Produção e nutrição de peixes ornamentais
Aproximadamente um bilhão de peixes ornamentais são comercializados anualmente, envolvendo mais de 100 países, compreendendo cerca de 4.000 espécies de água doce e 1.400 espécies marinhas. Os valores alcançados com as vendas no varejo de peixes ornamentais, salários e materiais associados com o aquarismo rendem cerca de 15 bilhões de dólares ao ano. Entretanto, apesar de sua importância econômica, existem poucas informações a respeito dos sistemas de cultivo e nutrição de peixes ornamentais. Atualmente os peixes ornamentais são cultivados utilizando os mesmos princípios básicos da produção de peixes de corte, com algumas adaptações para a despesca. As exigências nutricionais dos peixes ornamentais são basicamente as mesmas dos peixes de corte, acrescidas dos carotenóides necessários para a pigmentação da pele. As exigências nutricionais por alguns nutrientes podem ser maiores para os peixes ornamentais do que para peixes de corte, em função de estarem frequentemente expostos a fatores estressantes relacionados ao manejo dos peixes. O aprimoramento no conhecimento sobre sistemas de cultivo e exigências nutricionais para peixes ornamentais permitirá desenvolver pacotes tecnológicos que possibilitem a criação sustentável de peixes ornamentais e o aumento da competitividade do setor em relação ao mercado internacional, bem como diminuam a pesca extrativista e contribuam para a preservação de espécies nativas.

INTRODUÇÃO
A produção de organismos aquáticos ornamentais, em especial de peixes, tem se destacado no cenário mundial, em função da possibilidade da utilização de pequenas áreas para sua realização, o que representa menores custos com investimentos para instalações (Zuanon, 2007). O menor intervalo de tempo de cada ciclo de produção possibilita maior produção anual e, consequentemente, maior rentabilidade da produção.
A popularidade e os altos valores alcançados pelos peixes têm alavancado o setor de peixes ornamentais, o qual apresenta crescimento anual médio de 14% desde 1985 (Bartley, 2000), rendendo aproximadamente 703 milhões de dólares ao ano, apenas com as exportações de peixes (FAO, 2007). Se considerados os valores de vendas no varejo, materiais associados, salários e produtos não-exportados, os valores do setor podem chegar a 15 bilhões de dólares anuais (Bartlet, 2000). Entretanto, a comercialização de peixes ornamentais, principalmente no Brasil, ainda necessita de maior organização por meio da criação de cooperativas, associações ou condomínios de produtores, aumentando assim a margem de lucros da criação.
Praticamente toda a exportação de peixes ornamentais da América do Sul é proveniente da coleta na natureza (Crampton, 1999; Junk, 1984). No Brasil, a maioria das espécies de peixes ornamentais é originária da região Amazônica (Pelicice & Agostinho, 2005), onde se concentra a maior parte da ictiofauna brasileira. Entretanto, nos últimos anos, a exportação tem declinado (Secex, 2000) em função das pressões internacionais pelo fim da pesca predatória, uma vez que estudos têm demonstrado que os locais com maior pressão de pesca (na Amazônia Peruana) têm apresentado redução na diversidade de espécies e abundância de peixes ornamentais (Gerstner et al., 2006).
A produção de peixes ornamentais, quando comparada à coleta na natureza, apresenta características positivas, como adaptação dos peixes às condições de cativeiro, controle da produção e estabilidade de preços (Tlusty, 2002), além de minimizar o impacto da pesca sobre espécies ameaçadas de extinção. Entretanto, é preciso o desenvolvimento de tecnologias de cultivo sustentáveis sob os aspectos econômico, social e ambiental. Sob o aspecto econômico, é necessário o estabelecimento dos índices zootécnicos e o desenvolvimento de dietas que atendam às exigências nutricionais para as diversas espécies de peixes ornamentais. Além disso, é essencial a formação de recursos humanos que possam atuar na assistência técnica dos produtores. Quanto ao aspecto social, é preciso envolver os ribeirinhos, que atuam principalmente na pesca extrativista, no cultivo e na comercialização desses animais. Acrescido a isso, é fundamental estabelecer sistemas de apoio aos produtores por meio de órgãos governamentais e não-governamentais para o financiamento da implantação da criação de peixes ornamentais, especialmente na região amazônica. Sob o aspecto ambiental, é imprescindível o desenvolvimento de sistemas de cultivo que minimizem a eutrofização da água de cultivo e dos efluentes da criação. Para tanto, é necessário que as rações sejam de boa palatabilidade, alta digestibilidade e adequadas quanto à estrutura física para as diferentes espécies, nas diferentes fases de desenvolvimento.

