Pecuária

Nutrição do Rebanho Bovino na Época Seca

Daniel Vilar
Especialista
23 min de leitura
Nutrição do Rebanho Bovino na Época Seca
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Introdução

No Brasil, a alimentação a pasto constitui um dos principais componentes dos sistemas de produção de bovinos. Em condições tropicais, os pastos são considerados a mais disponível e econômica fonte de nutrientes para os bovinos, portanto, são a base dos sistemas de produção.

Apesar do grande potencial de produção de matéria seca das gramíneas tropicais, a produtividade animal ainda é baixa, devido principalmente à distribuição estacional e à variação qualitativa da forragem (Villela et al., 2010).

As gramíneas tropicais possuem elevada capacidade produtiva, porém, mesmo com esse potencial para produção em regime de pasto, é comum a existência de inadequações nutricionais no que se refere à oferta de energia, proteína e minerais.

O animal em pastagem de baixa qualidade não consegue expressar seu potencial de produção. E essa condição pode acarretar perdas no sistema.

Portanto, maior produtividade animal a pasto só será alcançada se houver um ajuste nutricional entre a oferta das pastagens com a demanda do animal por nutrientes. E isto só será possível por meio de estratégias diferenciadas de suplementação alimentar.

Essas estratégias de suplementação podem ser divididas em:

  • Suplementação com volumosos: (silagens, cana corrida, fenos, subprodutos volumosos);
  • Suplementação com concentrados: formulações específicas com grãos e farelos de acordo com o objetivo traçado;
  • Suplementação mineral e com misturas múltiplas: suplementação mineral (suplemento constituído apenas por nutrientes minerais), suplementação de natureza múltipla (contém nutrientes minerais, proteicos e energéticos – sais, grãos, farelos e nitrogênio não proteico).

Suplementar é fornecer nutrientes além dos já oferecidos pelas pastagens e/ou volumosos, podem ser fornecidos via suplementos: vitaminas, minerais, proteína, energia e aditivos.

As estratégias de suplementação em pastagens dependem do conhecimento das deficiências nutricionais das forrageiras e do objetivo do sistema de produção, fazendo com que a suplementação se torne uma ferramenta que permite diminuir o ciclo da pecuária de corte e melhorar a produção em bovinos de leite.

Suplementação com volumosos

A suplementação com volumosos pode se efetuada utilizando-se silagens de milho, sorgo e de gramíneas tropicais perenes. Também, podem-se optar pelas diferentes formas de utilização da cana-de-açúcar e por diferentes coprodutos volumosos da agroindústria.

Nesse texto será trabalhada apenas a cana-de-açúcar, porém, existe vasta literatura sobre as outras formas de suplementação com volumosos.

Cana-de-açúcar

A cana-de-açúcar pode ser utilizada como alimento para vacas em lactação com o objetivo de reduzir os custos de produção de leite, pois a sua produção de matéria seca (MS) é superior a outros volumosos tradicionais, como as silagens de milho e sorgo.

Além disso, a cana também se destaca em relação às silagens de capins tropicais, que apresentam valores próximos de produção de matéria seca e com menor custo de produção por área.

Estrategicamente, a cana também pode ser utilizada na recria de bovinos e para vacas não lactantes.

A composição química de cultivares de cana-de-açúcar aos dez meses de idade no momento da colheita é mostrado na Tabela 1, onde pode-se observar que existem variações consideráveis no teor de matéria seca (17 a 30%), no teor de fibra (FDN) (43 a 68%), no teor de lignina (4,6 a 8,4%) e no teor de açúcares totais (32 a 57%).

Características gerais e nutricionais da cana-de-açúcar

Em fazendas que trabalham com pastagens no período chuvoso do ano, a cana pode ser uma suplementação viável para o período da seca, sem a necessidade de práticas de conservação de forragens, como a ensilagem e fenação.

Levantamentos mais recentes sobre a frequência de pecuaristas que adotam a alimentação volumosa suplementar no período da seca mostram que a cana-de-açúcar constitui uma das principais opções de volumoso suplementar, como pode ser observado na Tabela 2.

