Desafios no Manejo Sustentável de Plantas Daninhas em Pastagens
1. Introdução
Como uma das principais atividades econômicas do país, a pecuária se destaca pela participação na produção de riquezas e aumento na exportação de produtos no país. O Brasil possui o maior rebanho bovino comercial do mundo, com mais 222 milhões de cabeças (IBGE, 2020). A pecuária ao longo dos anos vem ganhando destaque, se modernizando cada vez mais, para torna-se uma atividade de alta rentabilidade.
Esse cenário de uso do solo é uma das atividades principais no estado de Mato Grosso, sendo a principal prática de geração de renda na região Norte do estado. De acordo com os dados do IMEA (2018), o rebanho bovino da região Norte do estado está em torno de 5.524.640 animais.
No entanto, o cenário atual descreve que cerca de 30 milhões de ha na Amazônia legal se encontram em estágio avançado de degradação (DIAS-FILHO, 2011). Uma pastagem degradada é aquela que está em processo evolutivo de perda de vigor e produtividade da forrageira, sem possibilidade de recuperação natural, tornando-se incapaz de sustentar os níveis de produção e qualidade exigidos pelos animais, bem como o de superar os efeitos nocivos de pragas, doenças e plantas daninhas.
São vários os fatores que podem levar à degradação das pastagens, entre eles, a escolha incorreta da espécie forrageira, a má formação inicial, a falta de adubação de manutenção e o manejo inadequado da pastagem e do pastejo (PERON & EVANGELISTA, 2004). O processo de degradação pode ser inicialmente caracterizado pela mudança na composição botânica da pastagem, em decorrência do aumento na proporção de plantas daninhas e da consequente diminuição na proporção de forrageira desejada (capim e leguminosas forrageiras) segundo Dias-Filho (2011).
2. Infestação de plantas daninhas em pastagens
Planta daninha é uma planta que nasce em um ambiente que não é comum a ela. Já no caso de pastagens entende-se como planta daninha toda e qualquer planta que não venha a servir como fonte forrageira utilizada para a alimentação dos animais que a consumirão, onde as plantas daninhas de pastagens possuem pequeno valor forrageiro, baixo valor nutritivo e pequena aceitabilidade pelo gado (ANDRADE & FONTES, 2015).
O problema da infestação das plantas daninhas está ligado diretamente a grande capacidade que elas possuem para competirem por água, luz, nutrientes e espaço com as gramíneas forrageiras. Assim, a eliminação destas plantas daninhas é um problema com que todo pecuarista depara-se constantemente, já que a maioria do rebanho no estado de Mato Grosso é criado e mantido quase que exclusivamente no pasto.
Para o manejo de plantas daninhas o princípio básico está em evitar seu aparecimento e multiplicação tendo como base a sua prevenção. Portanto, para se ter sucesso nos programas de manejo de plantas daninhas em pastagens, se faz necessário o conhecimento do modo de propagação, dispersão e desenvolvimento dessas plantas daninhas de acordo com Dias-Filho (1990).
A dispersão de plantas daninhas no Brasil é devida às suas características edafoclimáticas propícias para o desenvolvimento das mesmas. Atualmente Andrade e Fontes (2015) citam como as principais plantas daninhas de pastagens no Brasil o capim-navalha (Paspalum virgatum L.) no bioma Amazônico, o capim-capeta (Sporobolus indicus (L.) R.Br.) no bioma Amazônico, Cerrado e Mata Atlântica, e o capim-annoni (Eragrostis plana Nees) no Sul do Brasil, onde dos citados o capim-capeta é uma das espécies de maior importância devido à sua enorme incidência, eficiência de multiplicação ANDRADE et al., 2012) e dificuldade de controle, pois não há herbicidas registrados para pastagem que controle está planta daninha.
As principais plantas daninhas de pastagens estão descritas na Tabela 1.


3. Interferência das plantas daninhas em pastagens
As plantas daninhas que ocorrem em pastagens naturais ou cultivadas devem ser manejadas, pois interferem na produção da espécie forrageira. Embora poucos trabalhos na literatura mostrem os efeitos da competição das plantas daninhas com as pastagens, é bem conhecido que as pastagens mais produtivas são aquelas que dentro outros fatores, apresentam baixo nível de infestação de plantas daninhas (VICTORIA FILHO, 1986).
