Pecuária

Estruturas Utilizadas na Produção do Peixe Pirarucu

Daniel Vilar
Especialista
12 min de leitura
Estruturas Utilizadas na Produção do Peixe Pirarucu
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Existem várias estruturas para o cultivo do pirarucu: viveiros escavados, barragens, tanques-rede, tanques circulares de manta vinílica e caixas d’água, sendo que cada uma apresenta características específicas quanto ao formato, necessidade de renovação de água e manejos.

Dessa forma, as principais características e os manejos básicos que são necessários para cada uma das estruturas encontram-se descritos a seguir.

Viveiros escavados

Os viveiros de recria devem ser preferencialmente de pequeno a médio porte (400 m² a 1.000 m²), a fim de facilitar o manejo nas biometrias e despescas (FRANCO-ROJAS; PELAÉZ-RODRÍGUEZ, 2007; GUERRA, 2002).

A densidade de alevinos de pirarucu na recria em viveiro escavado pode variar de 1 a 2,5 alevinos/m², considerando uma produção máxima de 4.000 kg/ha (FRANCO-ROJAS; PELAÉZ-RODRÍGUEZ, 2007; GUERRA, 2002; ONO; KEHDI, 2013).

Para a engorda, geralmente são utilizados viveiros de 2.000 m2 a 10.000 m2 (REZENDE; BERGAMIN, 2013). A densidade utilizada na engorda em viveiro escavado é em torno de 800 peixes/ha, para um peso final de 10 kg, considerando uma produção máxima de 8.000 kg/ha (ONO; KEHDI, 2013).

Maiores ou menores produtividades são possíveis dependendo de fatores como disponibilidade de água para renovação e qualidade da água no cultivo. Em propriedades que apresentam grande disponibilidade de água, é possível utilizar densidades mais elevadas, pois, caso necessário, conseguem fazer uma grande renovação da água de cultivo.

Por outro lado, em propriedades onde há baixa disponibilidade de água, sugere-se trabalhar com densidades menores, como forma de manter níveis adequados de qualidade de água, sem a necessidade de renovações ao longo do cultivo.

O tempo de cultivo para que os peixes alcancem o peso médio final de 10 kg em viveiros é de 9 a 10 meses, iniciando com animais de 800 g a 1 kg.

O cálculo da quantidade de peixes por viveiro que o produtor irá estocar deve iniciar sempre com a definição do peso que o produtor espera despescar o peixe.

Se o produtor estiver utilizando o sistema trifásico, esse mesmo procedimento pode ser utilizado no cálculo da quantidade de animais que serão estocados nos viveiros entre as fases de produção.

Sabendo-se isso e definindo-se a produtividade esperada pelo sistema (que varia de acordo com a disponibilidade e qualidade da água), deve-se calcular a quantidade de peixes que será estocado por viveiro.

Posteriormente, prevendo uma taxa de mortalidade máxima, adiciona-se essa diferença (Figura 47). Esse mesmo procedimento, também, pode ser utilizado para o cálculo de animais a serem estocados em barragens.

O sistema de abastecimento de água em viveiros escavados deve ocorrer em lado oposto à instalação do sistema de drenagem, permitindo que a água de drenagem seja sempre a mais antiga no viveiro (Figura 48).

Recomenda-se que os viveiros apresentem leve declive (0,1% a 2,0%, dependendo do comprimento do viveiro), pois este permitirá sua secagem total para posterior desinfecção, etapas importantes para eliminar organismos indesejáveis no viveiro, minimizando os riscos de transmissão de doenças entre os ciclos de produção, principalmente na fase inicial (recria), já que os alevinos são mais susceptíveis a doenças.

O abastecimento dos viveiros pode ocorrer por canaletas a céu aberto ou por tubulações. A drenagem de água em viveiros de pequeno e médio porte é realizada geralmente por estruturas de tubos denominadas de cachimbo, que é composto por tubo de PVC acoplado a uma curva de 90°.

Este pode ser posicionado na parte interna ou externa do viveiro, com o cuidado para proporcionar a drenagem da água do fundo e impedir a saída dos peixes (Figura 49).

Os viveiros escavados possibilitam um bom desempenho dos pirarucus na fase de recria (GUERRA, 2002; ONO; KEHDI, 2013) e apresentam como vantagens a possibilidade de adubação/fertilização, manejo que contribui para o desenvolvimento do alimento natural, o qual é consumido pela espécie nessa fase do cultivo (PEREIRA FILHO; ROUBACH, 2010; QUEIROZ, 2000).

Por outro lado, exigem alto investimento em telas antipássaros, necessárias para evitar a predação dos animais por aves ou morcegos (Figura 50A e 50B).

Em alternativa, alguns produtores têm utilizado fios de nylon (linha de pescaria 0,40 mm ou 0,50 mm) com êxito na redução de predação por aves piscívoras e morcegos pescadores, porém esta alternativa não é tão eficiente quanto às telas.

A fixação da linha de nylon ocorre em arame de aço bem esticado, que passa em estacas no perímetro do viveiro, as quais são distanciadas cerca de 5 m a 8 m uma da outra.