Como observado na tabela acima, a cana-de-açúcar é uma das plantas mais utilizadas para produzir volumosos para a alimentação dos animais durante o inverno.

Em função do seu alto teor de carboidratos solúveis, é classificada como um volumoso de média qualidade com baixos teores de proteína bruta e minerais, além de apresentar fibra de lenta degradação no rúmen.

Devido a estas limitações que a cana apresenta, não se recomenda a sua utilização como alimento único na dieta de vacas de leite, sendo necessário a sua suplementação.

O consumo de alimentos é um aspecto fundamental na nutrição animal porque determina a ingestão de nutrientes e, portanto, determina as respostas do animal. A quantidade e a qualidade da fibra presente em algumas variedades de cana-de-açúcar funcionam como limitante do consumo de alimento, devido ao maior tempo que esta fibra leva para ser degradada.

Assim, variedades com menores teores de fibra e com fibras mais digestíveis permitirão maiores consumos de matéria seca. Portanto, quanto maior o teor de fibra da cana-de-açúcar e menor a digestibilidade desta fibra, menor será o consumo deste volumoso.

Então, na utilização de cana-de-açúcar para bovinos é importante observar que as variedades com menor relação fibra: açúcar são mais adequadas para alimentação dos animais por permitirem maior consumo.

Formas de utilização da cana-de-açúcar

A escolha pelo melhor método de utilização da cana deve ser realizada com base na disponibilidade de mão-de-obra, de máquinas e tamanho do rebanho, fatores que determinam a organização da fazenda.

Para um melhor aproveitamento da cana-de-açúcar, deve-se torná-la mais exposta ao ataque dos microrganismos ruminais, promovendo uma boa picagem do material.

Recomenda-se 0,3 cm, pois partículas maiores demoram mais a ser degradadas no rúmen (ALLEN, 1997) e podem reduzir o seu consumo pelo animal, e consequentemente, reduzir a sua produtividade.

Cana-de-açúcar in natura com ureia

Considerando-se o baixo teor de proteína na cana-de-açúcar e que as bactérias ruminais que degradam a fibra utilizam o nitrogênio (da ureia) para o seu crescimento, torna-se necessária a suplementação de dietas à base de cana-de-açúcar com fontes de nitrogênio rapidamente utilizados no rúmen.

Além disso, devido à grande proporção de açúcar (carboidratos fermentáveis), as dietas com cana-de-açúcar são as mais recomendadas para utilização de fontes de nitrogênio não proteico (ureia).

Devido ao baixo custo do quilograma de nitrogênio, a ureia é uma das principais alternativas para se elevar o percentual de nitrogênio em dietas à base de cana-de-açúcar.

A ureia é uma ótima fonte de nitrogênio não-proteico, por apresentar as seguintes características: elevada concentração de nitrogênio (45%); fácil de ser adquirida; baixo custo/kg, quando comparado a outras fontes de nitrogênio; boa aceitação pelo animal, quando seus limites de ingestão máximos são respeitados.

Para o bom aproveitamento desta fonte de nitrogênio, deve-se adicionar uma fonte de enxofre na ureia, sendo as mais utilizadas o sulfato de amônio ou o sulfato de cálcio (gesso agrícola), em função da solubilidade dessas fontes.

E, para atender à recomendação de uma relação N:S entre 10 a 14:1, ou seja, dez a quatorze partes de nitrogênio para uma parte de enxofre. Quando utiliza-se sulfato de amônio deve-se obedecer uma relação ureia:sulfato de amônio de aproximadamente 6:1.

Já quando a opção for pelo sulfato de cálcio (gesso agrícola) essa relação deve ser de 4:1. No quadro 1 contém exemplo de como chegar à relação N:S adequada com ureia e as fontes de enxofre disponíveis nas diferentes regiões do Brasil.

Portanto, em virtude de suas características nutricionais, a “correção” da cana com ureia, juntamente com uma fonte de enxofre, é prática comum, necessária e, de certo modo, bastante difundida entre os produtores rurais.

Assim, quando se usa a expressão “cana mais ureia”, na verdade se refere a uma mistura constituída por cana-de-açúcar + ureia + fonte de enxofre (U+S). A seguir tem um exemplo do uso de cana+ ureia+ fonte de enxofre.

