Pecuária Leiteira de Precisão: Conceitos e Tecnologias Disponíveis
Tecnologias de precisão têm sido desenvolvidas com o objetivo de melhorar o gerenciamento dos rebanhos leiteiros e mensurar os indicadores produtivos, comportamentais e fisiológicos em benefício da saúde, produtividade e bem-estar animal (Steeneveld et al., 2015). As tecnologias de precisão utilizam sistemas de monitoramento por sensores. Esses sistemas podem ser descritos a partir de quatro níveis de desenvolvimento e utilização (Fig. 1): (I) tecnologia (sensor), que mensura algum parâmetro individual da vaca (ex.: consumo de alimento), gerando um conjunto de dados; (II) interpretação, que resume as alterações observadas no conjunto de dados gerados pelo sensor (ex.: diminuição do consumo) para produção de uma informação sobre o status da vaca (ex.: vaca com torção de abomaso); (III) integração dessa informação gerada pelo sensor, acrescida a outra informação (ex.: informação de cunho econômico), para proposição de um aconselhamento (ex.: operar ou não a vaca doente); (IV) tomada de decisão pelo gestor da fazenda ou autonomamente pelo sistema (ex.: o veterinário é acionado).

A maioria dos estudos sobre tecnologias de precisão para pecuária de leite realizada até o momento está relacionada à detecção de mastite (25%), fertilidade (33%), problemas de locomoção (33%) e distúrbios metabólicos (16%), e se concentram principalmente nos níveis de desenvolvimento/utilização I e II (Rutten et al., 2013).
O uso de tecnologias de precisão está se tornando uma prática cada vez mais comum em fazendas leiteiras. Entre os principais parâmetros monitorados atualmente, estão a produção, composição, temperatura, condutividade, presença de sangue e contagem de células somáticas do leite, ruminação, consumo de alimentos e água, medidores de atividade para detecção de cio, problemas de casco e pesagem corporal das vacas (Firk et al., 2002; Pastell et al., 2009; Chapinal et al., 2010; O’Connell et al., 2010; Holman et al., 2011; Bar e Bewley, 2010; Solomon, 2010; van der Tol e van der Kamp, 2010; Miekley et al., 2012; Büchel e Sundrum, 2014; Chizzotii, 2015). Além desses, vários outros parâmetros estão sendo propostos ou encontram-se em desenvolvimento.
Perfil de utilização das tecnologias de precisão e implicações sobre a mão de obra
Há várias décadas os sistemas de monitoramento por sensores têm sido utilizados para mensurar indicadores de saúde de vacas individualmente (Hogeveen et al., 2010). As razões para se investir em sistemas de monitoramento por sensores apresentam variação em função do perfil socioeconômico e geográfico do produtor de leite.
Entre as motivações que levam produtores de leite a investir em tecnologias de precisão destacam-se a expectativa de redução do trabalho e maior facilidade no manejo diário do rebanho (Steeneveld e Hogeveen, 2015). Dessa forma, o uso de sistemas de monitoramento por sensores tende a apresentar um resultado econômico positivo, especialmente devido à redução esperada sobre os custos da mão de obra (Steeneveld et al., 2015).
Em pesquisa realizada na Holanda, fazendas que adotaram algum tipo de tecnologia de precisão obtiveram uma redução de até 23% das horas trabalhadas por vaca/semana (Fig. 2) em comparação com aquelas que não faziam uso de sistemas de monitoramento por sensores (Steeneveld e Hogeveen, 2015).

Quanto ao perfil dos produtores que utilizam tecnologias de precisão, existem os que usam determinados sistemas de monitoramento por sensores porque estão embarcados em algum equipamento adquirido, como, por exemplo, em sistemas de ordenha robotizados. Outros já o fazem de forma deliberada, investindo em sensores para melhorar a eficiência da gestão sobre a saúde do rebanho (Fig. 3) (Steeneveld e Hogeveen, 2015).

Além das questões relacionadas à mão de obra e facilidade de manejo, fatores (Tab. 1) como relação custo benefício, custo do investimento total e simplicidade de uso estão entre os principais critérios analisados no momento da adoção de tecnologias de precisão por produtores americanos (Borchers e Bewley, 2015).

Bewley e Russell (2010) pesquisaram 229 produtores de leite americanos e identificaram que as razões mais comuns para a não adoção de tecnologias de precisão eram: (I) não estarem familiarizados com as tecnologias disponíveis (55%); (II) baixa relação custo/benefício (42%); (III) não saberem o que fazer com tantas informações fornecidas pelos sistemas (36%); (IV) tempo insuficiente para usufruir da tecnologia (31%); (V) falta de percepção do valor econômico (30%); (VI) tecnologias muito difíceis ou complexas para se usar (29%). Ademais, incertezas sobre as condições de mercado, do desempenho e reais benefícios das novas tecnologias e, ainda, problemas relacionados à adaptação da gestão e fatores organizacionais têm sido apontados (Tab. 2) como decisivos para a não adoção das tecnologias de precisão por parte dos produtores de leite (Bewley et al., 2010).

