Agronegócio brasileiro avança sobre a Bolívia
Para o produtor, a infraestrutura pode reduzir custos de transporte e facilitar o acesso aos mercados de exportação.
A expansão do agronegócio brasileiro para a Bolívia está ganhando força, principalmente na região de Santa Cruz e na Chiquitania. Produtores de soja e pecuaristas são atraídos pelo preço mais baixo das terras, pela disponibilidade de áreas e por regras ambientais menos rígidas que as brasileiras.
O movimento ocorre em um momento de forte crise econômica na Bolívia. Com inflação elevada, queda das receitas do gás natural e escassez de reservas internacionais, o governo de Rodrigo Paz aposta no setor agropecuário para estimular investimentos, gerar empregos e aumentar a produção de commodities.
Um dos pontos centrais dessa expansão é a construção de novas estradas ligando a Bolívia ao Mato Grosso. No lado brasileiro, um trecho de 73 quilômetros deverá ser concluído em dois anos. Também estão em discussão investimentos para prolongar a ligação por mais 130 quilômetros até San Ignacio de Velasco, na Bolívia.
Para o produtor, a infraestrutura pode reduzir custos de transporte e facilitar o acesso aos mercados de exportação. A região também apresenta potencial para aumentar a produção sem necessariamente repetir a expansão de área ocorrida no passado.
Esse é justamente um dos principais desafios. A Bolívia possui produtividade de soja inferior à brasileira. A média está em aproximadamente 2,3 toneladas por hectare, enquanto o Brasil alcança 3,7 toneladas por hectare. Segundo autoridades bolivianas, tecnologias e novos métodos de produção poderiam elevar a produtividade entre 20% e 30%.
O exemplo de Mato Grosso aparece como referência. Entre 2000 e 2022, a produção agrícola do estado cresceu cerca de 7% ao ano, enquanto a produtividade por hectare avançou 6,4% ao ano. O crescimento foi acompanhado por investimentos em tecnologia, pesquisa, capital e infraestrutura.
Ao mesmo tempo, a expansão agrícola na Bolívia aumenta a preocupação ambiental. O país registrou, em 2025, a segunda maior área de perda de floresta tropical do mundo. Desde 2001, cerca de um sexto de sua cobertura arbórea desapareceu.
A situação é especialmente preocupante na Chiquitania, uma região de floresta tropical seca que também se estende até o oeste de Mato Grosso. O bioma sofre com incêndios e avanço da pecuária e da agricultura.
A diferença entre os dois países está também na fiscalização. No Brasil, propriedades localizadas na Amazônia Legal podem precisar manter até 80% da vegetação nativa, dependendo da situação da área, além de cumprir exigências ambientais e obter autorização para supressão.
Na Bolívia, grandes propriedades da Chiquitania geralmente precisam conservar pelo menos 30% da área. Porém, segundo a reportagem, a fiscalização é mais limitada e a multa pelo desmatamento é muito menor: cerca de R$ 460 por hectare, contra multas que podem chegar a R$ 5.000 por hectare no Brasil, além de outras sanções.
Para o produtor brasileiro, o avanço dessa fronteira representa uma mudança importante no mapa de investimentos do agronegócio sul-americano. Mas também mostra que infraestrutura, tecnologia e aumento de produtividade precisam caminhar junto com planejamento territorial e controle ambiental.
Na prática: se você acompanha oportunidades de expansão para a Bolívia, não avalie apenas o preço da terra. Infraestrutura, produtividade, disponibilidade de água, regras de uso do solo, regularização ambiental e acesso aos mercados serão fatores decisivos para determinar a viabilidade do investimento.
A expansão agrícola pode aumentar a produção e gerar novas oportunidades econômicas. O desafio será fazer isso sem transformar a abertura de novas áreas na principal estratégia de crescimento.
Fonte: Bloomberg.