Pecuária

<strong>O impacto do uso da tecnologia no desempenho da produção leiteira: manejo tradicional, compost barn e free stall</strong>

Daniel Vilar
Especialista
43 min de leitura
<strong>O impacto do uso da tecnologia no desempenho da produção leiteira: manejo tradicional, compost barn e free stall</strong>
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Esta aplicação teórica busca analisar a contribuição do uso de tecnologias e sistemas de produção diferenciados na formação dos resultados da atividade leiteira de três propriedades rurais,  que  utilizam  diferentes  sistemas  produtivos  e  estão  localizadas  na  região  Noroeste  do Estado  do Rio  Grande  do  Sul.  Utilizou-se  para  a  apuração  de  custos  das  três  propriedades  o método de custeio por absorção e variável, a fim de conhecer os respectivos resultados em cada sistema de produção analisado.

Metodologia: Para atingir o objetivo do estudo, foram elaboradas, a partir da coleta de dados planilhas  de  controle financeiro,  e  com  base  nestas,  apurou-se  os  indicadores  gerenciais  de custos de cada propriedade, sendo eles: margem de contribuição, ponto de equilíbrio, margem 

Resultados: Os resultados indicam que o método compost barn obteve a maior produtividade por matriz, o maior preço médio e o segundo menor custo por litro, e, portanto, o maior lucro médio  por  litro  e  por área  (hectare)  destinado  a  produção  leiteira entre  as  três  propriedades analisadas, sendo seu resultado médio por litro de R$ 0,27 e por área (hectare) R$ 10.030,52. Em comparação com outros estudos realizados na área, os resultados indicam que a região em pesquisa foi um fator determinante.

Contribuições do Estudo: A pesquisa possibilitou aos usuários externos verificar qual método de  produção  alcançou  maior  produtividade  e  lucratividade  na  região  e  nas  propriedades analisadas. Além disso, para os produtores participantes da pesquisa, permitiu avaliar o retorno da atividade a partir de  uma completa apuração  de custos, tendo em vista que seus controles antes do desenvolvimento do estudo eram fortemente baseados na intuição ou em experiências anteriores, sem um devido controle e avaliação. 

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1 Introdução

O agronegócio brasileiro tem registrando avanços significativos, se tornando relevante para o desenvolvimento econômico do país, em função de ser um setor dinâmico da economia, influenciando os demais setores e destacando-se não apenas no mercado nacional,mas também internacionalmente,   pelo   crescimento   das   exportações   (Callado,   2014;Ministério   da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,2019). Nesse contexto a pecuária leiteira se destaca por gerar emprego e ser fundamental para o desenvolvimento econômico (Assis et al.,2017; Josahkian, 2018), visto que o Brasil é o quarto maior produtor do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos, Índia e China (Rocha, & Carvalho, 2018).

A cadeia produtiva da produção leiteira apresenta boas perspectivas de crescimento, por ser  substancial  na  produção  de  bens  de  primeira  necessidade  (alimentos),  cujo  consumo  é expressivo  em  todo  país  e  em  grande  parte  do  mundo  (Herculano,  & Alves,  2014).  Os produtores necessitam buscar aperfeiçoamento constante, investindo no ramo, afim de atender as exigências do mercado de laticínios e aprimorar a qualidade da produção (Pilatti, 2017).

Neste cenário, Pereira e Malagolli, (2017) destacam que as empresas rurais estão tendo que se adaptar a uma nova realidade, produzir mais em menor espaço, necessitando gerenciar melhor  seus  resultados. Além  disso,  devido à baixa  remuneração  do  leite  pago  ao  produtor primário, a variação de centavos na receita ou no custo unitário de cada litro do produto são fatores  decisivos  para  a  eficácia  econômica  de  um  sistema  de  produção  de  leite. Com  isso  a gestão  de  custos  na  produção  leiteira,  pode  auxiliar  o  gestor  rural  no  monitoramento  dos indicadores econômicos e financeiros, possibilitando inferências para melhorar a rentabilidade da atividade (Zanin, Favretto, Possa, Mazzioni, & Zonatto, 2015).

Além disso, para permanecerem ativas no mercado, as propriedades rurais estão tendo que  incorporar  em seus  processos  produtivos  o  uso  de  tecnologias  que  proporcionem  um aumento  nas  margens  e  na  rentabilidade  da  atividade  (Rocha,  Resende,  &  Martins,  2018). Segundo Silvestri et al., (2008), atualmente existem várias tecnologias empregadas na pecuária leiteira,  sendo  algumas  delas:  a)  ordenhadeiras  com  medidores  do  fluxo  de  leite,  detector  de sangue, identificação de obstrução do fluxo de leite e reguladores de vácuo; b) melhoramento genético   do   rebanho,   utilizando   inseminação   artificial   e uso   de   sêmen   sexado;   c) acompanhamento veterinario e nutricional mensal, visando aumentar ou manter a produtividade do rebanho;  e d) tratamento especial para vacas no pré-parto, com uso de  ração própria para alcançar o máximo potencial produtivo na próxima lactação.

Frente  ao  exposto,  a  questão  de  estudo  é: Como  a  aplicação  de  tecnologias  e  a utilização de diferentes sistemas produtivos influenciam na construção de resultados da atividade  leiteira?  Para  tanto, o objetivo  foi  analisar  como  a  aplicação  de  tecnologias  e  a utilização  de  diferentes  sistemas  produtivos  contribuem  na  formação  dos  resultados  da atividade leiteira de três propriedades rurais que utilizam distintos sistemas de produção.

Para  atingir  o  objetivo  deste  estudo,  os  dados  coletados  foram  sistematizados  em planilhas,  apurando  os  indicadores  gerenciais  de  custos  e  comparando-os  na  produção tradicional/pastoreio, compost  barn e free  stall.  Com  base  nos  indicadores  encontrados realizou-se uma análise interpretativa dos resultados encontrados nas propriedades pesquisadas. 

