Preparo do Solo e Tratos Culturais do Maracujazeiro
Introdução
O maracujazeiro é uma planta exigente em fertilidade do solo, porque apresenta crescimento vigoroso e com grande produção de frutos e devido a isso é uma planta que exige um suprimento adequado de nutrientes, sendo o nitrogênio (N) e o potássio (K) os nutrientes mais exportados pela colheita (HAAG et al., 1973).
Para isso se faz necessário uma correção adequada da acidez e fertilidade do solo, além de um sistema de irrigação adequado.
Para uma melhor condução do pomar de maracujazeiro, além de uma adequada correção da acidez e fertilidade do solo, se faz necessário, a adoção de práticas que direcionem as plantas para uma maior produção de frutos de qualidade.
Dentre essas práticas se destacam a escolha de um espaçamento adequado, abertura de covas e podas. Todas essas práticas são realizadas levando em consideração as características da região produtora.
A cultura do maracujazeiro apesenta um desempenho diferenciado com o uso da poda (HAFLE et al., 2009) e esse desempenho pode variar de um ano produtivo para outro (HAFLE et al., 2012).
Albuquerque et al. (2009) constataram que plantas podadas, por emitirem novos ramos, produzem uma maior quantidade de fruto por área.
A escolha criteriosa e sistemática das práticas de cultivo, certamente levam a uma maior produtividade e a obtenção de frutos de melhor qualidade.
Além da produtividade, fator mais importante no cultivo do maracujazeiro, a escolha correta dos tratos culturais pode aumentar a longevidade do pomar, que também pode resultar em economia e maior produção e rentabilidade para o fruticultor.
Dentro deste contexto, esse documento busca relatar de forma sucinta algumas práticas indispensáveis no cultivo do maracujazeiro.
Correção de acidez e fertilidade
O maracujazeiro requer solos leves como os areno-argilosos, profundos, com pH entre 5 e 6,6 e solos bem drenados pois quando não utilizado porta-enxertos resistentes, a mesma apresenta grande susceptibilidade a podridões de raízes.
Em termos de necessidades nutricionais o maracujazeiro apresenta maior demanda de nutrientes a partir do início do florescimento (BORGES e LIMA, 2009).
O maracujazeiro apresenta uma ordem crescente de extração de nutrientes do solo, sendo:
Macronutrientes: N > K > Ca > S > P > Mg
Micronutrientes: Mn > Fe > Zn > B > Cu
Para atender as necessidades nutricionais do maracujazeiro é necessário determinar os teores de nutrientes do solo. A correção da acidez e da fertilidade do solo devem ser realizadas de acordo com a análise de solo.
Logo após a escolha da área para plantio, devem ser realizadas as amostragens do solo para análise química, coletadas nas profundidades de 0-20 cm e de 20-40 cm. A quantidade de amostras a serem tomadas irá variar de acordo com a homogeneidade da área a ser cultivada, o ideal é a confecção de mapas de variabilidade e condutividade elétrica do solo.
O corretivo deve ser incorporado em toda área, através de uma aração e de uma gradagem e, caso não seja possível a incorporação em área total, é necessário a incorporação na linha do plantio, aplicando-se o corretivo em sulcos. Quando for recomendada a correção, deve ser feita preferencialmente com a utilização de calcário dolomítico que contém Ca e Mg.
A utilização de adubos orgânicos é uma prática utilizada para manter a produtividade da cultura e que exerce efeitos benéficos nas propriedades físicas, químicas e principalmente biológicas do solo.
Segundo Primavesi (1988), a matéria orgânica como fonte de adubação do solo fornece substâncias intermediárias em sua decomposição, que podem ser absorvidas pelas plantas, aumentando o seu crescimento.
Outra informação que reforça a importância das adubações orgânicas na qualidade dos cultivos agrícolas é o aumento na Capacidade de Troca Catiônica (CTC), da agregação de substâncias de crescimento, além dos minerais adicionados pelo esterco ou resíduo vegetal.
As quantidades a serem aplicadas podem variar conforme o tipo de adubo a ser aplicado, o tipo de solo e a fertilidade do solo. Podem ser utilizados esterco de curral, esterco de galinha (cama de frango), entre outros.
Deve-se dar preferência a compostos orgânicos disponíveis na região ou na propriedade, viabilizando economicamente o transporte até o pomar.
Espaçamento, abertura de covas e tutoramento
O espaçamento entre plantas pode variar de 1,5 m a 5 m, sendo que há uma tendência atual dos produtores utilizarem espaçamentos mais reduzidos, resultando assim, em plantios mais adensados.
Esta redução é para concentrar a produção no primeiro ano e fechar mais rapidamente o pomar. Já o espaçamento entre fileiras pode variar de 1,5 a 3 metros, dependendo do porte das máquinas e equipamentos a serem utilizados nos tratos culturais e da utilização ou não de cultivos intercalares.
As covas devem ser feitas com dimensões de 40 cm de largura, de comprimento e de profundidade. As covas podem ser feitas manualmente ou com auxílio de uma perfuratriz mecânica. A terra retirada na abertura da cova deve ser separada nas partes inferior e superior.
