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Mistura de etanol sobe e vira debate eleitoral

Governo eleva proporção obrigatória de 30% para 32% na gasolina por 180 dias; setor sucroenergético comemora, mas medida enfrenta críticas na corrida presidencial

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Se você abastece o carro ou trabalha no setor de biocombustíveis, uma mudança recente mexeu com o mercado. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão do governo, elevou temporariamente a proporção obrigatória de etanol anidro na gasolina.

A mistura passou de 30% para 32%, a partir de agosto. A informação é da Bloomberg.

O etanol anidro é aquele produzido a partir da cana-de-açúcar ou do milho e misturado à gasolina. A medida tem duração de 180 dias e pode ser prorrogada uma vez por mais seis meses.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, o aumento pode eliminar cerca de 900 milhões de litros de importações de gasolina por ano. O Brasil possui o maior nível obrigatório de mistura de etanol do mundo, segundo a BloombergNEF.

O agronegócio brasileiro recebeu a mudança com otimismo. A avaliação é de que a medida dá impulso à produção de biocombustíveis no país.

O investimento global em biocombustíveis cresceu 62% no primeiro semestre de 2026, atingindo US$ 7,7 bilhões — o maior nível semestral desde 2008, segundo a BloombergNEF. As Américas representaram 58% do total, e quase todo o crescimento da região veio do Brasil.

O senador Flávio Bolsonaro, principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproveitou a medida para criticar o governo. Em uma transmissão ao vivo realizada em 20 de agosto, ele comparou a nova mistura de gasolina a produtos de consumo que sofreram redução de tamanho devido à inflação.

Ele citou rolos de papel higiênico e caixas de ovos que ficaram menores, e afirmou que a gasolina está passando por algo semelhante à medida que o teor de petróleo diminui. "Se você paga pela gasolina, deve receber gasolina", disse.

O candidato também ecoou preocupações de entidades do setor automotivo de que a mistura mais elevada poderia danificar os motores. No Congresso, dois membros do Partido Liberal (PL) apresentaram medidas para revogar a resolução do CNPE.

Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), a grande maioria dos veículos produzidos no Brasil é do tipo flex, capaz de funcionar com qualquer mistura de etanol e gasolina.

"Eles foram projetados para funcionar com qualquer mistura de etanol, de 25% a 100%", afirmou Gonçalves. O único efeito perceptível seria uma redução na eficiência de combustível, já que o etanol possui menor densidade energética.

O Ministério de Minas e Energia informou que testes realizados em 16 modelos de carros e 13 motocicletas demonstraram que a mistura de 32% é segura. Novos testes de durabilidade serão realizados antes de um possível aumento para 35%.

Seis importantes grupos do setor de cana-de-açúcar, etanol de milho e bioenergia rejeitaram a comparação feita por Flávio Bolsonaro. Em comunicado, afirmaram que a medida induz os consumidores ao erro e ataca uma política construída ao longo de décadas por governos de diferentes tendências políticas.

Os grupos observaram que Flávio Bolsonaro era senador quando o projeto de lei "Combustíveis do Futuro" foi aprovado no Senado. A legislação foi aprovada por votação oral, com apenas um senador registrando oposição.

O programa de etanol do Brasil, o Pró-Álcool, foi lançado em 1975 em resposta ao choque do petróleo de 1973. O objetivo era reduzir a dependência do petróleo importado.

O programa ajudou a estabelecer o biocombustível como parte central do sistema de transporte do Brasil. Levou ao lançamento do primeiro carro movido exclusivamente a etanol em 1979 e, posteriormente, à adoção generalizada de veículos flex.

Mais recentemente, os biocombustíveis foram incluídos no roteiro de políticas para cumprir os compromissos do país no Acordo de Paris. O plano nacional de clima divulgado no início deste ano prevê metas de mistura obrigatória de 35% para o etanol e 25% para o biodiesel até 2035.

Se você produz cana, milho ou trabalha com biocombustíveis, a medida amplia o mercado interno. Mais etanol na gasolina significa mais demanda pela matéria-prima.

Se você é consumidor, a mudança pode reduzir ligeiramente a eficiência do combustível, mas não há risco técnico para veículos flex. A maioria dos carros produzidos no Brasil é projetada para rodar com qualquer mistura.

Se você acompanha política, o tema deve continuar no centro do debate eleitoral. A disputa em torno da mistura de etanol opõe o agronegócio e o setor sucroenergético ao discurso populista do principal adversário do governo.

O primeiro passo é acompanhar as decisões do CNPE e os testes de durabilidade para a mistura de 35%. Eles indicam para onde a política de biocombustíveis vai nos próximos anos.

O segundo é avaliar o impacto no seu negócio. Se você produz cana ou milho, a demanda adicional pode favorecer contratos de longo prazo. Se você compra combustível, vale comparar o custo por quilômetro rodado entre gasolina e etanol.

O terceiro é ficar atento ao debate político. A medida tem prazo de 180 dias e pode ser prorrogada. O cenário eleitoral pode influenciar a continuidade da política.

Se você tem carro flex, faça a conta do custo por quilômetro rodado antes de escolher o combustível. Divida o preço do litro pelo consumo médio de cada opção. Com a mistura maior de etanol na gasolina, a diferença entre os dois pode mudar. E se você atua no setor sucroenergético, acompanhe os leilões e contratos de etanol anidro — a demanda tende a crescer com a nova mistura. Para se aprofundar, o plano nacional de clima e as resoluções do CNPE estão disponíveis nos sites do Ministério de Minas e Energia e da BloombergNEF.

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