Produzir no Brasil x Estados Unidos – quem está mais competitivo
Dados de custos, margens e produtividade mostram vantagem brasileira em 2026/27, apesar dos desafios
Brasil e Estados Unidos dominam o comércio mundial de soja e milho. Juntos, responderam por cerca de 83% das exportações globais de soja e 58% das de milho no ciclo recente. A disputa pela competitividade, no entanto, não se resume a volume. Envolve custos de produção, margens, produtividade por hectare, logística e capacidade de se adaptar a preços baixos. Os dados mais recentes do USDA e do Rabobank apontam uma vantagem estrutural para o Brasil — especialmente em 2026/27 —, embora os Estados Unidos mantenham pontos fortes importantes.
1. Custos de produção: Brasil mais barato por hectare
O relatório do USDA Economic Research Service (ERS, publicado em outubro de 2026, com dados de 2023–2025) traz a comparação mais sólida disponível:
Soja – custo total por acre:
Estados Unidos (média nacional): US$ 656,16
Brasil (média nacional): US$ 558,97
Mato Grosso: cerca de 3,6% abaixo da média brasileira
Milho – custo total por acre:
Heartland americano: US$ 951,82
Mato Grosso (Brasil): US$ 420,57
A diferença é grande. O principal fator de vantagem brasileira é o custo da terra significativamente mais baixo e o sistema de dupla safra (soja + milho safrinha), que dilui os custos fixos ao longo de duas colheitas no mesmo ano.
Nos custos operacionais (sementes, fertilizantes, defensivos e combustível), o quadro muda:
No Brasil (especialmente no Cerrado), fertilizantes e defensivos pesam mais (cerca de 35% e 34% dos custos operacionais no Mato Grosso, respectivamente).
Nos EUA, as sementes têm peso maior e os custos operacionais da soja são, em alguns recortes, mais baixos por hectare e por bushel.
2. Margens operacionais em 2026/27: Brasil lidera com folga
O relatório Field Crop Margin Outlook 2027 do Rabobank (outubro/2026) reforça a diferença de rentabilidade operacional:
Cultura | Brasil 2026/27 | Estados Unidos 2027 |
|---|---|---|
Soja | 38% | 15% |
Milho | 55% | 3% |
Mesmo com alta de custos projetada no Brasil (soja +3,8% a +4% e milho +11% nos custos operacionais), as margens melhoram. Nos Estados Unidos, as margens continuam comprimidas — no milho, o cenário é crítico e, ao incluir custos de terra e financiamento, pode gerar resultado econômico negativo.
3. Produtividade: EUA ainda lideram no milho
Aqui está um dos principais pontos de força americana:
No milho, a produtividade média no Heartland americano fica próxima do dobro da registrada em regiões brasileiras como o Mato Grosso em comparações recentes (cerca de 208 bushels/acre vs. 122 bushels/acre em alguns períodos analisados pelo USDA).
Na soja, as produtividades são mais próximas. A Conab projeta para 2026/27 produtividade média brasileira em torno de 3.683 kg/ha (cerca de 61,4 sc/ha), com leve recuo em relação à safra anterior.
A alta produtividade americana ajuda a compensar o custo por hectare mais elevado, aproximando o custo por tonelada/bushel em alguns cenários de milho.
4. Logística e competitividade no porto
Este é um ponto de desvantagem estrutural do Brasil:
O frete rodoviário de longas distâncias (ex.: Mato Grosso até Santos ou Paranaguá) pode representar 25% a 40% do valor final da commodity em períodos de pico.
Os Estados Unidos contam com malha hidroviária e ferroviária mais desenvolvida e portos com maior eficiência em várias rotas.
Quando o real se desvaloriza, a soja e o milho brasileiros ganham competitividade imediata no mercado internacional. Quando o real se valoriza, essa vantagem diminui.
5. Outros fatores relevantes
Vantagens do Brasil:
Custo de terra mais baixo
Dupla safra (maior uso da terra por ano)
Escala e potencial de expansão de área
Margens operacionais mais resilientes em 2026/27
Vantagens dos Estados Unidos:
Maior produtividade por hectare (especialmente milho)
Infraestrutura logística mais eficiente em muitas rotas
Tecnologia e padronização de processos
Menor exposição a alguns riscos de insumos tropicais
Desafios comuns:
Ambos enfrentam custos de fertilizantes e defensivos em alta
Pressão de preços baixos por expectativa de safras grandes
Endividamento e necessidade de gestão financeira rigorosa
Conclusão: quem está mais competitivo?
Em 2026/27, o Brasil apresenta vantagem competitiva mais clara, especialmente na soja e nas margens operacionais. Os dados do USDA e do Rabobank convergem nesse sentido: custos totais por hectare mais baixos, diluição de custos via dupla safra e margens significativamente superiores aos dos produtores americanos.
No milho, a alta produtividade americana reduz a diferença no custo por bushel, mas as margens operacionais extremamente apertadas (próximas de 3%) deixam o produtor norte-americano em posição mais vulnerável.
A competitividade, no entanto, não é estática. Ela depende de produtividade crescente, controle de custos, melhoria logística e gestão de riscos. O Brasil ganha hoje na equação custo-margem. Os Estados Unidos mantêm força em eficiência por hectare e infraestrutura. Quem conseguir equilibrar esses fatores de forma sustentável terá a maior vantagem no longo prazo.
Fontes principais: USDA Economic Research Service (EIB-310, 2026), Rabobank Field Crop Margin Outlook 2027, Conab (levantamentos 2026/27) e análises de mercado de outubro de 2026.