O efeito competitivo exercido pelas plantas daninhas com a espécie forrageira não apresenta um visual tão drástico como seria, por exemplo, com a ocorrência de uma doença grave dos animais. Portanto, nas pastagens extensivas é muito comum observarmos infestações altas de plantas daninhas, ocupando o espaço que seria destinado a espécie forrageira. Nesta situação o pecuarista está perdendo o potencial de suas terras, e essa redução na capacidade de suporte pode fatalmente conduzir a uma situação econômica precária da propriedade.
Assim, os principais danos provocados são a competição direta por espaço, água, nutrientes e luz, além de outros problemas indiretos, tais como o aumento do tempo para a formação das pastagens e queda real da capacidade de suporte por área, o envenenamento dos animais por ingestão de plantas tóxicas, ferimento nos animais e redução na qualidade do leite, ambiente propício para o desenvolvimento de parasitas externos, riscos de erosão do solo, comprometimento da estética e valor fazenda.
3.1 Competição direta
As plantas daninhas competem com as forrageiras pelos fatores essenciais de crescimento, ou seja, espaço, água, nutrientes e luz, reduzindo a produtividade da espécie forrageira e do sistema de produção como um todo (PITELLI, 1989).
A competição das plantas daninhas com as forrageiras é um fator crítico para o desenvolvimento da pastagem, quando a planta daninha se estabelece junto ou primeiro que a forrageira. Contudo, se a espécie forrageira se estabelecer primeiro, dependendo da espécie, da velocidade de crescimento e da densidade de plantio, poderá cobrir rapidamente o solo, podendo reduzir significativamente o crescimento das plantas daninhas (VICTORIA FILHO et al., 2014).
De acordo com Radosevich et al. (1996) os mecanismos de competição consistem tanto do efeito que as plantas exercem sobre os recursos do meio, quanto da resposta destas as variações dos recursos. Determinadas plantas são boas competidoras por utilizarem um recurso rapidamente ou por serem capazes de continuarem a crescer, mesmo com baixos níveis do recurso no ambiente
A condição produtiva da espécie forrageira é fundamental para que a planta daninha consiga ou não interferir no crescimento da pastagem. Pastagens bem formadas e manejadas diminuem a ocorrência de plantas daninhas mais agressivas e determinam a instalação de plantas que crescem de maneira relativamente lenta e que exigem menor rigor e frequência de controle.
Já pastagens mal formadas e manejadas apresentam plantas forrageiras com menores condições de competição resultando em maior severidade dos distúrbios causados pelas invasoras, que neste caso são mais agressivas tendo reprodução eficiente aliada à maior velocidade de desenvolvimento e ciclo mais curto.
Assim, técnicas que maximizem a produção de forragem, como adubações e manejo do pastejo, também constituem-se em formas de controle das plantas daninhas. Entretanto para que esse controle integrado da planta daninha pelo manejo da espécie forrageira seja eficiente e prolongado é necessário inicialmente reduzir os efeitos negativos da planta daninha.
Em resultados obtidos por Victoria-Filho et al. (2002), ao avaliar a interferência de plantas daninhas na implantação de pastagem de Brachiaria brizantha, verificaram que o período crítico de prevenção da interferência (PCPI) situa-se entre 15 e 45 dias após a emergência. Jakelaitis et al. (2010), também observaram em trabalhos envolvendo a interferência de plantas daninhas na implantação de pastagens de B. brizantha que o rendimento forrageiro diminuiu nos períodos iniciais onde a forrageira conviveu com plantas daninhas e aumentou quando houve o controle inicialmente, apresentando neste caso, um PCPI entre 9 e 26 dias após a emergência da forrageira (Figura 1).

Portanto, é importante um manejo adequado das plantas daninhas na fase de estabelecimento da pastagem, pois a espécie forrageira terá condições de ocupação do espaço na superfície do solo, evitando novos fluxos de emergência das plantas daninhas. A competição exercida pelas plantas daninhas irá provocar uma redução na produção de forragem disponível, com consequente redução na capacidade de suporte (menor número de animais por área) de acordo com Victoria-Filho et al. (2014).
3.1.1 Competição por espaço
A competição por espaço é de difícil quantificação e compreensão, podendo-se, contudo, admiti-la quando determinada planta é forçada a assumir uma arquitetura que não lhe é característica. Este tipo de competição é a mais observada pelo pecuarista, pois onde uma planta daninha está presente, a forrageira não poderá tomar o seu lugar, causando uma diminuição no número da espécie forrageira na pastagem. Neste aspecto a planta daninha também é muito favorecida pelo pastejo seletivo (VELINI, 1987; BELOTTO, 1998).