Produção de peixes ornamentais
O sucesso da produção de peixes, seja ornamentais ou de corte, depende principalmente da qualidade genética, nutrição, alimentação e qualidade da água de cultivo (Chen et al., 1993).
Até o momento, no Brasil, a compra de reprodutores é dependente de linhagens desenvolvidas fora do País, mesmo
quando se trata das espécies nativas (Morais, 2005). Portanto, é fundamental desenvolver pesquisas para o desenvolvimento de linhagens melhoradas geneticamente, uma vez que as características procuradas pelo mercado consumidor são padrão e intensidade de cor, escamas iridescentes e formato do corpo e das nadadeiras (Monvises et al., 2009). Entretanto, características como rusticidade e alto desempenho produtivo e reprodutivo também devem ser selecionadas.
Qualidade de água e alimentação são fatores interdependentes e diretamente relacionados com o sistema de produção e da ração utilizada.
Os sistemas de produção de peixes ornamentais seguem os mesmos princípios básicos dos sistemas de produção de peixes de corte, ou seja, qualidade e quantidade de água, densidade de estocagem e manejo alimentar. Porém, ocorrem algumas modificações nos sistemas de produção de peixes ornamentais, principalmente quando se refere ao tamanho e à profundidade dos tanques e viveiros. As dimensões dos tanques e viveiros são definidas em função da despesca, por esta ocorrer de forma mais frequente, necessitando de rapidez e eficiência. O sistema extensivo representa uma exceção, pois não se enquadra na produção de peixes ornamentais, em função principalmente da dificuldade na coleta em grandes açudes e/ou reservatórios. Dessa forma, os peixes ornamentais são produzidos nos sistemas semi- intensivo e intensivo. A escolha do sistema de produção é decisiva para lucratividade do empreendimento, uma vez que desta dependerão a escolha das espécies a serem criadas, a densidade de estocagem e o manejo alimentar a ser adotado (Salaro & Souto, 2003).
Normalmente, na produção de peixes ornamentais, os tanques e viveiros são de pequeno volume, podendo ser escavados ou construídos acima da superfície do solo, de alvenaria ou até mesmo estruturas cobertas por lona plástica. No sistema semi-intensivo, a utilização de fertilizantes orgânicos e químicos fornece nutrientes para a produção de alimentos vivos (fitoplâncton e zooplâncton), o que melhora o desempenho produtivo e reprodutivo (Fernando et al., 1991; Kruger et al., 2001; Ribeiro et al., 2008) e a pigmentação da pele dos peixes (Mandal et al., 2010). Porém, como a criação de peixes ornamentais é feita principalmente em tanques e viveiros de pequeno volume, o declínio na qualidade da água pode ocorrer rapidamente, expondo os peixes a condições estressantes. O estresse decorrente da piora da qualidade da água pode reduzir o crescimento e a saúde dos animais, bem como a coloração dos peixes, ponto chave dos lucros desta atividade.
A utilização de viveiros de pequeno volume ainda dificulta a realização de re-adubações, em função das rápidas flutuações na qualidade da água (pH, amônia, alcalinidade etc) e consequente diminuição na disponibilidade de alimentos vivos. Para se obter a continuidade da produção de fito e zooplâncton, é necessária a preparação de outro viveiro, para onde os peixes são transferidos. Esse processo é chamado pelos piscicultores de “tombar o tanque”. Durante esse procedimento, também são realizadas a triagem dos peixes, separação dos alevinos das matrizes e classificação dos jovens por tamanho. Este manejo evita o canibalismo e aumenta a uniformidade dos lotes (Zuanon, 2007).
