Distúrbios Fisiológicos do Cafeeiro
Distúrbios de naturezas diversas podem acometer os cafeeiros, provocando anormalidades que podem resultar em queda de produção, declínio da planta, podendo tornar inviável a exploração econômica da lavoura.
Podem ter início em cafeeiros ainda em formação agravando-se às vezes, logo na primeira produção. Parte desses distúrbios, com causas bióticas, é citada e estudada como pragas e doenças do cafeeiro.
Abordaremos neste artigo os principais distúrbios de causas abióticas, que muitas vezes são confundidos com sintomas de doenças do cafeeiro.


PROBLEMAS NO SISTEMA RADICULAR
A existência de um sistema radicular sadio e vigoroso do cafeeiro é primordial para o estabelecimento de uma lavoura produtiva economicamente e com uma longa vida.

Os sintomas de problemas no sistema radicular são mais intensos em períodos de veranico e vão desde o amarelecimento generalizado, murcha, queda de frutos, morte de ramos plagiotrópicos até a morte da planta.
Mesmo que grande parte das plantas sobreviva, o cafezal fica comprometido em sua longevidade e capacidade produtiva.
Pião torto
A raiz principal do cafeeiro, também chamada de “pião”, se desenvolve normalmente de 40 a 50 centímetros de profundidade.
É fundamental que este desenvolvimento ocorra sem enovelamentos, bifurcações ou tortuosidades pronunciadas.
Quando algum desses problemas acontece na implantação da lavoura, a planta tem dificuldade de se estabelecer, gerando atrasos significativos no crescimento, amarelecimento generalizado, murcha, desfolhamento e, muitas vezes, morte das plantas mais afetadas. Esses sintomas são mais evidentes no período de secas.
As principais causas do pião torto são:
- Repicagem de mudas nos viveiros (prática proibida por Norma do IMA);
- Rega insuficiente das mudinhas no viveiro;
- Enchimento inadequado dos saquinhos, sem um mínimo de compactação, ocasionando uma falha que origina um bloco descontínuo que dificulta o aprofundamento das raízes;
- Reaproveitamento de sobras de bloquinho do viveiro anterior;
- Não fazer o corte do fundo dos saquinhos;
- Manipulação incorreta das mudas no transporte e no plantio;
- Problemas relacionados à estrutura dos solos, como camadas compactadas, lajes de pedra, etc.
- Sulcos de plantio ou covas rasos e mal preparados;

Pião bifurcado
Esse problema tem sintomas semelhantes à do pião torto. As causas mais comuns são o corte alto do fundo dos saquinhos ou o aproveitamento de mudas cujo torrão (“bloco”) tenha se partido ao meio, durante o manuseio no transporte e nas operações de plantio.

Sistema radicular pouco desenvolvido
Em mudas produzidas em ambientes (viveiros) com muita sombra há um desenvolvimento maior da parte aérea em detrimento do sistema radicular, fato que é agravado quando são feitas adubações nitrogenadas excessivas. Outra possível causa é o uso de substrato pobre em matéria orgânica e nutrientes.

Em lavouras implantadas este problema pode ocorrer devido à impedimentos físicos e químicos (fertilidade), compactação pelo uso intensivo de mecanização e irrigação localizada.
Quando os problemas no sistema radicular são menos severos, consegue-se formar o cafezal, inicialmente, sem o aparecimento dos sintomas. Nesses casos, os mesmos aparecem em anos posteriores.
Mesmo que grande parte das plantas sobrevivam, o cafezal fica comprometido em sua longevidade e capacidade produtiva.
Por isso, lavouras com problemas nas raízes, a recomendação técnica é a erradicação, pois não apresentam boas respostas às podas de renovação.

