Pecuária

Argentina reduz abate de fêmeas e reverte ciclo pecuário

Retenção de matrizes e aumento de peso dos animais sinalizam recomposição do rebanho e otimismo com exportações

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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À primeira vista, a notícia parece contraditória. A indústria frigorífica da Argentina alerta para uma importante queda da atividade, que se aprofunda com a retenção de matrizes – a decisão de não enviar as fêmeas para o abate. Mas, dentro da cadeia de valor, isso é interpretado como uma mudança positiva no ciclo de produção.

Segundo os dados divulgados pela Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina (CICCRA), em julho, um total de 338 frigoríficos abateu 1,095 milhão de bovinos – queda de 2,6% em relação ao mês anterior e 12,2% abaixo de julho de 2025. A redução não ocorreu de forma uniforme: enquanto o abate de machos caiu 6,3%, o de fêmeas recuou expressivos 18,7%.

Com isso, a participação de fêmeas no abate total caiu para 44,3%, "dentro dos limites do intervalo compatível com a manutenção do rebanho bovino", afirma a CICCRA. Em termos absolutos, no acumulado de janeiro a julho de 2026, o setor frigorífico argentino abateu 772,8 mil cabeças a menos que no mesmo período de 2025 – uma redução de 9,8%.

Mudança de ciclo e retenção de matrizes

No jargão pecuário, essa movimentação é conhecida como retenção de matrizes: enviar menos fêmeas ao abate significa preservar as futuras mães, a verdadeira "fábrica de bezerros" necessários para atender à crescente demanda local e externa. Para encontrar um percentual semelhante de retenção, é preciso voltar ao período de julho a outubro de 2022.

"Separar a bezerra da mãe leva sete meses. Para entrar em reprodução são outros 24 meses, mais nove meses de gestação e mais sete meses para o desmame", explica Víctor Tonelli, exportador e consultor pecuário. Esse é o período necessário até que um animal mantido hoje no rebanho possa ser enviado ao abate.

Daniel Urcía, vice-presidente da Federação das Indústrias Frigoríficas Regionais Argentinas (FIFRA), afirma que a redução do abate "era quase uma previsão difícil de errar no fim do ano passado". Segundo ele, a reversão do ciclo pecuário é favorecida pela recuperação internacional dos preços da carne e pela firme demanda externa.

Aumento de peso ameniza queda na oferta

Paralelamente à retenção, a estratégia é aumentar o peso dos animais abatidos. Historicamente, o peso médio de abate era de cerca de 280 quilos de carcaça com osso. O novo objetivo é chegar a 320 quilos, com animais de 450 a 550 quilos de peso vivo.

Em nove meses, o peso de abate aumentou cerca de 12 quilos por animal. Embora o abate tenha caído em torno de 10%, o ganho de peso permite amenizar parcialmente essa redução, e a queda efetiva da oferta acaba ficando entre 6% e 7%.

Exportações como motor do crescimento

O principal fator da mudança é o mercado de exportação, com forte demanda e bons preços. "Os Estados Unidos reduziram seus estoques, assim como a União Europeia e o Brasil", afirma Urcía. "Com bons preços do gado e uma demanda externa firme, haverá investimentos no setor."

Em junho, as exportações de carne bovina argentina subiram para 54.294 toneladas – alta de 10,4% em relação a maio e de 8,1% na comparação com junho de 2025.

A China lidera os mercados, com 52,6% do total embarcado, comprando cortes baratos a preços médios de U$5.800,00 a U$6.300,00 por tonelada. Os Estados Unidos respondem por 22,8%, com cotas ampliadas para até 80 mil tonedas adicionais - e a expectativa é chegar a 150 mil toneladas em 2027. A União Europeia, com 12% do total, paga preços premium pela Cota Hilton: de US16mil a US 20 mil por tonelada para cortes como filé mignon e contrafilé.

A estratégia argentina de retenção de matrizes e aumento de peso dos animais é um movimento típico de reversão de ciclo pecuário, que ocorre quando os preços estão favoráveis e há expectativa de demanda aquecida. Para o produtor brasileiro, algumas lições são valiosas:

  1. Gestão de ciclo: a pecuária tem ciclos longos (3 a 5 anos). Entender em que fase do ciclo você está ajuda a planejar investimentos, retenção de fêmeas e estratégias de venda.

  2. Agregação de valor por peso: aumentar o peso de abate pode compensar a redução no número de cabeças, mantendo a receita mesmo com menor volume.

  3. Acompanhamento dos mercados internacionais: a demanda global por carne bovina segue firme, com destaque para Estados Unidos, China e União Europeia. Produtores que conseguem acessar esses mercados com qualidade podem obter prêmios significativos.

  4. Planejamento de longo prazo: a retenção de matrizes exige paciência e capital de giro. É uma aposta no futuro, mas que pode trazer retornos expressivos quando bem executada.

🔧 Orientações:

  1. Monitore os preços internacionais: a firmeza da demanda externa e a valorização de 35% da carne bovina em dólares nos últimos 31 meses são indicadores positivos para o setor. Acompanhe as cotações e planeje suas vendas.

  2. Avalie a retenção de fêmeas: se os preços estão favoráveis e a expectativa de demanda futura é boa, pode ser o momento de reter matrizes para recompor o rebanho e aproveitar o próximo ciclo de alta.

  3. Invista em genética e nutrição: para aumentar o peso de abate, é essencial investir em genética, manejo e alimentação. Animais mais pesados podem compensar a redução no número de cabeças.

  4. Fique atento aos acordos comerciais: os movimentos da Argentina para ampliar cotas com os EUA e abrir mercados como Japão, Coreia do Sul e Indonésia mostram que o mercado global de carne está dinâmico. O Brasil também precisa estar atento a essas oportunidades.

Fonte: Forbes.

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