Neste sistema, a principal fonte alimentar é oriunda da produção primária (fertilização dos tanques), e a alimentação é complementada com ração comercial para peixes de corte. Alguns produtores utilizam ainda farelos ou farinhas na complementação da alimentação dos peixes. Porém, nesses casos, os animais não recebem uma dieta balanceada, o que pode levar a perdas decorrentes da deficiência de alguns nutrientes e até mesmo à eutrofização do ambiente pelo excesso de alimentação.
O sistema semi-intensivo apresenta rendimento variável em função de diferentes taxas de sobrevivência dos alevinos. O menor controle da qualidade da água e da quantidade e qualidade de alimento pode predispor os peixes ao estresse, a doenças e à maior mortalidade.
O sistema intensivo pode ser caracterizado pelo maior controle da produção, principalmente no que se refere à qualidade de água e, consequentemente, à densidade de estocagem e qualidade da ração a ser utilizada. Os tanques de produção são protegidos por tela contra predadores, principalmente por aves. Em regiões com oscilações térmicas, os tanques são cobertos com estufas para manutenção da temperatura dentro de limites adequados, o que permite a obtenção de alevinos durante o ano todo, maior número de lotes por ano e, consequentemente, maior lucratividade.
Neste sistema ocorre renovação da água, geralmente acima de 10% do volume total do tanque por dia, o que permite maior adensamento dos peixes. Os peixes podem ser cultivados em sistemas com renovação contínua ou recirculação da água. Nos sistemas de recirculação de água, é necessária a utilização de filtros mecânicos, biológicos e ultravioleta. Os sistemas de recirculação de água necessitam de menos de 10% da água e da área utilizada pelo sistema semi-intensivo para produção de determinada quantidade de peixes, permitindo a utilização de áreas urbanas para criação, e consequente diminuição dos custos com o transporte dos peixes (Halachmi, 2006). No Brasil, a utilização de sistemas de recirculação ainda é incipiente e restrita à criação de espécies de alto valor de mercado como o acará-disco. Entretanto, esse sistema é comumente utilizado em países com menor disponibilidade de água e terras adequadas para construção de viveiros, como Israel (Halachmi, 2006).
A alimentação dos peixes é feita com rações comerciais, exceto na fase larval, onde são fornecidos alimentos vivos, porém a produção do alimento vivo ocorre em locais distintos da criação dos peixes, diminuindo riscos de deterioração da qualidade da água com adubações e fertilizações. Os alimentos vivos mais utilizados são: Paramecium sp (infusório), Rotifera (rotífera), Anguilula silusiae (microverme), náuplios de Daphnia sp (dáfinia) e principalmente náuplios de Artemia salina (artêmia).
Neste sistema, os peixes são separados por fase de desenvolvimento, as matrizes são acasaladas em aquários de vidro, amianto, PVC ou lona plástica, e os ovos podem ser incubados natural ou artificialmente, dependendo da espécie, o que permite a sincronização das desovas por meio de indução hormonal ou por práticas de manejo. O maior controle da reprodução permite o planejamento do uso das instalações e a produção de lotes mais uniformes. Geralmente quando se adota esse sistema, o produtor também define uma ou poucas espécies para a produção e em função do alto valor de mercado.
Atualmente, em função da pouca disponibilidade de informações a respeito das exigências nutricionais dos peixes ornamentais, neste sistema ainda é comum o fornecimento suplementar de alimentos vivos. Além disso, as rações disponíveis no mercado são específicas para peixes de corte, as quais, em sua maioria, não atendem principalmente às exigências por carotenoides. Assim, no Brasil, a maior parte da produção de peixes ornamentais é realizada em sistema semi-intensivo.
Dentre os poucos trabalhos avaliando sistemas de produção de peixes ornamentais, Ribeiro et al. (2008) observaram melhor desempenho produtivo para o acará- bandeira (Pterophyllum scalare) criado em sistema semi- intensivo em relação ao sistema intensivo. Os autores argumentam que a presença de alimento vivo pode ter favorecido o crescimento dos peixes criados em sistema semi-intensivo.
É importante salientar que ambos os sistemas de produção de peixes ornamentais apresentam vantagens e desvantagens do ponto de vista econômico, técnico, social e ambiental. A intensificação dos processos aumenta a produção por unidade de área e traz, em curto prazo, maiores ganhos econômicos, porém há necessidade de maiores investimentos com as instalações e a alimentação dos peixes.