A linha deve ser amarrada no arame de um lado e do outro do viveiro, dispostas paralelamente a cada 30 cm a 40 cm (Figura 50C).

A diferença básica entre o viveiro de recria e de engorda é o tamanho, que na engorda geralmente é maior. Além disso, não há necessidade de colocação de tela antipássaros, uma vez que os peixes na engorda (40-50 cm) não são mais alvos de predadores como aves e morcegos.

Um aspecto que merece atenção na engorda é que, quando os pirarucus estão com peso a partir de 5 kg a 6 kg, em geral, a movimentação deles causa a suspensão de partículas na água, aumentando a turbidez.

Isso ocorre dependendo do tipo de solo do viveiro, mas pode dificultar o processo de alimentação, considerando que a espécie é uma predadora visual e precisa ver o alimento para apreendê-lo.

No entanto, este não é um fator que impede a produção, porém vai exigir um maior cuidado na alimentação, de forma a agregar o cardume em uma área do viveiro e ofertar a alimentação mais lentamente. Para evitar esse problema, Ono e Kehdi (2013) tem indicado a utilização de viveiros com profundidade maior que 2,5 m.

Barragens

As barragens são muito utilizadas para a produção de peixes na região Norte, inclusive para produção do pirarucu. No último censo aquícola, publicado em 2008, 32% dos produtores realizavam a produção do pirarucu em barragens/açudes (BRASIL, 2008).

Rebelatto Júnior et al. (2015) relataram que 21% dos produtores utilizam essa estrutura para a produção.

Em geral, não são utilizadas para recria, devido a maior dimensão em comparação aos viveiros, o que dificulta a utilização de telas antipássaros e procedimentos de secagem e desinfecção, que eliminam possíveis predadores.

Na engorda em barragens, há produção de pirarucu em monocultivo (produção de uma única espécie) ou associada a outras espécies, como o tambaqui, sem prejuízos para ambas (bicultivo).

Nesse caso, o pirarucu é a espécie secundária, sendo por isso estocada em menor quantidade, e, por ter hábito carnívoro, auxilia na diminuição da quantidade de peixes forrageiros. Lembrando que nesse caso é importante estocar os peixes cultivados como espécie principal com tamanhos compatíveis, a fim de evitar que o pirarucu os prede.

A produção em barragens é realizada em menor densidade de estocagem e, por isso, em geral, há um crescimento mais acelerado da espécie, o que pode ser também resposta à maior disponibilidade de peixes forrageiros, que complementam a alimentação.

O tempo de cultivo para que os peixes alcancem o peso médio final de 10 kg nessa estrutura de cultivo é de cerca de 10 a 12 meses quando produzidos em monocultivo, iniciando com animais entre 500 g e 1 kg. Quando produzidos em bicultivo, como espécie secundária, podem alcançar peso maior do que em monocultivo.

Tanques-rede

O cultivo do pirarucu em tanques-rede ainda é incipiente no país, mas é uma estrutura que permite a produção de forma satisfatória, tanto para a fase de recria quanto para a de engorda, com rentabilidade econômica dependendo do valor de venda do produto praticado no mercado (ONO et al., 2003; ONO; KEHDI, 2013).

No entanto, o crescimento do peixe é mais lento nessa estrutura, quando comparada aos viveiros e barragens em um mesmo período de cultivo, sobretudo por trabalhar com maiores adensamentos e pelo fato das rações disponíveis no mercado não atenderem completamente as necessidades da espécie, uma vez que estando acondicionados no tanque-rede, não dispõem de alimento complementar.

O tanque-rede é composto basicamente por um elemento de flutuação, uma estrutura de armação, tela de contenção dos peixes, comedouro e tampa.

Na produção de alevinos, pode ainda ser adicionado um bolsão com malha de tamanho inferior à tela do tanque-rede, até que os animais atinjam tamanho suficiente para serem liberados neste (Figura 51).

Na recria do pirarucu, podem ser utilizados tanques-rede de diversos tamanhos (Figura 52B), sendo os mais recomendados os de 4 m³ e 13,5 m³, com bolsões de malha entre 5 mm e 10 mm, que não permitam o escape dos peixes (Figura 52A).

São estocados de 40 a 80 peixes/m³ (para um peso final nessa fase de 1kg e 0,5 kg, respectivamente), considerando uma produção máxima de 40 kg/m³ (ONO; KEHDI, 2013).

Quando os produtores não possuem viveiros protegidos com telas antipássaros, podem utilizar tanques-rede dentro dos viveiros ou barragens, de forma que os alevinos fiquem protegidos contra predadores (Figura 52C), sendo liberados no viveiro ou barragem apenas quando alcançarem tamanho suficiente para não serem predados.

A desvantagem desse método é que o alevino passa a depender exclusivamente da ração ofertada, pois não consegue aproveitar o zooplâncton disponível no meio.

Além disso, a elevada densidade utilizada nesse tipo de estrutura pode contribuir para problemas sanitários, principalmente parasitoses, devendo, por isso, ser reforçado o acompanhamento da alimentação e do comportamento dos animais.

