Pecuária

Controle de Pragas na Cultura do Alface

Daniel Vilar
Especialista
14 min de leitura
Controle de Pragas na Cultura do Alface
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1. Introdução

A alface é acometida por diversas pragas que causam danos tanto ao sistema radicular quanto à parte aérea da planta. Devido ao hábito alimentar sugador ou mastigador, a maioria das espécies de artrópodes relatada como praga na cultura da alface causa danos principalmente à parte aérea da planta.

Dentre as espécies sugadoras, destacam-se aquelas pertencentes às Ordens Diptera (Agromyzidae), Hemiptera (Aphididae e Aleyrodidae) e Thysanoptera (Thripidae). As espécies mastigadoras pertencem às Ordens Coleoptera (Chrysomelidae) e Orthoptera (Gryllotalpidae e Gryllidae) e também formas imaturas de Lepidoptera (Noctuidae). É importante mencionar que as pragas registradas na alface também são comuns em outras olerícolas folhosas como almeirão, chicória, escarola, acelga e agrião. O ataque das espécies sugadoras induz anomalias de caráter sistêmico como o enfezamento das plantas, que apresentam folíolos enrolados ou arqueados devido à introdução de substâncias tóxicas durante a alimentação. Indiretamente, a alimentação dos insetos sugadores é uma das principais vias de transmissão de muitas espécies de vírus no campo. Já os insetos mastigadores são responsáveis pela redução da área fotossintética ocasionando, consequentemente, a depreciação comercial.

2. Pragas de solo

2.1. LAGARTA-ROSCA - Agrotis ipsilon (Hufnagel, 1767) Lepidoptera: Noctuidae

Os adultos são mariposas com 35 mm de envergadura, com asas anteriores marrons e manchas pretas, as posteriores são semitransparentes. Os ovos possuem coloração branca, sendo a oviposição realizada nas folhas das quais eclodem lagartas de coloração marrom acinzentada escura com tamanho máximo de 45 mm. Estas lagartas possuem hábitos noturnos, ficando abrigadas no solo durante o dia. Possui o hábito de se enrolar, fato que originou o seu nome popular de lagarta-rosca (Fig. 1).

Atacam principalmente plantas jovens de alface recém-introduzidas no campo cortando a base da haste principal da muda rente ao solo. Estima-se que somente a cada período de alimentação uma lagarta pode destruir até quatro plantas com 10 cm de altura.

3. Pragas da parte aérea

3.1. PULGÕES

Hemiptera: Aphididae

Possui corpo periforme e mole com 1 mm a 2 mm de comprimento, antenas bem desenvolvidas e aparelho bucal tipo sugador. No final do abdome se desenvolvem dois apêndices tubulares laterais, chamados sifúnculos, e um central, denominado codícula, por onde são expelidas grandes quantidades de líquido adocicado (honeydew). Esse líquido açucarado, além de atrair formigas, também propicia o surgimento da fumagina que é causada por fungos de revestimento que produzem micélios espessos, fuligíneo que recobrem as folhas. Essa espécie de pulgão tende a formar colônias principalmente na face inferior das folhas da alface. No Brasil, devido ao clima tropical, as colônias são quase que exclusivamente formadas por fêmeas que se reproduzem por partenogênese telítoca, ou seja, as fêmeas não necessitam de ser fecundadas para originar descendentes que serão fêmeas em sua totalidade.

Myzus persicae (Sulzer, 1776)

Pulgão-verde-do-pessegueiro

Adultos ápteros possuem abdome de coloração verde claro e os alados têm cabeça e tórax pretos (Fig. 2). A sucção contínua da seiva de tecidos tenros da planta e a injeção de toxinas, tanto por adultos como ninfas, causam o definhamento de mudas e encarquilhamento das folhas. Além de praga, essa espécie de pulgão é responsável pela transmissão de vírus que infecta a alface e causa prejuízos ao desenvolvimento da cultura (ver capítulo sobre vírus).

Uroleucon ambrosiae (Thomas, 1878)

Pulgão-marrom-das-asteráceas

Dentre todas as espécies do gênero Uroleucon descritas no Brasil, U. ambrosiae é a mais comum em alface. São afídeos relativamente grandes, com tamanho de 3 a 3,5 mm, de coloração vermelha escura e formato alongado; são muito fáceis de serem distinguidos. Embora também se alimentem nas folhas, têm certa preferência pelas hastes floríferas. Ocorrem com frequência nas plantas daninhas, principalmente aquelas pertencentes à família Asteraceae como: Bidens pilosa (picão-preto), Emilia sonchifolia (pincel) Erigeron bonariensis (rabo-de-foguete) e Sonchus oleraceus (serralha).