3.1.2 Competição por água e nutrientes
A competição por água e nutrientes depende da planta daninha, porém, aquelas com raízes superficiais muito desenvolvidas competem com maior agressividade com a gramínea forrageira, que apresenta sistema radicular fasciculado (BELOTTO, 1998).
A competição será maior principalmente em situações em que a disponibilidade hídrica é limitada. Como o sistema radicular de um modo geral cresce mais rapidamente que a parte aérea, a competição por água e nutrientes começa antes que a competição por luz. Aquelas plantas daninhas que tem um sistema radicular mais desenvolvido e com melhor distribuição no solo ganham na competição com a espécie forrageira.
É normal observar em alguns agroecossistemas tropicais e em dias quentes as plantas forrageiras murchando e as plantas daninhas túrgidas sem sinal de déficit hídrico. Um dos fatores é a taxa de exploração de volume do solo pelo sistema radicular, como ocorre com a ciganinha e o assa peixe (VICTORIA-FILHO et al., 2014), neste caso, as plantas daninhas de folhas largas levam vantagem em relação a espécie forrageira, devido à sua maior capacidade de remoção de água do solo (sistema radicular mais desenvolvido).
A baixa fertilidade natural da maioria dos solos ocupados por pastagens, aliada à não utilização de práticas de calagem e adubação para a correção da acidez do solo e reposição de nutrientes, faz com que a competição por nutrientes se torne uma das mais importantes.
O nitrogênio é o primeiro nutriente a se tornar limitante na maioria das vezes, devido a mobilidade no solo. A adubação nitrogenada nem sempre aumenta a produção da espécie forrageira, pois quando a densidade das plantas daninhas é muito alta, pode até aumentar a competição, segundo Victoria-Filho et al. (2014).
3.1.3 Competição por luz
A competição por luz é um dos problemas que a planta daninha impõe sobre a espécie forrageira. Os efeitos desta competição são caracterizados por mudanças fisiológicas, estruturais e morfológicas nas plantas forrageiras, afetando muitas vezes o seu potencial produtivo (LIN et al., 2001), que pode ser reduzido (LIN et al., 1999). A avaliação da arborização de sistemas de pastagens mostra que ocorre decréscimo na luminosidade e, consequentemente, na produção das plantas localizadas nos estratos inferiores (CARVALHO, 1997).
A atividade fotossintética das plantas geralmente é bastante reduzida devido ao seu sombreamento. Assim, a habilidade de uma espécie em competir pela luz normalmente está bastante correlacionada com a sua capacidade de situar suas folhas acima das folhas das espécies forrageiras, por consequência, normalmente ocorre uma correlação direta entre a habilidade de uma espécie competir por luz e seu porte (VELINI, 1987).
As plantas daninhas mais competitivas em luz são aquelas, com maior área foliar, com folhas bem distribuídas e com arquitetura mais adequada para interceptar o máximo de luz. Assim na implantação da espécie forrageira deve-se trabalhar com a densidade adequada para provocar um sombreamento nas plantas daninhas anuais.
A maioria das espécies forrageiras das regiões tropicais como as do gênero Brachiaria sp, Panicum sp, Cynodon sp, Pennisetum sp são plantas de fisiologia C4 que podem se desenvolver em condições de temperaturas elevadas, luminosidade alta e até mesmo déficit hídrico temporário, acumulando o dobro de biomassa por área foliar no mesmo espaço de tempo que as plantas C3 (VICTORIA FILHO et al., 2014).
Todavia, as condições de luminosidade e temperatura serão importantes para o desenvolvimento adequado das forrageiras. Quando ocorre o sombreamento pelas plantas daninhas implica numa redução drástica do potencial competitivo das forrageiras. Também em locais sombreados as forrageiras acumulam mais hastes em relação as folhas, prejudicando a qualidade da forragem. Isso porque as plantas daninhas em pastagens provocam o sombreamento e impedem a chegada dos animais à forrageira (DE CASTRO, 1997).
O intenso sombreamento por árvores e arbustos afeta negativamente o crescimento das forrageiras, principalmente as mais responsivas à luminosidade, como é o caso de plantas C4 (PITELLI, 1989) que respondem a este sombreamento não somente com quedas na produção, mas também com quedas na qualidade do material ofertado aos animais (GOULART et al., 2007).
