Pecuária

Histórico, Conceitos e Fundamentos de Sistemas Integrados na Agropecuária

Daniel Vilar
Especialista
7 min de leitura
Histórico, Conceitos e Fundamentos de Sistemas Integrados na Agropecuária
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Embora os sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) sejam considerados sistemas inovadores, na Europa desde a idade média são conhecidos várias formas de plantios associados entre culturas anuais e culturas perenes ou entre culturas frutíferas e árvores madeireiras. Sistemas integrando árvores frutíferas com a produção pecuária datam do século XVI, aparentemente uma das causas do seu quase desaparecimento foi a mecanização e a intensificação dos sistemas agrícolas, além da dificuldade da colheita manual das frutas e questões administrativas. Vários escritores romanos do século I d.C. dentre eles; Caio Plínio, que escreveu a enciclopédica História Natural (composta de 37 livros), e Lucius Junius Moderatus, conhecido como Columella, autor com o maior repertório documentado sob a agricultura romana, fazem referencias a sistemas de integração entre árvores (Nogueiras e oliveiras) e pastagens (Dupraz e Liagre, 2008).

No Brasil, os imigrantes europeus trouxeram a cultura da associação que desde o início foram adaptadas às condições tropicais e subtropicais. Como por exemplo no Rio Grande do Sul a integração de animais com culturas agrícolas no estado consta dos primeiros anos do século 20, onde bovinos pastejavam a resteva da cultura de arroz irrigado na área das terras baixas. Esse modelo de sistema integrado ainda é utilizado no presente momento. A partir da década de 70, outros modelos de integração lavourapecuária foram trabalhados na região norte do estado, em torno das culturas de soja e de milho com pastagens de inverno para pecuária de corte e posteriormente com pecuária de leite. Já na década de noventa iniciou algumas pesquisas em integração silvipastoril e agrossilvipastoril e houve uma intensificação no conhecimento e tecnologias para manejo integrado dos sistemas considerando a interface solo-planta-animal-floresta e suas interações (Silva et al., 2011).

A integração lavoura-pecuária (iLP) pode ser definida como a diversificação, rotação, consorciação e/ou sucessão das atividades de agricultura e de pecuária dentro da propriedade rural, de forma harmônica, constituindo um mesmo sistema, de tal maneira que haja benefícios para ambas. Possibilita que o solo seja explorado economicamente durante todo o ano, favorecendo o aumento na oferta de grãos, de carne e de leite a um custo mais baixo, devido ao sinergismo que se cria entre lavoura e pastagem (Alvarenga e Noce, 2005).

Segundo Kichel e Miranda (2001), as principais vantagens do uso da iLP são: recuperação mais eficiente da fertilidade do solo; facilidade da aplicação de práticas de conservação do solo; recuperação de pastagens com custos mais baixos; facilidade na renovação das pastagens; melhoria nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo; controle de pragas, doenças e plantas daninhas; aproveitamento do adubo residual; maior eficiência na utilização de máquinas, equipamentos e mão-de-obra; diversificação do sistema produtivo; e, aumento da produtividade do negócio agropecuário, tornando-o sustentável em termos econômicos e agroecológicos.

O aumento de produtividade dos componentes lavoura e animal em sistemas de iLP é resultante da interação de vários fatores e, muitas vezes, de difícil separação. Além da melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, a quebra de ciclos bióticos (pragas, doenças) contribui para aumentar a produtividade do sistema. A redução do uso de agroquímicos em razão da quebra dos ciclos de pragas, doenças e plantas daninhas é outro benefício potencial ao meio ambiente dos sistemas mistos, como a integração lavoura-pecuária (Vilela et al., 2008).

O sistema de associar as culturas foi copiado da natureza pelos indígenas e, posteriormente, transferido aos colonizadores. Nos trópicos o exemplo mais marcante vem dos pequenos agricultores, ao praticarem variados sistemas de consórcios de culturas. Recentemente, passou-se a adotar o sistema de consórcio entre culturas de grãos com forrageiras, chamado de “Sistema Santa Fé – Tecnologia EMBRAPA”; em homenagem a Fazenda Santa Fé, Santa Helena de Goiás-GO, onde se iniciou a tecnologia (Kluthcouski e Aidar, 2003).