  • Utilizar 1% em relação à cana-de-açúcar picada que irá ser fornecida aos animais, ou seja, 1,0 kg da mistura (U+S) para cada 100 kg de cana-de-açúcar fresca. O produtor pode colher cana suficiente para tratar os animais por três dias, desde que a mantenha estocada à sombra.

Importante é passar a cana na picadeira momentos antes de fornecê-la aos animais. Como a cana é rica em açúcares, se ficar picada e amontoada vai ocorrer fermentação e o consumo pelos animais pode ser prejudicado.

Isso pode ser uma das causas da dificuldade de se conseguir um elevado consumo em cochos cobertos, porque a cana fermenta antes de ser consumida pelos animais.

Sugestão para utilização da mistura Ureia + Sulfato de amônio

Durante o fornecimento, manter sempre à disposição dos animais água e mistura mineral de boa qualidade, pois a cana é deficiente em alguns minerais, como fósforo, cálcio, zinco e manganês.

Para adaptação dos animais à alimentação com cana-de-açúcar + ureia + fonte de enxofre, deve-se usar metade da mistura U+S durante os primeiros 7 dias de fornecimento, ou seja, 500 gramas de mistura para 100 kg de cana-de-açúcar picada, dissolvidos também em quatro litros de água.

Na Tabela 3 contém um exemplo de esquema iniciar o processo de fornecimento de cana com ureia com o período de adaptação dos animais a nova dieta.

A adaptação dos animais à nova dieta com cana + ureia deve ser criteriosa a fim de evitar problemas; assim, de acordo com Leonel et al. (2006) antes de fornecer a mistura aos animais deve-se tomar os seguintes cuidados:

  • adaptar os animais para receber a mistura (primeira semana de alimentação);
  • colocar mistura mineral completa sempre à disposição dos animais;
  • fazer limpeza diária do cocho, descartando as sobras da mistura fornecida no dia anterior;
  • voltar a fazer a adaptação com a metade da dose (conforme mostra o Quadro 3), se o fornecimento da mistura tiver sido interrompido por dois dias consecutivos;
  • fazer furos nos cochos que estejam descobertos para evitar acúmulo de água da chuva;
  • não fornecer a mistura para animais em jejum, debilitados, cansados ou que foram transportados a longas distâncias;
  • garantir água à vontade sempre à disposição dos animais;
  • a mistura ureia + fonte de enxofre (sulfato) pode ser preparada em maior quantidade, e armazenada em local seguro, vedando bem a embalagem.

Em caso de sinais de toxidez pela ureia, deve-se proceder o mais rapidamente possível, ao tratamento, constituído basicamente pelo fornecimento de água gelada e vinagre aos animais. Com isso, a absorção da amônia (NH3) será diminuída.

Silagem de cana-de-açúcar

A cana-de-açúcar pode ser conservada e utilizada na forma de silagem, diminuindo a necessidade de mão-de-obra adicional para o corte e picagem diária dessa forragem, ou ainda, quando ocorrem incêndios acidentais e esta deve der utilizada imediatamente.

Outra situação em que é recomendada a ensilagem da cana é quando o volume cortado diariamente se torna tão alto que passa a ser um limitante operacional, o que não é comum em pequenas propriedades.

Ainda, o aumento da vida útil do talhão, devido à melhor execução de práticas agronômicas de manejo, é um benefício adicional que deve ser considerado.

O inconveniente dessa forrageira na obtenção de silagem é o seu alto conteúdo de açúcares solúveis, que resulta em rápida proliferação de leveduras com produção de etanol e gás carbônico, resultando em menor valor nutritivo da silagem.

Portanto, é necessário ter cuidado especial no processo de ensilagem, utilizando, de preferência, cana e outra forrageira picada no processo de enchimento do silo ou ainda lançando mão de alguns aditivos (inoculantes) para controlar fermentações indesejáveis e reduzir perdas.

Na Tabela 4, encontram-se os custos de produção por área e por unidade de matéria natural (MN), matéria seca (MS) de algumas forrageiras.