Smith e Martin (1995) mostram que o decréscimo da produção de plantas forrageiras e proporcional à produção da planta daninha na área, uma vez que para cada quilo de matéria verde produzido pela planta daninha ocorre redução na produção da pastagem da mesma ordem.
A dinâmica de perfilhamento de plantas forrageiras é reduzida em resposta ao sombreamento. Mudanças na produtividade da espécie forrageira são decorrentes do produto entre o peso e a densidade dos perfilhos (VALENTINE & MATTHEW, 1999).
Garcez Neto et al. (2010), avaliando respostas do perfilhamento de duas espécies forrageiras de clima temperado à quatro níveis de sombreamento, mostraram que as plantas recorreram ao mecanismo de compensação entre peso e densidade de perfilhos, porém estas mudanças não foram suficientes para manter a produção em relação ao tratamento não sombreado, como mostra a produção de folhas também é outro fator produtivo de plantas forrageiras que sofre alterações sob condições de menor luminosidade, como demonstrado por Veras et al. (2010) que obtiveram reduções de 15% na produção de folhas de capim Andropogon sob sombreamento de árvores em sistemas silvipastoris em relação ao tratamento de plena luminosidade.
Garcez Neto et al. (2010) relatam que, ao compararem níveis de sombreamento, a queda da produção das forrageiras foi de 25 a 74%, para os níveis de 25 e 75% de sombreamento, respectivamente.
Além de redução na produção, o sombreamento ainda pode afetar a qualidade da forragem ofertada aos animais. Trabalhos mostram que plantas sombreadas apresentam maiores teores de proteína bruta (GOBBI et al., 2011), porém este aumento sempre é acompanhado de decréscimos na produção da forragem. Gobbi et al. (2011) citam que o aumento no teor de proteína bruta pode ser devido à diminuição no tamanho das células que ocorre em plantas sombreadas, induzindo à concentração de nitrogênio em menores volumes celulares.
3.2 Problemas indiretos causados pela presença de plantas daninhas na pastagem
3.2.1 Aumento do tempo para a formação das pastagens e queda real da capacidade de suporte por área
A competição com as plantas daninhas provoca um atraso no estabelecimento das gramíneas forrageiras, atrasando o desenvolvimento da paste aérea, do sistema radicular e reduzindo o perfilhamento. Em alguns casos há uma demora de até um ano para a plena utilização da capacidade de suporte das pastagens, além de provocar uma diminuição da produção de massa verde nas pastagens (quantidade de forragem disponível), consequentemente a quantidade de animais por área deverá ser menor para não acelerar a degradação das pastagens (BELOTTO, 1998).
Victória Filho (1991) cita que a carga animal em pastagens infestadas por plantas daninhas pode diminuir em cerca de 20 a 57%, de acordo com o nível de infestação da área. As taxas de lotação das pastagens são consequência da produção e da eficiência com que a forragem é colhida. A eficiência com que os animais colhem a forragem produzida também é negativamente afetada na presença de plantas daninhas a partir do momento em que ocorre restrição ao acesso dos animais à forragem, bem como mudança estrutural das plantas forrageiras próximas às daninhas, resultando no preterimento da pastagem pelo animal (GOULART et al., 2007).
3.2.2 Envenenamento por plantas tóxicas
Algumas plantas daninhas são extremamente tóxicas e a sua presença nas pastagens traz muito prejuízo para os pecuaristas devido à perda de animais intoxicados. Plantas daninhas tóxicas são aquelas que se ingeridas pelo gado, em condições naturais causam danos a sua saúde ou morte com comprovação experimental. A maioria das plantas tóxicas causa intoxicação quando ingerida uma única vez, todavia algumas quando a ingestão ocorre por dias seguidos, de acordo com Tokarnia et al. (2000).
No Brasil o número de cabeças que são perdidas por ano é bastante elevado. É muito importante reconhecê-las e adotar as medidas possíveis de prevenção e erradicação (TOKARNIA et al, 2000), porém no Brasil ainda não foi percebida a real dimensão do problema das plantas daninhas tóxicas. São exemplos destas plantas a Palicourea marcgravii (erva-de-rato) que pode levar a morte um animal que ingira 700 mg de material vegetativo por quilo de peso vivo, a Asclepias curassavica (oficial-de-sala) e Bacharis coridifolia (mio-mio) com a ingestão de 1.000 mg (LORENZI, 1991) (Tabela 2).