Assim, o Sistema Santa Fé fundamenta-se na produção consorciada de culturas de grãos especialmente o milho, sorgo, milheto, arroz e soja, com forrageiras tropicais, principalmente as do gênero Brachiaria sp. e/ou outras, em áreas de lavoura com solo parcial, ou devidamente, corrigido. Os principais objetivos deste sistema são a produção de forrageiras para a entressafra e palhada em quantidade e qualidade para o SPD (Kluthcouski e Aidar, 2003).

A inclusão do componente “florestal” aos subsistemas lavoura e pastagens representa um avanço inovador da iLP, surgindo o conceito de Integração LavouraPecuária-Floresta (iLPF), que é uma “estratégia de produção sustentável que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais, realizados na mesma área, em cultivo consorciado, em sucessão ou rotação, buscando efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema, contemplando a adequação ambiental, a valorização do homem e a viabilidade econômica” (Balbino et al, 2011). Ainda conforme estes autores podem-se classificar quatro modalidades de sistemas distintos de “integração”:

1. Integração Lavoura-Pecuária ou Agropastoril: sistema de produção que integra o componente agrícola e pecuário em rotação, consórcio ou sucessão; na mesma área e em um mesmo ano agrícola ou por múltiplos anos.

2. Integração Pecuária-Floresta ou Silvipastoril: sistema de produção que integra o componente pecuário e florestal, em consórcio.

3. Integração Lavoura-Floresta ou Silviagrícola: Sistema de produção que integram o componente florestal e agrícola, pela consorciação de espécies arbóreas com cultivos agrícolas (anuais ou perenes).

4. Integração Lavoura-Pecuária-Floresta ou Agrossilvipastoril: sistema de produção que integra os componentes agrícola, pecuário e florestal em rotação, consórcio ou sucessão, na mesma área. O componente “lavoura” restringe-se ou não a fase inicial de implantação do componente florestal.

Os sistemas apresentados abrangem os sistemas agroflorestais (SAFs), que são classificados em: silviagrícola, silvipastoril e agrossilvipastoril (Nair, 1991; Montagnini et al., 1992; Bandy, 1994; Dubois, 2004), sendo portanto a iLPF uma estratégia que apresenta classificação mais abrangente.

Os sistemas de iLPF devem ser adequadamente planejados, levando-se em conta os diferentes aspectos socioeconômicos e ambientais das unidades de produção. Eles podem ser adotados por qualquer produtor rural (pecuarista e/ou agricultor), independente do tamanho do estabelecimento agropecuário. Evidentemente, a forma e a intensidade da adoção do conjunto de tecnologias que compõem a iLPF dependerão, entre outros fatores, dos objetivos e da infraestrutura disponível de cada produtor. O pecuarista, por exemplo, pode utilizar o consórcio ou a rotação de culturas graníferas com forrageiras, para a implantação de pastagens ou para sua recuperação, no caso de estarem degradadas. Pode também implantar o sistema silvipastoril, visando a exploração de produtos madeireiros e não-madeireiros, além dos produtos da pecuária. Por outro lado, o agricultor pode utilizar o consórcio ou a rotação de culturas graníferas com forrageiras, para produzir cobertura morta de boa qualidade e em grande quantidade para o sistema de plantio direto (SPD) da safra seguinte. Por fim, aquele produtor que deseja exercer as atividades integradas pode utilizar a iLPF para implantar um sistema agrícola sustentável, utilizando os princípios da rotação de culturas e do consórcio entre graníferas, forrageiras e espécies arbóreas, de forma a produzir, na mesma propriedade, grãos, carne ou leite e produtos madeireiros e não-madeireiros ao longo de todo ano.

Esses sistemas não encerram as diferentes alternativas e soluções para os problemas dentro da unidade de produção. Os resultados esperados traduzem a expectativa imediata do empreendedor rural e estão orientados ao desenvolvimento de uma agricultura sustentável.

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Fonte

BALBINO, Luiz Carlos; VILELA, Lourival; CORDEIRO, Luiz Adriano Maia; DE OLIVEIRA, Priscila; PULROLNIK, Karina; KLUTHCOUSKI, João; DA SILVA, Jamir Luís Silva. Integração Lavoura-pecuária-floresta (ILPF) Região Sul.

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