A parte superior deve ser colocada no fundo da cova e a parte inferior deve ser colocada na parte superior da cova após misturada com adubo orgânico (esterco) e uma formulação química com macro e micronutrientes baseada na análise de solo.
No momento do plantio, deve-se abrir apenas uma pequena cova sufi ciente para que seja colocada a muda. Deve-se ter o cuidado para que a região do coleto da planta não fique abaixo do nível do solo após o plantio.
Como o maracujá é uma planta escandente, para o estabelecimento do pomar vai ser necessário algum tipo de suporte para o desenvolvimento das plantas. Em pomares comerciais o sistema mais utilizado é o da espaldeira, embora o cultivo em latada também possa ser utilizado (RUGGIERO et al. 1996) (Figura 1).

O sistema de espaldeiramento pode ser feito utilizando madeira de eucalipto tratada. Os esticadores devem ter de 14 a 16 cm de diâmetro; as estacas intermediárias de 6 a 8 cm. O arame galvanizado nº12 deve ficar de 1,8 a 2,0 metros de altura em relação ao solo.
A distância mínima entre mourões deve ser de 30 metros e entre as estacas deve ser de 5 metros. Os mourões devem ser fincados a uma profundidade de 0,7 a 1,0 metro.
Podas
As podas na cultura do maracujazeiro apresentam grande importância para a formação da planta e também para todo o ciclo produtivo. Quando realizada no início do cultivo, a poda tem por função de conduzir a planta de acordo com o sistema de condução utilizado (COELHO et al., 2010).
Quando a poda é realizada nos ramos produtivos tem a função de melhorar as condições fitossanitárias, aumentar a vida útil do pomar (ALMEIDA, 2012), e principalmente tem a função de prepara a estrutura da planta para melhorar as características produtivas como qualidade de fruto e produtividade (HAFLE et al., 2012).
As podas de formação do maracujazeiro, principalmente no sistema de espaldeira são práticas muito importantes no manejo da cultura. Logo após o plantio, as mudas do maracujazeiro podem emitir várias brotações laterais que precisam ser removidas a cada 15 dias, deixando apenas a guia principal, a qual deve ser conduzida por um barbante de algodão ou haste de madeira até o fio de arame superior na espaldeira ou latada.
Chegando ao fio de arame superior, a ponta da guia deve ser cortada para emitir os ramos secundários que devem ser conduzidas até encontrarem os ramos secundários das plantas vizinhas.
Nesse momento, os ramos secundários são podados novamente para formar as ramificações terciárias, essas, que são responsáveis pela grande parte da produção de flores e frutos. A Figura 2 ilustra os ramos primários, secundários e terciários de uma planta de maracujá conduzida em espaldeira.

Os ramos terciários não devem atingirem o solo, de modo que devem ser podados a aproximadamente 30 cm do solo. Esta poda é chamada ‘poda da saia do maracujá’ e serve para evitar o contato dos ramos com o solo e também para estimular a emissão de ramos quaternários que também são responsáveis pela produção de fl ores e frutos.
Além da formação, a poda quando realizada em ramos produtivos também apresenta grande influência sobre a fisiologia da planta. A poda de frutificação tem por função diminuir a massa vegetativa, permitindo uma maior aeração e incidência solar (ALMEIDA, 2012).
A poda também permite que ocorra maior florescimento e maior taxa de fixação de frutos, pois a baixa luminosidade influência de forma negativa sobre estes (CAVICHIOLI et al., 2006).
Os benefícios das podas na cultura do maracujazeiro são incontestáveis pois permitem uma formação adequada da planta para fechamento do pomar, para equilibrar a parte vegetativa e reprodutiva, além de possibilitar melhor aeração e as condições fitossanitárias das plantas, implicando na redução de custos com controle de pragas.
Entretanto, em regiões com elevada incidência de doenças, como a virose, fusariose e bacteriose, o uso das podas dos ramos secundários e terciários não está sendo utilizada, evitando assim a abertura de ferimentos para tais doenças e também a disseminação das doenças por meio dos equipamentos utilizados nas podas.
Um fator de importância na poda é determinar qual a intensidade que a mesma poderá ser realizada, e isso, irá depender de cada situação em particular. Hafle et al. (2012) destacam que plantas nas quais são deixados menos ramos e com comprimento menor, apesar de produzirem menos, apresentam melhor qualidade de fruto.
Albuquerque et al. (2009) também destacam que plantas podadas com mais de três gemas por ramo apresentam maior rendimento de polpa e maior produtividade, no entanto, apresentam menor tamanho médio de fruto.
Adubação de formação e produção
O maracujazeiro é uma planta que tem produção contínua de flores e frutos, por isso, o cuidado com a nutrição da planta é muito importante. Além da adubação de plantio, adubações de formação e de produção devem ser realizadas periodicamente, o ideal é que essas adubações sejam realizadas com base na análise foliar.
A aplicação dos nutrientes pode ser realizada via solo, foliar e também utilizando sistemas de fertirrigação. Resende et al. (2008) apresentam uma boa revisão sobre manejo do solo, nutrição e adubação do maracujazeiro azedo.