A planta Palicourea marcgravii, conhecida como cafezinho ou erva-de-rato é a planta tóxica mais importante do Brasil, devido à sua extensa distribuição, boa palatabilidade, alta toxidez e efeito acumulativo. Na região Amazônica onde morre a metade dos bovinos que são vitimados por plantas tóxicas no Brasil, ela é responsável por 80% de todas as mortes em bovinos causados pela ingestão de plantas tóxicas (VICTORIA-FILHO et al., 2014).
Em trabalhos desenvolvidos por Furlan et al. (2008), bovinos que ingeriram Cestrum intermedium sofreram intoxicação, apresentando algum distúrbio como perda de apetite, atonia ruminal, andar lento e com membros afastados, fezes secas com muco e estrias de sangue, tremores musculares, decúbito, às vezes manifestações de agressividade e morte.
3.2.3 Ferimento nos animais e redução na qualidade do leite
Diversas espécies de plantas daninhas apresentam espinhos e acúleos, e a presença destas plantas daninhas nas pastagens, além de não permitir que o gado se alimente da forrageira nas suas proximidades, ainda causam ferimentos nos animais, principalmente nas tetas das vacas, e estes ferimentos podem provocar mamites e com consequente queda na produção de leite (GOURLAT et al., 2007).
Como exemplo, destas plantas poderíamos citar algumas do gênero Solanum (joá e jurubeba), a malícia ou dormideira (Mimosa pudica), arranha-gato (Acacia plumosa) e o joá-bravo (Solanum sisymbriifolium).
3.2.4 Ambiente propício para o desenvolvimento de parasitas externos
As plantas daninhas constituem importantes hospedeiras alternativos de nematoides, ácaros, plantas parasitas e outros inimigos naturais das espécies forrageiras e também do gado como carrapatos e bernes. Com isso, permitem a presença de populações relativamente densas de inimigos naturais, mesmo em épocas em que as pastagens são destruídas pelo fogo, por estiagem ou por pastejo excessivo (PITELLI, 1989).
3.2.5 Riscos de erosão do solo
A competição das plantas daninhas com as pastagens, aliado ao super-pastejo, reduz a cobertura do solo, expondo-o à erosão, o que degrada a sua fertilidade e a sua capacidade potencial de produção de forrageiras, além dos problemas ambientais decorrentes da erosão (BELOTTO, 1998).
3.2.6 Comprometimento da estética e do valor fazenda
Obviamente as preocupações com a estética da fazenda são bem menores do que a preocupação com os danos econômicos causados pelas plantas daninhas, porém em momentos em que o preço da terra entra em declínio, pastagens limpas ajudam a valorizar a propriedade (BELOTTO, 1998).
3.2.7 Diminuição de pastejo com a presença de plantas daninhas herbáceas ou arbustivas com ou sem espinho
Em experimento realizado por Owens et al. (1991), a utilização da espécie forrageira foi prejudica pela presença de plantas daninhas herbáceas e arbustivas. A existência de subpastejo na presença de plantas daninhas pode ser ilustrado no estudo realizado na Fazenda Figueira em Londrina (PR) por Yabuta et al. (2003) citados por Corsi et al. (2007). Neste estudo avaliou-se a quantidade de forragem presente na pastagem em relação à distância do caule de plantas daninhas com e sem espinho.
O objetivo dessa pesquisa foi o de avaliar a massa de forragem que não era consumida após o pastejo devido à presença das plantas daninhas com e sem espinhos. As distâncias estabelecidas a partir do tronco da planta daninha eram de 0,5 em 0,5 m até 2,0 m. A Tabela 3 mostra que quanto mais próximo do caule da planta daninha, maior era a quantidade de forragem amostrada. Isso mostra que havia um impedimento ao consumo desta forragem pelo animal imposto pela planta daninha, que era maior ainda quando esta possuía espinhos.

3.2.8 Super pastejo entre as moitas das plantas daninhas
Outro efeito prejudicial da presença das plantas daninhas em pastagens, que é pouco estudado, é o de superpastejo entre as moitas das plantas daninhas, uma vez que o pastejo é dificultado pela presença da invasora. De acordo com Corsi et al. (2007), a invasora impede o acesso do pastejo nas proximidades das moitas de plantas daninhas e, consequentemente, provoca maior pressão de pastejo entre plantas invasoras, o que reduz a competitividade da espécie forrageira e facilita a expansão da daninha.
