Suplementação Mineral em Bovinos Leiteiros
1 – INTRODUÇÃO
Atualmente, os sistemas de produção de leite com alta tecnificação apresentam gargalos na reprodução e na qualidade do leite. Longos intervalos de parto, associados ao alto número de serviços por concepção, comprometem a vida produtiva da vaca. Do mesmo modo, leite com alta contagem de células somáticas tem menor remuneração no mercado.
A nutrição adequada tem efeito direto na minimização dos fatores que afetam o desempenho reprodutivo de vacas de alta produção. Uma boa dieta deve suprir a necessidade de energia, conter níveis adequados de proteína e atingir as necessidades de vitaminas e minerais. Qualquer desequilíbrio nesse sentido pode levar a baixos índices de desempenho ou desperdício de dinheiro.
A suplementação mineral em gado leiteiro de média e alta produção tem foco na melhora do desempenho reprodutivo, que consiste na diminuição do intervalo de partos, diminuição dos serviços por concepção e aumento na proporção de vacas prenhes em relação ao rebanho. Outro ponto em que a suplementação mineral exerce efeito é na qualidade do leite, principalmente na contagem de células somáticas (CCS), índice usado para medir o grau de infecção da glândula mamária. As células somáticas presentes na matéria-prima, segundo Fonseca e Santos (2000), ocorrem pelo aumento do número de leucócitos advindos de vacas contaminadas com uma infecção bacteriana nos úberes, denominada “mastite ou mamite”. Como consequência de altos níveis de células somáticas, observam-se prejuízos tanto ao produtor de leite quanto à indústria de laticínios e, segundo Santos (2002), as maiores perdas causadas ao produtor estão relacionadas à redução da produção. Consequentemente, esta redução gera problemas de captação da matéria-prima para a indústria. A suplementação efetiva de vitamina e alguns microminerais (zinco) têm efeito positivo na CCS.

2 – APRESENTAÇÃO DOS MINERAIS
Tanto macro como microminerais podem se apresentar em várias formas. O fósforo pode se apresentar na forma de fosfato bicálcico, fosfato monoamôneo, farinha de ossos ou na forma natural. Em cada uma dessas apresentações existe uma particularidade que beneficia ou não a utilização na nutrição animal.

Qualquer que seja o fosfato utilizado na mistura mineral, o Ministério da Agricultura e do Abastecimento exige que as misturas minerais, prontas para uso, apresentem o máximo de 2.000 ppm (mg/kg) de flúor (F). A legislação brasileira tem como base o parâmetro 1:100 na relação flúor/fósforo.
Os microminerais também se apresentam em várias formas, com a biodisponibilidade variando conforme a apresentação. Os minerais podem se apresentar na forma orgânica ou inorgânica (óxidos, sulfatos ou carbonatos). Quando na forma de óxidos, a maioria dos microminerais apresenta baixa disponibilidade, principalmente se comparados a sulfatos ou carbonatos. Além disso, os microminerais podem se apresentar conjugados a moléculas orgânicas como aminoácidos, peptídeos ou polissacarídeos. Esses minerais, na forma orgânica, apresentam maior disponibilidade quando comparados a aqueles na forma inorgânica.
3 – PRINCIPAIS MINERAIS RELACIONADOS COM A REPRODUÇÃO DE MATRIZES LEITEIRAS
- Fósforo – Macromineral essencial para a reprodução. O fósforo é constituinte do ATP, que é responsável pelos processos metabólicos no organismo. Várias fontes de fósforo estão disponíveis no mercado, porém a fonte mais limpa, com boa solubilidade, é o fosfato bicálcico. Matrizes de alta produção, que recebem dietas com alto teor de grãos (que por sua vez são ricos em fósforo), podem consumir menores quantidades de fósforo por meio do mineral. Porém, é importante considerar que o fósforo presente nos grãos está ligado ao fi tato e o seu aproveitamento é limitado à ação das fitases no rúmen.
- Cobre – Micromineral mais importante na nutrição, depois do fósforo. A ação de microminerais como o cobre ocorre em nível bioquímico. O cobre atua como co-fator enzimático na síntese de hormônios, vitaminas e enzimas. Na forma de óxido, o cobre é pouco disponível para a suplementação, além disso, sofre antagonismo do ferro, enxofre e molibdênio. A utilização, na forma orgânica, tem sido uma das ferramentas para evitar tais interações.
- Zinco – Da mesma forma que o cobre, o zinco atua em nível bioquímico como co-fator enzimático. A deficiência de zinco compromete a concepção na fêmea. O zinco não é estocável e está relacionado com a mobilização hepática de vitamina A. A absorção do zinco segue as mesmas vias da absorção do cobre, existindo até competição por receptores. O zinco ativa o mecanismo de liberação da vitamina A no fígado.
- Selênio – Participa da composição da enzima glutationa peroxidase. Essa enzima está relacionada com o combate aos radicais livres; portanto, tem efeito direto na manutenção de membranas. Assim, está relacionada com a concepção. McDowell (2002) observou efeito positivo da suplementação de selênio na forma orgânica.
- Manganês – Mineral que está correlacionado com a intensidade de demonstração de cio em matrizes. Os requerimentos não são estudados desde a década de 40, por isso os níveis de inclusão precisam ser revistos, principalmente em vacas de leite de alta produção.
- Cobalto – Precursor da vitamina B12, que é essencial para a flora microbiana. A suplementação mineral é efetiva para evitar problemas com deficiência, que leva à anorexia, perda de pelos e anemia.
- Cromo – Micromineral relacionado com o fator de tolerância à glicose, o que determina a efetividade da insulina. Mello (2002) observou aumento do metabolismo basal, melhor conversão alimentar e diminuição na produção de corticoides em bezerros suplementados com cromo orgânico. A efetividade do mineral, na forma orgânica, é maior, considerando-se que o elemento está pouco disponível em alimentos.
Chester-Jones (2004) comparou minerais orgânicos conjugados com aminoácidos e minerais orgânicos conjugados com polissacarídeos. Além disso, incluiu, no tratamento, uma mistura entre sulfatos e minerais orgânicos conjugados a polissacarídeos (2/3 e 1/3, respectivamente) e um tratamento com minerais inorgânicos somente. Os resultados constam da Tabela 2.