Alimentação e nutrição de peixes ornamentais
A grande questão que paira quando se fala em alimentação e nutrição de peixes ornamentais seria não errar, uma vez que ainda não se conhecem as exigências nutricionais para a maioria das espécies de peixes ornamentais. Portanto, parte-se do principio que esses animais necessitam de manejos alimentares e nutricionais semelhantes aos dos peixes de corte. Assim, por extrapolação dos resultados obtidos com peixes de corte, é possível estimar os índices necessários para a alimentação e nutrição de peixes ornamentais.
O manejo alimentar adotado garante a expressão do potencial de crescimento e reprodutivo dos animais. A adequada alimentação permite que os mesmos suportem condições adversas do meio e resistam ao manuseio de captura e transporte, minimizando as respostas de estresse, a instalação de doenças e as perdas por mortalidade (Salaro et al., 2003). Assim, para manter os peixes saudáveis, é preciso entender os aspectos relacionados à qualidade e quantidade do alimento, assim como a frequência de administração do mesmo. Portanto, é de fundamental importância a realização de estudos das exigências nutricionais das espécies ornamentais. Uma vez estabelecidas as exigências nutricionais das espécies de peixes ornamentais, torna-se mais fácil definir a estratégia nutricional e o manejo alimentar de determinada espécie.
Atualmente, a alimentação de peixes ornamentais em produções comerciais é feita quase que exclusivamente com rações para peixes de corte, uma vez que as rações comercializadas para peixes ornamentais são destinadas ao comércio varejista, para uso em aquário, com preços de 10 a 60 vezes maior que as rações para peixes de corte (Tamaru & Ako, 2000). Além do baixo suprimento de carotenoides, as rações destinadas aos peixes de corte também apresentam incompatibilidade entre composição química e estrutura física, quando utilizadas para alimentação de peixes ornamentais.
As rações que apresentam péletes de tamanho compatível com a abertura da boca dos peixes ornamentais, geralmente, apresentam valores de proteína acima do indicado para a maioria das fases de desenvolvimento dos peixes ornamentais, exceto para a fase larval. A proteína consumida em excesso pode causar redução no crescimento (James & Sampath, 2003), pois apenas parte da proteína da dieta é utilizada para síntese proteica, e os aminoácidos excedentes serão deaminados. O processo de deaminação de aminoácidos resulta em maior gasto energético (Jauncey, 1982; James & Sampath, 2003) e consequente redução no crescimento. Além disso, o aumento da excreção de amônia
na água através das brânquias pode chegar a níveis críticos, intoxicando e causado estresse nos animais (Wu, 1995). Em contrapartida, as rações com composição química mais próxima das exigências nutricionais dos peixes ornamentais nas fases de crescimento e terminação não apresentam tamanho de pélete adequado, havendo a necessidade de triturar e peneirar a ração para adequação ao tamanho da boda dos peixes. Assim, apenas os grânulos médios são aproveitados para a alimentação dos juvenis e peixes em terminação e o pó decorrente desse processo não é aproveitado, resultando em desperdício e diminuição da margem de lucro da criação.
As exigências nutricionais dos peixes ornamentais são basicamente as mesmas dos peixes de corte (energia, proteína e aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais), acrescido dos carotenoides necessários para a pigmentação da pele. Entretanto, em função das peculiaridades de seu comércio, os peixes ornamentais estão mais expostos a condições estressantes que os de corte. Para a comercialização de peixes ornamentais, são necessários manejos semanais de captura, seguidos dos procedimentos de embalagem, transporte e alterações na qualidade de água decorrente de tais procedimentos (Sales & Jansssens, 2003). Portanto, as exigências nutricionais por alguns nutrientes podem ser maiores para os peixes ornamentais, especialmente para ácidos graxos, vitaminas e minerais. Entretanto, deve-se atribuir igual importância ao atendimento das exigências nutricionais por energia, proteína, lipídeos, vitaminas e minerais, essenciais para o crescimento e desenvolvimento normais dos peixes ornamentais.
Ácidos graxos
Os lipídeos da dieta são importantes fontes de energia e ácidos graxos essenciais das séries n-3 e n-6, os quais são necessários para o crescimento e desenvolvimento normais dos peixes, além da participação da absorção de vitaminas lipossolúveis.