Entre moitas de invasoras ocorre o trânsito de animais e a compactação do solo, como mostra trabalho de Silva et al. (2003) e Lima et al. (2004), onde neste caso as touceiras de capim Tanzânia teriam efeito análogo ao das daninhas. Lima et al (2004) citam que a pressão exercida por animais em pastejo pode estar relacionada com a energia cinética transferida ao solo quando estes estão em movimento, sendo esta, relacionada com o peso do animal e a velocidade com que este se movimenta.
Nie et al. (2001) mostra que a compactação de animais em movimento pode ser o dobro da obtida pela força estática que estes aplicam ao solo. Neste estudo fica evidente que a estrutura da forragem é alterada, porém não se pode isolar o efeito de sombreamento, uma vez que plantas daninhas podem causar o subpastejo da forragem próxima a elas (CORSI et al., 2007; GOULART et al., 2007), aumentando a competição intraespecífica que também resulta em disputa por luminosidade e aumenta a proporção de hastes da forragem (DE CASTRO, 1997).
4 Controle químico de plantas daninhas
Os métodos de controle de plantas daninhas em pastagens podem ser: controle cultural, físico (fogo), controle manual por meio do uso de enxadão (arranquio), controle manual com o uso de foice (roçada manual), controle mecânico com a utilização de roçadeiras (hidráulicas ou de arrasto), controle químico (uso de herbicidas). Os melhores resultados são obtidos quando há a integração dos diversos métodos. Porém, o objetivo deste capítulo é detalhar sobre o controle químico de plantas daninhas em pastagens com o uso de herbicidas.
O controle químico é realizado com a utilização de herbicidas, que provocam a morte ou impedem o desenvolvimento das plantas daninhas nas pastagens. Para o controle químico de plantas daninhas em pastagem, como em qualquer cultura, é imprescindível que o herbicida apresente total seletividade à espécie forrageira, permitindo desenvolvimento fenológico normal, sem comprometimento de seu rendimento. Dada a grande diversificação de espécies de plantas daninhas ocorrentes em pastagens, às vezes, torna-se necessário a utilização de misturas de herbicidas, em mistura pronta, contendo dois ou mais ingredientes ativos (PEREIRA et al., 2011).
Apesar de vários herbicidas comerciais, poucos são os ingredientes ativos recomendados para o controle de plantas daninhas em áreas de pastagens e o são apenas para pastagens solteiras de gramíneas, cujos focos de controle são folhas largas. Considerando-se consórcios com leguminosas, e diferentes sistemas de integração, bem como a produção de sementes de forrageiras tropicais, não há ainda produtos específicos registrados (BRASIL, 2018).
Segundo Oliveira e Wendling (2013), o controle químico é um método rápido e que necessita menor quantidade de mão-de-obra. A utilização de herbicidas, minimiza a competição causada pelas plantas daninhas, ajuda no aumento da produção de massa verde das espécies forrageiras, consequentemente aumenta a capacidade de suporte.
Após a limpeza das pastagens é fundamental que se utilize boas práticas de manejo (adequada lotação, repasse para controle de rebrota) para evitar a reinfestação e manter as pastagens produtivas por um mais tempo. Ao se optar pelo controle químico, deve-se definir qual herbicida e o método de aplicação mais eficiente, econômico e seguro para cada caso.
Para isto recomenda-se levar em consideração a condições da pastagem, ou seja, antes de recomendar a utilização de herbicidas em pastagem, é fundamental verificar se há um número suficiente de plantas forrageiras para tomar o lugar das plantas daninhas que serão controladas.
Quando a pastagem está em adiantado estádio de degradação, pode ser mais vantajosa a reforma do pasto. Dias-Filho (2011), demonstra na Tabela 4 os estádios de degradação, porcentagem de plantas daninhas e nível de degradação. Os estádios 3 e 4, nível de degradação forte e muito forte, respectivamente, é recomendado reformar a área.

Outro fator importante é a identificação das plantas daninhas nas áreas a serem controladas. Primeiramente antes de definir um programa de controle químico de plantas daninhas em pastagens, é necessário realizar a identificação das plantas daninhas. Uma das formas de identificar plantas daninhas para maneja-las ocorre por meio do levantamento fitossociológico.