Como observado na Tabela 2, houve melhorias em todas as taxas com uso dos minerais em forma orgânica, principalmente com estes na forma de polissacarídeos.
Além dos efeitos no desempenho reprodutivo, a adequada mineralização contribui para melhoria da qualidade do leite, principalmente na redução da contagem de células somáticas.
Em levantamento feito por Harmon (1998), foi observada redução da CCS em intensidades diferentes, com suplementação orgânica envolvendo zinco, cobre e selênio.

Alves (2002), trabalhando com vacas holandesas em regime de free-stall, avaliou o desempenho em relação à contagem de células somáticas (CCS) durante 1 ano, com os resultados mensurados a cada 15 dias. Observou menor contagem em animais suplementados com zinco orgânico.

Neste artigo, conduzido por dois anos na UEPG, observou-se um resultado positivo, com redução significativa na CCS do sétimo para o oitavo mês de tratamento, e que se mostrou como tendência nos meses subsequentes, permanecendo por volta de 200.000/ml, número considerado satisfatório para a saúde da glândula mamária.
O efeito positivo de vitaminas e microelementos na redução da contagem de células somáticas pode ser explicado pelo papel específico de cada um na imunologia da glândula mamária. A vitamina E está relacionada com a estabilidade das membranas, evitando oxidação das mesmas. Neste caso, a vitamina E atua juntamente com o selênio. O selênio tem importância na defesa imune por ser o componente vital da enzima glutationa peroxidase, que é essencial para proteção das células e tecidos (SORDILLO, 1997). A deficiência de vitamina A tem efeito direto na imunossupressão, por aumentar a resposta de glicocorticoides ao estresse. O cobre é constituinte da ceruroplasmina e o zinco é essencial para a integridade da pele, que é a primeira defesa contra infecções.

No mesmo trabalho (UEPG), foram avaliados parâmetros reprodutivos e, de acordo com os resultados, houve sensível melhoria nos índices em relação aos parâmetros médios para gado leiteiro, como dias em aberto de 120, considerado como parâmetro médio para 109, com uso de minerais em forma orgânica.

4 – BALANÇO CÁTION-ANIÔNICO
A mineralização da vaca leiteira no período de transição é um dos gargalos em muitos sistemas de produção. A mineralização, nessa fase, tem como objetivo evitar transtornos pós-parto, como retenção de placenta ou hipocalcemia. A hipocalcemia é, geralmente, considerada como um dos determinantes do desempenho reprodutivo nos rebanhos (Santos, 2003). O uso de dietas aniônicas, no pré-parto, visa à liberação de cálcio ósseo a partir da redução do pH do plasma, evitando a hipocalcemia clínica ou subclínica. Neste caso, a hipocalcemia subclínica está relacionada com a retenção de placenta e menor ingestão de matéria seca, afetando a produção de leite e a reprodução.

5 – FORMAS DE SUPLEMENTAÇÃO
Segundo Aristóteles, 384 – 322 A.C., todos os seres viventes nutrem-se de substâncias idênticas àquelas que compõem seu próprio organismo. Os elementos minerais essenciais aos organismos vivos representam cerca de cinco por cento (5%) do peso vivo de um animal adulto (MacDowell, 1999). Desta forma, um boi de 500 kg tem aproximadamente 25 kg do seu peso constituído por elementos minerais.
A classificação dos minerais, segundo o critério quantitativo, pode ser dividida em macroelementos, microelementos e elementos traços (TEIXEIRA, 2001). Deve-se ressaltar que esta classificação é meramente quantitativa, ou seja, refere-se apenas à concentração do mineral no organismo, desconsiderando, portanto, neste caso, qualquer outro tipo de classificação.