Pode-se observar que a silagem de cana-de-açúcar apresentou o melhor custo de produção de matéria seca entre as opções, devido ao elevado rendimento forrageiro da cultura da cana-de-açúcar.

Entretanto, em razão do baixo teor de nutrientes digestíveis totais (NDT), o custo de produção do NDT torna-se superior aos das silagens de milho e sorgo, mas menor que aqueles das silagens de capins tropicais.

Como o aumento no custo de produção de silagens de forrageiras semiperenes (cana-de-açúcar) e perenes (capins tropicais) são em maior parte devido aos processos de colheita e conservação, torna-se necessário a gestão racional no uso de máquinas e equipamentos durante o processo de colheita e conservação.

Resultados de trabalhos mostram que à medida que o preço relativo do concentrado energético é reduzido, o valor bioeconômico das forrageiras de alto rendimento de MS por área e de menor valor nutritivo, como as silagens de cana-de-açúcar e de capins tropicais, tornam-se mais atrativas que as silagens de milho e sorgo.

Assim, em situações em que produtos alternativos podem ser utilizados para minimizar o preço do concentrado energético, o valor nutritivo perde importância e aumenta o peso do rendimento forrageiro e do custo de produção da MS no valor bioeconômico de forragens conservadas.

Suplementação com concentrados

A suplementação com concentrados pode se dar por meio da formulação de dietas para atender às exigências dos animais em função do objetivo de produção.

Nesse caso deve-se ter um uma estimativa da disponibilidade e da qualidade do pasto, o alvo de produção e com isso a exigência animal. O sistema de semiconfinamento é um exemplo.

Também com a suplementação com concentrados podem-se ter objetivos de potencializar a utilização das pastagens, onde faz-se a suplementação do pasto.

Ou seja, fornece-se o os nutrientes que o pasto não contém e que pode ser a causa da limitação de algum fator de produção (consumo, digestibilidade...).

As práticas de suplementação do pasto mais comuns são: Suplementação Mineral; Suplementação-Mineral-Proteica e Suplementação-Mineral-Proteica-energética.

Suplementação Mineral

Os minerais desempenham diversas funções no organismo animal e são fundamentais para o metabolismo. Estão envolvidos em três tipos de funções essenciais.

A primeira delas diz respeito a sua participação como componentes estruturais dos tecidos corporais (por exemplo Ca, P).

Também atuam nos tecidos e fluidos corporais como eletrólitos para manutenção do equilíbrio acidobásico, da pressão osmótica e da permeabilidade das membranas celulares (Ca, P, Na, Cl).

Por último, funcionam como ativadores de processos enzimáticos (Cu, Mn) ou como integrantes da estrutura de metalo-enzimas (Zn, Mn) ou vitaminas (Co) (Tokarnia, et al., 2000).

Os minerais são classificados como macro e microelementos. Existem cerca de 36 elementos minerais, e 25 podem ser classificados como essenciais.

Os macroelementos são o cálcio (Ca), fósforo(P), magnésio (Mg), potássio (K), enxofre (S), sódio (Na), cloro (Cl) e são chamados de macro porque são exigidos em quantidades maiores que os microelementos, sem, contudo, serem de maior ou menor importância (Martin, 1993).

Dentre os macroelementos, o fósforo ganha destaque devido à pobreza em fósforo dos solos e à sua baixa concentração e disponibilidade nos alimentos vegetais.

Solos com baixos teores de fósforo disponível para as plantas produzem forragem com valores subnormais de fósforo. E na seca, quando as plantas estão maduras e secando, agrava e prolonga esse problema. A parte aérea das gramíneas é relativamente pobre em fósforo.

Assim, a deficiência de fósforo é um fenômeno comum em animais de pastejo. E acarreta danos e deficiência de produção dos animais. Os microelementos são o zinco (Zn), cobre (Cu), iodo (I), cobalto (Co), selênio (Se), ferro (Fe) e manganês (Mn).

