Compras chinesas de soja brasileira desaceleram
A redução ocorre mesmo com a forte dependência das processadoras privadas chinesas em relação à soja brasileira.
As compras chinesas de soja brasileira diminuíram drasticamente nas últimas semanas, em meio à redução das margens de lucro das processadoras do país asiático e às incertezas sobre o comércio entre China e Estados Unidos. Segundo traders ouvidos pela Bloomberg News, as compras comerciais de soja brasileira caíram para menos de cinco cargas semanais nas últimas duas semanas, contra uma média de aproximadamente 20 cargas em agosto.
A redução ocorre mesmo com a forte dependência das processadoras privadas chinesas em relação à soja brasileira. De acordo com os operadores consultados, os preços elevados da oleaginosa estão tornando o processamento menos rentável, levando empresas a reduzir ou adiar novas compras.
As processadoras também aguardam sinais mais claros sobre as negociações comerciais entre Pequim e Washington. Estados Unidos e China discutem possíveis reduções de tarifas sobre alguns produtos, incluindo itens agrícolas americanos, enquanto permanece em avaliação uma sobretaxa adicional de 10% sobre a soja norte-americana.
Essa definição pode alterar a competitividade entre a soja brasileira e a norte-americana no mercado chinês. Para as empresas chinesas, a decisão sobre quais fornecedores oferecem melhores condições dependerá não apenas do preço da oleaginosa, mas também das tarifas e dos custos de transporte.
Soja brasileira perde vantagem de preço
A situação é diferente da observada durante períodos recentes de forte valorização da soja nos Estados Unidos. Segundo analistas da Stag International, o Brasil já não oferece a mesma vantagem de preço observada em safras anteriores.
A soja com embarque em novembro pelo porto de Paranaguá estava sendo negociada com prêmio de US$ 1,35 por bushel em relação aos futuros de Chicago. O produto brasileiro também estava mais caro do que cargas provenientes do Golfo dos Estados Unidos.
Outro fator que influencia o mercado é a redução da disponibilidade brasileira. Mais de 91% da safra anterior já havia sido comercializada, segundo dados citados da AgRural, acima da média de cinco anos, de 88%.
Com grande parte da produção já vendida, agricultores brasileiros passaram a reter os estoques restantes na expectativa de preços mais elevados. Essa estratégia reduz a quantidade de soja disponível para novas compras imediatas por parte das tradings e processadoras chinesas.
Enquanto isso, os estoques de soja dos Estados Unidos aumentam com a entrada da nova safra. Normalmente, a oferta norte-americana ganha maior participação no mercado internacional durante o quarto trimestre, justamente quando a colheita dos Estados Unidos avança.
China pode voltar a comprar dos EUA
As empresas estatais chinesas já intensificaram as compras de soja norte-americana. Segundo o material, Pequim assumiu o compromisso de adquirir pelo menos 25 milhões de toneladas anuais de produtos agrícolas dos Estados Unidos até 2028, e as vendas já ultrapassaram metade desse volume no início do mês.
As processadoras privadas, entretanto, continuam evitando em grande parte a soja dos Estados Unidos devido às tarifas elevadas. Essa diferença de comportamento entre empresas estatais e privadas é um dos pontos observados pelo mercado.
Para o produtor brasileiro, o movimento merece atenção porque uma redução das compras chinesas pode alterar a formação dos prêmios pagos pela soja nacional. Ao mesmo tempo, uma eventual retomada das compras chinesas dos Estados Unidos aumentaria a concorrência entre as origens disponíveis.
O cenário ainda depende das negociações comerciais entre os dois países. China e Estados Unidos concordaram em prorrogar sua trégua comercial por dois meses, mas autoridades norte-americanas ainda avaliavam se um acordo mais abrangente poderia ser fechado.
Se você ainda possui soja disponível para comercialização, acompanhe três indicadores em conjunto: os preços de Chicago, os prêmios nos portos brasileiros e o ritmo das compras chinesas. A combinação desses fatores pode influenciar diretamente a formação do preço recebido pelo produtor.
Fonte: Bloomberg.