Desse  modo,  essa  pesquisa  se  justifica  por  trazer  contribuições  para  uma  atividade destacada do agronegócio brasileiro, que emprega um significativo número de pessoas, sendo uma importante fonte geradora de renda dos produtores rurais. Além disso, contribuirá ao setor evidenciando como as tecnologias são capazes de aumentar a produtividade e a rentabilidade da  bovinocultura  leiteira,  que  por  sua  vez,  é  uma  atividade  com  boas  perspectivas  de crescimento no país.

Espera-se que a pesquisa venha a possibilitar aos gestores das propriedades pesquisadas e  também  para  os  demais  produtores  de  leite,  informações  que  auxiliem  na  gestão  dos  seus negócios,  indicando  qual sistema de  produção  está  sendo  mais  lucrativo  na  região,  e  por consequência  como  o  uso  da  tecnologia  pode  influenciar  no  desempenho  das  propriedades, mostrando que pode ser uma boa aliada do trabalho do campo.

2 Revisão da Literatura

2.1 Produção Leiteira 

A bovinocultura leiteira é uma atividade de criação de animais em coletividade a partir de um determinado sistema de produção de leite. Trata-se de uma atividade com significativa importância para o desenvolvimento econômico e o agronegócio mundial, tanto em períodos mais  remotos  como  na  atualidade.  No  Brasil,  a  pecuária  leiteira  tem  demonstrado  um crescimento  contínuo,  tanto  quanto  ao  nível  de  produção  quanto  à  qualidade  e  tecnologias utilizadas  nos processos produtivos  (Domenico,  Mazzioni,  Kruger,  &  Bock,2015;  Crepaldi, 2019).  Para  essa   atividade  nota-se   aumento  dos  custos  de  produção,  ocasionado pela preocupação com a segurança alimentar, bem-estar do animal e o impacto da agropecuária no meio ambiente. Com a redução das margens de lucratividade, os produtores tendem a investir em novas tecnologias, que permitam a melhoria e eficiência dos sistemas de produção leiteira (Pereira, & Malagolli, 2017).

Medeiros e Brum (2015) relatam que no Estado do Rio Grande do Sul o leite começou a ser produzido desde o início da ocupação de seu território e da introdução do gado bovino, no entanto, seu consumo mais expressivo pela população ocorreu com a chegada dos imigrantes no  século  XIX  e  a  consequente  povoação  do  Estado.  Desde  então  o  Rio  Grande  do  Sul  está acompanhando  a  evolução  da  pecuária  leiteira  no  Brasil,  sendo,  inclusive,  o  segundo  maior produtor de leite do país, estando atrás somente  de Minas Gerais e seguido muito perto pelo Estado de Paraná. Sendo assim, apesar das dificuldades encontradas na cadeia de produção de leite –elevado custo de produção, flutuação nos preços e baixa escala de produção –o produtor está vendo a atividade como uma importante fonte de renda para a família e não somente como complemento da mesma (Medeiros, & Brum, 2015).

Dentre os sistemas de produção tem-se o manejo tradicional da bovinocultura leiteira, que é conhecido como pastagem ou pastoreio (Zanin et al., 2015), utilizado por produtores que possuem um pequeno número de animais, no qual o gado se alimenta no pasto e somente no momento em que são encaminhados para a ordenha recebem uma complementação alimentar no cocho. Podendo ocorrer rodízios em diferentes pastagens, ou ser contínuo (Silva, 2006). Em rodízio  a  pastagem  é  dividida  em  partes,  denominadas  piquetes  e  no  pastoreio  contínuo  os bovinos permanecem diariamente no mesmo local. Segundo Silva (2006) custos relativamente baixos e maior movimentação dos animais são as principais vantagens do sistema tradicional. Dentre  as  desvantagens  estão  o  menor  nível  de  produção  de  leite, necessidade  de  uma  área maior para manejo e a dificuldade de pastagens de qualidade.

O compost barn consiste em um galpão retangular que possui uma grande área comum, denominada de área de descanso, forrada por maravalha ou serragem e separada do corredor de alimentação  por  um  beiral  de  concreto.  Nesse  sistema  de  produção  a  compostagem  ocorre naturalmente ao longo do tempo por meio do material da cama e da matéria orgânica do dejeto dos animais (Silano, & Santos, 2012). Para Milani e Souza (2010) e Dalchiavon, Heberle, Funk Zanin (2018)as principais vantagens do sistema compost barn são: conforto e bem-estar dos animais, melhora na produtividade do rebanho, facilidade no manejo diário, longevidade dos animais,  uso  da  cama  como  fertilizante  nas  plantações,  redução  das  enfermidades  de  cascos, baixa manutenção, entre outras vantagens.

Por sua vez, o sistema free stall compreende uma estabulação livre, estruturada em baias individuais, forradas com cama para o descanso e área livre, destinada a alimentação. Com o alojamento  em  baias  individuais,  o  animal  tende  a  se  movimentar  menos  em  pastagens, economizando  energia,  elevando  a  produção,  facilitando  a  alimentação  e  reprodução  dos bovinos e melhora da higienização das baias (Zanin et al., 2015). Como desvantagens, tem-se a habitação em espaço inadequado por longo período, podendo prejudicar a saúde dos bovinos, afetando  o  nível  de  produção  e  a  rentabilidade  da  atividade;  além  ainda  do  alto  custo  dos equipamentos  e  instalações,  que  para  alguns  produtores  é um  fator  limitativo  que  acaba impossibilitando o investimento (Domenico et al., 2015).

Desta forma, a produção pode se dar não somente pelo sistema de manejo tradicional, mas também por estruturas produtivas que baseiam-se em confinamento de animais, as quais consistem em alojamentos para o gado leiteiro voltados ao conforto e saúde do animal, sendo que o free stall se diferencia do compost barn por estar separado em baias individuais (Zanin, et al., 2015; Pilatti, 2017).  Na tabela 1 estão sistematizadas as principais características de cada sistema de produção em pesquisa, com base nos autores utilizados.

