Pecuária

Manejo das Principais Pragas na Cultura da Mandioca

Daniel Vilar
Especialista
14 min de leitura
Manejo das Principais Pragas na Cultura da Mandioca
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Na cultura da mandioca, as pragas, insetos e ácaros são representados por várias espécies, existindo aquelas que se apresentam no campo atacando a planta durante um curto período de tempo, dando condições para a recuperação da planta sob condições ambientais favoráveis.

Outras pragas atacam a planta por um período prolongado, causando maiores reduções no rendimento da cultura.

De modo geral, as pragas podem causar dano à planta de mandioca pela redução da taxa foliar e taxa fotossintética, pelo ataque às hastes e ao material de plantio.

Dessa forma os métodos de controle das pragas devem enfatizar a resistência de plantas, o controle biológico, o controle cultural, o uso de inseticidas biológicos, ou seja, um manejo integrado.

Neste texto são apresentadas informações sobre o manejo de insetos e ácaros considerados de importância para a cultura e região como o mandarová, o ácaro-verde-da mandioca, a mosca-branca, os cupins, as formigas e brocas-do-caule.

Mandarová

O mandarová, Erinnys ello, é uma das pragas de maior importância para a cultura da mandioca, não somente por sua ampla distribuição geográfica, como também por sua alta capacidade de consumo foliar, especialmente nos últimos ínstares larvais (Figura 1).

As lagartas, que vivem de 12 a 15 dias e alimentam-se das folhas, podem causar severo desfolhamento, o qual, durante os primeiros meses de cultivo, pode reduzir o rendimento e até mesmo, ocasionar a morte de plantas jovens.

É de ocorrência esporádica. Ataques da praga são comuns nos mandiocais brasileiros, geralmente cíclicos, podendo não ocorrer em alguns anos, sendo mais frequente em períodos chuvosos.

A forma adulta do mandarová é uma mariposa de cor acinzentada, de hábito noturno, capaz de voar a grandes distâncias (AGUIAR et al., 2010; FARIAS; BELLOTTI, 2006; OLIVEIRA, 2009).

- Controle cultural: É recomendado arar o terreno após a colheita, para eliminação de pupas do inseto; a eliminação das plantas invasoras presentes na plantação principalmente as da família da mandioca, as euforbiáceas, que servem de hospedeiras; e em caso de ataques contínuos em uma região, é recomendado realizar a rotação de culturas.

- Controle mecânico: Em plantios pequenos, recomenda-se a catação manual das lagartas e sua destruição.

- Controle físico: Com a utilização de armadilhas para a captura de adultos, o que permite reduzir a população, prevenindo o agricultor contra ataques intensos. A contagem de adultos com armadilha luminosa mostrou-se eficiente na identificação de revoadas de E. ello e permite de maneira otimizada o monitoramento da infestação de ovos e larvas no campo (AGUIAR et al., 2010).

- Controle biológico: O mandarová tem uma série de inimigos naturais que são capazes de exercer um bom controle, seja com parasitoides ou com predadores de ovos e larvas. O inseticida biológico seletivo à base de Bacillus thuringiensis tem mostrado grande eficiência no controle do mandarová, principalmente quando aplicado em lagartas jovens. O controle também pode ser feito pela aplicação de Baculovirus erinnyis, que é um vírus de ocorrência natural que ataca as lagartas, ocasionando infecção generalizada nas larvas. Após inspeções, no mínimo semanais, em plantios com até 5 meses, a aplicação do B. erinnyis deve ser feita quando forem encontradas de cinco a sete lagartas pequenas por planta. O B. erinnyis pode ser obtido pela maceração de lagartas infectadas na lavoura, as quais se apresentam descoradas, com perda dos movimentos e da capacidade de se alimentar, encontrando-se dependuradas nos pecíolos das folhas. Para o preparo da “calda”, utilizar apenas as lagartas recém-mortas. As lagartas não usadas de imediato devem ser conservadas em congelador ou freezer e descongeladas antes do preparo da calda. A dose para pulverizar 1 ha é obtida usando-se: 8 lagartas grandes (7 cm a 9 cm de comprimento); 22 lagartas médias (4 cm a 6 cm); 30 lagartas pequenas (até 4 cm) ou 18 g de lagartas ou 20 mL de líquido (lagartas esmagadas). Para o preparo da “calda”, proceder da seguinte forma: 1) esmagar bem as lagartas infectadas, juntando um pouco de água para soltar o vírus; 2) coar tudo com um pano limpo ou passar em peneira fina, para não entupir o bico do pulverizador; 3) misturar o líquido coado numa quantidade de 200 L de água por hectare a ser pulverizado; 4) aplicar o Baculovirus nas primeiras horas da manhã ou à tardinha. Deve-se levar em consideração que as lagartas infectadas levam cerca de seis dias para morrer, porém a partir do quarto dia elas deixam de se alimentar. A partir da utilização de armadilha luminosa, é possível o controle das infestações de E. ello em grandes áreas, com a utilização do B. erinnyis (AGUIAR et al., 2010).