Outras espécies de afídeos relatadas em alface

Devido ao hábito polífago da maioria dos afídeos descritos no Brasil, também são relatadas, colonizando a alface, as seguintes espécies: Aphis gossypii Glover, Hyperomyzus lactucae (L.), Macrosiphum euphorbiae (Thomas) e Pemphigus spp., sendo esta última espécie colonizadora de raízes. Embora essas espécies de afídeos não sejam consideradas pragas de grande importância para a alface, são potencias vetoras de vírus de importância econômica para a cultura da alface e são relatadas constantemente no campo, pois colonizam plantas daninhas próximas às áreas cultivadas, que também atuam como reservatórios de vírus.

Apesar de ainda não haver dados sobre danos e prejuízos, estudos recentes relatam que a cultura de alface hidropônica também vem sendo acometida por recorrentes infestações de afídeos. Assim sendo, já foram identificadas as espécies M. persicae, M. euphorbiae e U. ambrosiae em estufas contendo alface cultivada hidroponicamente. A maior ocorrência desses afídeos se limita a períodos em que a temperatura média permanece abaixo de 19,2ºC para U. ambrosiae e de 21,5ºC para M. persicae e M. euphorbiae. Condição ambiental excelente para o desenvolvimento dos afídeos, uma vez que as mudanças nas taxas de desenvolvimento, fecundidade, longevidade e tempo de geração ninfal são beneficiadas sob situações de baixas temperaturas.

3.2. MOSCA-BRANCA - Bemisia tabaci Biótipo B (Gennadius, 1889) Hemiptera: Aleyrodidae

Apesar de o nome popular ser mosca-branca, este inseto não é um díptero, mas sim um aleirodídeo. Estes insetos também são picadores sugadores e extremamente polífagos e, na escassez de alimento, podem atacar a alface. A reprodução pode ser sexuada ou por partenogênese. Os ovos apresentam coloração amarelada, com formato de pera e são depositados isoladamente na parte inferior da folha, presos por um pedicelo. As ninfas são translúcidas de coloração amarelo a amarelo pálido (Fig. 3); apenas o primeiro instar ninfal é móvel, os demais permanecem fixos na planta e o quarto instar é chamado de pseudopupa ou pupário, devido à redução do metabolismo. Os adultos medem de 0,8 mm a 1 mm de comprimento, coloração amarelo palha, com quatro asas membranosas recobertas com pulverulência branca (Fig. 3). Atualmente, o biótipo B prevalece em todos os continentes, menos na Antártida, e no Brasil é relatado em todos os estados da federação. Tem alto nível de resistência a inseticidas, quando comparado ao biótipo A. Além disso, a mosca-branca apresenta alta variabilidade biológica intraespecífica e genética e constituí um complexo de espécies, existindo 41 biótipos descritos. No Brasil, são relatados somente os biótipos A e B.

3.3. TRIPES (Thysanoptera: Thripidae)

Assim como os pulgões e moscas-brancas, os tripes também se alimentam do conteúdo celular das plantas e injetam toxinas que causam danos às plantas. As folhas atacadas apresentam aspecto queimado ou prateado e pontuações escuras. São insetos diminutos, com cerca de 1 mm a 3 mm de comprimento, cabeça quadrangular, aparelho bucal do tipo raspador sugador e reprodução sexuada. Representam um dos grandes problemas para a cultura da alface causando danos indiretos devido à sua capacidade de transmitir diferentes espécies de tospovírus, que constituem o complexo do vira-cabeça. As espécies de Tospovirus transmitidas por tripes são: Groundnut ringspot virus (GRSV); Tomato chlorotic spot virus (TCSV) e Tomato spotted wilt virus (TSWV). Estes vírus causam o mau desenvolvimento da planta infectada, podendo levá-la à morte e inviabilizando a produção de sementes.

Frankliniella schultzei (Trybom, 1920)

Os adultos possuem asas estreitas e franjadas, sendo as formas jovens ápteras. Vivem na face inferior das folhas e ficam abrigados entre dobras e reentrâncias das plantas (Fig. 4).

Thrips tabaci (Lindeman, 1888)

Os adultos possuem coloração de amarelo-clara a marrom, pernas mais claras que o corpo, abdome com 10 segmentos, apresentando ovipositor curvado para baixo. As formas jovens são amarelo-esverdeadas, com antenas e pernas quase incolores (Fig. 5).

Thrips palmi (Karny, 1925)

Os adultos possuem coloração amarelada, sem manchas e cerdas escuras; as formas jovens são amarelas.