PROBLEMAS NA PARTE AÉREA
No Colo
O colo (ou coleto) é a região de transição entre a raiz e o caule da planta. No cafeeiro, são inúmeros os problemas que podem afetar essa região, causando danos, principalmente durante a implantação do cafezal. A observação desse ponto torna-se particularmente importante.
Afogamento
O plantio profundo das mudas ficando o colo das plantas abaixo do nível do solo caracteriza o afogamento.
Uma causa ocorre quando os sulcos ou covas de plantio formam uma depressão que com o tempo, poderá se encher com terra por efeito de erosão ou mesmo de práticas culturais, ocasionando o afogamento.
O cafeeiro é particularmente sensível a esse problema e as mudas “afogadas” terão alterações na sua anatomia e na sua fisiologia, com prejuízos significativos.
O problema é mais grave quanto maior seja a extensão do afogamento e afeta mais as mudas recém-plantadas.
O contato da terra com essa porção inicial do caule e a tentativa da planta de buscar compensar a sua pequena capacidade de condução de seiva induz o surgimento de raízes laterais e um engrossamento anormal da região afogada do caule, com desestruturação dos tecidos da casca (floema), que se apresentam com rachaduras e descorticamento.
Essa alteração na estrutura do caule causa diminuição no fluxo da seiva para as raízes, com amarelecimento, perda de folhas e redução no crescimento das mudas no campo. Em casos extremos pode ocorrer a morte de plantas.
Como não há uma correção eficaz após detectado o problema, sugere-se, como precaução, encher as covas ou sulcos de plantio com volume de terra que ultrapasse o nível do solo, de modo que quando houver um abatimento da terra, não se forme uma depressão naquele ponto.



Lesão por calor
Tem causa semelhante ao afogamento. Quando a muda é plantada com o coleto abaixo do nível do solo e em condições de clima quente e solo arenoso (solos arenosos absorvem mais calor e ficam mais aquecidos que os argilosos), o caule fica sujeito a uma temperatura à qual não é adaptado, causando-lhe lesões e em situações mais extremas, morte da casca neste ponto, com consequente morte da muda.

No Caule
Danos mecânicos
Os danos mecânicos são causados, principalmente, por instrumentos cortantes como enxadas e roçadeiras, durante as operações de capinas e roçadas.
Esses danos localizam-se geralmente na porção do caule próximo ao solo e são uma porta de entrada para doenças ou até mesmo levar a planta a morte.

Roletamento por vento
Em alguns locais, a ação de ventos constantes sobre a muda de café provoca movimentos da sua copa, com deslocamentos do caule junto ao solo. Essa fricção repetida do caule com o solo provoca lesões, muitas vezes em forma de anel (roletamento) e podem levar à morte da muda.

Uma característica evidente da causa do problema é o afastamento da terra ao redor do caule, deixando um espaço vazio, geralmente circular. Mudas maiores, ditas “caneludas”, são bem mais sujeitas de serem afetadas.
Evita-se o problema usando mudas menores e quebra-ventos temporários. Em casos extremos, quando não foi feita a implantação de quebra-ventos, pode-se fazer o estaqueamento das mudas.

Canela de vento
Tem causa muito semelhante à de lesão por vento. Quando a muda já está bem fixada ao solo, a ação do vento sobre sua copa provoca uma lesão de maior extensão ao longo e em torno do caule, geralmente em mudas de até 1 ano de idade.
Neste caso, a planta já bem fixada não movimenta sua base junto ao solo, mas o caule sofre repetidos envergamentos, causando danos à sua estrutura. A evidência externa é de engrossamento do caule, desestruturação e rachaduras da casca. Também neste caso, evita-se usando quebra-ventos.
Canela de geada
A canela de geada é uma lesão na porção inicial do caule, que pode alcançar até 20 cm de extensão, causada pela morte da casca, em consequência de geada.
Assim como nos demais danos ao caule da planta, seja no colo ou em porções acima dele, onde a casca é destruída, a interrupção do fluxo de seiva até as raízes provoca redução na atividade radicular, com morte de parte das raízes. Nesses casos, inicialmente quase não se percebem os sintomas.
Com o passar do tempo, quando a parte aérea demanda um maior suprimento de água e nutrientes, as raízes não conseguem atender satisfatoriamente, aparecendo os sintomas na parte aérea, que vão desde murcha até amarelecimento e morte da parte da planta acima da região necrosada.
Geralmente a planta consegue sobreviver, recompondo o sistema radicular e surgem brotações novas no caule, abaixo daquele ponto.
A prevenção desse problema é a mesma para outras manifestações de geada, ou seja, respeito à linha de geada, implantação de cortinas vegetais acima das lavouras, para impedir que massas muito frias de ar atinjam os cafeeiros, principalmente os mais jovens, pois estes ainda não têm uma saia que os protejam satisfatoriamente.
Superbrotação
O cafeeiro é uma planta arbustiva que cresce de forma contínua, emitindo ramos ortotrópicos (verticais), plagiotrópicos (laterais) e ramos adicionais, tanto sobre os ortotrópicos (ladrões) quanto sobre os laterais (ramos secundários, terciários, etc.).
Na axila de cada folha do ramo ortotrópico existem as gemas seriadas, que dão origem a ramos ladrões e, acima destas, uma (única) gema cabeça-de-série, que dá origem ao ramo lateral, único.
Chuvas e adubações nitrogenadas em excesso estimulam a formação de ramos laterais no lugar de flores.