Nesse  sentido  a  contabilidade  rural,  centrada  na  gestão  de  custos  pode  auxiliar  no gerenciamento e na adoção de estratégias capazes de potencializar os resultados, subsidiando o gestor com  informações  que  possibilitem o  acompanhamento  do  desempenho  do  negócio, melhorando  os  indicadores  financeiros  e  não  financeiros  (Crepaldi,  2019).  Entende-se  que  a partir  destas  informações  o  gestor  rural  pode  buscar  alternativas  de  produção,  que  permitam rápida adaptação, caso ocorram mudanças nos elementos de custos na produção, ou no preço de venda do produto, que é fixado pelo mercado (Braum, Martini, & Braun, 2013).

A evolução tecnológica e as exigências do mercado por produtos de qualidade e preços atrativos, fazem com que o produtor rural demande de informações econômicas e financeiras que viabilizem inferências assertivas, resultando na eficiência produtiva e maximização de seus resultados (Dal Magro,Domenico, Klann, & Zanin, 2013). Diante desse contexto, a gestão de custos  ganha  destaque  na  atividade  rural,  sendo  uma ferramenta  que  fornece  informações relevantes para a tomada de decisões gerenciais nas atividades rurais e a utilização de diferentes métodos  de  custeio  permite  encontrar  o  custo  de  produção,  compreender  o  comportamento desses   custos   e   mensurar   as   diversas   atividades,   no   decorrer   do   processo   produtivo, identificando aquelas que implicam um maior consumo de recursos (Quesado, Silva, & Rua, 2018).

Zanin et al., (2015) relatam que com o anseio de aumento de produção, os gestores rurais estão  investindo  na  modernização  dos  processos  produtivos,  fazendo  com  que  os  custos aumentem  e  consequentemente  os  gestores  demandem  de  mais  controle  e  informações  de custos,  buscando  alternativas  de  produção,  que  atendam  estas  necessidades.  Na  pecuária leiteira, tem-se uma tendência em considerar aspectos inerentes a gestão dos custos de produção como informação fundamental no processo de decisão, visto que permite analisar as estruturas produtivas de acordo com as características particulares de cada propriedade. (Santos, & Lopes, 2014; Zaninet al., 2015).

2.2 Contabilidade de Custos

Padoveze (2005, p. 5) conceitua a contabilidade de custos como: “[...] o segmento da ciência contábil especializado na gestão econômica do custo e dos preços de venda dos produtos e  serviços  oferecidos  pelas  empresas”.  “O  termo  “custear”  significa  coletar,  acumular, organizar, analisar, interpretar e informar custos e dados de custos com o objetivo de auxiliar a gerência da empresa” (Leone,  2008,  p.  234).  Desta  forma,  métodos  de  custeio, podem  ser conceituados, segundo Padoveze (2005) como o processo de identificação do custo unitário de um produto ou serviço ou de todos os produtos e serviços de uma empresa.

O custeio  por  absorção  é  o  método  mais  tradicional  de  custeio,  ele  consiste  na apropriação de todos os custos de produção aos produtos, de forma direta ou indireta, utilizando para tanto, critérios de rateios (Wernke, 2008). O sistema de custeio direto ou variável consiste em uma apropriação de caráter gerencial, isto é, somente os custos variáveis de produção e de comercialização do produto como matéria prima, mão de obra direta e serviços de terceiros são aplicados  ao  produto  (Wernke,  2008).  Na  concepção  deSantos,  Marion  e  Segatti  (2002)  a análise do custo, volume e resultado é um dos meios de conhecer alguns fatores que possam estar  prejudicando  a  rentabilidade  econômica  da  atividade  agropecuária.  Logo,  essa  análise permite diagnosticar problemas por intermédio da composição dos custos, de maneira a concluir sobre a situação do rendimento da atividade.

Segundo Padoveze (2005) a margem de contribuição representa o lucro variável, ou seja, é apurada pela diferença entre o preço de venda unitário do produto ou serviço e os custos e despesas variáveis por unidade de produto ou serviço. De acordo com Crepaldi (2012, p. 131) “a expressão ponto de equilíbrio, tradução de break-even-point, refere-se ao nível de venda em que não há lucro nem prejuízo, ou seja, onde os custos totais são iguais as receitas totais”. 

A margem de segurança é conceituada por Wernke (2008, p. 62) como: “[...] o volume de vendas que supera as vendas calculadas no ponto de equilíbrio. Ou seja, representa o quanto as vendas podem cair sem que haja prejuízo para a empresa”. Quanto a DRE, tem-se que, sua principal  finalidade  é  retratar  a  formação  do  resultado  gerado  no  exercício,  por  meio  da especificação das receitas, custos e despesas, até o resultado líquido final, sendo este lucro ou prejuízo(Braga, 2012).

Na visão de Assaf Neto (1992, p. 1) “o estudo de avaliação de investimentos se refere basicamente as decisões de aplicação de capital em projetos que prometem retornos por vários períodos consecutivos. ” O índice de lucratividade estabelece uma relação entre o valor do lucro líquido final sobre a receita total, com a finalidade de verificar a parcela de lucro líquido que ficou para a empresa do valor total das vendas do período (Basso; Filipin; Enderli, 2015). Por sua  vez,  a  rentabilidade  é um índice que mede, segundo Braga (1995, p. 30) “[...] o grau de êxito econômico obtido por uma empresa em relação ao capital nela investido”. O prazo para retorno  do  investimento  é  conceituado  por  Assaf  Neto  (1992,  p.  5)  como  “o  método  que consiste,  em  essência,  no  cálculo  do  prazo  necessário  para  que  o  montante  do  dispêndio  de capital efetuado seja recuperado através de fluxos líquidos de caixa gerados pelo investimento”.

2.3 Estudos Anteriores

Dentre os estudos encontrados sobre a temática, Zanin et al. (2015), estudaram duas propriedades rurais localizadas no Oeste do Estado de Santa Catarina, comparando os custos e a produtividade na atividade leiteira a partir da produção pelo sistema tradicional e free stall. Como  resultados,  constatou-se  que  o  sistema free  stall proporciona  um  melhor  resultado econômico  para  a  atividade  leiteira,  considerando  as  estruturas  de  produção  similares  das propriedades analisadas na pesquisa.