3.4.VAQUINHAS - Diabrotica speciosa (Ger., 1824) Coleoptera: Chrysomelidae

São besouros de coloração verde com 5 a 6 mm de comprimento, cabeça castanha e três manchas amareladas em cada élitro (asas anteriores, modificadas por endurecimento), característica que lhe confere o nome popular de “patriota” (Fig. 6). A fêmea faz postura no solo, onde eclodem larvas de coloração branca leitosa com cerca de 10 mm de comprimento. Estas larvas são conhecidas como “alfinete”, possuem hábito subterrâneo e se alimentam principalmente de raízes de diversas espécies de plantas cultivadas como: alface, milho, cucurbitáceas, tomate, batata, amendoim e espécies ornamentais. O inseto adulto alimenta-se de partes vegetativas e pólen de flores, causando grande destruição quando em alta densidade. Seu ciclo de vida é de aproximadamente 30 dias.

3.5.  LAGARTA-ARMIGERA - Helicoverpa armigera (HÜbner, 1805) Lepidoptera: Noctuidae

Além da alface, esta espécie também ataca grande número de culturas de importância econômica (soja, algodão, citros, tomate, berinjela, café, crucíferas). São lagartas vorazes, que migram rapidamente de uma cultura para outra. Assim, o produtor deve estar alerta aos primeiros danos de ataque da lagarta. Durante o verão, no período de três a quatro dias, dá-se a eclosão das lagartas que se alimentam de folhas novas. A lagarta, completamente desenvolvida, mede 35 mm e possui coloração entre verde claro, rosa, marrom ou quase preta. O adulto é uma mariposa com cerca de 40 mm de envergadura, com as asas anteriores de coloração amarelo parda, com uma faixa transversal mais escura, apresentando também manchas escuras dispersas sobre as asas. As asas posteriores são mais claras, com uma faixa nas bordas externas (Fig. 7).

3.6. MOSCA-MINADORA - Liriomyza sp. Diptera: Agromyzidae

O gênero Liriomyza é composto por 376 espécies, das quais, Liriomyza huidobrensis (Blanchard), L. sativae Blanchard e L. trifolii (Burgess) são originárias do Novo Mundo e amplamente distribuídas nas Américas do Norte e do Sul. No Brasil, estas três espécies são relatadas em quase todos os estados, atacando 14 famílias de plantas com destaque para batata, tomate, alface, feijão e melancia, incluindo espécies ornamentais.

São pequenas moscas de cor preta com 2 mm de comprimento, cujas larvas brancas fazem galerias (ou minas) irregulares na face superior das folhas ao se alimentarem do parênquima das folhas, provocando sua seca (Fig. 8). Ocorrem em períodos de seca prolongada e os prejuízos são mais importantes logo após o transplante das mudas.

3.7. PAQUINHAS - Neocurtilla hexadactyla (Perty, 1832) Orthoptera: Gryllotalpidae

A forma adulta mede 30 mm de comprimento e possui coloração escura. As asas apresentam nervuras bem visíveis, pernas anteriores do tipo escavadoras e posteriores, saltatórias (Fig. 9). Escavam galerias no solo e alimentam-se de raízes e partes das plantas ao nível do solo.  São encontrados principalmente em solo úmido.

3.8. GRILOS - Grillus assimilis (Fab., 1775) Orthoptera: Gryllidae

A forma adulta possui coloração escura e mede aproximadamente 25 mm de comprimento (Fig. 12). Possui pernas anteriores do tipo ambulatórias e posteriores, saltatórias. Escavam o solo, permanecendo ocultos sob pedras e torrões e são frequentemente encontrados em ambientes úmidos e escuros. Apresentam hábito noturno e se alimentam de raízes, mudas e parte aérea das plantas novas de alface.

3.9. LESMAS, CARAMUJOS, CARACÓIS E TATUZINHOS

São pragas importantes de hortaliças folhosas, incluindo a alface. Destroem as folhas e raízes. Lesmas, caramujos e caracóis deixam rastro de muco quando se deslocam sobre as folhas, que inviabilizam as plantas para a comercialização. Os tatuzinhos preferem caules das plantas novas e podem ser vetores de verminoses humanas.

4. Medidas de controle

4.1. CONTROLE ALTERNATIVO

Para pequenas hortas domésticas ou orgânicas é recomendado o emprego de métodos alternativos como a mistura de 5 g de sal de cozinha (1 colher de chá) para 20 mL de vinagre (1 colher de sopa) em 1 L de água. Acrescentar 2,5 mL (meia colher de chá) de detergente líquido. Pulverizar as plantas atacadas a cada 5 a 7 dias.