Ácaros

Os ácaros são uma das pragas mais severas que atacam a cultura da mandioca. Frequentemente atacam o cultivo durante a estação seca do ano, sendo encontrados em grande número na face inferior das folhas.

Os sintomas típicos do dano são pontuações e manchas cloróticas, morte das gemas, algumas vezes deformações e queda das folhas, como consequência ocorre redução da área foliar e taxa fotossintética, ocasionando prejuízos à produção (FLECHTMANN, 1989; MORAES; FLECHTMANN, 2008).

Dentre as espécies de ácaros fitófagos associadas com a cultura da mandioca, as mais comuns e causadoras de problemas pertencem aos gêneros Mononychellus, Tetranychus e Oligonychus (BELLOTTI et al., 1983).

Os ácaros mais importantes para a cultura da mandioca no Brasil são o ácaro-verde (Mononychellus tanajoa) e o ácaro-rajado (Tetranychus urticae), sendo a primeira espécie de maior importância, com a qual estudos têm sido realizados visando seu controle (NORONHA, 2001).

O ácaro-verde Mononychellus tanajoa (Acari: Tetranychidae) é considerado uma das principais pragas da cultura da mandioca.

Esse ácaro é provavelmente nativo do Nordeste do Brasil (BELLOTTI et al., 1999), descrito originalmente em 1938, a partir de espécimes coletados em mandioca no Estado da Bahia, encontrando-se presente em várias regiões do Brasil (ALBUQUERQUE; CARDOSO 1980; FLECHTMANN, 1989), sendo de ocorrência comum na região Nordeste.

É encontrado na superfície inferior das folhas de mandioca, alimentando-se do conteúdo celular, através da introdução do estilete no interior das células (MORAES; FLECHTMANN, 2008).

Os sintomas do ataque do ácaro-verde são mais evidentes na região apical, nos brotos, gemas e folhas novas.

Os danos causados pelo ácaro iniciam com pequenas pontuações amareladas que afetam a formação das folhas, as quais se tornam reduzidas em plantas severamente atacadas, apresentando-se deformadas; com o encurtamento dos entrenós, as hastes tornam-se ásperas e de cor marrom, podendo haver o desfolhamento e morte do ápice dos ramos com redução na produtividade, além de afetar a quantidade e qualidade de material para plantio (Figuras 2 e 3) (MORAES; FLECHTMANN, 2008; NORONHA, 2001).

As condições climáticas favoráveis para o aumento da população de M. tanajoa verificam-se na região Nordeste, destacando-se as condições de semiárido (até 8 meses secos, 400 mm a 600 mm de precipitação anual).

No Estado de Pernambuco, as perdas no rendimento chegaram a 51,4% (VEIGA, 1985). No semiárido do Nordeste, a ausência da praga contribuiu para o aumento no rendimento médio de raízes (28,1%) e parte aérea (28,6%) (FUKUDA et al., 1996).

A presença desse ácaro foi observada em todos os acessos de mandioca do Banco de Germoplasma da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, PA.

Cerca de 32% dos acessos apresentaram os brotos afetados, entretanto, a ocorrência de chuvas provavelmente contribuiu para a recuperação das plantas (NORONHA; MOURA, 2011).

O ácaro-rajado Tetranychus urticae (Acari: Tetranychidae) é de ampla distribuição geográfica e de ocorrência em várias culturas além de mandioca (BOLLAND et al., 1998). É encontrado na face inferior das folhas, preferencialmente nas partes mediana e basal da planta.

As folhas atacadas apresentam, na face superior, pontos amarelados ao longo da nervura central estendendo-se por toda a folha, adquirindo coloração bronzeada; posteriormente secam e caem (FLECHTMANN, 1989). Em ataques severos pode ocorrer perda das folhas basais e medianas da planta, avançando até a parte apical.

Em geral, os ácaros inicialmente atacam plantas isoladas, em seguida pequenos grupos de plantas em determinados locais (focos) e, posteriormente, invadem toda a plantação.

Os meios de dispersão envolvidos são a ação involuntária do homem, o vento e o transporte de material vegetal infestado (MORAES; FLECHTMANN, 2008).