Este estudo em pastagens é importante na obtenção do conhecimento sobre as populações e a biologia das espécies encontradas, constituindo uma importante ferramenta no embasamento técnico de recomendações de manejo e tratos culturais, seja para implantação, recuperação ou condução das pastagens (TUFFI SANTOS et al., 2004).
Os estudos fitossociológicos comparam as populações de plantas daninhas em um determinado momento, entretanto repetições programadas dos estudos fitossociológicos podem indicar tendências de variação da importância de uma ou mais populações, e essas variações podem estar associadas às práticas agrícolas adotadas (OLIVEIRA et al., 2008).
Com o levantamento fitossociológico, poderemos conhecer suas características morfológicas, anatômicas, ecológicas, capacidade competitiva, definição do estádio de desenvolvimento e susceptibilidade aos herbicidas.
4.1 Métodos de aplicação
Os métodos de aplicação dos herbicidas podem ser: aplicação foliar, aplicação no toco, aplicação no tronco e aplicação no solo. A escolha do método de aplicação depende de fatores como a planta daninha a ser controlada, estádio de desenvolvimento e densidade de ocorrência dessas plantas, disponibilidade de equipamento e mão de obra, topografia do terreno e época do ano, de acordo com Victória Filho et al. (2014).
4.1.1 Aplicação foliar
É o método mais comumente empregado no controle de plantas daninhas em pastagem. Dependendo do tipo e do porte das plantas daninhas e da porcentagem de infestação, a aplicação poderá ser realizada em área total ou dirigida. A melhor época para aplicação é nos meses quentes e úmidos, quando as plantas estão em atividade metabólica intensa. De um modo geral, nos primeiros meses da época chuvosa, quando as plantas têm área foliar suficiente para absorção e translocação do herbicida, o tratamento pode ser feito (VICTÓRIA FILHO et al., 2014).
A tomada de decisão por aplicação foliar dirigida ou em área total poderá seguir o critério da porcentagem da infestação de plantas daninhas na pastagem: menor que 40% de infestação recomenda-se aplicação foliar dirigida (aplica-se sobre as plantas daninhas apenas), e maior que 40% de infestação recomenda-se aplicação em área total (aplica-se sobre as plantas daninhas e pastagem). Nas áreas em que as plantas daninhas encontram-se em reboleira (distribuição apenas numa parte da pastagem) sugere-se aplicação dirigida, segundo Oliveira e Wendling (2013).
4.1.2 Aplicação no toco
Aplica-se o herbicida diretamente no toco das plantas logo após o corte rente ao solo, quando se demora muito para fazer a aplicação após o corte, a planta não absorve a quantidade adequada do herbicida para promover a morte do sistema radicular. O herbicida é aplicado com pulverizador costal manual ou pincel.
Em plantas que apresentam um engrossamento do toco abaixo do nível do solo, recomenda-se o uso do enxadão. Aplicações no toco são recomendadas para plantas tolerantes às aplicações foliares ou de porte muito elevado, podendo ser realizadas durante todo o ano, muito embora melhores resultados sejam alcançados quando a planta apresenta boa atividade metabólica (VICTÓRIA FILHO et al., 2014).
4.1.3 Aplicação nos troncos
É um método utilizado para arbusto de grande porte ou tolerantes às aplicações foliares. É realizada para arbustos de grande porte e com diâmetro normalmente maior do que 10 cm, sendo nestes casos mais difícil a aplicação no toco devido ao maior diâmetro do tronco. O herbicida pode ser aplicado nos caules, sem roçada, com pulverizador manual ou pincelamento basal, até 30 a 40 cm de altura.
Geralmente, utilizam soluções com óleo diesel. Também pode ser feita a aplicação com injeção, por meio de equipamento especiais que injetam o herbicida ao redor do tronco a cada 10 cm (VICTÓRIA FILHO et al., 2014). Em plantas muito tolerantes, os cortes são feitos manualmente ao redor do tronco ou mesmo anelamento total precedendo a aplicação.
4.1.4 Aplicação no solo
A aplicação ao solo normalmente é realizada com o uso de herbicidas granulados que possam ser absorvidos pelo sistema radicular (translocação apoplástica) sendo translocado para a parte aérea da planta via xilema. Os grânulos devem ser depositados ao redor do caule da planta daninha ou a lanço no caso de plantas espinhosas e plantas de reboleira.
