Pecuária

Cultivar Andina: A primeira cultivar de café conilon com potencial para regiões de altitudes elevadas

Daniel Vilar
Especialista
9 min de leitura
Cultivar Andina: A primeira cultivar de café conilon com potencial para regiões de altitudes elevadas
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Introdução

A Universidade Federal do Espírito Santo – UFES em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano – Campus de Morrinhos, obtiveram o primeiro registro de uma cultivar de Coffea canephora adaptada a altitudes elevadas, em temperaturas mais baixas.

O registro foi realizado junto ao Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento - MAPA, e a nova cultivar foi denominada de ANDINA, sendo mais uma contribuição para a cafeicultura, desta vez, para ser cultivada em áreas de maior altitude e menores temperaturas.

É uma cultivar de Coffea canephora Pierre ex A. Froehner (Conilon ou Robusta), composta por 05 genótipos/clones, que alcançaram produtividade superior em condições de mais de 800 metros de altitude.

Participaram do registro como melhoristas e coordenadores do trabalho os Eng. Agrônomos Fábio Luiz Partelli (Prof. da UFES) e Adelmo Golynski (Prof. IF Goiano).

O trabalho também teve a participação de outros profissionais/melhoristas, dentre eles Adésio Ferreira, Madlles Queiros Martins (UFES), Aldo Luiz Mauri (consultor), José Cochicho Ramalho (ULisboa) e Henrique Duarte Vieira (UENF). O registro foi realizado pelo Instituto de Inovação Tecnológica (INIT) da UFES.

Atualmente existem 27 cultivares registradas de C. canephora no Brasil, e neste rol de excelência, destaca-se a Andina, a primeira cultivar recomendada para condições de altitudes elevadas (http://sistemas.agricultura.gov.br/snpc/cultivarweb/cultivares_registradas.php).

Diversos estudos têm sido realizados para verificar o comportamento do café Conilon em regiões mais frias do Brasil, seja por latitude ou altitude, mas nenhuma dessas pesquisas culminou no registro de uma cultivar com potencial produtivo, como é o caso da Cultivar Andina.

Inicialmente os materiais foram selecionados e propagados vegetativamente por estaquia, e plantados em uma mesma lavoura, num “ensaio de competição”.

O plantio foi composto por 28 genótipos (25 propagados por estacas e três por sementes), no município de Morrinhos, Goiás, a aproximadamente 850 metros de altitude. A área experimental está localizada na Latitude: 17° 49'30'' S Longitude: 49° 12'01'' W.

A região é caracterizada por apresentar um défice hídrico a partir do mês de abril até o mês de outubro, tem uma topografia plana e relevo ondulado, a temperatura média anual de 20°C, sendo que a temperatura mínima do ar varia de 10ºC a 20°C.

No entanto a seleção dos genótipos que compõem a ANDINA foi realizada em anos em que a temperatura mínima alcançou valores próximos a 5ºC em algumas manhãs de inverno.

Os genótipos que fizeram parte do “ensaio de com petição” foram dispostos em delineamento experimental em blocos casualizados, com quatro repetições, sendo cada repetição composta por cinco plantas.

Foram realizadas podas para controle de número de ramos ortotrópicos, mantendo o padrão de 12.000 a 15.000 hastes por hectare.

Em todos os anos experimentais foram realizadas uma capina manual (trilhar no local de adubação), uma capina mecanizada e uma capina química. Não foram aplicados micronutrientes, inseticidas e fungicidas, durante os anos de estudo.

A área experimental foi irrigada durante os anos referentes às colheitas de 2013 e 2014, porém nas colheitas de 2015 e 2016 a lavoura experimental não foi irrigada. O espaçamento utilizado para o plantio foi de 3,5m x 1m, de maneira que cada planta ocupou 3,5 m2.

Para a seleção dos genótipos que compõem a cultivar foram utilizados dados de produtividade correspondentes à quatro colheitas (Tabela 1).

As colheitas foram realizadas nas parcelas em separado para cada genótipo, medindo-se a produção em litros por parcela, para posterior conversão em sacas beneficiadas por hectare, considerando-se 320 litros igual a uma saca beneficiada de 60 kg. Com o espaçamento das plantas, calculou-se a produtividade de cada genótipo.

Dentre todos os materiais avaliados no ensaio, considerando características como produtividade, vigor e resistência à pragas e à doenças, foram selecionados cinco genótipos julgados superiores (A1, NV2, NV8, P1, e Verdim TA), para constituir a nova cultivar clonal, denominada ANDINA.

A média das 4 colheitas dos 5 genótipos foi de 51,3 sacas por hectare por ano. Na primeira colheita as plantas ainda estavam novas, assim ao considerar a média das 3 colheitas dos 5 genótipos a produtividade alcança 59,3 sacas por hectare por ano.

A média da produtividade da cultivar pode ser avaliada como baixa, contudo, deve se considerar a ausência de irrigação por dois anos e a não utilização de controle fitossanitário.

Além disso, não pode ser esquecido que as plantas estavam a 850 metros de altitude e o fato da produtividade da cultivar ANDINA alcançar mais do que o dobro da Cultivar Vitória, nas mesmas condições de cultivo (Tabela 1).

Soma-se a todas essas informações o fato da cultivar ANDINA alcançar produtividade 56% maior que a produtividade média de café Conilon no Brasil na safra de 2018 e 111% maior que a média nacional na safra de 2017 (CONAB, 2019).

Durante os anos de avaliação, foi verificada a boa adaptação dos genótipos selecionados às condições de cultivo, visto seu bom desempenho em crescimento e produção nas condições de 850 metros de altitude. Não foi verificado ataque severo das principais pragas e doenças, com as plantas mantendo-se vigorosas e com bom enfolhamento durante todo o ciclo.