A capacidade de aumento da população dos ácaros está relacionada com os fatores climáticos e varia segundo a planta hospedeira, o seu estado nutricional e a presença de inimigos naturais (NORONHA et al., 1995; MORAES; FLECHTMANN, 2008).

Durante os períodos secos (baixa umidade relativa e alta temperatura), os ácaros têm uma alta taxa de reprodução.

As chuvas fortes não somente causam um aumento da umidade relativa, como também lavam as folhas, podendo ocorrer ainda a eliminação dos ácaros por afogamento ou pelo choque das gotas de água.

Manejo: São componentes importantes dentro do manejo de ácaros, as práticas culturais, o controle químico, a resistência de plantas e o controle biológico.

- Controle cultural: A adoção de determinadas práticas pode influenciar na população de ácaros na cultura, modificando condições que possam favorecer o desenvolvimento deles como: seleção de manivas sadias para o plantio; destruição dos resíduos da colheita anterior; inspeções periódicas no cultivo para identificar focos de ácaros no início dos ataques e remover partes de plantas atacadas; eliminação de plantas hospedeiras de ácaros (OLIVEIRA, 2009).

- Controle químico: Não há produto registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para ácaros da mandioca (AGROFIT 2014). Este tipo de controle provoca desequilíbrio por eliminar insetos e ácaros benéficos, muito comuns nos mandiocais.

- Resistência de plantas: O uso de variedades de mandioca resistentes e/ou tolerantes é o meio ideal para controlar ou reduzir os ácaros e minimizar os danos causados à cultura. Algumas observações sobre biologia de M. tanajoa e avaliação de cultivares ao ataque do ácaro, mostraram diferenças de susceptibilidade/resistência de variedades de mandioca (ARGOLO et al., 2005; BOAVENTURA, 2013; FUKUDA et al., 1996; NORONHA et al., 1995; NORONHA; FUKUDA, 1989; SANTOS et al., 1977).

- Controle biológico: Os inimigos naturais dos ácaros fitófagos que ocorrem na cultura da mandioca agrupam os patógenos e predadores. Estudos têm sido conduzidos com o fungo Neozygites manihotae, encontrado em associação com o ácaro-verde (DELALIBERA JUNIOR et al., 2004). Entre os artrópodes predadores temos os ácaros e insetos. Os ácaros predadores da família Phytoseiidae, conhecidos como fitoseídeos, são considerados primordiais no controle da população da praga e tidos como mais eficientes que os insetos predadores, por seu baixo requerimento alimentar (MORAES, 1991). Um dos programas de controle biológico bem sucedido é o controle do ácaro-verde M. tanajoa na África com a introdução de ácaros fitoseídeos (MORAES; FLECHTMANN, 2008).

Mosca-branca

São várias as espécies de mosca-branca relatadas em mandioca. Os adultos do inseto podem ser observados sacudindo-se os brotos das plantas para fazê-los voar, pois são encontrados na face inferior das folhas apicais, local onde realizam a postura.

A fase jovem do inseto (ninfas) e a fase de ‘pupa’ podem ser encontradas na face inferior das folhas medianas e basais (Figura 4).

Os danos são ocasionados pelos adultos e formas jovens ao se alimentarem das folhas, que ficam amareladas, encarquilhadas, secam e caem.

As hastes começam a secar do ápice para a base. Observa-se nas folhas a presença de uma substância açucarada produzida pelo inseto, conhecida como mel ou mela, resultando na presença de um fungo conhecido como fumagina (Capnodium sp.), que cresce sobre a camada superior das folhas, provocando a redução da área fotossintética.

Altas populações da praga ocasionam redução no rendimento de raízes e afetam a qualidade da farinha (FARIAS; BELLOTTI, 2006; MOREIRA et al., 2006).

Manejo: Algumas alternativas de controle para minimizar os danos, promover a redução populacional e reduzir os prejuízos advindos do ataque do inseto são sugeridas (FARIAS; BELLOTTI, 2006; MOREIRA et al., 2006).

- A adubação adequada na área de cultivo, além do plantio da mandioca em consórcio com culturas não hospedeiras do inseto, pode favorecer a redução da praga.

- A pulverização das plantas atacadas com detergente neutro adicionado ao óleo vegetal, ambos a 1% de concentração, dirigindo o jato para a porção inferior das folhas e repetindo a operação em intervalos de 5 dias, até minimizar a presença de adultos/ninfas.

- A destruição dos restos culturais após a colheita.

- Vistorias regulares (monitoramento) para identificação de focos da praga.

- Utilização do fungo Cladosporium cladosporioides em pulverização para o controle de formas jovens, como forma de controle natural de ninfas da mosca-branca.

