Pecuária

40 Anos de Pastagens Consorciadas na Amazônia

Pesquisa da Embrapa mostra como leguminosas forrageiras transformaram a pecuária na Amazônia Ocidental

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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A trajetória de quatro décadas de pesquisa com pastagens biodiversas na Amazônia Ocidental foi o tema central da palestra "40 anos depois: A história do consórcio entre gramíneas e leguminosas na Amazônia Ocidental". O pesquisador Judson Valentim, da Embrapa Acre, apresentou o balanço histórico e científico no dia 10 de setembro, durante o 32º Simpósio sobre Manejo da Pastagem, em Piracicaba (SP).

O evento teve como foco "o papel das pastagens consorciadas e multiespecíficas na intensificação sustentável da pecuária".

Da monocultura à diversidade

Predomina na pecuária brasileira o uso de pastagens em monoculturas de gramíneas, principalmente do gênero Brachiaria. Nos mais de 56 milhões de hectares de pastagens cultivadas no bioma Amazônia não é diferente.

Mas o clima quente e úmido, as chuvas intensas e o mal manejo pelos produtores transformaram florestas biodiversas em monoculturas de pastagens. O resultado foi a degradação precoce das áreas, de 5 a 6 anos após a formação, a baixa capacidade de suporte (média de 0,76 Unidade Animal por hectare), a alta dependência de insumos externos e a vulnerabilidade a pragas, doenças e eventos climáticos.

Há quatro décadas, a busca por leguminosas forrageiras surgiu como resposta à escassez de nitrogênio no solo, gargalo central para a produtividade das gramíneas. Diante dos elevados custos de transporte e da logística restritiva para fertilizantes nitrogenados sintéticos na região Norte, a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) pelas leguminosas, em associação com bactérias do gênero Rhizobium, nativas nos solos da Amazônia, consolidou-se como alternativa acessível aos produtores.

O choque cultural do "pasto sujo"

A primeira etapa desse processo deu-se com o uso da puerária (Pueraria phaseoloides), leguminosa originária da Ásia, muito utilizada como planta de cobertura em plantios de seringueira e de dendê na Amazônia.

Essa leguminosa de crescimento vigoroso, abundante produção de sementes e adaptada às condições ambientais da região se mostrou capaz de formar consórcios persistentes com gramíneas.

"Enfrentou-se, contudo, um forte choque cultural: a presença de folhas largas rompia com a estética tradicional do 'pasto limpo', gerando receio dos produtores de que a planta 'sujaria' a área ou sufocaria o capim", afirmou Valentim.

A superação desse paradigma ocorreu quando foram demonstrados, em condições reais de pastejo nas propriedades, os ganhos produtivos e econômicos da consorciação. Em 2005, a área adotada com consórcios de puerária no Acre já ultrapassava 480 mil hectares em mais de 5,4 mil propriedades, gerando benefícios econômicos estimados em US$ 33 milhões por ano.

A Síndrome da Morte do Braquiarão

Com o surgimento da "Síndrome da Morte do Braquiarão" na década de 1990, que afetou mais de 400 mil hectares no estado, a necessidade de diversificação acelerou a busca por novas alternativas.

Nesse contexto, as pesquisas em parceria com os produtores focaram no uso de gramíneas estoloníferas adaptadas aos solos de baixa permeabilidade da Amazônia, como o capim-tangola, a grama-estrela-roxa e o capim humidícola (quicuio-da-amazônia). Também foi estruturado o Programa de Melhoramento Genético do Amendoim Forrageiro (Arachis pintoi) pela Embrapa e parceiros.

A evolução tecnológica do amendoim forrageiro transitou da cultivar Belmonte, lançada pela CEPLAC em 1999, para o lançamento pela Embrapa de duas cultivares: a BRS Mandobi (2019) e a BRS Oquira (2021). Isso possibilitou a expansão do consórcio com diferentes gramíneas dos gêneros Brachiaria e Panicum.

Produtividade, renda e mitigação ambiental

Segundo Valentim, os dados levantados ao longo de décadas e validados em áreas de produtores rurais comprovam a superioridade dos sistemas consorciados frente ao monocultivo. Os destaques são:

Injeção de nitrogênio: A Fixação Biológica de Nitrogênio realizada pelo amendoim forrageiro aporta de 100 a 150 kg de N/ha/ano ao solo de forma biológica e contínua.

