Plantas daninhas como hospedeiras dos nematoides-das-galhas
Resumo
As plantas daninhas podem ser hospedeiras alternativas dos nematoides-das-galhas, contribuindo para o aumento das populações desses fitonematoides no ambiente solo. Assim, o controle de plantas daninhas pode se estabelecer enquanto uma importante estratégia para a proteção dos cultivos a Meloidogyne spp.

Conteúdo
Por definição, planta daninha é qualquer planta que cresça espontaneamente em um local de atividade humana e cause prejuízos a essa atividade (Carvalho 2014). Na perspectiva da agricultura, as plantas daninhas provocam interferência no crescimento das culturas agrícolas. São reconhecidos três mecanismos primários de interferência entre plantas daninhas e culturas: competição, alelopatia e parasitismo (Bridges 1994, Fried et al. 2017). A competição por recursos (água, luz e nutrientes) é o efeito mais importante que as plantas daninhas desempenham sobre as culturas agrícolas.
Na competição por recursos a disputa por nutrientes inorgânicos, exercida pelas plantas daninhas, pode ser considerada um dos principais fatores que limitam o crescimento e a produção das plantas cultivadas e, como consequência, pode reduzir a produtividade agrícola (Carvalho et al. 2014). Contudo, as plantas daninhas também podem ser hospedeiros alternativas de diversos patógenos que provocam danos nas culturas agrícolas. Assim, as plantas daninhas também são reconhecidas enquanto excelentes hospedeiros alternativos de nematoides parasitas de plantas (Anwar et al. 2009).
As espécies de plantas daninhas permitem que os nematoides parasitas de plantas sobrevivam na ausência de culturas agrícolas, e assim, podem sustentar populações de nematoides durante os períodos entre as colheitas (Hillocks 1998). Nesse sentido, as plantas daninhas acabam fornecendo uma fonte de inóculo de nematoides para a estação seguinte (Rich et al. 2009). Nesse processo, as plantas daninhas podem contribuir para o manutenção e/ou aumento das populações de fitonematoides no ambiente solo e no agroecossistema, dificultando posteriormente o controle dos nematoides.
A presença de plantas daninhas que são hospedeiras de fitonematoides é particularmente mais importante nas regiões tropicais e subtropicais, onde as condições climáticas e ambientais possibilitam o crescimento de plantas daninhas durante todo o ano. Esses fatores, aliado a grande diversidade de espécies de plantas daninhas, e a sua ampla distribuição geográfica, elevada capacidade de disseminação de propágulos e o constante evolução de genótipos resistentes a herbicidas, torna a presença de plantas daninhas um agravante nas áreas de cultivo.
Os nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.) representam o grupo de fitonematoides com maior importância econômica no mundo (Moens et al. 2009). Para todas as culturas agrícolas social e economicamente importantes (trigo, arroz, soja, milho, batata, cevada, feijão, etc) os nematoides-dasgalhas são relatados enquanto uma das principais pragas com potencial de provocar declínios de produtividade. Assim, Meloidogyne spp. pode ser considerado uma praga que confere elevado risco para a segurança alimentar mundial.
Comumente, a maioria das espécies de nematoide-das-galhas apresentam hábito polífago e parasitando amplo número de hospedeiros distribuídos em diversas famílias botânicas. No Brasil, os nematoides-das-galhas podem ser considerados o grupo de nematoides encontrado com maior frequência infestando raízes de plantas daninhas em diferentes regiões. A capacidade de diversas plantas daninhas serem parasitadas por nematoides-das-galhas é relatada principalmente para as espécies M. javanica, M. incognita, M. paranaensis e M. enterolobii (Roese e Oliveira 2004, Mônaco et al. 2009, Silva et al. 2013, Bellé et al. 2017, Bellé et al. 2019). Entretanto, para o grupo de nematoides-das-galhas que são considerados emergentes na agricultura, os resultados disponíveis são escassos ou inexistentes, como observado para as espécies M. luci, M. morocciensis e M. ethiopica.