Segundo MacDowell (1999) e Teixeira (2001), os elementos minerais essenciais, denominados de macrominerais, são sete: Cálcio (Ca); Fósforo (P); Potássio (K); Magnésio (Mg); Sódio (Na); Enxofre (S) e Cloro (Cl).
Os elementos minerais essenciais, classificados como microminerais, são dezoito, de acordo com MacDowell (1999). Os microminerais essenciais são os seguintes: Arsênio (As); Boro (Bo); Cádmio (Cd); Cromo (Cr); Cobalto (Co); Cobre (Cu); Flúor (F); Iodo (I); Ferro (Fe); Lítio (Li); Manganês (Mn); Molibdênio (Mo); Níquel (Ni); Selênio (Se); Sílicio (Si); Estanho (Sn); Vanádio (V); Zinco (Zn).
Portanto, atualmente, vinte e cinco (25) elementos minerais são reconhecidos como essenciais à dieta dos animais domésticos. Vale ressaltar que alguns destes elementos foram reconhecidos recentemente, como é o caso do Cromo, tido como essencial na última revisão do National Research Council - NRC, Bovinos de Corte, em 1996. Outros minerais, antes da década de 80, como é o caso do Selênio, eram tidos somente como elementos minerais tóxicos.
O conceito de essencialidade refere-se ao fato de que, sem o elemento mineral, a vida não é possível se estabelecer e perdurar. Na carência ou deficiência de um dado elemento mineral essencial, ocorre uma série de fenômenos negativos, que invariavelmente levam a um desequilíbrio homeostático, sendo, resumidamente, observados os seguintes fenômenos:
- Perda de desempenho produtivo do animal;
- Ocorrências de enfermidades de origem mineral;
- Morte do animal.
A Figura 2 ilustra a oferta de um determinado elemento mineral e seu efeito na produção. Este conceito é valido para todos os elementos minerais e o nutricionista deve estar sempre em busca do nível adequado do mineral na dieta, isto é, do nível ou da faixa de segurança.

A classificação dos minerais também pode ser feita com base em suas funções, como as biológicas, que determinam a sua essencialidade. Teixeira (2001), classifica os elementos minerais como sendo: essenciais, provavelmente essenciais e elementos de função incerta.

Existem, basicamente, dois modos de suplementação mineral. Um, via cocho saleiro, para consumo voluntário; outro, incluso em concentrados, que garante o consumo desejado. O importante é atender à exigência do animal quanto a minerais, sendo esta dependente de vários fatores, como peso do animal, ganho de peso, idade, produção, condição de estresse, entre outros. Para a correta suplementação, devem-se adquirir produtos de empresas idôneas e ver a especificação do produto, em seu rótulo, para destiná-lo a cada categoria animal, pois, para cada uma delas, existe um suplemento mineral específico.
Também é importante salientar a manutenção dos cochos saleiros. Estes, de preferência, devem ser cobertos para proteção contra as chuvas e ter correto dimensionamento (em torno de 5 cm de comprimento por animal).


6 – REGULAMENTAÇÃO DE MISTURAS MINERAIS
De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), alguns requisitos básicos devem ser atendidos para regulamentação das misturas minerais, como se pode observar nas Tabelas seguintes.
A regulamentação, antes referida, é da maior importância, pois assegura a rigorosa inspeção dos produtos (puros ou misturas) e, consequentemente, possibilita aos criadores sua aquisição segura em termos de qualidade.


7 – CONCLUSÕES
A suplementação mineral faz-se necessária para o aumento da saúde e da produção animal. Sempre que houver deficiência mineral na dieta animal e/ou estresse, essas situações exigem o aumento dos requerimentos dietéticos em minerais dos bovinos.

A perfeita suplementação mineral em bovinos de leite contribui, principalmente, para a eficiência reprodutiva e para o controle da contagem de células somáticas. Esse efeito, porém, é aditivo, dependendo da alimentação e manejo para sua concretização.
A dieta aniônica é o método mais efetivo de controle de transtorno no periparto, evitando retenção de placenta, melhorando a ingestão de alimento e a produção de leite.
Neste contexto, os minerais orgânicos são mais eficientes, quando comparados com os minerais inorgânicos, por apresentarem maior absorção, maior capacidade de retenção no organismo e maiores possibilidades de promover bons efeitos na mineralização. Isto termina conferindo aos minerais orgânicos uma melhor relação custo/benefício na prática da suplementação mineral de bovinos leiteiros.
Para correta suplementação mineral dos animais, deve-se fornecer produtos que contenham todos os elementos essenciais ao seu metabolismo.
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Fonte
DE BRITO, Acácio Sânzio; NOBRE, Fernando Viana; FONSECA, José Ronil Rodrigues. Bovinocultura leiteira: informações técnicas e de gestão. Natal - RN: SEBRAE/RN, 2009.