É necessária atenção especial às necessidades dos microelementos para melhorar a produtividade dos rebanhos, prevenindo ocorrência de doenças como a como retenção de placenta, nascimento de bezerros fracos, morte embrionária, falhas reprodutivas, diarreias, pneumonia, mastite e falhas vacinais (Martins, 1993).

Nas pastagens brasileiras, verificam-se grandes deficiências de macro e microelementos, a deficiência de um ou mais elementos pode acarretar problemas como atraso no crescimento, emagrecimento, queda na imunidade, ocorrência de abortos, diarreia, perda ou depravação de apetite, alta mortalidade, entre outros Villela et al., 2010.

Para ruminantes criados em regime de campo, tanto no Brasil, como em outros países, o método mais usado e indicado é a administração dos elementos deficientes com o sal comum, deixado em cochos, à vontade.

A função do sal nestas misturas é de estimular, por um lado, ou de limitar, por outro, a quantidade dos elementos a ser ingerida (Tokarnia, et al., 2000).

As concentrações de minerais nas forragens dependem de fatores como as espécies predominantes, o estágio de maturidade, a produção e manejo da pastagem, o solo e o clima (Villela et al., 2006).

Os requerimentos em minerais variam de acordo com a categoria, idade e sexo do animal, estágio reprodutivo e produção.

A correta suplementação mineral é o fator isolado que mais proporciona retorno econômico dentro do sistema de produção.

O correto balanço de proteínas, energia, vitaminas e sais minerais é a chave para o sucesso de um programa eficiente de nutrição (Herd, 1997 citado por Thiago).

Porém, a suplementação mineral corrige deficiências de proteína e energia no animal, e em alguns casos, em diferentes estações e condições de criação além da suplementação mineral é necessária uma suplementação proteica e energética para reverter os efeitos negativos do subpastejo e das dietas desbalanceadas.

Um dos fatores determinantes na regulação da ingestão pelos ruminantes é quando dietas de baixa concentração calórica e baixa qualidade são utilizadas.

Sob condições normais, nessas dietas, os ruminantes raramente ingerem quantidade suficiente de energia para revelar seu verdadeiro potencial (VAN SOEST, 1994).

Paterson et al. (1994) definiram qualidade da forragem como sendo uma função entre a capacidade de consumo e a digestibilidade desta.

Portanto, é extremamente importante conhecer o comportamento alimentar dos ruminantes, principalmente quando estão recebendo volumosos de baixa qualidade, os quais normalmente apresentam um consumo voluntário baixo.

Assim, nutrientes suplementares são necessários para se obter níveis aceitáveis de desempenho animal. E, em muitos casos, o consumo de forragem pode ser limitado por uma deficiência de N; isto pode ser uma ocorrência comum em condições tropicais (Tabela 6).

Em concentração de proteína bruta (PB) abaixo de 7-8% na MS a eficiência fermentativa das bactérias do rúmen pode ser prejudicada, reduzindo o consumo e digestão da forragem (Villela, et al., 2010).

Neste contexto, na suplementação das pastagens, deve-se levar em consideração a ocorrência de deficiências simultâneas, estabelecendo-se suplementos de natureza múltipla, envolvendo a associação de fontes de N solúvel, minerais, fontes naturais de proteína, energia e vitaminas, visando proporcionar o crescimento contínuo dos bovinos em pastejo (PAULINO, 2009).

Suplementação Mineral-Proteica

Durante o período da seca as forragens tropicais disponíveis ao pastejo apresentam elevada maturidade fisiológica, o que implica em elevação dos constituintes fibrosos insolúveis, notadamente tecidos lignificados, e redução do conteúdo celular vegetal, destacando-se quedas drásticas nos teores de compostos nitrogenados totais.

Neste sentido, as pastagens raramente constituem dieta equilibrada à produção animal, verificando-se carências múltiplas de componentes minerais, energéticos e proteicos (PAULINO et al., 2001).

No rúmen, a lenta degradação dos componentes fibrosos potencialmente degradáveis das forragens é o um fator limitante dos processos digestivos e compromete o desempenho produtivo e reprodutivo dos animais (Morais et al., 2009).

No ambiente ruminal existe uma condição favorável (temperatura, pH, ausência de oxigênio) para a proliferação de microrganismos: bactérias, protozoários e fungos, que são responsáveis pela degradação da forragem.