Na ausência do resultado da análise foliar, as adubações para formação ou de cobertura, podem ser realizadas aos 20, 40, 60, 90 e 120 dias após o plantio utilizando um formulado N-P-K nas proporções de 20-00-20, sendo aplicados 10, 20, 40, 60 e 100 gramas, respectivamente.
Também, podem ser aplicados 100 gramas de sulfato de amônio e 50 gramas de cloreto de potássio a cada 45 dias.
Na aplicação de adubos via solo, os mesmos devem ser distribuídos em uma faixa de uns 20 cm ao redor e distante uns 10 cm do tronco, aumentando gradativamente essa distância com a idade do pomar, em decorrência do desenvolvimento do sistema radicular.
Em pomares com mais de 90 dias de implantação, a aplicação da adubação, deve ser realizada em círculo ou em faixa, sempre com largura maior que 20 cm e distantes de 20 a 30 cm do tronco, onde estão as raízes de maior absorção de água e nutrientes.
Para o maracujazeiro-azedo tem-se registrado resultados positivos quanto à nutrição mineral de plantas (CAVALCANTE et al. 2008), qualidade de frutos (CAVALCANTE et al., 2007) e produtividade (CAVALCANTE et al., 2012a; 2012b).
Irrigação e fertirrigação
Quanto ao consumo de água, o maracujazeiro é extremamente exigente em água para completar seu ciclo. Por conter sistema radicular pouco vigoroso, a cultura pode apresentar problemas quanto a baixa disponibilidade de água, podendo haver queda de folhas, flores e frutos.
A demanda de água pode variar entre 800 a 1750 mm bem distribuídos ao longo do ano (BORGES e LIMA, 2009). Avaliando a evapotranspiração do maracujazeiro-azedo, Souza et al. (2009) constataram que a cultura necessita de 1.489,3 mm de lâmina de água ano e 5,81 mm dia-1, sendo que seu pico de consumo foi durante a fase de floração-frutificação.
Para se alcançar alta produtividade no cultivo do maracujazeiro, o uso da irrigação é de grande importância. Existem vários sistemas de irrigação que podem ser utilizados, tais como: gotejamento, micro aspersão, aspersão convencional e pivô-central.
A escolha do sistema dependerá da disponibilidade de água, da disponibilidade do equipamento de irrigação e do custo do sistema e de sua manutenção.
O sistema de gotejamento é o mais amplamente usado e recomendado por gastar menos água, apresentar menor custo e não molhar as folhas, evitando dessa forma maiores problemas com doenças foliares.
Normalmente se utilizam dois gotejadores com vazão de 4 litros/hora por planta, posicionados nos dois lados da planta e a 30 cm do pé da planta adulta. Para dimensionamento do sistema, considerar o consumo máximo de 64 litros de água por planta a cada dois dias.
No manejo da irrigação, deve-se considerar sempre o tipo de solo, o clima e as exigências das plantas de maracujá, de modo a definir a quantidade adequada da água a ser aplicada.
O uso de plástico (filme mulching) junto com o sistema de irrigação por gotejamento pode economizar muito a água necessária para a irrigação do maracujá (Figura 3).

A possibilidade de utilizar o sistema para realizar a fertirrigação (Figura 3) tem sido de grande utilidade no cultivo do maracujá (Sousa et al., 2001). A fertirrigação quando bem conduzida pode contribuir para diminuir as perdas de N por lixiviação, promover o uso mais eficiente dos fertilizantes e consequentemente o aumento da produtividade das culturas.
Com isso, através dessa técnica, o nutriente pode ser fornecido em maiores quantidades na época de maior demanda pela cultura. Com a fertirrigação, deve-se fazer sempre após a aplicação da adubação, uma aplicação de cinco gramas de ácido fosfórico por planta para o fornecimento de fósforo à planta e também fazer a limpeza do sistema de irrigação.
Considerações finais
A passicultura é um dos investimentos que exerce grande atratividade nos fruticultores, isso deve-se, dentre outras características, ao retorno rápido do investimento inicial.
Em regiões com condições favoráveis do clima, a possibilidade de produção de frutas durante o ano inteiro e geração de renda em áreas relativamente pequenas são os pontos que mais atraem agricultores para a atividade.
Devido a esse grande potencial da passicultura é importante que os agricultores adotem técnicas mínimas de cultivo que irão certamente aumentar a produtividade e qualidade dos pomares.
Dentre essas técnicas, o adequado preparo do solo e os tratos culturais são de grande importância. Maiores informações sobre esse assunto podem ser obtidas em Faleiro e Junqueira (2016) e Rosa et al. (2017) e Borges e Rosa (2017).
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Fonte
MORERA, Marisol Parra; COSTA, Ana Maria; FALEIRO, Fábio Gelape; CARLOSAMA, Adalberto Rodríguez; CARRANZA, Carlos. Maracujá: dos recursos genéticos ao desenvolvimento tecnológico. 1ª ed. Brasília – DF: Prolmpress, 2018.
