Identificação e Características de Forrageiras Perenes para Consórcio com Milho
As forrageiras perenes disponíveis no mercado não foram selecionadas para serem utilizadas em sistemas de integração lavoura-pecuária e muito menos para o estabelecimento em consórcio com culturas anuais; porém, conhecendo suas características, é possível escolher aquelas que são mais adequadas a tais finalidades.
O consórcio de forrageiras perenes com milho é uma alternativa de estabelecimento de pastagens ou de culturas para cobertura do solo; isto é possível devido à diferença de crescimento das duas espécies (SEREIA et al., 2012).
Enquanto o milho, que é uma espécie anual, apresenta elevada taxa de crescimento inicial para transformar toda a energia produzida em grãos, a maioria das forrageiras perenes inicia seu crescimento mais lentamente e forma estruturas perenes como raízes profundas e perfilhos com folhas e colmos, só para depois emitirem inflorescência.
Essa diferença no ritmo de crescimento permite que o milho se desenvolva e produza grãos quase sem a competição da forrageira perene, desde que sejam feitas as adequações necessárias.
Identificação das Espécies e Cultivares
Quase todas as forrageiras perenes podem ser estabelecidas em consórcio com milho, mas a escolha da espécie depende do propósito a que ela se destina, seja para cobertura do solo ou para formação de pastagens, anuais ou perenes.
Assim, é importante reconhecer a espécie forrageira que está sendo cultivada, desde as primeiras fases de crescimento, para identificá-la entre as plantas daninhas e as outras espécies e cultivares de pastagens.
Dessa forma, é possível fazer os ajustes necessários no manejo do consórcio durante seu estabelecimento e, posteriormente, quando da utilização e/ou dessecação da forrageira.
As forrageiras cultivadas podem ser identificadas pelo gênero, tomando como base o tipo de panícula. As principais são laxa, racemosa, contraída e digitada, típicas dos gêneros Panicum e Sorghum, Brachiaria e Paspalum, Pennisetum e Cynodon, respectivamente (Tabela 1).

As espécies da tribo Andropogoneae (gêneros Andropogon e Hemarthria) distinguem-se das demais pelo tipo de ráquis que se desarticula no nó, abaixo das glumas, e cai da inflorescência juntamente com duas espiguetas (semente), sendo uma pedicelada e outra séssil (Figura 1) (ZANIN; LONGHIWAGNER, 2011).

Cultivares do gênero Brachiaria
No gênero Brachiaria a identificação pode ser feita pelo porte da folha, pela pilosidade e pelo tipo de inflorescência (Tabela 2, Figura 2).


Algumas espécies apresentam características bem marcantes, como a Brachiaria ruziziensis, que se distingue pelas folhas decumbentes e bordas onduladas (Figura 3).

As plantas de B. ruziziensis se assemelham às de B. decumbens, porém a primeira apresenta folhas decumbentes e com ondulação nas margens e densa pilosidade, enquanto a segunda tem folhas eretas (Figura 3) e com bordas planas, além de pelos curtos e esparsos.
Além do porte e das bordas das folhas, a pilosidade das bainhas é variável entre as espécies e pode auxiliar na identificação (Figura 4).

Esta característica está ausente nas folhas e colmo de B. humidicola, e nas cultivares MG4 e Paiaguás, de B. brizantha. Ainda nesta espécie, a cultivar Marandu apresenta pilosidade intensa e as cultivares Piatã e Xaraés apresentam pilosidade esparsa.
No gênero Brachiaria, o que chamamos comercialmente de “semente”, do ponto de vista botânico, é uma espigueta, já que nela estão contidas mais de uma flor, embora só uma gere fruto. As “sementes” são sustentadas pela ráquis e o conjunto ráquis + sementes denomina-se racemo (Figura 2). Na B. ruziziensis a ráquis se destaca em relação às demais pela largura, 3,5 mm a 4 mm (Figura 5).

Outro aspecto é a distribuição das sementes na ráquis. Em B. ruziziensis, B. decumbens e B. humidicola há duas séries (fileiras) de “sementes”, posicionadas lado a lado e presas à ráquis. Em B. brizantha há apenas uma fileira, eventualmente duas na base do racemo (Figuras 5 e 6).