Grespan, Trindade e Breitenbach (2016) visaram demonstrar e comparar a viabilidade econômica  dos  sistemas  de  produção  de  leite  semi-confinado, free  stall e compost barn na Microrregião  de  Passo  Fundo,  de  maneira  a  identificar  qual  sistema  de  produção  é  mais rentável. Os resultados foram apurados com base na remuneração por mão de obra, por área ou por animal. Considerando o fator de produção mão de obra, o sistema compostbarn foi o que mais remunerou, sendo R$ 5.088,75/pessoa. No fator animal, por sua vez, o sistema de semi-confinamento teve o maior retorno de  capital de  R$ 3.095,82/vaca. Por fim, na remuneração por área (ha) os sistemas compost barn e semi-confinado tiveram o melhor desempenho, sendo de R$ 7.223,74/ha no primeiro e R$ 7.223,52/ha no segundo. Foi constatado também que “[...] na média das propriedades estudadas, o sistema semi-confinado tem maior retorno de capital ao ano (7%), seguido do compost barn (5,4%) e free stall (3,6%)”.

O  estudo  realizado  por  Adams  (2018)  avaliou  a  viabilidade  de  instalação  de  um compost barn em uma propriedade localizada na região das Missões –RS, em um período de quatro anos, considerando o sistema tradicional utilizado e a instalação de um sistema compost barn. Os resultados  foram  obtidos  considerando  três  cenários  diferentes  quanto  ao  valor comercializado do litro de leite. No cenário pessimista o sistema compost barn iniciaria com resultado negativo e obteria uma melhora no decorrer dos anos com resultados positivos. No cenário  realista  e  otimista,  o  resultado  operacional  seria  mais  significativo,  tornando  o investimento  viável,  ou  seja,  no  cenário  realista  em  6  anos  seriam  recuperados  os  recursos iniciais investidos e no cenário otimista esse tempo diminuiria para 5 anos.

Bandeira (2018) visou identificar os elementos que definem a viabilidade econômica e  financeira  no  investimento  de  um  sistema compost  barn na  produção  leiteira  de  uma propriedade  rural. Como  resultados  o  autor constatou  que  o  empreendimento  é  viável econômica  e  financeiramente,  tendo  em  vista  que  apresentou  ótimos  prazos  de  retorno  do capital investido, sendo este de 2,23 anos, além de VPL positivo e TIR superior à TMA.

Dalchiavon et al. (2018) compararam os custos e a produtividade de leite a partir dos três  sistemas  de  produção  (tradicional, compost  barn e free  stall). O  estudo  foi  realizado  em três propriedades rurais localizadas no Oeste de Santa Catarina, compreendendo o período de junho a julho de 2017, concluindo que o sistema de manejo free stall proporciona um melhor resultado econômico para a atividade leiteira, porém com uma estrutura de produção maior que as outras propriedades analisadas no estudo.

É  diante  deste  cenário  que  se apresenta  a  relevância  deste  estudo,  visto  que  busca analisar a contribuição na formação dos resultados da aplicação de tecnologias e da utilização de diferentes sistemas produtivos no processo de produção leiteira em três propriedades com distintos sistemas de produção, sendo esta a lacuna de pesquisa, além de serem considerados períodos diferentes para a apuração dos custos e resultados.

3 Procedimentos Metodológicos

Para  Marconi  e  Lakatos  (2003,  p.  82)  “[...]  método  é  o  conjunto  das  atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo –conhecimentos válidos e verdadeiros -, traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”. Consoante a Zamberlan etal., (2014) as pesquisas podem ser  classificadas  conforme  as  características  que  possuem  em  relação  a  natureza,  a  forma  de abordagem do problema, níveis ou objetivos e procedimentos técnicos.

O estudo classifica-se como descritivo, que segundo Prodanov e Freitas (2013, p. 52) “[...] apenas registra e descreve os fatos observados sem interferir neles”.Sendo assim, neste estudo foram apuradas a partir da observação e coleta de dados informações fundamentais das propriedades rurais em estudo, como seus investimentos nos respectivos sistemas de produção, suas  receitas,  custos  e  despesas.  Após  coletados,  os  dados  foram  descritos  e  processados  de maneira a apurar alguns indicadores de gestão de custos que possibilitaram analisar os impactos do uso das tecnologias no desempenho da produção leiteira. Não houve, portanto, interferências nos dados apurados. 

Richardson et   al., (2012)   menciona   que   a   abordagem qualitativa   não   utiliza instrumentos estatísticos para o processo de análise do problema. Para Beuren et al., (2004, p. 92) “na pesquisa qualitativa concebem-se análises mais profundas em relação ao fenômeno que está sendo estudado [...]”. Sendo assim, este estudo é de abordagem qualitativa, por não utilizar de  bases  estatísticas, mas  sim,  da  coleta  de  dados  e  informações  em  propriedades  rurais  que utilizam diferentes sistemas de produção de leite, para responder à questão de investigação.

Quanto  aos  procedimentos  utilizou-se pesquisa  documental e  estudo  de  multicasos. Para Beuren et al., (2004) a pesquisa documental utiliza fontes primárias, ou seja, informações que  ainda  não  sofreram  um  tratamento  analítico  ou  que  podem  ser  reelaboradas  segundo  os objetivos da pesquisa, por outro lado, o estudo de multi casos, segundo Yin (2015), trata-se de uma  análise  mais  profunda  e  exaustiva  de  múltiplos  objetos,  permitindo  seu  detalhado conhecimento.   Portanto,   a   pesquisa   classifica-se   como   documental,   visto   que foram examinados os   dados   nos   documentos   disponibilizados   pelos   proprietários   das   três propriedades em estudo; e estudo de multicasos, visto que foram estudadas três organizações rurais produtoras de leite do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, a fim de conhecer os custos e resultados de três propriedades rurais, e, a partir destes dados analisar a contribuição do uso de tecnologias e sistemas diferenciados no processo de produção leiteira.

3.1 Instrumentos de Coleta de Dados 

O  processo  de  coleta  de  dados  representa  o  modo  como  são  obtidos  os  dados necessários para responder ao problema de pesquisa (Vergara, 2009). Para a realização deste estudo  os  dados  foram  coletados  junto  aos  gestores  e  dirigentes  das  propriedades  rurais pesquisadas.  Os  principais  dados  coletados  estão  relacionados  às  tecnologias  empregadas  na produção leiteira, as respectivas receitas da atividade, assim como informações referentes aos seus custos e despesas. 