Assim como outros vertebrados, os peixes não conseguem sintetizar os ácidos graxos -linolênico (18:3n-3) e linoleico (18:2n-6). Portanto, esses ácidos graxos são essenciais e devem ser fornecidos na dieta. Esses ácidos graxos podem ser dessaturados e elongados para formação de ácidos graxos polinsaturados de 20 e 22 carbonos. O ácido -linolênico é precursor dos ácidos eicosapentaenoico (20:5n-3) e docosaexaenoico (22:6n-3), enquanto o ácido linoleico é precursor do ácido araquidônico (20:4n-6). O grau em que os animais podem realizar essas conversões é dependente da atividade das enzimas elongases e dessaturases, que, por sua vez, dependem do suprimento desses ácidos graxos em suas dietas naturais (Tocher, 2003). Os peixes de água doce, em geral, têm maior capacidade para realizar essas conversões que os peixes marinhos (Sargent et al., 2002). Portanto, os ácidos linoleico e -linolênico podem satisfazer as exigências nutricionais de peixes de água doce, porém os peixes marinhos também necessitam dos ácidos eicosapentaenoico e docosaexaenoico (Watanabe, 1982; Kanazawa, 1985).
Os ácidos araquidônico e eicosapentaenoico são substratos das enzimas cicloxigenases e lipoxigenases para síntese de um conjunto de substâncias parácrinas (hormônios de ação local), coletivamente chamados de eicosanoides. Essas substâncias, produzidas em praticamente todas as células, participam de diversas funções fisiológicas como a coagulação sanguínea, respostas do sistema imune, respostas inflamatórias, funções renais, cardíacas e reprodutivas. As enzimas cicloxigenases e lipoxigenases apresentam maior afinidade pelo ácido araquidônico do que pelo ácido eicosapentaenoico, produzindo eicosanoides com maior atividade biológica. Assim, o consumo excessivo de ácidos graxos da série n-6 pode levar a problemas cardiovasculares e inflamatórios (Tocher, 2003). Portanto, é preciso fornecer os ácidos graxos das séries n-3 e n-6 em proporções adequadas em suas dietas para evitar consequências patológicas relacionadas com a formação excessiva de eicosanoides com alta atividade biológica.
A determinação da exata exigência nutricional requer que consideremos não só a quantidade absoluta, como também a relativa de cada ácido graxo na dieta dos peixes, assim como a capacidade de cada espécie metabolizar esses ácidos graxos (Sargent et al., 2002).
Poucos são os estudos sobre exigências nutricionais e metabolismo de ácidos graxos e processos relacionados com respostas inflamatórias e atividade do sistema imune de peixes ornamentais.
Os principais relatos de estudos avaliando fontes e níveis de inclusão de óleos em dietas para peixes ornamentais estão apresentados na Tabela 1. Apesar da importância desses trabalhos, ainda são necessários estudos avaliando o efeito de dietas com diferentes perfis de ácidos graxos, na prevenção do estresse e atividade do sistema imunológico de peixes ornamentais, uma vez que esses ácidos graxos estão diretamente envolvidos na prevenção do estresse causado pelo constante manejo dos animais.
Vitaminas
As vitaminas são essenciais para os peixes em função de sua participação em processos relacionados à ingestão de alimentos, ao crescimento, à reprodução, formação de células sanguíneas, repostas de estresse, atividade do sistema imune e secreção de muco. Além disso, atuam como cofatores de enzimas, como antioxidantes e componentes estruturais de fosfolipídios.

Dietas deficientes em vitaminas podem causar deformações no esqueleto, perda de apetite, crescimento reduzido, hemorragias, convulsões, anemia, edema, exoftalmia, degeneração da retina a aumento na mortalidade, entre outros (Halver, 2002).
Existem poucas evidências de hipervitaminoses para as vitaminas hidrossolúveis, uma vez que esses compostos são rapidamente metabolizados e excretados quando a ingestão excede a capacidade de armazenamento do fígado (Halver, 2002). Entretanto, o excesso de vitaminas lipossolúveis na dieta pode levar a condições tóxicas (NRC, 1993). Os sintomas relacionados com hipervitaminose A e D podem ser confundidos com os sintomas de deficiência dessas vitaminas, enquanto os sintomas de hipervitaminose E e K são mais discretos. É comum a ingestão excessiva de vitaminas lipossolúveis em peixes de corte, especialmente os carnívoros, que são alimentados com dietas contendo altos níveis de óleo de peixes, ricos nessas vitaminas (Halver, 2002).