Algumas das características morfológicas descritas podem ser alteradas por fatores ambientais, tais como disponibilidade de água, nutrientes (nitrogênio) e luminosidade.
Por exemplo, plantas com folhas eretas podem tornar-se decumbentes, numa condição de grande disponibilidade de água e nitrogênio, além de ocorrer o alargamento das folhas e o aumento do comprimento da ráquis.
As cultivares MG 4 e BRS Paiaguás são muito semelhantes, porque ambas são B. brizantha e não apresentam pilosidade. A BRS Paiaguás é de porte mais baixo e apresenta intenso perfilhamento, enquanto a MG 4 é mais cespitosa.
As cultivares de B. humidicola também são desprovidas de pelos, mas diferem das anteriores por apresentarem racemos e folhas bem mais estreitas e curtas; apresentam, também, estolões bem definidos e, no caso da BRS Tupi, muito longos.
As cultivares BRS Tupi e Llanero têm pilosidade na ráquis e espiguetas, enquanto a cv. comum é glabra (Figura 6). As espiguetas da cv. Llanero são maiores que as demais e apresentam maior pilosidade que as da cv. BRS Tupi.
Esta apresenta flores com anteras amarelas, enquanto as flores das cultivares Llanero e comum são roxas. Os estigmas da cv. BRS Tupi são vermelho-escuros, da cv. Llanero são brancos e da cv. comum são de cor roxa a preta. Os entrenós de Llanero são maiores que os demais.
A época de florescimento é bem diversificada entre as cultivares de braquiária: as mais precoces são B. decumbens, B. humidicola e BRS Paiaguás, seguidas pelas cultivares Piatã, Marandu e B. ruziziensis; a mais tardia é a cv. Xaraés.
Outra característica marcante na B. ruziziensis é o odor emanado pelas plantas, semelhante ao do capim-gordura, Melinis minutiflora Beauv. (SERRÃO; SIMÃO NETO, 1971).
Cultivares de Panicum maximum
As cultivares de Panicum maximum podem ser diferenciadas quanto à presença de pelos e cera, porte da folha e tipo de inflorescência (Tabela 3). Em condições de campo, as cultivares Tanzânia e Mombaça são muito parecidas, porém algumas características sutis as diferenciam (JANK, 1995).

O porte da folha define muito bem a cultivar, sendo que na cv. Mombaça predominam folhas eretas e na Tanzânia, folhas decumbentes (Figura 7). Nem sempre é possível ver estas características, mas na fase vegetativa elas aparecem bem marcantes.

Na cv. Tanzânia, a maioria das folhas ficam arqueadas, enquanto as dos capins mombaça e colonião são eretas; se forem tencionadas, elas quebram na nervura central, formando ângulo inferior a 90 graus (Figura 7).
O capim-colonião se diferencia do capim-mombaça por apresentar cera nas bainhas e colmos, que pode ser vista pela tonalidade esbranquiçada (Figura 8). Em solos de baixa fertilidade as folhas de capim-tanzânia são amareladas, enquanto as dos capins colonião e mombaça são verdes.

Nas plantas de capimtanzânia, normalmente, encontram-se folhas com pintas de coloração marrom, que é um sintoma causado pelo fungo Bipolaris maydis.
Além das características vegetativas, o formato, a densidade e a coloração das panículas podem ajudar na identificação das cultivares de P. maximum (Figura 9).