Desta forma, a coleta de dados foi realizada por meio da observação, sendo que a partir dela foi possível conhecer os processos produtivos das três propriedades rurais analisadas, com isso elaborou-se fluxogramas retratando como é realizado o manejo diário dos animais em cada sistema de produção das propriedades em estudo. Posteriormente os dados foram coletados a partir  dos  documentos  disponibilizados  pelos  gestores  das  propriedades,  otimizando  tempo  e evitando a necessidade de solicitar diretamente aos proprietários informações que pudessem ser constatadas através dos documentos.

Por fim foram realizadas entrevistas com os gestores das propriedades, que consistiu em  uma  conversação  entre  o  pesquisador  e  os  gestores  das  propriedades,  coletando  as informações necessárias  para responder  à questão estudada, aprofundando a busca e também sanando dúvidas quanto aos documentos disponibilizados, a fim de obter resultados confiáveis. Através da  entrevista  realizada  com  os  gestores  das  propriedades  foram  coletados  todos  os dados  necessários  à  preparação  das  planilhas  de  cálculo  da  pesquisa,  com  o  objetivo  de identificar  os  custos  e  resultados  das  propriedades  analisadas  e  o  impacto  das  tecnologias empregadas em seus sistemas produtivos, sendo aplicada a técnica de análise documental e de conteúdo, buscando atender o objetivo proposto do estudo, sendo necessário mais entrevistas.

4 Resultados e Análises

O  estudo  em  questão  trata-se  de  uma  análise  comparativa  entre  os  sistemas  de produção de leite tradicional, compost barn e free stallem três propriedades rurais da região Noroeste  do  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul,  as  quais  utilizam  para  produção  leiteira exclusivamente  vacas  da  raça  holandesa,  o  que  torna  possível  a  comparação  do  volume  de produção  entre  as  propriedades  a  partir  de  seus  respectivos  sistemas  de  produção.  As propriedades  foram  denominadas  como  A,  B  e  C,  sendo  que  cada  uma  possui  uma estrutura produtiva distinta e utiliza diferentes tecnologias em seus processos de produção.  

A propriedade A utiliza o manejo tradicional/pastoreio, esse método é o mais utilizado e conhecido na bovinocultura leiteira, no qual as vacas permanecem ao ar livre, alimentando-se em pastagens separadas por piquetes. Após o momento da ordenha as vacas recebem uma quantidade adequada de ração, sais minerais e silagem no cocho. A propriedade A em estudo possui uma média de 35 vacas em lactação e o processo de ordenha acontece duas vezes ao dia, uma pela parte da manhã e outra pela parte da tarde, sendo a produção média mensal 28.142 litros.

O processo de produção  da propriedade pode ser  resumido da seguinte maneira: em um primeiro momento é feito o encaminhamento das vacas para a sala de ordenha para então ser feito o preparo da mesma, com higienização dos tetos utilizando pré-dipping e secagem dos tetos com papel toalha, na sequência são realizados os três primeiros jatos, para então ser feito o teste da raquete, que consiste em identificar a quantidade de células somáticas do leite. Após esta etapa são colocadas as teteiras para iniciar o processo de ordenha, após seu término os tetos são higienizados novamente com produto pós-dipping, posteriormente as vacas são liberadas da ordenha e encaminhadas para alimentação nos cochos e na pastagem. 

A propriedade B em estudo utiliza como método de produção o compost barn, o qual é um sistema de alojamento similar ao sistema free stall, exceto pelo fato que não há divisórias para  cada  animal  separadamente.  Desta  forma,  neste  sistema  as  vacas  ficam  livres  para  se movimentarem  e  podem  se  alimentar  a  qualquer  hora  do  dia,  pois  o  alimento  está  sempre disponível. A propriedade possui uma média de 130 vacas em lactação e o processo de ordenha acontece três vezes ao dia, sendo a produção mensal média 124.378 litros. 

O processo de produção da propriedade inicia com o encaminhamento para a sala de espera da ordenha do lote 1 (vacas de produção média diária acima de 30 litros) e após o lote 2 (vacas de produção diária de 10 a 30 litros). O processo de ordenha ocorre de acordo com os lotes, e assim como na propriedade A, inicia com o preparo da ordenha, higienização dos tetos com  pré-dipping,  secagem  dos  tetos  com  papel  toalha,  realização  dos  três  primeiros  jatos, seguido do teste da raquete. Findado o processo de preparo são colocadas as teteiras para então ser realizado o processo de ordenha, posteriormente é feita a higienização dos tetos com pós-dipping e as vacas são liberadas da ordenha para então serem encaminhadas ao compost barn no  qual  as  vacas  ficam  livres  para  descansar  e  se  alimentar,  sendo  que  seu  alimento  está disponível 24 horas por dia.

Por fim, a propriedade C utiliza o free stall, que consiste em uma grande área cercada, onde  uma  parte  é  destinada  para  alimentação  e  exercícios  e  outra  parte  é  dividida  em  baias individuais que são forradas com cama para descanso dos animais. A propriedade C possui uma média de 150 vacas em lactação e o processo de ordenha acontece três vezes ao dia, a produção média mensal da propriedade é de 126.622 litros.

O processo de produção da propriedade C é muito semelhante ao da propriedade B, ou seja,  as  vacas  são  separadas  em  lotes  e  encaminhadas  para  a  ordenha,  na  qual  ocorre  todo  o preparo como já descrito nos processos das demais propriedades, após o término da ordenha as vacas  são  encaminhadas  para  o  alojamento free  stall,  ficando  livres  para  alimentarem-se  e dirigirem-se sozinhas à uma baia do free stall para descansar. 

Os  dados  de  produção  e  rendimento  dos  animais  das  propriedades  A,  B  e  C  estão sintetizados na tabela 2.

