Índia estuda importar açúcar para conter preços recordes
A medida, que poderia resultar nas primeiras importações significativas do país em quase uma década, visa garantir o abastecimento durante a temporada de festivais.
O governo indiano está avaliando um pacote de medidas para conter a disparada dos preços do açúcar no mercado doméstico. Entre as opções em discussão estão a autorização de importações limitadas com isenção de tarifas e a imposição de restrições aos estoques mantidos por grandes comerciantes, de acordo com fontes do governo ouvidas pela Reuters [citation:0].
A medida, que poderia resultar nas primeiras importações significativas do país em quase uma década, visa garantir o abastecimento durante a temporada de festivais, que vai de agosto a novembro e historicamente impulsiona a demanda por doces e produtos de confeitaria [citation:0].
Os preços do açúcar no atacado em Kolhapur, principal centro comercial do estado de Maharashtra, dispararam quase 20% desde o início de agosto, alcançando um recorde de 5.350 rúpias (cerca de US$ 64) por 100 kg, mesmo com a oferta sendo considerada suficiente para atender à demanda interna até o início da nova safra [citation:0].
O cenário de alta
O movimento de alta nos preços reflete uma combinação de fatores estruturais que vêm pressionando o mercado indiano. Embora a produção de açúcar na safra 2025/26 tenha começado forte, igualando um recorde histórico para o período, as previsões de uma safra menor no final do ciclo levaram o setor a reduzir suas expectativas de produção, especialmente no estado de Maharashtra, onde chuvas intensas e tardias causaram impactos negativos na produtividade .
O cenário se torna mais complexo com o avanço do programa de etanol do país. A Índia tem promovido ativamente o aumento da mistura de etanol à gasolina, o que tem desviado parte da cana-de-açúcar para a produção de biocombustível em vez de açúcar . A perda de atratividade das exportações, combinada com a alta dos preços internos, torna o desvio da sacarose para etanol ainda menos vantajoso para as usinas .
Se aprovadas, as importações poderão trazer algum alívio ao mercado, mas o volume ainda é incerto. Estimativas iniciais sugerem que as usinas poderiam importar até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto, embora os preços elevados do açúcar branco no mercado internacional possam limitar esse volume [citation:0].
Impacto no mercado global
O retorno da Índia como importadora – ainda que pontual – teria efeitos diretos sobre os preços de referência em Londres e Nova York, além de reduzir a disponibilidade global do produto. Isso ocorre em um momento em que o mercado já monitora de perto o impacto do El Niño sobre a produção de cana no Brasil e na Tailândia . Para os países importadores, especialmente na Ásia, África e Oriente Médio, a ausência prolongada da Índia como exportadora (combinada com suas eventuais importações) reduz a oferta total no curto prazo.
Para o Brasil, principal exportador mundial de açúcar, o movimento sinaliza uma janela de oportunidade. A Índia recorrer ao mercado internacional para suprir sua demanda pode abrir espaço para o açúcar brasileiro, especialmente se o país asiático optar por importar açúcar bruto para refino, um segmento no qual o Brasil tem forte competitividade.
Por fim, o desfecho dessa discussão dependerá da avaliação do governo indiano sobre a necessidade de conter a inflação dos alimentos em um período sensível do ponto de vista social e político.
🔧 Orientações
Fique atento às decisões da Índia: acompanhe as definições sobre importação e estoques. Anúncios formais podem gerar movimentos de curto prazo nos preços internacionais.
Monitore o câmbio e o preço do petróleo: a relação entre açúcar e etanol é dinâmica. Variações no preço do petróleo e na taxa de câmbio podem afetar a competitividade do açúcar brasileiro frente ao etanol .
Avalie o impacto na demanda global: se a Índia realmente iniciar importações, a demanda adicional pode sustentar preços no longo prazo. Converse com sua cooperativa ou trading para planejar vendas futuras.
Acompanhe o desenvolvimento do programa de etanol indiano: a política de biocombustíveis da Índia é um fator estrutural que pode alterar o equilíbrio de oferta e demanda global de açúcar por várias safras.
Fonte: Reuters.