Escolha das Forrageiras para o Consórcio
Na escolha da espécie e cultivar para ser utilizada em consórcio com o milho, deve ser considerado o propósito a que serão utilizadas as forrageiras, seja para a cobertura do solo, para a formação de pastagens perenes ou de curta duração, ou para pastagem entre a colheita do milho e o plantio da safra de verão.
Cobertura do solo
Se o objetivo é apenas a cobertura do solo, deve ser escolhida uma forrageira com facilidade de dessecação, que produza massa suficiente para cobrir o solo; porém, não convém que tenha crescimento em excesso e também apresente baixo custo de sementes.
A B. ruziziensis é a forrageira que melhor preenche esses pré-requisitos; isto porque suas plantas emitem colmos decumbentes, que enraízam nos nós e cobrem espaços vazios nas entrelinhas.
É uma espécie fácil de dessecar (FERREIRA et al., 2010), já que com 3 L ha-1 de herbicida glyphosate as plantas atingem controle superior a 70%, aos 14 dias após a aplicação do produto, possibilitando a realização do plantio direto de outra cultura, em anos com boa precipitação. Suas sementes custam, em geral, metade do preço das demais.
Na aquisição das sementes deve ser comparado o preço por percentagem de sementes puras e de percentagem de germinação ou de viabilidade pelo teste de tetrazólio; essas informações devem constar na embalagem do produto (BRASIL, 2005). Quando a semente for revestida, deve ser considerado o volume de revestimento, que pode chegar a 73% do peso total (VERZIGNASSI et al., 2013).
Outra espécie que pode ser utilizada para esta finalidade é a B. decumbens, que normalmente apresenta custo de sementes semelhante ao da B. ruziziensis, porém é mais difícil de ser dessecada (FERREIRA et al., 2010).
Eventualmente, as cultivares MG 4 e Paiaguás podem ser utilizadas para cobertura do solo, porque são de fácil dessecação; porém, o preço das sementes normalmente é mais elevado e pode não ser compatível com este propósito.
Formação de pastagens anuais
Se o propósito do consórcio de milho com forrageiras for o de estabelecimento de pastagens anuais para utilização entre a colheita do milho safrinha e a soja, deve ser considerado o preço das sementes, a facilidade de dessecação e a produção de forragem.
Para isto, é conveniente utilizar espécies mais produtivas tais como B. brizantha e P. maximum, embora também seja possível empregar as mencionadas anteriormente, B. decumbens e B. ruziziensis.
A densidade de semeadura deve ser aumentada e o espaçamento entre as linhas de capim deve ser reduzido, em relação ao milho, para 20 cm a 40 cm, para garantir que as entrelinhas sejam preenchidas mais rapidamente.
Na escolha da forrageira deve-se ter em mente a expectativa de produção de carne no período compreendido entre agosto e setembro, que pode não cobrir o custo das sementes de algumas forrageiras. Nesta condição podem ser utilizadas forrageiras como os capins Aruana, Paiaguás, Tanzânia, Xaraés, Piatã e Marandu.
Além destas, em parte da área pode ser empregada, também, a B. ruziziensis, para pastejo, por causa da facilidade para dessecação e semeadura imediata da soja. Isto possibilita que se possa escalonar o plantio da soja, iniciando pelas cultivares que necessitam de menos dias entre a aplicação do herbicida e a condição ideal de plantio.
Os capins Mombaça, Massai e a B. humidicola apresentam custo de sementes incompatível com o consórcio neste período e são de difícil controle. Além do custo da semente, a B. humidicola se destina a solos menos férteis e seu estabelecimento é lento, ficando inviável na sucessão soja/milho + forrageira.
Formação de pastagens perenes
Se o objetivo do consórcio é a formação de pastagens perenes, que permanecerão em uso por vários anos, todas as forrageiras citadas podem ser utilizadas, mesmo os capins Mombaça, Massai e B. humidicola, exceto B. ruziziensis e B. decumbens, em razão da suscetibilidade dessas forrageiras à cigarrinha-das-pastagens.
Para formação de pastagens perenes é necessário redobrar os cuidados com a escolha da espécie e cultivar e, também, com a quantidade e qualidade das sementes. A escolha da forrageira deverá estar relacionada ao nível de fertilidade do solo, ao tipo e categoria de animal que irá utilizar a pastagem e à expectativa de produção.
A cv. BRS Paiaguás apresenta colmos finos e decumbentes e quando em consórcio com milho, mostra-se pouco competitiva com esta cultura anual. Esta forrageira se destaca, ainda, pela produção de forragem na estação seca e pela facilidade de dessecação com o herbicida glyphosate (MACHADO; VALLE, 2011).
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Fonte
CECCON, Gessi. Consórcio Milho-Braquiária. 1ª ed. Brasília – DF: Embrapa, 2013.