Cacau ganha novos mercados além do chocolate
A mudança ocorre em um momento de forte pressão sobre a cadeia do cacau.
O cacau está deixando de ser visto apenas como matéria-prima para barras e bombons. Com os preços elevados e o consumo de chocolates mais pressionado, empresas do setor estão ampliando o uso do ingrediente em bebidas, sorvetes, produtos de panificação e alimentos voltados à nutrição.
Um exemplo vem das Filipinas. A fabricante Auro Chocolate encontrou uma nova oportunidade para o cacau em pó, que antes era tratado como um subproduto de menor valor. A empresa passou a fornecer o ingrediente para fabricantes de bebidas que utilizam o sabor de chocolate como alternativa mais econômica. Hoje, produtos com o cacau da empresa já são vendidos em grandes redes varejistas.
A mudança ocorre em um momento de forte pressão sobre a cadeia do cacau. Depois da disparada histórica dos preços em 2024, fabricantes de alimentos passaram a buscar formas de reduzir a quantidade de chocolate utilizada nas receitas. O objetivo é controlar custos sem abandonar o sabor que continua sendo procurado pelos consumidores.
Nos Estados Unidos, por exemplo, as vendas unitárias de doces de chocolate caíram cerca de 4% nos 12 meses encerrados em 4 de julho. No mesmo período, as vendas de alimentos relacionados a dietas e nutrição cresceram 9%, incluindo produtos como shakes e pós nutricionais com sabor de chocolate.
Para os processadores, isso cria uma oportunidade: vender o sabor e as características do cacau para outros segmentos. Bebidas, produtos de panificação, sorvetes, barras proteicas e lanches com menor teor de açúcar estão entre os mercados que ganham espaço.
Outro ponto importante é a diferença entre os derivados do cacau. O cacau em pó, responsável principalmente pela cor e pelo sabor, apresentou maior estabilidade de preços nos últimos dois anos quando comparado à manteiga de cacau, que tem papel importante na textura dos chocolates.
A pressão sobre os custos, porém, continua. Os preços do cacau permanecem acima das médias históricas, enquanto as condições climáticas na África Ocidental, principal região produtora mundial, aumentam a preocupação com a oferta. A volatilidade dos contratos de cacau em Nova York também voltou a níveis elevados.
Esse cenário já estimula alternativas. A Barry Callebaut, uma das maiores processadoras do setor, informou crescimento significativo de uma alternativa ao cacau chamada ChoViva, produzida a partir de sementes de girassol.
Para quem produz cacau, a mudança merece atenção. O mercado não está abandonando o ingrediente, mas está diversificando suas formas de utilização. Isso significa que a demanda futura poderá vir não apenas das indústrias tradicionais de chocolate, mas também de bebidas, alimentos funcionais, panificação e outros produtos.
Na prática, o movimento reforça a importância de acompanhar não apenas o preço da amêndoa, mas também o comportamento dos diferentes derivados e dos mercados consumidores. Quanto mais aplicações o cacau conquistar, maior pode ser a diversidade de canais para agregar valor à produção.
Fonte: Bloomberg.