Após  a  caracterização  dos  processos  produtivos  das  propriedades  em  estudo  foram apurados e analisados os resultados da pesquisa, de maneira a responder à questão proposta. O período  de  apuração  de  dados  da  pesquisa  compreendeu  os  meses  de  agosto/2018  até julho/2019. A coleta de dados foi direcionada para conhecer o custo total do litro de leite de cada uma das propriedades em estudo.Os custos diretos das propriedades envolvem os custos com alimentação dos animais, como silagem de milho,  feno, silagem de aveia, pastagem de verão e de inverno, ração  e sal mineral.  

Os  custos  diretos  também  compreendem  os  custos  com  medicamentos  e  vacinas  de rotina dos animais, depreciação das vacas em lactação e os custos com a mão de obra envolvida na  produção.  De  outro  lado,os  custos  indiretos  compreendem  a  alimentação  das  bezerras  e novilhas,  depreciação  das  máquinas,  equipamentos  e  edificações,  depreciação  das  novilhas  e vacas  secas,  material  de  limpeza  utilizado  no  processo  de  ordenha,  serviços  veterinários mensais, energia elétrica, água, contador, serragem no caso do compost barn e free stall, pró-labore,  sêmen  utilizado  na  inseminação  artificial  e  combustível  para  manejo  diário  das propriedades. Com isso, foi apurado o custo total do litro de leite produzido nas propriedades a partir  do  custeio  por  absorção  e  do  custeio  variável.  Na  Tabela  3  estão  descritas  as  médias mensais dos custos diretos e indiretos da atividade leiteira nas propriedades. 

Na sequência a Figura 1 apresenta uma comparação gráfica dos custos totais por litro de leite das três propriedades.

Com base na Figura 1 constatou-se que a propriedade C apresentou o maior custo total por litro, sendo ele R$ 1,42, enquanto que nas propriedades A e B o custo total por litro é de R$ 1,19 e R$ 1,31, respectivamente. O custo maior por litro da propriedade C se deve ao fato de que seus custos diretos são expressivos, isto é, R$ 0,25 maiores que os da propriedade B e R$ 0,14 maiores que os da propriedade A. Na Figura 2 estão apresentados os custos totais por litro das três propriedades analisadas, a partir do custeio variável.

A partir da Figura 2 verificou-se que a propriedade C apresentou o maior custo total por litro, a partir do custeio variável, o qual foi R$ 1,26. Isso se explica principalmente pelo seu maior custo em ração, pelo fato de utilizar farelo de soja na mistura da ração, que não é utilizada nas  demais  propriedades,  maior  custo na  silagem, tendo  em  vista  ao  custo  anual  com arrendamento e também aplicações terceirizadas de fungicida, funcionários, pelo fato de serem melhor remunerados e  maior  custo  em  medicamentos,  que  é  resultado  de  vacas  que  ficaram suscetíveis a doenças e também do valor do medicamento captopril utilizado para aumentar a produtividade do rebanho. Sendo assim, ao passo que estes custos mais expressivos somam na propriedade A um desembolso por litro de R$ 0,69 e na propriedade B R$ 0,67, na propriedade C esse desembolso por litro é de R$ 0,90, interferindo de forma considerável o seu custo total por litro de leite produzido.

Tendo por base a informação do custo total através do custeio variável foram apurados alguns indicadores gerenciais de custos, isto é, margem de contribuição, ponto de equilíbrio, margem  de  segurança  operacional,  demonstração  do  resultado  e  alguns  indicadores  de investimentos, como lucratividade, rentabilidade e prazo para retorno do investimento. Após a apuração destes indicadores foi possível analisar a situação do rendimento da atividade leiteira nas  propriedades.  Os  indicadores  gerenciais  de  custos  das propriedades  estão  descritos  na Tabela 4.

Quanto a margem de contribuição, ou seja, a diferença entre o preço por litro e os custos e  despesas  variáveis, verifica-se  a  partir  da  Tabela  4que  a propriedade  B  alcançou  a  maior contribuição por litro, isto é, R$ 0,48, seguida da propriedade C, cuja margem de contribuição por litro foi R$ 0,29 e da propriedade A, a qual foi de R$ 0,22. Esse resultado se deve ao fato de  que  a  propriedade  B  possui  o  menor  custo  médio  variável  por  litro,  que  é  de  R$  1,09, enquanto que nas propriedades A e C ele é de R$ 1,13 e R$ 1,26, respectivamente. Além disso, a propriedade B possui o maior preço médio por litro entre as propriedades em pesquisa, seguida da propriedade C, que possui o segundo melhor preço médio por litro.

Por outro lado, o ponto de equilíbrio (PE), que indica a quantidade de litros que deve ser  produzida  para  que  não  haja  lucro nem  prejuízo,  conforme  a  Tabela4tem-se  que  a propriedade  C  possui  o  maior  ponto  de  equilíbrio  em  litros  e  também  em  reais, ou  seja,  a propriedade precisa de um maior volume de produção para cobrir seus custos fixos e variáveis, e, portanto, somente a partir de uma produção de 66.120 litros, a propriedade passa a ter lucro. Desta forma, ainda que seu custo fixo total médio seja inferior que o da propriedade B a sua margem  de  contribuição  média  também  é  relativamente  menor,  e,  portanto,  possui  o  maior ponto de equilíbrio entre as propriedades analisadas. 

Quanto a margem de segurança operacional, isto é, o volume de produção que supera a quantidade estabelecida no ponto de equilíbrio, constata-se que a propriedade A apresentou a maior  margem  de  segurança  operacional  em  litros  e  em  percentual  do  período,e,  portanto, mesmo que a produção reduza em 72%, a propriedade não entrará na área do prejuízo. Ainda que  as  propriedades B  e  C  tenham  apresentado  margens  de  segurança  inferiores  à  da propriedade A, seus índices de MSO são satisfatórios, atuando bem além da quantidade de litros definida no ponto de equilíbrio.