Altas produções principalmente em cafeeiros jovens, pragas e doenças, seca, entre outras, causam desfolha que provocam intenso estresse nas plantas afetadas, induzindo a quebra da dormência das gemas seriadas, ocorrendo intensa brotação de ramos ladrões, provocando o “envassouramento”.



Problemas em folhas, ramos, flores e frutos
Flores anormais
A ocorrência de flores anormais em um cafeeiro tem como causa a exposição precoce das partes internas da flor e como consequência pode ocorrer o abortamento da florada.
Dentre os fatores relacionados à formação de flores anormais, as condições de alta temperatura, predispõem a incidência desta anormalidade. Estiagem prolongada e fatores genéticos, também são tidos como fatores predisponentes.


Faísca elétrica (raio)
Seus danos são caracterizados pela queima que atinge os ramos e as folhas. A identificação da ocorrência de faísca elétrica é o aparecimento repentino dos sintomas, após tempestades, diferentemente de doenças, cuja evolução é mais lenta.
Os efeitos ocorrem geralmente em reboleiras e alcançam áreas de tamanhos variáveis. Os danos são decrescentes à medida que se afastam do ponto central da reboleira.
Dependendo da intensidade da descarga, pode ocorrer a seca total da planta ou apenas da parte superior, mais exposta.
É recomendável aguardar a confirmação da extensão dos danos, para se proceder à poda, se necessário.


Escaldadura pela insolação
Ocorre com frequência no verão, em dia quente e ensolarado, devido à incidência perpendicular dos raios solares sobre as folhas.
Cafezais em formação, quando muito infestados pelo mato alto exercendo proteção do sol, quando capinados ou roçados, sofrem mais severamente, devido à exposição súbita aos raios solares.

A escaldadura resulta em clorose parcial ou total com morte dos tecidos atingidos, devido à destruição dos cloroplastos. Geralmente a parte da planta exposta à face poente é mais sujeita à insolação e, portanto, aos danos.

Granizo
O cafezal está exposto, além dos fenômenos climáticos relatados até aqui, também à ocorrência de chuva de granizo, intempérie muito temida e para a qual não há planejamento na implantação da lavoura que possa diminuir a vulnerabilidade do empreendimento, dada a natureza da ocorrência.
Dependendo da intensidade do granizo e da fase fenológica das plantas (floração, frutificação, granação e amadurecimento), os prejuízos mais diretos são a queda das folhas, flores, frutos e injúrias no tronco e ramos que se constituem em portas de entrada para fungos e bactérias causadores de doenças.
Outro problema decorrente das injúrias em hastes e troncos é a superbrotação que sobrevém de forma totalmente aleatória, nas partes afetadas, ocasionando uma desestruturação na arquitetura das plantas.
Após a ocorrência do granizo é preciso uma avaliação muito criteriosa da extensão dos danos e das possibilidades de recuperação da lavoura mediante tratos fitossanitários e de recondução, por meio de podas e desbrotas.
A primeira providência a ser tomada, caso haja a alternativa de recuperação da lavoura, consiste na pulverização imediata, com fungicidas-bactericidas de ação cicatrizante. Assim que as plantas afetadas iniciarem a brotação, deve-se dar início às podas e desbrotas necessárias.




