Pecuária

Nova bactéria do "mal do olho" é descoberta por pesquisadores da Embrapa

A descoberta, publicada em revista científica, começou em 2018 com coletas de campo em diferentes Embrapas

Redação Agriconline
Equipe editorial
4 min de leitura
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Uma nova espécie de bactéria foi descoberta por pesquisadores da Embrapa em parceria com a UFJF e o Instituto Biológico de São Paulo. Batizada de Moraxella tarda sp. nov. , ela foi isolada da mucosa nasal de bovinos da raça Hereford com sinais iniciais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), doença conhecida popularmente como "mal do olho" ou pinkeye.

A descoberta, publicada em revista científica, começou em 2018 com coletas de campo na Embrapa Pecuária Sul (RS) e teve análises aprofundadas nas unidades de Gado de Leite (MG) e Gado de Corte (MS). Para validar a nova espécie, os pesquisadores depositaram amostras em coleções microbiológicas de referência na Bélgica, em Portugal e no Instituto Adolfo Lutz (SP).

Por que "tarda"?

O nome da bactéria vem do latim e faz referência à sua principal característica: o crescimento mais lento em laboratório. Enquanto a análise de outras bactérias costuma levar 24 horas, a Moraxella tarda só revela suas colônias após 48 horas de incubação. Esse detalhe foi crucial para a descoberta — o que poderia ter sido descartado como contaminação acabou se revelando uma espécie inédita.

O sequenciamento genético completo mostrou que a nova bactéria tem o menor genoma já registrado para o gênero Moraxella (cerca de 1,8 milhão de bases) e um grau de semelhança de apenas 77% a 79% com outras espécies do mesmo grupo — valor bem abaixo dos 95% exigidos para classificar como a mesma espécie.

Por que isso importa para o produtor

A ceratoconjuntivite é uma doença ocular que afeta principalmente bezerros de raças europeias. Ela causa inflamação, dor, lacrimejamento e úlceras na córnea, podendo levar à perda parcial ou total da visão. O animal com dor constante reduz o apetite, perde peso e exige manejo frequente, sobrecarregando a rotina da propriedade.

A descoberta da Moraxella tarda ajuda a explicar um problema que muitos produtores já enfrentam: animais vacinados que ainda assim adoecem. Isso acontece porque as vacinas existentes são feitas a partir das bactérias já conhecidas. Se um agente novo não está incluído no imunizante, ele não protege contra ele.

"Essa descoberta é importante para termos vacinas polivalentes que possam, com a seleção de animais mais resistentes e com outras estratégias de manejo, controlar efetivamente a doença", explica Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa e um dos autores do estudo.

Estudos anteriores já mostraram que a CIB pode se manifestar mesmo na ausência da bactéria tradicionalmente apontada como principal causadora (*Moraxella bovis*). Em um surto investigado em Minas Gerais, por exemplo, foram encontradas Moraxella bovoculi e Moraxella oculi, mas nenhum isolado da M. bovis — confirmando que o quadro clínico envolve um complexo de espécies.

Seleção genética: uma ferramenta disponível

A Embrapa já disponibiliza tecnologia de seleção genética para identificar animais com maior resistência à CIB. Estudos conduzidos no Rio Grande do Sul, com apoio da Associação Brasileira de Hereford e Braford, mostraram que essa resistência tem componente genético e pode ser incorporada aos programas de melhoramento. O uso de informações genômicas aumenta a precisão na identificação dos animais mais resistentes, reduzindo a incidência da doença ao longo das gerações.

Foi justamente durante esses estudos de seleção genética, conduzidos em bovinos Hereford no bioma Pampa, que os pesquisadores identificaram a bactéria até então desconhecida.

As próximas etapas da pesquisa incluem o desenvolvimento de testes de diagnóstico rápido (qPCR) e a busca por alvos para vacinas recombinantes mais eficazes. Além disso, um novo projeto substitui testes invasivos em animais vivos por um modelo laboratorial baseado em córneas coletadas em frigoríficos — uma abordagem que beneficia o bem-estar animal e permite estudar a infecção de forma segura e controlada.

🔧 Orientações:

1. Fique atento aos sinais: lacrimejamento, vermelhidão, sensibilidade à luz e úlceras na córnea são indícios da doença. Quanto mais cedo identificado, mais fácil o tratamento.

2. Converse com seu veterinário: informe-se sobre as vacinas disponíveis e a cobertura delas. Com a descoberta de novas espécies, pode ser necessário atualizar o protocolo de imunização.

3. Considere a seleção genética: se você trabalha com raças europeias (Hereford, Braford, Holandesa), avalie a possibilidade de incluir critérios de resistência à CIB nos seus programas de melhoramento.

4. Isolamento e manejo: animais doentes devem ser separados do restante do rebanho para evitar a contaminação. Moscas são vetores importantes da doença — invista em controle de insetos.

5. Acompanhe as pesquisas: novas tecnologias de diagnóstico e vacinas estão em desenvolvimento. Manter-se atualizado pode trazer vantagens competitivas para sua propriedade.

Fonte: Embrapa.

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