A demonstração do resultado das propriedades em estudo está apresentada na Tabela 5. Em um primeiro momento foi elencada a receita operacional bruta média (ROB), isto é, as vendas de leite e de animais descartados. Em seguida, do valor da receita bruta foram deduzidos o valor referente a 1,5% do FUNRURAL da operação e também o FUNDESA, que equivale a um valor por litro, que  é reajustado  a cada  ano.  O resultado dessa operação origina a receita operacional  líquida  média,  da  qual  são  deduzidos  todos  os  dispêndios  de  custos  relativos  ao período  de  apuração  da  pesquisa,  independentemente  de  terem  sido  pagos  ou  não,  formando assim o resultado final médio das propriedades. 

A  partir  da  Tabela 5 Constata-se  que  a  propriedade  B  alcançou  o  maior  resultado  em relação à receita bruta e também a maior margem de contribuição em relação a receita. Isso se deve ao fato de que a propriedade B apresentou a maior receita média por litro, isto é, R$ 1,60 e  osegundo  menor  custo  total  por  litro,  o  qual  foi  R$  1,31.  A  partir  dos  resultados  da demonstração   do   exercício   das   propriedades   foram   apurados   alguns   indicadores   de investimento das propriedades em pesquisa, os quais foram: lucratividade, rentabilidade e prazo para  retorno  do  investimento.  A  lucratividade  indica  quando  a  propriedade  transformou  em lucro da sua receita total, a rentabilidade evidencia quanto renderam os investimentos realizados pelos proprietários, enquanto que o prazo para retorno do investimento indica o tempo que é necessário para o proprietário recuperar o investimento realizado. Na Tabela 6 estão descritos os indicadores de investimentos das três propriedades em estudo.

Analisando a Tabela 6 constatou-se que a propriedade B obteve os melhores indicadores de  lucratividade,  rentabilidade  e  prazo  para   retorno  do  investimento,  os  quais  foram, respectivamente, 19,30%, 17,61% e 5,7 anos. Sendo assim, tendo em vista a boa lucratividade em relação a receita bruta e a considerável rentabilidade dos investimentos da propriedade B, seu prazo para retorno do investimento é notavelmente menor que o das demais propriedades. 

Por fim, foi comparada a produção e a rentabilidade das três propriedades pesquisadas, a partir de seus respectivos sistemas de produção, de maneira a concluir sobre a contribuição do uso das tecnologias e sistemas diferenciados na formação dos resultados da atividade leiteira. Na Tabela 7 estão resumidas as principais informações relacionadas ao custo das propriedades, receita  recebida  por  litro  comercializado  e  também  os  lucros  a  partir  de  seus  respectivos sistemas de produção.

A  partir  da  Tabela  7 constatou-se  que  o  método compost  barn,  utilizado  pela propriedade B, foi o mais eficiente entre os três sistemas de produção analisados, ou seja, ele apresentou a maior produtividade média por matriz, a qual foi 31,89 litros ao dia, o maior preço médio por litro, sendo este de R$ 1,60 e o segundo menor custo por litro, que foi R$ 1,31, e, portanto, seu lucro por litro de R$ 0,27 é o maior entre os três métodos de produção em pesquisa. Além disso, a propriedade B apresentou também o maior lucro por hectare, isto é, R$ 10.030,52 por hectare, sendo a área utilizada na produção leiteira de 40 hectares.

Sendo assim, o resultado obtido pelo compost barn é 68,75% maior que no método de produção tradicional ou pastoreio e 92,85% maior do que o sistema de produção free stall. A propriedade A apresentou o menor custo por litro produzido, tendo em vista que seu custo fixo por  litro  é  expressivamente  menor,  contudo,  como  seu  volume  de  produção  é  menor  a propriedade acaba recebendo uma receita por litro inferior que o recebido nas propriedades B e C,  mas  ainda  assim,  seu  resultado  por  litro  e  por  hectare  supera  os  resultados  do  método  de produção free stall. 

Desta  forma,  A  partir  dos  indicadores  de  investimento  apresentados  (lucratividade, rentabilidade  e  prazo  para  retorno  do  investimento)  é  possível  inferir  que  a  propriedade  B consegue, através de uma boa gestão do proprietário, pagar todos os custos do investimento do sistema de produção compost barn, até mesmo em um período relativamente menor do que o contratado  pelo  financiamento.  Além  disso,  seu  lucro  é  maior  do  que  10%  da  receita,  e, portanto, supera o que seria o aceitável pelo mercado de capitais. Sendo assim, o compost barn promoveu  na  propriedade  em  pesquisa  um  aumento  na  produtividade  diária,  o  qual  foi suficiente  para  cobrir  seus  custos  e  ainda  gerar  um  rendimento  considerável  dos  capitais aplicados pelos proprietários.

Quanto  ao  impacto  do  uso  das  tecnologias,  verificou-se  que  seu  uso  influenciou  a produção  das  propriedades  em  pesquisa,  tendo  em  vista  que  as  três  propriedades  estão  bem avançadas quanto às tecnologias existentes no mercado leiteiro e aplicam muitas delas em seus processos produtivos, alcançando assim bons resultados e uma lucratividade acima de 10% de receita bruta obtida. Essa constatação confirma a pesquisa de Carvalho, Ramos e Lopes (2009), a  qual  concluiu  que  o  uso  de  tecnologias  viáveis  proporcionou  melhor  resposta  do  sistema  a diversos fatores de produção.

Entre as tecnologias aplicadas pelas propriedades em seus processos produtivos pode-se elencar a reprodução a partir de inseminação artificial e sêmen sexado, o qual garante 90% da  reprodução  em  cria  fêmea,  seguindo  assim  programas  de  acasalamento  visando obter padrões genéticos de alta qualidade; acompanhamento veterinário mensal para verificar se os animais estão seguindo os padrões esperados, incluindo acompanhamento gestacional das vacas e  novilhas.  Além  disso  as  propriedades  possuem  acompanhamento  nutricional,  na  qual  o nutricionista  elabora  dietas  conforme  a  qualidade  da  silagem,  do  feno  e  da  pastagem, determinando assim o tipo da ração a ser utilizada e seus complementos, a fim de aumentar ou manter a produtividade do rebanho. As propriedades também utilizam alimentação pré-parto, que consiste  em uma ração própria para o período gestacional que antecede o parto, a fim de prevenir a ocorrência de distúrbios metabólicos e regenerar a glândula mamária para a próxima lactação. Ainda, são utilizadas ordenhadeiras com medidores de fluxo de leite, mensuração de tempo de ordenha, reguladores de vácuo, identificadores de deslizamento e queda das teteiras, visando assim otimizar ao máximo o processo produtivo da atividade. 

