Estudo revela fórmula para maximizar trigo com menos água
A pesquisa avaliou durante duas safras os efeitos de diferentes frequências de irrigação, níveis de nitrogênio e variedades de trigo.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Indian Institute of Technology Roorkee, publicado na revista Scientific Reports, traz respostas práticas para um dos maiores desafios do produtor de trigo em regiões subtropicais: como produzir mais com menos água e fertilizante .
A pesquisa, liderada por Anuj Kumar Dwivedi e sua equipe, avaliou durante duas safras (2018/19 e 2019/20) os efeitos de diferentes frequências de irrigação, níveis de nitrogênio e variedades de trigo. O experimento foi conduzido em Roorkee, no norte da Índia, região com clima subtropical semelhante a áreas do Brasil, como o Cerrado e parte do Sul do país .
O equilíbrio entre água e nitrogênio
Os resultados mostraram que a frequência da irrigação tem influência muito maior sobre a produtividade do que a quantidade de nitrogênio aplicada. Quatro irrigações combinadas com a dose recomendada de nitrogênio (75 kg N/acre) produziram a maior produtividade de grãos. O estudo revelou que aumentar o nitrogênio para 90 kg/acre não trouxe ganhos significativos — pelo contrário, aumentou o consumo de água e reduziu a eficiência .
O grande destaque ficou para a estratégia de irrigação deficitária: três irrigações ao longo do ciclo, embora reduzissem levemente a produtividade, aumentaram significativamente a eficiência do uso da água, com economia de até 26% no consumo.
Variedade mais tolerante à seca
Entre as três variedades testadas, a HD2967 se destacou com o maior rendimento de grãos e maior tolerância à seca, apresentando um fator de resposta ao déficit hídrico (Ky) de 0,51 — o que indica que a variedade perde menos produtividade em condições de estresse hídrico em comparação com as demais. Em contraste, a UP2584 teve Ky de 0,18, mostrando-se mais sensível à falta de água .
Método mais preciso para estimar evapotranspiração
O estudo também avaliou diferentes métodos para estimar a necessidade de água do trigo. O método FAO Penman-Monteith foi o que apresentou melhor aderência aos valores reais de evapotranspiração, com erros mínimos (MAE de 0,18 e RMSE de 0,22), confirmando sua confiabilidade para planejamento de irrigação em condições subtropicais .
Resultados práticos
A combinação que trouxe o melhor resultado foi:
4 irrigações distribuídas nos estádios fenológicos críticos
75 kg de N por acre (dose recomendada)
Variedade HD2967 — maior produtividade e tolerância à seca
Com essa estratégia, o estudo alcançou produtividades de até 3.398 kg/acre (na safra 2019/20), com produtividade da água entre 1,52 e 1,57 kg/m³ e eficiência do uso da água de irrigação de 1,27 a 1,35 kg/m³ .
As condições climáticas do norte da Índia são similares a vastas áreas do Brasil — com verões quentes e invernos secos —, o que torna os resultados diretamente aplicáveis ao cultivo de trigo no Cerrado, no Paraná e no Rio Grande do Sul. A mensagem central é: nem sempre mais água ou mais fertilizante significam mais produtividade. A chave está na gestão precisa dos recursos.
🔧 Orientações:
Revise seu manejo de irrigação: o estudo mostra que irrigações em excesso podem ser ineficientes. Identifique os estádios críticos do trigo (perfilhamento, elongação, emborrachamento e enchimento de grãos) e concentre a água nesses momentos.
Evite o excesso de nitrogênio: aplicar além do recomendado não traz ganhos de produtividade e ainda aumenta o consumo de água — um custo duplo para o bolso.
Escolha cultivares mais tolerantes: assim como a HD2967 se destacou no estudo, no Brasil existem cultivares com maior tolerância ao estresse hídrico. Converse com seu assistente técnico sobre as opções disponíveis para sua região.
Use o método Penman-Monteith para planejar: se possível, utilize estações meteorológicas ou ferramentas de suporte à decisão que empregam esse método para estimar a necessidade de água da sua lavoura. A precisão faz a diferença.
Monitore o solo: o estudo usou medições de umidade do solo para determinar o momento certo de irrigar. Invista em sensores ou métodos práticos (como a análise da camada superficial) para evitar irrigações desnecessárias.
Fonte: scientific reports