. O risco principal é o desbalanceamento da dieta, já que o excesso de proteína pode ser tão prejudicial quanto a falta — além de encarecer a alimentação.

Por que o cuidado redobrado?

A resposta está em três pontos:

  1. Sincronismo: Os microrganismos do rúmen precisam de energia e proteína disponíveis ao mesmo tempo. A energia da silagem não “combina” com a ureia na mesma velocidade que a da cana, prejudicando a digestão.

  2. Consumo: Enquanto o animal come de 20 a 25 kg de cana por dia, ele pode ingerir de 30 a 35 kg de silagem. Isso eleva muito o risco de intoxicação por ureia (alcalose ruminal), que pode levar à morte.

  3. Limite seguro: A dose segura é de 30 a 40 gramas de ureia para cada 100 kg de peso vivo (máximo 200 a 300 g/dia para uma vaca de 500 kg). Na silagem, o consumo elevado pode ultrapassar esse limite facilmente.

Casos reais

Um caso prático, relatado pelo consultor Marco Aurélio Factori, mostra o perigo: um produtor aplicou na silagem de milho a mesma proporção de ureia usada na cana (1 kg para cada 100 kg de massa). Resultado: os animais consumiram muito mais silagem do que comeriam de cana, houve intoxicação e várias vacas morreram.

Outro ponto importante: a silagem de milho já tem cerca de 2/3 da proteína na forma de nitrogênio não proteico (NNP). Uma vaca que come 30 kg de silagem ingere facilmente 400 g de NNP por dia — só da silagem. Adicionar ureia aumenta esse valor, elevando os riscos.

Em que situações usar?

Se mesmo assim você considerar usar ureia na silagem, as quantidades são bem menores que na cana: no máximo 0,5% (500 gramas por 100 kg de silagem), após adaptação de 1 a 2 semanas com doses menores.

Mas a recomendação geral é: não use ureia em silagens de milho ou sorgo. O benefício é pequeno e os riscos — desbalanceamento, custo extra e intoxicação — são grandes. O uso mais seguro e comum é em concentrados, onde o ajuste da dieta é mais preciso.

🔧 Orientações:

  1. Para cana-de-açúcar: a ureia é bem-vinda e corrige a baixa proteína. Siga a receita: 1 kg de ureia + sulfato de amônio (9:1) diluído em 4 litros de água para cada 100 kg de cana picada, com adaptação de 10 a 15 dias usando metade da dose.

  2. Para silagens: evite a ureia. O equilíbrio já é bom e o risco de intoxicação é alto. Se precisar aumentar a proteína da dieta, faça isso via concentrado, com acompanhamento técnico.

  3. Cálculo seguro: respeite o limite de 30 a 40 g de ureia por 100 kg de peso vivo. Para uma vaca de 500 kg, o máximo seguro é 200 g/dia (até 300 g com adaptação rigorosa).

  4. Socorro em caso de intoxicação: se houver suspeita (tremores, falta de equilíbrio), aplique vinagre via sonda para baixar o pH do rúmen e chame um veterinário imediatamente.

  5. Consulte um zootecnista ou veterinário: qualquer mudança na dieta com ureia exige planejamento. Não arrisque sem orientação profissional.

Fonte: Milkpoint.

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