Tais  resultados contradizem  os  achados  de  Zanin et  al. (2015)  e  Dalchiavon et  al. (2018) que constataram  que o sistema de manejo free stall proporciona um melhor resultado econômico para a atividade leiteira. Por outro lado, comparando os resultados deste estudo com as pesquisas  de  Bandeira  (2018)  e  Grespan,  Trindade  e  Breitenbach  (2016),  os  resultados  se confirmam, as quais concluíram que o compost barn foi o método mais lucrativo, e no caso da pesquisa de Bandeira (2018) foi viável na propriedade analisada. Desta forma, verificou-se que a  região  em  pesquisa  foi  determinante  para  os  resultados  do  estudo,  sendo  que  as  pesquisas realizadas  em  Santa  Catarina  encontraram  o  método free  stall como  o  mais  lucrativo  e  as pesquisas realizadas no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul constataram que o método compost barn obteve os resultados mais consideráveis.

5 Considerações Finais

Este  estudo  objetivou  analisar  a  contribuição  do  uso  de  tecnologias  e  sistemas diferenciados na formação dos resultados da  atividade leiteira. Sendo  constatado a partir dos resultados que para as organizações participantes do estudo, foi possível verificar o retorno da atividade  de  produção  leiteira,  identificando  a  estrutura  produtiva  que  proporcionou  melhor produtividade e melhor retorno entre as propriedades analisadas.

Os   achados   permitem   verificar   que   com   a   aplicação   de   novas   tecnologias   as propriedades  observaram  uma  melhoria  e  eficiência  em  seus  processos  produtivos,  e,  desta forma,  os  benefícios  obtidos  com  a  realização  destes  investimentos  em  tecnologias  foram suficientes para pagar os custos dos mesmos e ainda gerar um lucro considerável, que no caso das  propriedades  em  pesquisa,  ficou  acima  de  10%  de  sua  receita  bruta.  Sendo  assim,  os proprietários tomaram conhecimento que as aplicações das tecnologias contribuem na obtenção de  bons  resultados  financeiros  diante  um  mercado  de  margens  estreitas  e  elevados  custos  de produção.

Desta  forma,  constata-se  que  foram  obtidas  respostas  para  o  problema  estabelecido pela pesquisa, e, portanto, o objetivo foi atendido, ou seja, os achados indicam que o sistema compost barn apresentou o melhor resultado financeiro, e, portanto, se mostrou ser o método mais  eficaz  entre  os  três  sistemas  produtivos  e  propriedades  analisadas.  Neste  método  o resultado líquido médio por litro foi de R$ 0,27 e por hectare destinado a produção de leite R$ 10.030,52, além disso, nele foram observados os indicadores mais satisfatórios de lucratividade, rentabilidade  e  prazo  para  retorno  do  investimento,  comprovando  então,  ser  o  método  mais eficiente entre os sistemas produtivos em pesquisa. 

A partir dos resultados apurados, constatou-se que o resultado líquido das propriedades no período em pesquisa ficou acima de 10% da receita, contudo, ressalta-se que alguns fatores tiveram influência sobre os resultados obtidos, como por exemplo os preços recebidos por litro de leite comercializado pelas propriedades. Nas propriedades B e C, que utilizam os métodos compost barn e free stall, os preços foram consideravelmente maiores que na propriedade que utiliza o sistema tradicional/pastoreio, o que se deve principalmente pelo volume de produção das  propriedades. Outro  fator  que  deve  ser  enfatizado  é  que  as  propriedades  em  pesquisa vendem  para  laticínios  diferentes,  e,  ainda  que  estejam  bem  próximas  em  questão  de localização,  as  políticas  utilizadas  pelos  laticínios  normalmente  são  diferentes  e  isso  pode influenciar os resultados apurados. Sugere-se, portanto, que novas pesquisas sejam realizadas para analisar este fator. 

Sendo assim, verifica-se o quanto a contabilidade e gestão de custos é de significativa importância para os processos de controle e tomada de decisão das propriedades rurais, as quais utilizam  as  informações  geradas  pela  gestão  de  custos  a fim  de  conhecer  o  custo  total  da atividade,  e  partir dele  suas  margens  e  resultados  (Crepaldi,  2019). Além  disso,  para  os produtores  participantes  da pesquisa  e  também  para  aqueles  que  terão  acesso  aos  resultados deste estudo, a perspectiva de aumentos nos resultados fará com que os mesmos observem com mais atenção às tecnologias e inovações que estão surgindo no mercado da atividade leiteira, fazendo com que os produtores avaliem a possibilidade de realizarem estes investimentos em suas propriedades, aprimorando assim seus processos produtivos e garantindo, desta forma, a continuidade dessa atividade tão importante para a economia brasileira e  para o agronegócio mundial. 

Como limitações do estudo, tem-se o fato das três propriedades analisadas não serem de igual porte, isto é, a área destinada à produção leiteira e o número de animais são diferentes. Isso se deve pelo fato de que o free stall analisado no estudo foi o único encontrado na região, em contrapartida, não foi encontrada nenhuma propriedade de manejo tradicional/pastoreio que possuísse um número próximo de vacas em lactação como do compost barn e free stall.

Sugere-se para futuras pesquisas a continuidade do estudo em períodos posteriores e em propriedades de portes iguais e número de animais semelhantes. Indica-se também a realização de pesquisas considerando outras regiões, a fim de estender o conhecimento existente sobre essa temática, consolidando ou contrapondo, totalmente ou parcialmente, os resultados obtidos neste estudo.

Fonte

MEINL, Ana Maria; VIEIRA, Euselia Paveglio. O impacto do uso da tecnologia no desempenho da produção leiteira: manejo tradicional, compost barn e free stall. REVISTA AMBIENTE CONTÁBIL-Universidade Federal do Rio Grande do Norte-ISSN 2176-9036, v. 14, n. 1, p. 152-173, 2022.

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