Dessa forma, a nova cultivar, apresenta características desejáveis, sobretudo, boa produtividade, inclusive quando comparado a genótipos registrados e de grande aceitação entre os cafeicultores (Tabela 1), podendo ser plantada em condições climáticas similares às que foram cultivadas (aproximadamente 850 metros de altitude).

Assim, a cultivar ANDINA é recomendada para os Estados com Latitude inferior a 22° Sul e altitude inferior a 900 metros e que não tenham temperatura mínima do ar inferior a 8ºC por mais de 10 dias no ano.

Ressalta-se que este foi o primeiro trabalho de campo com o objetivo de selecionar genótipos de C. canephora adaptadas à condições de altitude elevada. Considerando os anos de produção do experimento (2013, 2014, 2015 e 2016) foi observado vários dias em que a temperatura mínima do ar foi inferior a 10 ºC, chegando a atingir, por exemplo 6,9 ºC em 19 de julho de 2014.

O número de genótipos selecionados assegura um bom nível de polinização cruzada. Apesar do registro de uma cultivar de 5 genótipos, a equipe de trabalho fomenta que o agricultor tenha a liberdade de plantar os clones na forma que achar conveniente, desde que com orientação técnica, visto que a espécie C. canephora é alógama e possui autoincompatibilidade gametofítica.

Não obrigatoriamente há necessidade do plantio dos 5 clones (variedade fechada) numa mesma lavoura em linha ou misturados.

O agricultor, por exemplo, pode escolher um dos clones como principal e usar outros clones, da cultivar ANDINA e/ou outros clones, como cruzadores, intercalando suas linhas para garantir a fecundação plena da lavoura.

O avanço do programa de melhoramento/seleção de genótipos adaptados a altitudes elevadas/temperaturas mais baixas irá ocorrer com a introdução de novos clones ou plantas oriundas de sementes e o estudo do potencial destes para se desenvolver e produzir nestas condições.

Por fim, deixamos um agradecimento especial aos agricultores, que ao longo de anos veem fazendo sua própria seleção e cultivando genótipos superiores e adaptados às condições de cultivo de cada região cafeeira do conilon.

Para isso, mantivemos o nome dos clones selecionados para compor a cultivar ANDINA da forma em que eles são conhecidos pelos agricultores.

Coube a nós da Ufes e do IF Goiano), realizar as avaliações no campo, comparando diversos genótipos em altitude elevada.

Nós não desenvolvemos os genótipos estudados, mas efetuamos uma contribuição científica na caracterização e definição de quais são os melhores clones, entre os estudados, quando cultivados à grandes altitudes, o que conduziu até o registro da primeira cultivar para regiões de altitude do Brasil”.

Origens dos clones

A caracterização de uma planta ou clone de Conilon produtivo exige alguns anos de avaliação a campo em condições reais.

Esse fato, faz com que na grande maioria das vezes, os clones ou plantas promissoras sejam “descobertos” pelos cafeicultores. Assim, descrevemos informações e origem dos genótipos que compõe a nova cultivar ANDINA:

A1: Genótipo vigoroso, produtivo e de ciclo médio de maturação, propagado/difundido, inicialmente, por Ivan Milanez e Hélio Dadalto. Também conhecido por H e H1.

NV2 e NV8: Genótipos descobertos e difundidos por Edson Vettoraci, também conhecido como Neno Vettoraci, justificando-se a nomenclatura dos genótipos “NV”. Plantas superiores, de ciclo precoce e médio de maturação, encontradas numa lavoura de sementes na propriedade de Edson Vettoraci, no município de Marilândia - ES.

P1: Genótipo selecionado pelo produtor Paulo Benacchi, no município de Marilândia – ES.

Verdim TA: Genótipo produtivo, vigoroso e de ciclo médio de maturação, encontrado, originalmente, em São Gabriel da Palha - ES, na propriedade do Senhor Mário Andréa. Foi descoberto e difundido pelos irmãos João Darly Andréa e Mário Tadeu Andréa, que também é conhecido como Tadeu André, justificando-se o nome do clone de Verdim TA (pelas características da planta e pelas iniciais do nome em que Tadeu é conhecido).

Outros estudos/pesquisas realizados com Coffea canephora

1. Ensaio de competição com 42 genótipos promissores em Nova Venécia/ES e Itabela/BA;

2. Continuidade das avaliações dos genótipos de Conilon em altitude em Morrinhos/GO;

3. Atuação efetiva em parcerias internacionais na área de fisiologia, bioquímica e molecular em Coffea sp em condições de alta concentração de CO2, alta temperatura e défice hídrico; e

4. Introdução, orientação técnica e pesquisa em Coffea em Moçambique, numa cooperação trilateral entre Brasil (UFES e Ministério das Relações Exteriores), Portugal (ULisboa e Camões) e Moçambique (Parque Nacional da Gorongosa).

Essas ações permitem a realização de pesquisa aplicada e científica. Além disso, são parte fundamental na formação de recursos humanos, por meio de visitas nas áreas experimentais, dia de campo, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Estas ações e projetos mencionados estão ligados aos Programas de Pós-Graduação em Agricultura Tropical (PPGAT) e Genética e Melhoramento (PPGGM), ambos da UFES. Envolvem também a participação de diversos agricultores e parceiros institucionais como: Universidade de Lisboa, Instituto Federal Goiâno, Instituto Federal do Espírito Santo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e outras.

Também registramos o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT).

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Ou clique no link:

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Fonte

PARTELLI, Fábio Luiz; ESPINDULA, Marcelo Curitiba. Café Conilon: Conhecimento para Superar Desafios. Alegre - ES: CAUFES, 2019.

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