Sustentabilidade

Economia circular no agro: Europa na frente, América no caminho

Estudo publicado na Scientific Reports compara 43 países e mostra avanços no uso da água, mas alerta que produtividade ainda depende de modelos intensivos em recursos

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Se você produz alimento e sente na pele o peso do custo dos insumos, uma pesquisa recém-publicada merece sua atenção. Um estudo analisou como países da Europa e das Américas vêm aplicando os princípios da economia circular na agricultura entre 2010 e 2023.

A economia circular é um modelo que busca reduzir, reutilizar, reciclar e recuperar recursos, em vez de seguir o caminho linear de extrair, produzir, consumir e descartar. No campo, isso significa usar a água de forma eficiente, reciclar nutrientes, aproveitar resíduos e reduzir emissões.

A pesquisa foi publicada na revista Scientific Reports e assinada por Melva Inés Gómez-Caicedo, Vladimir Ballesteros Ballesteros, Daniel Charris Conde, Iván Ricardo Ruíz-Castro, Mercedes Gaitán-Angulo, Carlos Arturo Téllez Bedoya e Andrea del Pilar Carrillo Prieto. Os autores são vinculados a instituições da Colômbia, como a Fundação Universitária Los Libertadores e a Fundação Universitária Konrad Lorenz, em Bogotá.

Os dados vêm de fontes oficiais: a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e o Banco Mundial. Foram analisados 43 países — 25 da Europa e 18 das Américas.

O estudo identificou uma tendência de queda na retirada de água para uso agrícola, acompanhada por um aumento na relação entre produção de alimentos e consumo de água. Em outras palavras: os países estão produzindo mais comida com menos água. Isso sugere melhora na eficiência.

As emissões de CO2 da agricultura ficaram relativamente estáveis no período. Mas os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre uso de água e emissões — ou seja, onde se usa mais água, também se emite mais carbono.

Segundo os autores, os resultados revelam uma tensão central nos modelos agrícolas atuais. Apesar dos avanços em regulamentação e tecnologia, principalmente em alguns países europeus, muitos sistemas ainda operam com lógica parcialmente linear.

Na prática, o aumento da produtividade continua dependendo, em muitos contextos, de sistemas intensivos em recursos. Isso significa que crescer ainda custa caro para o meio ambiente.

O estudo traça um contraste claro entre as regiões.

Os países da União Europeia, em geral, têm marcos legais mais avançados. É o caso da Estratégia de Economia Circular 2030 da Espanha e da Lei de Economia Circular da Alemanha. Adotam práticas como agricultura de precisão, tratamento de esterco para produzir biogás e altas taxas de recuperação de resíduos agrícolas, incluindo compostagem e biofertilizantes.

Mesmo assim, enfrentam dificuldades: complexidade regulatória e resistência cultural ao uso de materiais secundários.

Já os países das Américas apresentam estratégias emergentes. O estudo cita o Pacto de Economia Circular da Colômbia e as práticas de agricultura regenerativa do Brasil, que incluem rotação de culturas e fertilizantes orgânicos. Também menciona iniciativas de irrigação eficiente, agrofloresta e compostagem.

Os desafios, porém, são maiores: infraestrutura inadequada, custos elevados de implementação e falta de conscientização pública.

O Brasil aparece no estudo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e leis de compras sustentáveis. Entre as práticas circulares citadas estão a agricultura regenerativa, a compostagem e a recirculação de água.

Os pesquisadores apontam que o país enfrenta altos custos de implementação e limitações de infraestrutura — obstáculos comuns a boa parte da América Latina.

A análise estatística mostrou que três fatores explicam cerca de 88,2% da variação nas emissões de CO2 da agricultura: área de terra agrícola, população total e investimento relacionado à poluição por CO2.

O modelo indica que o tamanho da população tem forte poder de explicação sobre as emissões. Isso significa que, quanto maior a demanda por alimento, maior a pressão sobre os recursos naturais.

Por outro lado, o investimento em mitigação aparece com relação negativa: mais investimento está associado a menores impactos ambientais. Os autores, no entanto, pedem cautela nessa interpretação, porque países mais poluentes também tendem a investir mais em contenção.

Se você é produtor rural, esse debate não é distante. Economia circular no campo significa, na prática, gastar menos com insumos, aproveitar melhor a água e os resíduos da propriedade e reduzir perdas.

O estudo mostra que a transição já começou, mas é desigual. Quem adota práticas circulares sai na frente em eficiência e resistência a crises climáticas e de custos.

O primeiro passo é olhar para a sua propriedade e identificar onde há desperdício. Água que escorre sem aproveitamento, resíduos que viram problema em vez de insumo, adubo comprado quando poderia ser produzido na fazenda.

O segundo é buscar assistência técnica para avaliar práticas como compostagem, biofertilizantes, irrigação de precisão e rotação de culturas.

O terceiro é acompanhar as políticas públicas. O estudo mostra que a economia circular avança onde há regulação e incentivo. Ficar informado ajuda a acessar programas de crédito e apoio.

Nos próximos 30 dias, faça um levantamento simples na sua propriedade: quanto você gasta com fertilizante, quanto de resíduo orgânico é produzido e quanto de água é usada na irrigação. Se houver resíduo orgânico disponível, avalie a compostagem. Se a irrigação for por aspersão ou inundação, verifique a possibilidade de migrar para gotejamento. Pequenas mudanças reduzem custo e aumentam a eficiência. E se você quiser se aprofundar, o estudo completo está disponível na Scientific Reports, com o DOI 10.1038/s41598-026-62007-2.

Fonte: Nature.

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