Cupins

Os cupins atacam o material de propagação armazenado, as plantas jovens e raízes das plantas em crescimento (Figura 5).

Quando atacam as manivas-semente armazenadas, penetram pela parte seca, podendo invadi-las e destruí-las totalmente; nas plantas jovens, constroem galerias entre a medula e o córtex, impedindo assim o transporte de nutrientes.

Por este motivo, as plantas apresentam um secamento progressivo descendente e logo depois morrem.

Quando esses insetos atacam as raízes de plantas desenvolvidas, observam-se, na epiderme, agregações de terra cristalizada sob as quais se localizam os cupins.

Acredita-se que o maior dano é causado quando atacam as manivas-semente, embora possam afetar seriamente as plantas adultas, podendo também afetar o estabelecimento do cultivo, especialmente durante épocas de secas prolongadas (BELLOTTI et al., 1983).

No Estado do Pará a ocorrência de cupins causando danos em mandioca foi relatada no Município de Bujaru e em menor escala sem implicações econômicas nos municípios de Castanhal, Benevides e Bragança, com predominância de Coptotermes sp. e Heterotermes sp. (Isoptera) (BANDEIRA, 1981).

Manejo: Recomenda-se a manutenção das áreas limpas com eliminação dos restos culturais (BELLOTTI; SCHOONHOVEN, 1978).

Formigas

As formigas (Atta spp. e Acromyrmex spp.) podem desfolhar rapidamente as plantas quando ocorrem em populações altas e/ou não controladas. Fazem um corte semicircular na folha, podendo também atingir as gemas quando os ataques são severos.

Os formigueiros podem ser distinguidos facilmente no campo, pelos montículos de terra que são formados em volta do orifício de entrada. Em geral, os ataques ocorrem durante os primeiros meses de desenvolvimento da cultura.

Sabe-se que a acumulação de carboidratos nas raízes depende da atividade fotossintética que ocorre no sistema foliar e, assim, qualquer distúrbio nessa parte da planta pode prejudicar a quantidade de substâncias amiláceas elaboradas (BELLOTTI et al., 1983; FARIAS; BELLOTTI, 2006).

Manejo: Deve-se efetuar o controle logo que se observem plantas com folhas e pecíolos cortados. O formicida a ser utilizado vai depender das condições climáticas: Os insetos podem ser destruídos dentro do ninho, por meio de fumigação, feita nas épocas chuvosas. Em épocas secas, o uso de isca granulada colocada ao longo dos caminhos deixados pelas formigas é uma boa medida de controle (MATOS; CARDOSO, 2003).

A utilização de manipueira (subproduto da industrialização da mandioca) no controle de formigas cortadeiras foi testada na cultura da mandioca (FARIAS et al., 2007).

O procedimento para a utilização da manipueira consta de: limpeza da área externa de cada formigueiro; depósito de 3 L do produto no olheiro principal; vedação do olheiro principal e dos demais olheiros do formigueiro para evitar a fuga das formigas.

Brocas-do-caule

As brocas-do-caule ou brocas-da-haste causam danos esporádicos ou localizados. As fêmeas da broca ovipositam em várias partes da planta. As larvas, com coloração branca, amarela ou marrom-clara, penetram na haste, fazem túneis e debilitam a planta (Figura 6).

Assim, a presença no plantio tem como aspecto os excrementos ou exsudatos deixados junto à base da planta ou próximo aos orifícios nas ramas (Figura 7).

As hastes podem secar e se partir, ocorrendo redução na qualidade e quantidade do material de propagação (manivas-semente).

Nos períodos secos, as plantas atacadas podem perder as folhas e secar (FARIAS; BELLOTTI, 2006). No Brasil, as espécies mais comuns pertencem à ordem Coleoptera.

A presença de coleobrocas em genótipos de mandioca foi observada na coleção de M. esculenta da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, PA, com o registro das espécies Pappista granicollis (Curculionidae) e Anisopodus lignicola (Cerambycidae) (NORONHA et al., 2013; OLIVEIRA et al., 2014).

Manejo: Recomenda-se observar periodicamente o plantio, principalmente durante períodos chuvosos e de temperatura mais elevada. A redução da população do inseto pode ser obtida com a destruição das hastes atacadas, com o uso de maniva-semente sadia e proveniente de plantações sem ocorrência de ataque da broca e com a utilização de armadilha para a coleta dos adultos (armadilha CNPMF) (CARVALHO et al., 2009; OLIVEIRA, 2009).

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Fonte

MODESTO, Moisés de Souza Junior; ALVES, Raimundo Nonato Brabo. Cultura da mandioca: Apostila. 1ª ed. Belém - PA: Embrapa Amazônia Oriental, 2014.

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