Pecuária

Rhizoctoniose x fusariose x roseliniose do cafeeiro: saiba diferenciar para melhor manejar

Daniel Vilar
Especialista
8 min de leitura
Rhizoctoniose x fusariose x roseliniose do cafeeiro: saiba diferenciar para melhor manejar
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Introdução 

Dentre as commodities produzidas no Brasil, o café tem importância estratégica, uma vez que é base da agricultura familiar em muitas regiões do país. De acordo com a segunda estimativa da safra brasileira de café em 2015, a área plantada será de mais de 1,9 milhões de hectares, que deverão produzir mais de 44 milhões de sacas de café (ACOMPANHAMENTO..., 2015). Do total produzido, mais de 73% advêm de Coffea arabica e o restante de Coffea canephora. 

Rondônia ocupa a quinta posição entre os maiores produtores de café do país, com mais de 1,8 milhões de sacas. Apesar de uma significativa elevação na produtividade por hectare, o estado encontra-se ainda abaixo da média nacional (ACOMPANHAMENTO..., 2015). 

A ocorrência de doenças durante o ciclo da cultura tem sido destaque na redução da produtividade dos cafezais rondonienses nos últimos anos, a despeito da introdução de novas tecnologias. 

Essa ocorrência de doenças tem sido associada ao manejo adotado e às condições edafoclimáticas do Estado de Rondônia. Nesse aspecto o ambiente amazônico constitui-se em um enorme desafio aos agricultores que desejam cultivar o cafeeiro, uma vez que este ambiente se difere significativamente das demais regiões onde o cultivo inicialmente foi estabelecido, como os estados do Sul e Sudeste do Brasil. Na Amazônia, as condições climáticas são, na maior parte do ano, favoráveis à sobrevivência e disseminação dos patógenos, assim como a ocorrência de doenças, como por exemplo as de origem fúngicas ou bacterianas.

Além disso, por se tratar de uma cultura perene, o cafeeiro está sujeito à ocorrência de doenças e à estresses abióticos durante todo o ano, nas mais diferentes condições climáticas. 

Nos últimos anos, os avanços tecnológicos na produção de C. canephora, tem-se traduzido em aumento de produtividade, embora também esta busca por qualidade e produtividade esteja levando a ações que colocam em risco a própria cafeicultura, como a introdução de novos clones, mudas, sementes etc., advindos de outras regiões como Espírito Santo e Paraná, sem os devidos testes para se determinar se os materiais encontram-se adaptados às condições locais de cultivo, tampouco se estes se encontram verdadeiramente livres de patógenos que possam por em risco a cafeicultura no estado. 

Paralelamente, tem-se observado a utilização de lavouras clonais em detrimento de plantios advindos de sementes o que reduz consequentemente, a base genética dos cafezais introduzidos. 

Atualmente, cafeicultores rondonienses de diferentes regiões produtoras têm relatado a ocorrência de “novas doenças”, ou mesmo a ressurgência de doenças consideradas de importância secundária. Dentre estas, vêm ganhando destaque, aquelas relacionadas a patógenos de solo, denominada pelos produtores de “amarelão do cafeeiro” (Figuras, 1, 2 e 3).

Entretanto, há algum tempo, sabe-se que esta doença, na verdade está associada a ocorrência de três diferentes patógenos que comumente manifestam secundariamente sintomas de amarelecimento de plantas jovens e em alguns casos também adultas em produção. 

Neste trabalho, pretende-se demonstrar de forma prática maneiras de diferenciar a ocorrência desses patógenos e, consequentemente, auxiliar produtores e extensionistas a manejar adequadamente as lavouras para evitar ou minimizar os danos provocados por estes patógenos. 

Identificação dos agentes causais do amarelecimento do cafeeiro 

Dentre os patógenos responsáveis por provocar o amarelecimento do cafeeiro Conilon, três são considerados mais importantes:

a) Rhizoctoniose – (Rhizoctonia solani Khun). 

b) Fusariose – Fusarium (F. solani, F. oxysporum, F. moliniforme, F. semitectum, F. equiseti). 

c) Roseliniose – Rosellinia bunodes (Berk. & Br.) Sacc. 

Sintomatologia 

a) Rhizoctoniose

 Nas condições edafoclimáticas das Regiões Sudeste e Sul, a doença caracteriza-se por ser mais importante em viveiros que a campo. Entretanto, na região Amazônica, onde as temperaturas são elevadas e tem-se precipitações mais intensas, e por períodos mais prolongados, a doença costuma se manifestar também a campo podendo reduzir drasticamente a área plantada quando práticas de manejo não forem adotadas. 

A doença costuma se manifestar em viveiros, nas fases “orelha-de-onça” e “palito-de-fósforo”, com o ataque ocorrendo na região do colo da muda, provocando um anelamento de cor escura, levando a muda ao sintoma conhecido como tombamento. A campo, a doença também atinge o colo da planta, na região que fica logo abaixo da superfície do solo, provocando um anelamento de cor escura, com aspecto enegrecido e/ou molhado ou entumescido, que ao ser torcido entre os dedos, normalmente desprende a casca (Figura 4). 