Descoloração pelo frio
A descoloração pelo frio afeta, principalmente, as folhas novas causando manchas despigmentadas ou esbranquiçadas, em consequência da destruição da clorofila.
O fenômeno ocorre em noites frias, com temperatura abaixo de 3ºC, porém, não o suficiente para caracterizar a geada.
Quando a intensidade é menor, observa-se apenas uma linha esbranquiçada na borda do limbo foliar. Em casos mais graves, a maior parte do limbo fica injuriada, com grandes manchas esbranquiçadas, com interrupção do crescimento das folhas.
Friagem
A friagem provoca danos diretos pela dilaceração, resultante da ação dos ventos sobre as folhas afetadas, e indiretos, pela penetração de microrganismos nas feridas abertas, chegando a causar prejuízos.

Caracteriza-se pela descoloração generalizada de parte da folhagem do topo das plantas, sendo de ocorrência mais restrita às regiões altas e frias, normalmente acima de 900 metros. A arborização do cafezal pode contribui para amenizar os efeitos.

Chochamento e má granação dos frutos
São distúrbios que acarretam prejuízos em decorrência do menor rendimento do café beneficiado e no rebaixamento do tipo, devido ao aparecimento de grãos negros (coração negro), ainda aquosos, chochamento, má granação e alta porcentagem de grãos miúdos.
Tem como principais causas a deficiência hídrica no período entre 90 e 120 dias após a florada, incidência da cercosporiose e deficiências minerais de boro, zinco, cálcio e potássio.



Geada
A geada ocorre quando a temperatura do ar fica abaixo do ponto de congelamento da água, 0º C, podendo ocasionar a morte dos tecidos. Inicialmente, ocorre a formação de cristais de gelo sobre as superfícies foliares expostas, sendo este fenômeno denominado de geada branca.

No caso do cafeeiro, quando a temperatura fica abaixo de -3º C, ocorre a morte dos tecidos. Em condições de vento frio e baixa umidade relativa do ar, ocorre uma intensa desidratação das superfícies expostas e morte dos tecidos, sendo este fenômeno conhecido como geada negra ou geada de vento.
Após a ocorrência da geada, deve-se fazer imediatamente uma vistoria nos talhões afetados a fim de se avaliar a extensão dos danos.
Quando estes apresentarem lesões apenas superficiais nas folhas, recomenda-se fazer pulverizações com produto fungicida-bactericida, com ação curativa, para prevenir infecções por microrganismos patogênicos.
Em casos mais graves, com morte dos tecidos dos ramos (plagiotrópicos e ortotrópicos), recomenda-se aguardar pelos sinais de brotações novas, para nortear as medidas a serem tomadas, com relação, principalmente às podas, para recuperação das plantas.


Queima química
A queima química é um distúrbio fisiológico que afeta o cafeeiro, principalmente em lavouras novas.
É provocada tanto por efeito salino de caldas em pulverização, como pelo contato direto do adubo com as folhas, quando estas se encontram molhadas ou orvalhadas.
Dependendo da intensidade da injúria, a queima nas folhas pode se estender por toda a planta, chegando a acarretar a sua morte.
Também pode ocorrer pela alta concentração do fertilizante químico no solo, quando aplicado em doses elevadas.

Seca
O cafeeiro requer um total entre 1.200 mm e 1.800 mm anuais de chuvas, distribuídos regularmente nos períodos de desenvolvimento vegetativo e de frutificação. Déficit de até 150mm durante o repouso vegetativo é suportado sem grandes prejuízos.

Variegação
A variegação é uma anomalia citoplasmática, que se caracteriza pela descoloração parcial ou total das folhas do cafeeiro, podendo afetar um ou mais ramos da planta, porém, de ocorrência esporádica e sem prejuízos econômicos ao cafeeiro.

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Fonte
MESQUITA, Carlos Magno de, et al. Manual do Café: Distúrbios fisiológicos, pragas e doenças do cafeeiro (Coffea arabica L.). 1ª ed. Belo Horizonte – MG: EMATER, 2016.