Mas para isso é necessária uma fonte de proteína, que pode ser oriunda de grão (proteína verdadeira) ou ureia (NNP nitrogênio não proteico) Villela et al., 2010.

De acordo com CLARK et al. (1992), o fornecimento adicional de nitrogênio (N) para animais que consomem forragens de baixa qualidade favorece o crescimento das bactérias fibrolíticas, causando aumento da taxa de digestão da fibra e síntese de proteína microbiana e, desse modo, permite incrementar o consumo voluntário da forragem e melhorar o balanço energético do animal em pastejo.

O suprimento de nitrogênio possibilita que essas bactérias possam extrair energia da forragem ingerida pelo animal, através do processo de digestão. Esse suprimento pode ser feito via fontes proteicas de alta degradabilidade no rúmen (PDR).

Entretanto, animais mais leves precisam de proteína adicional, a qual só pode ser suprida com a utilização de fontes de proteína verdadeira não degradável no rúmen (PNDR), por exemplo, o farelo de algodão ou farelo de soja (POPPI & McLENNAN, 2007).

HAFLEY et al. (1993) relataram que o ganho de bovinos em pastejo pode ser aumentado com a suplementação com PDR, mas que em alguns casos a adição de PNDR pode ser necessária para se atingir ganhos máximos.

Geralmente a PDR é considerada como componente da dieta “primeiro limitante” para a utilização de forragens de baixa qualidade.

Portanto, fornecer suplementos com adequadas quantidades de PDR para ruminantes nestas condições comumente promove aumentos no consumo de matéria seca (MS) e fluxo de nutrientes para o intestino delgado (KÖSTER et al., 1996).

Estes últimos autores avaliaram o efeito de níveis crescentes de PDR e concluíram que para maximizar o consumo de matéria orgânica (MO) digestível em vacas não gestantes em pastos de baixa qualidade, a dieta deve conter 11% de PDR na matéria orgânica.

Van Soest (1994) sugeriu que 7% de PB corresponde ao teor mínimo a ser mantido na dieta dos animais ruminantes para que não ocorra limitação de compostos nitrogenados para o crescimento da microbiota ruminal.

Malafaia et al. (2003), em uma ampla revisão da literatura nacional sobre suplementação de bovinos, verificaram que o uso de suplementos contendo uréia na época seca melhorou o desempenho dos animais, em comparação ao grupo controle (pasto + mistura mineral).

No período das águas, apesar de não serem consideradas deficientes em proteína bruta, as pastagens tropicais possibilitam desempenhos inferiores aos observados em regiões de clima temperado, estando abaixo do limite genético dos animais.

Góes et al. (2003), avaliando o desempenho de novilhos Nelore em pastejo, na época das águas, com três tipos de suplementação comerciais: sal mineral (SM), sal proteinado à base de milho, farelo de trigo e ureia (MT) e sal proteinado à base de farelo de trigo e farelo de soja (TS), obtiveram ganhos de peso de 0,60; 0,76 e 0,88 kg/dia e consumo de suplemento de 0,13; 0,23 e 0,20 kg/dia, para SM, TS e MT, respectivamente.

Esses autores revelam que os animais que receberam a suplementação proteica, no período das águas, apresentaram melhor desempenho, quando comparados aos que receberam suplementação mineral.

Trabalhando com suplementação múltipla para bovinos em recria no período das águas, Villela et al. (2009) encontraram ganhos de peso adicionais de 216g/dia, em relação aos animais que não receberam o suplemento.

Baseado nestes resultados, os autores recomendam o fornecimento de suplementos múltiplos com vistas ao maior desempenho dos animais.

Estes resultados estão de acordo com Paulino et al. (2002) que afirmaram que animais frequentemente respondem à proteína extra durante a estação das águas, ensejando ganhos adicionais de 200 a 300g.

Portanto as forragens tropicais durante o período das chuvas não são consideradas quantitativamente deficientes em termos de PB e apresentam elevado coeficiente de digestibilidade da MS e da FDN.