Extrato de sementes de Nim também pode ser aplicado na cultura. É recomendado utilizar 15 g a 50 g de sementes moídas envolvidas em um pano e submergi-las em 1 L de água. Aguardar por 24 horas e, em seguida, realizar a pulverização das plantas. Se as sementes não estiverem disponíveis para o horticultor, pode-se lançar mão de produtos formulados à base de Nim.

Para proporcionar uma maior tolerância das plantas de alface contra pragas, também é recomendado pulverizar um extrato obtido a partir da maceração de cavalinha (100 g de material fresco ou 300 g de material seco) em 10 L de água. Deixar o extrato em descanso por 24 horas, em seguida, ferver por 10 minutos. Filtrar o extrato e diluir em 90 L de água. Após o resfriamento, pulverizar as plantas.

O uso de formulações comerciais de Bacillus thuringiensis tem se mostrado eficiente para controle de lagartas. Após 24 a 72 horas do consumo das folhas pulverizadas com a formulação, as lagartas param de se alimentar e morrem. Porém, há ainda a liberação de Bacillus thuringiensis que irá infectar novas lagartas.

Para paquinhas, grilos e tatuzinhos podem ser utilizados iscas que podem ser facilmente preparada a partir de:

  • 1 kg de farelo de trigo
  • 100 g de açúcar
  • 1,5 L de água
  • 100 g de inseticida (pó molhável ou Nim)

Misturar os ingredientes até formar uma massa moldável e distribuir nos canteiros, que devem ser imediatamente revolvidos.

As lesmas podem ser capturadas utilizando armadilhas atrativas que devem ser colocadas próximo aos locais de abrigo. Basta embeber sacos de estopa e pedaços de lona com cerveja ou leite e distribuir pelos canteiros. As lesmas são atraídas pelo odor, concentram-se sob o tecido e após 24 deverão ser retirados manualmente e destruídas.

As formas aladas dos pulgões podem ser repelidas realizando a cobertura da superfície do solo com palha de arroz. Essa prática protege as plantas das picadas de provas dos adultos, evitando assim a transmissão de vírus.

Os besouros (vaquinhas) são atraídos por raízes de taiuiá (Cayaponia tayuya Vell.: Cogn), que devem ser cortadas e espalhadas nos canteiros. Estes fragmentos de raizes se mantêm ativos por até 30 dias. Após esse período, renovar as iscas.

4.2. CONTROLE QUÍMICO

Inseticidas são produtos químicos ou biológicos que, quando aplicados no período ideal e na dosagem recomendada, são eficientes no controle dos insetos que são pragas para a cultura da alface.

Cada grupo de inseticida possui diferentes graus de toxicidade que são dependentes da sua composição química e dose empregada. As estratégias de controle de infestações de tripes se baseiam em aplicações repetidas de inseticidas, até a redução da população a níveis aceitáveis. Estudos indicam que o controle químico mais eficiente e duradouro para manter as populações de tripes em níveis aceitáveis na cultura da alface é obtido com a aplicação de inseticidas do grupo dos neonicotinoides. Inseticidas dos grupos dos piretroide e organofosforados são menos eficientes.

Para o controle de lagartas, recomenda-se a utilização de armadilhas contendo feromônios sexuais para monitorar a presença de mariposas nas bordaduras da cultura e, assim, iniciar o controle que pode ser feito com a liberação do parasitoide de ovos do gênero Trichogramma. Também é recomendada a utilização de produtos biológicos à base de Bacillus e produtos químicos registrados pelo Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). Estas práticas de controle devem ser realizadas sempre no início da infestação das lagartas que devem estar no primeiro e segundo instares de desenvolvimento.

Visando proteger o aplicador, ambiente agrícola (ar, solo, água, insetos benéficos e outros seres vivos) e o consumidor, recomenda-se a utilização de produtos menos tóxicos e mais seletivos, seguindo fielmente as instruções de uso e respeitando o intervalo entre a última aplicação e a colheita. O aplicador deve sempre utilizar equipamentos de proteção individual (EPI) para proteção de sua saúde.

No aplicativo AGROFIT do MAPA estão relacionados diferentes ingredientes ativos que são registrados para uso na cultura da alface: azadiractina, betaciflutrina, clotianidina, imidacloprido, pimitrozina, tiacloprido e tiamexotan.

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Fonte

COLARICCIO, Addolorata; CHAVES, Alexandre Levi Rodrigues. Aspectos Fitossanitários da Cultura da Alface. 1ª ed. São Paulo - SP: Instituto Biológico, 2017.

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