As exigências por vitaminas são afetadas pelo tamanho, idade, taxa de crescimento, bem como vários fatores ambientais e inter-relações entre nutrientes (NRC, 1993). Atualmente são conhecidas apenas exigências por vitamina C para poucas espécies de peixes ornamentais (Tabela 2).

Durante a avaliação das exigências nutricionais por vitaminas envolvidas com as repostas de estresse (vitamina C) e com a atividade do sistema imune (vitaminas C, E, A e ácido fólico) dos peixes ornamentais, também é preciso avaliar os parâmetros hematológicos relacionados com essas funções, em função da frequente exposição desses animais a fatores estressantes durante todo o manejo dos peixes.
Minerais
As funções dos minerais nos peixes são semelhantes às suas funções nos animais terrestres, participando da formação do esqueleto e regulação do equilíbrio ácido- base, osmótico e iônico. Também são responsáveis pela excitabilidade das membranas celulares de neurônios e músculos, importantes componentes de enzimas e hormônios, além de participarem da ativação de enzimas.
Os peixes também podem absorver alguns minerais do meio aquático (NRC, 1993) através das brânquias e da pele, reduzindo as exigências nutricionais. Atualmente são conhecidas apenas as exigências nutricionais por alguns minerais para poucos peixes ornamentais (Tabela 3).

A possibilidade de absorção de minerais da água através das brânquias e da pele dificulta a determinação das quantidades exigidas na dieta de peixes. Além disso, muitos elementos traço são exigidos em quantidades tão pequenas que dificultam a formulação de dietas experimentais com baixos níveis desses minerais (Lall, 2002).
É importante salientar o papel dos elementos inorgânicos sobre as funções do sistema imune, prevenção de doenças e reprodução de peixes, evidenciando a necessidade de estudos com peixes ornamentais nesse contexto.
Carotenoides
Carotenoides são substancias lipossolúveis que apresentam importante participação na pigmentação da pele dos peixes e também atuam como antioxidantes, como provitamina A, na proteção hepática e na melhoria do crescimento e reprodução. Os carotenoides ainda participam em respostas de estresse e atividade do sistema imune.
Os peixes, assim como outros animais, não têm capacidade de síntese de carotenoides e, assim, precisam ser supridos via dieta. Portanto, dietas deficientes em carotenoides causam diminuição da pigmentação da pele e consequente diminuição do valor de mercado dos peixes ornamentais.
Os carotenoides são sintetizados por algumas plantas, algas e microganismos. As fontes naturais de carotenoides mais utilizadas em rações para peixes são farinha de resíduo de crustáceos, farinha de Krill, Spirulina, flor de malmequer (Tagetes erectus), milho, glúten de milho, pimentas vermelhas e algumas leveduras. Os produtos sintéticos formulados à base de astaxantaina e cantaxantina são os mais comuns.
Além da importância para o valor de mercado dos peixes ornamentais, a pigmentação da pele também é importante como sinal de aptidão (fitness) para o acasalamento, como relatado por Clotfelter et al. (2007), que observaram preferência de fêmeas de Betta splendens para o acasalamento com machos vermelhos em relação
aos azuis. A pigmentação da pele também atua como sinalização durante interações sociais como agressão e submissão entre os peixes.
Dentre os fatores que influenciam a pigmentação da pele de peixes, destacam-se a quantidade de pigmentos na ração, o tipo (estrutura da molécula), a forma, estabilidade e disponibilidade do pigmento. O tempo de fornecimento da dieta suplementada com carotenoides também influencia a eficiência de pigmentação (Meyers & Latscha, 1997).
Os carotenoides são sensíveis à luz, calor, oxigênio, oxidantes, enzimas, ácidos e bases. Em rações, os carotenoides podem ser extremamente instáveis e, portanto, seu efeito pigmentante pode ser reduzido em função da composição, do tipo de processamento e das condições de armazenamento das rações (Meyers & Latscha, 1997).