Desempenho animal: No Acre, pesquisas indicam que a produtividade animal em pastagens consorciadas de humidícola com amendoim forrageiro alcança índices superiores em todas as estações do ano quando comparada ao pasto puro. Esses sistemas permitem reduzir em nove meses o período de recria dos novilhos.

Em testes recentes com novilhas Nelore na estação chuvosa de 2023/2024, a pastagem consorciada proporcionou um ganho de peso vivo por hectare 23% maior: 0,92 kg/ha/dia contra 0,75 kg/ha/dia do pasto puro.

Mitigação de gases de efeito estufa: A inclusão da leguminosa reduziu em 23% a emissão de metano entérico por quilo de ganho de peso vivo dos animais.

Estabilidade econômica: Todas essas práticas foram consolidadas em um modelo intensivo de pecuária bovina em pastagens biodiversas de alta performance, avaliado na Fazenda Guaxupé. Ao longo de mais de 25 anos de estudos, esse sistema atingiu taxa de lotação de 1,88 Unidade Animal por hectare, produtividade de 11,5 arrobas/ha/ano e lucro líquido de R$ 1.703,00/ha/ano em 2024. Em benchmarks nacionais de ciclo completo, esses números superam a média de mercado e alinham-se ao grupo das propriedades mais rentáveis do país.

Impacto na agricultura familiar: Em propriedades familiares de 50 hectares focadas na pecuária de leite consorciada, registrou-se renda líquida de R$ 4.811,00/ha/ano e renda bruta familiar mensal superior a R$ 17 mil. Os números demonstram a viabilidade social e econômica da tecnologia.

Um levantamento realizado no Acre em 246 propriedades que desenvolvem pecuária de corte indica que a diversificação de pastagens é uma realidade. Cerca de 73% dos pecuaristas entrevistados utilizam três ou mais cultivares de capim em suas propriedades, e aproximadamente 30% das pastagens avaliadas já apresentam de 5% a 20% de leguminosas na composição botânica.

Em 2025, estimou-se uma área de 91,59 mil hectares de pastos consorciados no estado, gerando R$ 169,94 milhões por ano em benefícios econômicos.

Pesquisa participativa como método

Segundo Valentim, a principal contribuição nesses 40 anos não se limita ao lançamento de cultivares.

"O ganho central foi a consolidação de um modelo metodológico de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) participativa, construído diretamente dentro das fazendas, em coautoria com os produtores", declarou.

Esse ciclo de inovação baseia-se em identificar problemas reais no campo, desenhar hipóteses científicas, testá-las em parceria com os produtores e difundir os resultados pela comunicação direta entre agricultores.

"A experiência prática ajusta o conhecimento científico ao contexto local, enquanto a ciência garante o rigor analítico. As leguminosas ajudam a fixar nitrogênio nos sistemas de produção agropecuários. A pesquisa e extensão participativa ajudam a fixar conhecimento nos territórios", concluiu o pesquisador.

A palestra mostrou como foram conduzidas as pesquisas realizadas pela rede liderada pela Embrapa Acre, em colaboração com a Embrapa Gado de Corte, Embrapa Cerrados e diversos parceiros públicos e privados, como a Unipasto (Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras). As ações estão alinhadas às diretrizes do INCT ReDiversa, que busca promover a diversificação biológica e funcional na produção agropecuária para garantir resiliência ecológica e segurança alimentar.

🔧 O que você pode fazer

Se você cria gado na Amazônia ou em regiões de clima quente e úmido, vale considerar a consorciação de gramíneas com leguminosas forrageiras. O amendoim forrageiro (Arachis pintoi), nas cultivares BRS Mandobi e BRS Oquira, é uma opção testada e aprovada pela pesquisa.

A dica prática é começar pequeno: escolha uma área piloto, faça a semeadura junto com o capim e acompanhe o desempenho dos animais. Além de reduzir a necessidade de adubação nitrogenada, o consórcio melhora o ganho de peso, diminui a emissão de metano e aumenta a vida útil da pastagem. Procure orientação técnica da Emater ou da Embrapa na sua região para fazer a implantação correta.

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