Contudo, o perfil químico da PB revela altas proporções de compostos nitrogenados não-proteicos (NNP) e de compostos nitrogenados associados à fibra insolúvel.

O que pode levar a um desbalanço devido a razão proteína:energia e, mesmo propiciando ganhos aparentemente adequados aos animais, impediria a maximização do uso do pasto, demandando a suplementação (DETMANN et al., 2010).

Suplementação Mineral-Proteico-Energética

A suplementação mineral-proteico-energética proporciona melhor eficiência da utilização de nutrientes e na digestibilidade das forragens maduras.

Em muitos casos a suplementação pode proporcionar melhoria no desempenho animal, mas nem sempre a resposta é satisfatória, podendo ser maior ou menor do que o esperado.

Essa variação entre o observado e o esperado pode ser explicada pelo efeito associativo (interação entre os componentes da dieta) do suplemento sobre o consumo de forragem e energia disponível da dieta (GOES et al., 2004).

Geralmente, quanto maior o consumo do suplemento, menor o consumo de forragem, evidenciando o efeito substitutivo. A substituição aumenta com a melhoria da qualidade da forragem e decresce com o incremento do nível de proteína do suplemento.

Atualmente há também uma busca por suplementos múltiplos com consumo intermediário, tanto para a seca como para as águas. Misturas múltiplas são suplementos balanceados para atender a uma determinada demanda de ganho de peso vivo durante todo o ano.

Portanto, atendem múltiplas deficiências nutricionais do animal em pastejo, isto é, proteína, energia e minerais (Thiago, 1999).

BELEOSOFF (2009) explica que a suplementação proteico-energética, conhecida como suplementação proteica de alto consumo, objetiva promover a adequada suplementação proteica, mineral e energética para animais a pasto, mediante o fornecimento de proteína, oriunda tanto de fontes naturais quanto de ureia, e energia proveniente de fontes naturais.

O efeito da suplementação proteico-energético na melhoria do desempenho animal em pastagem é dependente do nível de proteína e da digestibilidade do pasto.

Quando estes níveis são limitantes, a adição de suplementos que contêm proteína e energia à dieta dos animais melhora significativamente seu desempenho (MALAFAIA et al., 2003).

Pardo et al. (2001), observaram média de ganho diário de 0,54g/cabeça em bezerros de corte suplementados com energia no período das águas.

O objetivo da suplementação nesta fase deve ser o de melhorar o desempenho animal pelo suprimento adicional de nutrientes, reduzindo a idade de abate e/ou a idade de primeira cria, maximizando a utilização do pasto.

Assim, o uso de alimentação suplementar neste período é uma opção para suprir os nutrientes limitantes e favorecer o aumento da eficiência de utilização das pastagens, resultando em maior produção de leite ou carne de bovinos em regime de pastejo, com possíveis retornos econômicos.

Considerações finais

A gestão para produção sustentável de alimentos de forma a garantir a segurança alimentar, a qualidade do ambiente e a manutenção dos recursos naturais para a presente e futuras gerações, depende de ferramentas que trabalhe a eficiência com formas práticas, úteis e exequíveis.

E a adequada Nutrição do Rebanho é ferramenta essencial para manter a bovinocultura na condição de atividade sustentável.

Na maioria das situações, principalmente na época seca do ano, a forragem não contém todos os nutrientes essenciais, na proporção adequada, de forma a atender integralmente as exigências dos animais em pastejo.

Assim, nutrientes suplementares são necessários para se obter níveis aceitáveis de desempenho animal. Desde modo, a suplementação, com concentrados ou como volumosos, pode ser ferramenta útil para corrigir as deficiências presentes nos pastos o que permitirá a expressão do máximo potencial genético dos animais.

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Fonte

DE ALMEIDA, Gercílio Alves Júnior; STRADIOTTI Deolindo Júnior; DA SILVA, Elaine Cristina Gomes; ANDRADE; Magda Aparecida Nogueira; DE ALMEIDA, Maria Izabel Vieira; CÓSER, Antônio Carlos. Avanços Tecnológicos na Bovinocultura de Leite. 1ª ed. Alegre - ES: CAUFES, 2012.

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