Na maioria dos estudos em que os autores avaliaram fontes e níveis de inclusão de carotenoides em dietas para peixes ornamentais, a astaxantina foi o pigmento mais eficiente na pigmentação da pele (Tabela 4). Entretanto, em função do alto custo da astaxantina sintética, é preciso avaliar diferentes fontes naturais de carotenoides como substitutos da astaxantina sintética.

Mukherjee et al. (2009), avaliando diferentes níveis de inclusão de açafrão em dietas para Poecilia reticulata, observaram efeito positivo sobre a taxa de crescimento específico, taxa de eficiência alimentar e coloração da cauda. Lee et al. (2010), avaliado a suplementação de páprica (Capsicum annuum) em dietas para Zacco platypus e Hancz et al. (2003) para Cyprinus carpio e Carassius auratus, observaram aumento na coloração vermelha dos peixes. Porém, nos peixes que consumiram as dietas com níveis mais altos de páprica, os autores observaram redução no crescimento e no consumo de ração pelos peixes. Entretanto, Kop et al. (2010), avaliando a suplementação de cenoura ou páprica como fontes naturais de carotenoides em dietas para Herus severus (50 mg de pigmentos totais/kg), observaram aumento no conteúdo de carotenoides nos peixes, sem efeitos significativos no crescimento e na eficiência alimentar.
Como os carotenoides também estão relacionados com as respostas de estresse e atividade do sistema imune, em peixes alimentados com dietas deficientes em carotenoides, pode ocorrer comprometimento entre pigmentação da pele e capacidade imunológica dos peixes (Clotfelter et al., 2007).
Dharmaraj & Dhevendaran (2011) avaliaram a recuperação da coloração de fêmeas de Xiphophorus helleri submetidas a estresse (por luz solar – seis horas/dia durante quatro dias, ou hipoclorito de cálcio – 0,01 g) alimentadas com dietas com carotenoides microbianos (Streptomyces sp.). Os referidos autores observaram que a exposição ao estresse reduziu a pigmentação e que o fornecimento de carotenoides microbianos na dieta acelerou a recuperação dos pigmentos da pele dos peixes. Portanto, nos estudos de avaliação de fontes e níveis de inclusão de carotenoides, é preciso avaliar também as respostas de estresse e atividade do sistema imune dos peixes ornamentais.
Considerações Finais
O limitado conhecimento sobre diversos aspectos da produção e nutrição de peixes ornamentais poderia ser considerado como entrave na produção. Entretanto, o diagnóstico dos elos fracos da cadeia produtiva pode ser considerado como oportunidade para alavancar o crescimento do setor.
O aprimoramento no conhecimento sobre sistemas de cultivo, exigências nutricionais, eficiência de utilização dos nutrientes e processamento de rações para peixes ornamentais permitirá diminuir a dependência do fornecimento de alimentos vivos e, assim, ampliar a utilização de sistemas intensivos de criação. Tais conhecimentos permitirão desenvolver pacotes tecnológicos que possibilitem a criação sustentável de peixes ornamentais sob os aspectos econômico, social e ambiental, para aumentar a competitividade do setor produtivo em relação ao mercado internacional, bem como diminuir a pesca extrativista e contribuir com a preservação de espécies nativas.
Diferentemente do que tem sido discutido para peixes de corte no estabelecimento de espécies prioritárias para o desenvolvimento de pacotes tecnológicos, para peixes ornamentais é necessário o desenvolvimento de pacotes tecnológicos para várias espécies, uma vez que o comércio de peixes ornamentais é realizado com base na diversidade de espécies.
É necessária a integração entre pesquisadores, produtores, fabricantes de rações, e profissionais que atuam nos órgãos de fomento à pesquisa e ambientais, otimizando os esforços para o desenvolvimento de pacotes tecnológicos e a aceleração do desenvolvimento do setor de produção de organismos aquáticos ornamentais. Desse modo, o Brasil poderá ocupar o espaço merecido no mercado internacional de peixes ornamentais.

Fonte
ZUANON, Jener Alexandre Sampaio; SALARO, Ana Lúcia; FURUYA, Wilson Massamitu. Produção e nutrição de peixes ornamentais. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 40, n. 1, p. 165-174, 2011.