A doença costuma acometer plantas no campo de até 1,5 anos de idade (ZAMBOLIM et al., 2005; ZAMBOLIM et al., 2009). A parte aérea da planta amarelece toda de uma vez de forma rápida, com murcha-severa e queda-de-folhas (Figura 5).

b) Fusariose 

É uma doença pouco estudada na cultura do cafeeiro. Até o presente, sabe-se que tem sido importante em viveiros, onde ocorre perdas decorrentes do ataque de diferentes espécies de Fusarium. O ataque do patógeno ocorre principalmente nas fases de “orelhade-onça” e “palito-de-fósforo”. No campo, a doença normalmente se manifesta em plantas com idade superior a 10 anos, logo após o período de poda (VALE; ZAMBOLIM, 1997; VENTURA et al., 2007; MARCOLAN et al., 2009). Recentemente, a doença foi encontrada em Rondônia, provocando perdas significativas em plantas jovens de áreas de plantio comercial (entre 1 e 2 anos de idade), com incidências que variaram de 10% a 30% em lavouras de C. canephora e até 100% de danos em lavouras de C. arabica. 

Os sintomas da fusariose podem variar conforme o estádio fenológico da planta, condição nutricional e órgão atacado. Estes variam desde amarelecimento, murcha, paralisação do crescimento, morte do topo das plantas, seca de ramos, desfolha até a seca prematura de frutos (Figuras 6 e 7).

É possível observar também o estrangulamento do ramo, que perde a casca, com exposição de lenho, que se torna castanho-escuro. Precede a esse sintoma, o amarelecimento rápido do topo das plantas (Figura 8).

Em cafezais em fase de frutificação, há um amarelecimento das folhas, seguida de seca gradual das mesmas e ramos (VIEIRA JUNIOR et al., 2010). 

O ataque de nematoides pode ser a causa da ocorrência da doença em cafezais adultos. A sinergia de ataque dos dois patógenos pode acelerar a morte da planta (VALE; ZAMBOLIM, 1997; VIEIRA JÚNIOR et al., 2008). 

c) Roseliniose 

Comumente observada em cafezais instalados em áreas previamente ocupadas por florestas, as quais não foram corretamente destocadas, a doença é causada pelo fungo Rosellinia bunodes (Berk. & Br.) Sacc., que se caracteriza pelo ataque ao sistema radicular das plantas. A doença tem sido descrita também em outras espécies de plantas consideradas agronomicamente importantes, nativas e exóticas, como cacaueiro, seringueira e citros (ZAMBOLIM et al., 2005). 

Os sintomas iniciais caracterizam-se pelo amarelecimento e murchamento das plantas, queda das folhas e morte dos ramos (Figura 3). Como descrito anteriormente, trata-se de uma doença do sistema radicular da planta, causando escurecimento das raízes e fácil desprendimento da casca (CARVALHO; CHAULFON, 2000; VENTURA et al., 2007; MARCOLAN et al., 2009; ZAMBOLIM et al., 2009). Nesta região é possível se observar estruturas esbranquiçadas do patógeno, responsáveis pelo crescimento do fungo (Figura 9).

Medidas de manejo do amarelecimento do cafeeiro 

a) Rhizoctoniose 

Em viveiros  

  • Evitar o uso de substrato com alto teor de matéria orgânica, especialmente aqueles coletados em matas.  
  • Esterilizar sacolas, tubetes e bancadas com hipoclorito de sódio a 2%.  
  • Tratar as sementes com fungicidas apropriados, observando as recomendações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), quanto a dosagem e forma de aplicação para a cultura.  
  • Eliminar mudas com sintomas de tombamento ou sacolas com sementes não germinadas.  
  • Pulverizar substratos com fungicidas apropriados (Pencycuron e quitozeno).  
  • Evitar acúmulo de água dentro do viveiro, mantendo a ventilação e luminosidades adequadas. 

Em campo  

  • A doença pode ser controlada fazendo-se aplicações direcionadas de fungicidas à base de Azoxistrobinas, quando a doença ainda se encontra nos estádios iniciais. 

b) Fusariose 

Em viveiro  

  • Uso de mudas sadias, provenientes de viveiros certificados.  
  • O tratamento de sementes com fungicidas protetores e sistêmicos, observando as recomendações do MAPA, quanto a dosagem e forma de aplicação para a cultura.  
  • Pulverizar o substrato com fungicidas antes do semeio ou transplante das mudas, com o intuito de criar uma proteção contra infestação do substrato por novas estruturas do patógeno. 

Em campo 

É importante ressaltar que, por ser um patógeno de solo, uma vez que o fungo infesta uma área, tornase muito difícil sua eliminação. 

  •  Eliminar a planta infectada, no local da infecção, a fim de evitar a movimentação de solo e material infectado dentro da área. Deve-se proceder a queima deste material doente e o posterior enterro.  
  • Evitar o plantio em locais onde há indícios de encharcamento, e também em áreas onde outros plantios de café apresentaram mortalidade de mudas (MARCOLAN et al., 2009). 

c) Roseliniose 

Como não existem produtos especificamente recomendados para o controle da roseliniose, as recomendações técnicas passam pelo uso de medidas preventivas, como evitar plantio de cafeeiros em áreas recém-destocadas; retirar restos de tocos, pedaços de madeira e demais detritos lignificados presentes na lavoura; deve-se eliminar as plantas doentes removendo-se inclusive o sistema radicular da planta doente ou morta; e nas reboleiras da doença aplicar cal virgem, na dosagem de 700 g/m2 (CARVALHO; CHAULFOUN, 2000; VENTURA et al., 2007; MARCOLAN et al., 2009; VIEIRA JÚNIOR et al., 2010). 

As observações em campo devem ser acompanhadas de coleta de material e envio para laboratórios de fitopatologia visando a realização de análises fitopatológicas para confirmação dos agentes causais.

Fonte

ROBERTO, José; JÚNIOR, Vieira; DE, Cléberson; et al. . Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/216349/1/cpafro-18444-cot-402.pdf>.

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