Com a chuva, o produto é diluído, infiltrado no solo e absorvido pelo sistema radicular da planta daninha (VICTÓRIA FILHO et al., 2014). As aplicações não devem ser feitas em plantas roçadas ou queimadas recentemente. Atualmente, só temos o tebuthiurom com registro para pastagem para esta modalidade de aplicação (BRASIL, 2018).
4.2 Tipos de uso dos herbicidas em pastagens
O uso de herbicidas em pastagem para o controle de plantas daninhas pode ocorrer em duas situações:
4.2.1 Formação ou reforma
Nas pastagens recém-implantadas ou reformadas, geralmente ocorre a germinação das sementes de plantas daninhas do banco de sementes ou rebrote das plantas daninhas, juntamente com a espécie forrageira.
Se o controle destas plantas não for realizado, a espécie forrageira sofrerá competição, consequentemente terá atraso no desenvolvimento, menor número de perfilhos e redução do número de plantas por metro quadrado. A aplicação de herbicidas nas pastagens reformadas deve ser realizada entre 30 e 40 dias após a germinação ou ocorrência de rebrotes das plantas daninhas de folhas largas (BELOTTO,1998).
4.2.2 Manutenção ou recuperação
Consiste na utilização de herbicidas em pastagens já estabelecidas, com boa cobertura da gramínea forrageira, mas que apresentam reinfestação de plantas daninhas. A aplicação poderá ser feita em área total ou dirigida, em função da porcentagem de infestação.
Se as plantas daninhas apresentarem um porte muito elevado, como plantas de Assa-peixe (Vernonia polyanthes) que pode atingir até dois metros de altura, ou plantas durante o estádio de florescimento, recomenda-se fazer uma roçada antes da aplicação do herbicida.
Deve-se esperar que as plantas daninhas rebrotem formando uma boa cobertura foliar, normalmente em torno de 30 a 60 dias após a roçada. Este manejo de aplicação permite uma redução na quantidade de herbicida utilizado além de garantir uma aplicação durante o estádio de desenvolvimento ideal da planta daninha, segundo Belotto (1998).
4.3 Herbicidas registrados para pastagens
Na Tabela 5 estão relacionados os herbicidas registrados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para utilização em pastagens (BRASIL, 2018).

5 Considerações finais
O manejo das plantas daninhas é um dos fatores importantes que afetam a produtividade das pastagens nas regiões tropicais. Na região Amazônica estima-se que aproximadamente 30 milhões de hectares de pastagens plantadas, encontram-se em algum estágio de degradação e as plantas daninhas que sobrevivem no ecossistema normalmente não são palatáveis, são resistentes ao fogo e as roçadas (método de controle paliativo).
O processo de controle de plantas daninhas em pastagens deve fazer parte do programa que visa a melhoria das condições básicas que proporcionam a maximização de produção da espécie forrageira, como adubação e adequação do manejo da pastagem. Estas condições conferem melhor capacidade de competição à forrageira, podendo impedir a reinfestação das plantas daninhas resultando em menores gastos com novos controles.
Portanto, há necessidade de estudos da dinâmica da população das espécies daninhas em pastagens quando sujeitas a diferentes métodos de controle, assim como a duração do efeito dos métodos utilizados, o controle químico (herbicida seletivo) se constitui numa ferramenta útil desde que utilizado sempre em associação com outros métodos de controle disponíveis, procurando-se favorecer a espécie forrageira na luta pela ocupação do espaço no agroecossistema.
A presença das plantas daninhas proporciona condições de redução na produtividade das pastagens devido a efeitos que estão relacionados ao consumo pelo animal, diminuição da área de pastejo, à eficiência de pastejo (acesso à espécie forrageira), fator sombreamento (queda da produtividade e redução qualidade da forragem), produção forragem (competição por água, luz, nutrientes e espaço).
A infestações de plantas daninhas nas áreas de pastagem, também dificultam a aplicação de insumos de forma homogênea (calcário, fertilizantes, controle de pragas através de mecanização) entre outros.
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Fonte
GUIMARÃES, Ana Carolina Dias; INOUE, Miriam Hiroko; IKEDA, Fernanda Satie. Estratégias de Manejo de Plantas Daninhas para Novas Fronteiras Agrícolas. 1ª ed. Curitiba - PR: Unemat, 2018.