Em geral, as plantas daninhas parasitadas por Meloidogyne spp. descritos na literatura estão distribuídos principalmente nas famílias botânicas Amaranthaceae, Asteraceae, Convolvulaceae, Euphorbiaceae, Poaceae e Solanaceae. Enquanto que os principais gêneros de plantas daninhas parasitados pelos nematoides-das-galhas são Amaranthus, Bidens, Conyza, Cyperus, Digitaria, Ipomoea e Solanum. Essas famílias e gêneros botânicos apresentam ampla distribuição geográfica, sendo encontradas em praticamente todo o território do Brasil (Moreira e Bragança 2011).
Ainda, é importante destacar que algumas espécies de plantas daninhas hospedeiras de Meloidogyne spp. são reconhecidas por apresentarem genótipos resistentes a herbicidas. Assim, a presença de plantas daninhas resistentes a herbicidas torna-se um agravante nas áreas de cultivo infestadas por nematoides-das-galhas, pois existe uma alta probabilidade de que as plantas daninhas não controladas por tratamentos químicos ou outras estratégias de controle, sirvam de hospedeiros para Meloidogyne spp. (Kokalis-Burelle e Rosskopf 2012).
Por exemplo, as plantas daninhas Amaranthus spp., Portulaca oleracea, Euphorbia heterophylla, Ipomoea spp. e Bidens spp., tem a capacidade de aumentar a população de diversas espécies do nematoide-das-galhas (Asmus e Andrade 1997; Mônaco et al. 2009, Bellé et al. 2017, Bellé et al. 2019). Ainda, plantas daninhas como Amaranthus spp., P. oleracea, possuem o metabolismo do tipo C4 e, se mal manejadas, dominam a área com facilidade. Plantas daninhas do gênero Ipomoea possuem o hábito de crescimento volúvel; de modo geral são trepadeiras e quando ocorrem junto às culturas crescem enrolando-se nas outras plantas, dificultando a colheita e acarretando perdas pelo aumento da umidade e impureza dos grãos colhidos. Ainda, as espécies de Ipomoea apresentam diferentes fluxos de germinação durante a primavera e o verão, sendo assim, favorável para a manutenção da população de diferentes fitonematoides.
Além disso, estas plantas daninhas apresentam resistência a diversos herbicidas (Heap 2019). Por exemplo, Amaranthus retroflexus e Amaranthus viridis apresentam resistência aos inibidores da ALS e fotossistema II, além de que A. retroflexus apresenta também aos inibidores da PROTOX. Já Eheterophylla apresenta múltipla resistência a inibidores ALS e PPO. Bidens subalternans e Bidens pilosa presentam resistência aos herbicidas inibidores da ALS e fotossistema II. Assim, em áreas infestadas com nematoide-das-galhas, a presença de plantas daninhas resistente a herbicidas pode ser um problema adicional e um problema para controle de ambas pragas.
Nesse contexto, o conhecimento do espectro de plantas daninhas hospedeiras de Meloidogyne spp. torna-se uma ferramenta importante para delimitar estratégias de manejo desses fitonematoides. Igualmente, controle de plantas daninhas pode ser considerado uma importante estratégia para a proteção dos cultivos ao Meloidogyne spp. (Collange et al. 2011). Assim, as plantas daninhas hospedeiras de Meloidogyne spp. devem ser prioritariamente manejadas nas áreas onde as culturas agrícolas são altamente suscetíveis (Hillocks 1998), não somente durante o período de desenvolvimento das culturas, mas também quando as áreas estejam em pousio ou com plantas de cobertura não comerciais. Doravante, esse cenário reforça a ideia que as plantas daninhas são o fator biótico mais importante que limita a produtividade em várias culturas.
Conclusão
As plantas daninhas podem ser consideradas excelentes hospedeiras dos nematoides-das-galhas, onde o controle de plantas daninhas pode se estabelecer uma importante estratégia para a proteção dos cultivos a Meloidogyne spp.