Na engorda, a densidade em tanques-rede pode chegar até a 14 peixes/m³, para peixes com peso final de 8,5 kg, considerando uma produção máxima de 120 kg/m³ (ONO; KEHDI, 2013). Em cerca de 10 a 12 meses de engorda, iniciando com peso entre 0,5 kg e 1 kg o pirarucu alcança o peso médio de 10 kg em viveiros e barragens, enquanto que em tanques-rede atinge cerca de 8,5 kg.

Existem experiências com a engorda de pirarucu em tanques-rede de pequeno volume (5 m³ – 18 m³) e de grandes volumes, 300 m³ (ONO et al., 2003; ONO; KEHDI, 2013), mas ainda não há informações que indiquem o melhor tamanho do tanque-rede para o cultivo do pirarucu. O tamanho de malha indicado para essa fase é entre 8 mm e 25 mm (ONO; KEHDI, 2013).

O manejo em tanques-rede é mais intensivo do que em viveiros escavados. São necessários procedimentos de limpezas periódicas, principalmente na recria, quando são utilizadas malhas muito pequenas, que favorecem a colmatação (entupimento das telas).

Além disso, a cada biometria, devem ser realizadas conferências no tanque, a fim de prevenir problemas de rompimento de tela e consequente escape de peixes.

Para manejos de repicagem e despesca, é necessária a utilização de balsas, de forma a suspender o tanque para captura dos peixes, evitando que eles saltem e fujam dos tanques-rede. Já o procedimento de captura para biometrias e despesca é mais prático e rápido, considerando que os peixes estão adensados em um pequeno espaço.

Caixas d’água

Alguns piscicultores têm utilizado caixas d’água (Figura 53) para o desenvolvimento da fase de recria.

Porém, considerando a grande limitação do espaço e a troca de água pouco efetiva, em geral, os produtores trabalham com uma redução contínua da densidade (repicagem), combinada a classificações dos peixes por tamanho sempre que a diferença entre os animais estiver acentuada.

Apesar do uso dessa estrutura permitir um melhor acompanhamento visual dos animais e triagens constantes, não vem sendo eficiente para o crescimento do peixe, além de exigir manejo mais intensivo quando comparada às demais estruturas de cultivo.

Adicionalmente, o adensamento comum dos sistemas mais intensivos é um dos fatores que propicia a maior incidência de parasitoses.

O uso dessas estruturas, em geral, é feito por produtores que também realizam a alevinagem e veem a oportunidade de aproveitar a infraestrutura pré-existente para a fase de recria. A estrutura de caixas d´água utilizadas na alevinagem está descrita no tópico “Tipo de estruturas”.

A densidade de alevinos nas caixas d’água circulares varia muito para cada classe de tamanho (Tabela 7).

Observa-se que no final da recria, quando os peixes estão com cerca de 40 cm a 50 cm, o número de animais por caixa é muito baixo, o que inviabiliza a manutenção de grandes lotes em laboratório, uma vez que estes demandariam um grande número de caixas d’água.

Tanques de lona vinílica

Assim como os tanques-rede, o tanque de lona vinílica é uma estrutura de cultivo ainda pouco utilizada para a produção do pirarucu, mas alguns produtores já vêm utilizando essa estrutura e obtendo resultados satisfatórios (Figura 53).

Contudo, é importante ressaltar que a produção do pirarucu em tanque de lona vinílica é uma forma de intensificar a produção e depende de altas taxas de renovação de água, com pouca ou nenhuma presença de alimento natural na água.

Nessa estrutura de cultivo, o manejo é facilitado e permite um maior acompanhamento visual dos peixes. Entretanto, existem poucas informações sobre o cultivo de pirarucu nessa estrutura.

Alguns produtores têm utilizado a densidade de até 2.000 alevinos para a recria em tanques de vinilona de 6.000 L. Na engorda, são praticadas densidades de até 4 peixes/m3 em tanques de 30.000 L (REBELATTO JUNIOR et al., 2015). O tempo de cultivo na engorda é de 12 meses, com o peixe iniciando com 1 kg e finalizando com 10 kg.

Independente tipo de estrutura a ser utilizado pelo piscicultor na recria e engorda do pirarucu, seu sucesso estará diretamente ligado à adoção de manejos adequados na alimentação, no controle sanitário, monitoramento da qualidade de água e proteção contra predadores.

Em viveiros escavados, o preparo e fertilização são etapas críticas para o sucesso da recria e manutenção da qualidade da água durante todo o ciclo produtivo, enquanto que nas caixas d’água, tanques-rede e tanques circulares de lona vinílica destacam-se a manutenção da limpeza dessas estruturas e a renovação constante da água como pontos fundamentais.

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Fonte

LIMA, Adriana Ferreira; RODRIGUES, Ana Paula Oeda; DE LIMA, Leandro Kanamaru Franco; MACIEL, Patricia Oliveira; REZENDE, Fabrício Pereira; DE FREITAS, Luiz Eduardo Lima; DIAS, Marcos Tavares; BEZERRA, Tácito Araújo. Alevinagem, Recria e Engorda de Pirarucu. 1ª ed. Brasília – DF: Embrapa, 2017.

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