Contudo, o uso de tecnologias de precisão tem se tornado cada vez mais importante e necessário para que os produtores de leite possam aperfeiçoar suas práticas de gestão e aumentar a eficiência dos sistemas de produção (El-Osta e Morehart, 2000).
Implicações sobre a produtividade, saúde e bem-estar animal
De forma geral, os sistemas de precisão disponíveis para a pecuária leiteira são compostos por equipamentos capazes de mensurar individualmente parâmetros fisiológicos ou comportamentais e detectar alterações relativas às condições de saúde da vaca, requerendo uma intervenção por parte do ges tor da fazenda (Steeneveld et al., 2015). Entre os sensores considerados de maior utilidade por produtores americanos, estão os de detecção de mastite, de cio e produção de leite (Borchers e Bewley, 2015) (Tab. 3).

No entanto, ainda não é sabido se o uso desses sensores também melhora os índices de saúde e produção, como, por exemplo, redução da média de dias ao primeiro serviço ou diminuição da contagem de células somáticas do leite individual (Steeneveld et al., 2015). Para um melhor aproveitamento das tecnologias de precisão, o produtor deve ter conhecimento e fazer a gestão diária das informações geradas pelo sistema.
Steeneveld et al. (2015) demonstraram que a contagem de células somáticas (CCS) do leite de tanques individuais diminuiu em fazendas com sistemas de ordenha convencional, ao passo que esse parâmetro aumentou em fazendas com ordenha robotizada (AMS). Normalmente, a aquisição de sensores para detecção de mastite ocorre de forma deliberada em fazendas convencionais, ou seja, há um objetivo claro de utilização do sistema de monitoramento. Já em fazendas com AMS, em geral tais sistemas encontram-se embutidos no equipamento como forma de torná-los mais acessíveis do ponto de vista econômico, e, muitas vezes, despertando baixo interesse do produtor em utilizá-los.
Outro aspecto muito importante diz respeito à presença do ordenhador nos sistemas convencionais de ordenha. Nessas fazendas, o ordenhador pode checar imediatamente as vacas que apresentam algum tipo de alerta sinalizado pelos sensores. Além disso, vacas com mastite podem ser identificadas durante a ordenha mesmo sem a presença de alerta indicado pelos sensores (Steeneveld e Hogeveen, 2015).
O desempenho da detecção do cio pode ser melhorado pela utilização de sistemas de monitoramento por sensores. Esses sistemas podem detectar cerca de 80 a 85% de vacas em cio, enquanto o método visual normalmente detecta apenas 55% das vacas nessa mesma condição (Firk et al., 2002; Hockey et al., 2010; Kamphuis et al., 2012). No entanto, nem sempre o aumento na detecção do cio pelos sistemas de monitoramento resulta em melhoria dos índices de idade ao primeiro parto e dias ao primeiro serviço.
Em grande parte das vezes, os produtores que fazem uso de sistemas de detecção de cio realmente apresentam melhores e maiores taxas de detecção de cio, porém ainda utilizam as mesmas regras sobre o melhor momento para a inseminação, resultando em alterações pouco efetivas nos parâmetros reprodutivos. Outro problema no uso das tecnologias de precisão diz respeito à motivação do investimento. Alguns produtores investem em sensores de detecção de cio apenas para melhorar a taxa de detecção de cio e reduzir o trabalho (Steeneveld e Hogeveen, 2015), com menos foco em melhorar os índices de saúde e zootécnicos do rebanho (Steeneveld et al., 2015).
Em relação à produção de leite, Steeneveld et al. (2015) observaram que a utilização dos sensores embutidos no sistema de ordenha automático (AMS) resultou em maior produção de leite do rebanho. No entanto, não puderam afirmar se o aumento da produção de leite ocorreu em função da maior taxa de frequência de ordenha, normalmente observada nesse tipo de sistema de produção (Kruip et al., 2002; Wagner-Storch and Palmer, 2003; Speroni et al., 2006), ou se foi decorrente do uso do sistema de sensores.
Considerações finais
As oportunidades ligadas à pecuária de precisão podem surgir tanto dentro como fora da porteira da fazenda. Do lado de dentro, os produtores podem se beneficiar nas áreas de automação e tomadas de decisões mais eficientes, ao fazer melhor uso dos escassos e cada vez mais onerosos recursos.
Do lado de fora da porteira há também potenciais benefícios do uso das tecnologias de precisão entre os mais diversos stakeholders. O uso dessas tecnologias pode contribuir para garantir a qualidade e a segurança do alimento para as indústrias de laticínio, por exemplo. Os técnicos podem interagir com os sistemas de precisão para alimentar as suas próprias análises, e oferecer serviços sobre o uso das tecnologias de precisão e na capacitação dos produtores. Isso pode incluir, por exemplo, o monitoramento remoto de parâmetros de desempenho, como ganho de peso e produção de leite.
As centrais de melhoramento genético podem se beneficiar do acesso aos dados diários de ordenha individual e outros dados armazenados. Os bancos de dados de cada sistema de produção poderão ser conectados aos bancos de dados da indústria para permitir comparações entre sistemas e desenhar políticas de extensão.
Se você tem interesse em saber mais sobre a Agricultura de Precisão, te convido a conhecer a plataforma da AgricOnline. Ao fazer a sua assinatura, você tem acesso ilimitado a todos os cursos da plataforma. São cursos que vão desde produção vegetal, produção animal, mercado e carreira.
Ao término de cada curso, você tem direito ao certificado com a carga horária de cada curso, clique no link para conhecer.

Ou clique no link:
https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal
Fonte
MARQUES, Antônio de Pinho Junior. Zootecnia de Precisão em Bovinocultura de Leite. Belo Horizonte - MG: FEPMVZ, 2015. (Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, 79).