Impactos da Intoxicação por 2,4-D via Esterco
A contaminação por resíduos do herbicida 2,4-D que ocorre no esterco do bovino alimentado previamente por um pasto tratado, pode ter efeitos prolongados no desenvolvimento das plantas que foram adubadas com esse insumo, manifestando-se até anos após o primeiro contato.

Após a aplicação do 2,4-D nos pastos, uma parte significativa do herbicida pode ficar nas folhas e caules das gramíneas, sendo ingerida pelos animais durante o pastejo e parte desse herbicida não é completamente metabolizada pelo sistema digestivo dos bovinos, sendo excretada através das fezes e da urina.
Desde 2008 uma pesquisa realizada por Borggaard e Gimsing mostrou que o 2,4-D apresenta alta solubilidade em água e baixa adsorção ao solo, o que facilita sua lixiviação e sua presença em resíduos orgânicos, como o esterco.
Será que isso é uma complicação muitas vezes negligenciadas por produtores e profissionais no campo da agricultura? Diversos estudos científicos investigaram a persistência do 2,4-D no solo e seus impactos em organismos que não são seu alvo principal.
Por exemplo, um estudo publicado na Environmental Pollution examinou a dinâmica de sorção e degradação do 2,4-D em três tipos de solo agrícola: argiloso, franco e arenoso. Os resultados indicaram que, após 10 dias, aproximadamente 45% e 48% do 2,4-D aplicado foram mineralizados nos solos argiloso e franco, respectivamente. No solo arenoso, a mineralização foi mais lenta devido a períodos de latência mais longos. Após 60 dias de incubação, menos de 2% do herbicida permaneceu em estado extraível nos três solos, sugerindo assim, uma diminuição na disponibilidade do composto ao longo do tempo, mas, ainda sim presente.
Outro estudo, publicado no Journal of Environmental Quality, investigou os efeitos de aplicações contínuas de 2,4-D e MCPA ao longo de 40 anos em solos agrícolas. As análises mostraram que os resíduos desses herbicidas eram inferiores a 0,02 mg/kg, indicando uma degradação quase completa dos compostos. No entanto, a taxa de degradação foi ligeiramente mais rápida em solos com histórico de aplicações contínuas, sugerindo uma adaptação microbiana ao herbicida.
Em contra ponto, uma revisão publicada no Water, Air, and Soil Pollution destacou que o 2,4-D pode induzir alterações em organismos não-alvo (plantas adubadas por esterco contaminado), enfatizando a importância de estudos ecotoxicológicos para avaliar os riscos associados ao uso desse herbicida.
A utilização desse esterco contaminado em viveiros ou em cultivos sensíveis pode resultar na absorção do herbicida pelas raízes das plantas, comprometendo seu crescimento e desenvolvimento. O efeito residual do 2,4-D pode causar fitotoxicidade severa, manifestada por sintomas como:
- Clorose (amarelecimento das folhas);
- Deformação do caule e folhas (efeito típico de auxinas sintéticas);
- Redução no crescimento radicular e aéreo;
- Mortalidade em plântulas e culturas suscetíveis, como tomate, pimentão, feijão e hortaliças.

Por conta disso, é preciso monitorar cuidadosamente o uso de esterco, especialmente se proveniente de animais que consumiram forragem tratada com 2,4-D. A persistência do herbicida no solo e seus possíveis efeitos adversos em organismos não-alvo reforçam a importância de práticas agrícolas sustentáveis e do manejo adequado de resíduos orgânicos para garantir a saúde das plantas e a produtividade dos viveiros.
Recomendações Técnicas para Evitar a Contaminação de Plantas pelo 2,4-D via Esterco
> Certifique-se de que o esterco provém de animais não expostos a forragens tratadas com 2,4-D.
> Evitar o uso de esterco de bovinos alimentados com pastagens tratadas com 2,4-D por pelo menos 30 a 60 dias após a aplicação do herbicida, conforme recomendação de boas práticas agrícolas.
> Testar o esterco antes da aplicação em viveiros e hortas, utilizando bioensaios simples com plantas indicadoras, como feijão ou tomate, para detectar possíveis resíduos fitotóxicos.
> Realizar a compostagem adequada do esterco por um período prolongado, garantindo a degradação de compostos orgânicos persistentes. Estudos indicam que temperaturas elevadas durante o processo de compostagem aceleram a decomposição de resíduos químicos.
> Utilizar fontes seguras de matéria orgânica, como compostos certificados ou esterco de animais criados em áreas sem histórico de aplicação de 2,4-D.
Referencias
ALLETTO, L.; COQUET, Y. Temporal and spatial variability of pesticide dissipation in undisturbed soil cores. Environmental Pollution, v. 134, n. 3, p. 547-557, 2005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16023914/. Acesso em: 10 abr. 2025.
DYKSTRA, M. L.; FENG, J. C. Long-term persistence of 2,4-D and MCPA in agricultural soils. Journal of Environmental Quality, v. 18, n. 3, p. 305-312, 1989. Disponível em: https://acsess.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.2134/jeq1989.00472425001800030010x. Acesso em: 10 abr. 2025.
SILVA, A. R.; FERREIRA, L. C.; MENDES, J. L. Ecotoxicological risks of 2,4-D herbicide in soil and water ecosystems: a systematic review. Water, Air, and Soil Pollution, v. 227, n. 7, p. 240-255, 2016. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/95cdb6b9-3cda-49f6-8871-6f3f894ce8cb. Acesso em: 10 abr. 2025.