Conheça o Comportamento do Bovino
Introdução
O manejo pré-abate exerce grande influência no bem-estar dos animais. Se um sistema de abate não for acompanhado por uma boa prática de manejo, haverá um desafio significante para a preservação de um bom nível de bem-estar dos animais.
É fundamental conhecer o comportamento dos bovinos para reconhecer sinais de estresse e dor para, assim, manejá-los de forma eficaz nesta etapa. Deve-se também conhecer as relações dos bovinos com o ambiente de produção e suas necessidades, para poder proporcionar, nas instalações e no manejo, os recursos que promovam melhorias no bem-estar dos animais. Desse modo, haverá um equilíbrio entre a produção ética e a rentabilidade econômica.

Comportamento dos bovinos
Tudo o que os animais fazem, como: andar, olhar, comer, agrupar-se, brigar, fugir, entre outros comportamentos, contribui para sua sobrevivência. Vários são os fatores que influenciam o modo de agir dos bovinos, tais como:
- Comportamentos inatos – são reações pré-programadas, o bovino nasce com elas, não dependem de experiências e são típicas da espécie;
- Comportamentos aprendidos – dependem das experiências vividas por cada bovino, são vivências individuais.
Os bovinos são animais ruminantes que pastejam cerca de 9 a 11 horas por dia, podendo esse tempo ser influenciado pela época do ano, altura do capim, categoria animal, raça. Sua dieta, naturalmente, consiste de gramíneas e leguminosas.

A ruminação ocupa por volta de 75% do tempo de pastejo (6-8 horas), ocorrendo a regurgitação, quando o alimento volta a boca, é mastigado e engolido novamente. Diariamente, ingerem em torno de 25 a 80 litros de água, podendo variar de acordo com o ambiente, animal, dieta (quanto maior o percentual de concentrado, maior será a ingestão de água).
Vida em grupo
Bovinos são animais sociais. Essa característica foi resultado da seleção natural em seus ancestrais por trazer benefícios, por exemplo, maior proteção. Se os bovinos estão em grupo, a probabilidade de um deles perceber um predador é maior do que se estiver sozinho, promovendo ao grupo melhor chance de fuga e sobrevivência. Outra vantagem está no momento da fuga, vários animais correndo ao mesmo tempo dificultam a perseguição dos predadores.
Bovinos criados no sistema extensivo tendem a formar grupos de vacas e bezerros. Os touros se juntam e formam pequenos grupos de machos, afastados das fêmeas.


Os bovinos devem ser conduzidos sempre em grupo. É bastante estressante para esse animal ser separado de seu grupo e, quando isolado, ele tende a mudar seu comportamento, suas reações, tornando-se mais agitado e agressivo.

Dominância
Os bovinos têm uma hierarquia de dominância ou ordem dentro do grupo. Essa hierarquia é imposta através de disputas entre os animais, sendo a força e a agressão determinantes para estabelecê-la, embora comportamentos sutis de esquiva-submissão também contribuam. Altura, peso, idade, sexo, temperamento e chifres são fatores que também interferem em sua determinação.
Logo que a hierarquia de dominância é estabelecida, as brigas entre os animais diminuem significativamente. Animais em posições mais altas na hierarquia têm acesso a recursos como água, sombra e alimento. É mais evidente perceber essa dinâmica quando os animais estão confinados, já que os recursos estão concentrados num ambiente restrito.
Com o tempo, a ordem social pode mudar entre alguns animais no rebanho. Se um animal dominante sofrer algum tipo de lesão que o comprometa, logo perderá sua posição dentro do grupo e uma nova hierarquia se formará.
A mistura de animais desconhecidos leva à luta e ao estabelecimento de uma nova hierarquia entre os animais recém-conhecidos, podendo levar dias para que seja reestabelecida. Por isso, lotes de bovinos transportados para o frigorífico devem conter animais que já vivem juntos, evitando-se misturar animais desconhecidos. A atenção a essa característica dos bovinos minimiza brigas e promove um melhor bem-estar animal, já que brigas podem ocasionar estresse e ferimentos.

Liderança
A liderança está presente no grupo dos bovinos. Um animal líder é aquele que é seguido pelos demais quando se desloca à procura de água, sombra, área de pastagem ou outro recurso. Normalmente, os líderes são fêmeas mais velhas na espécie bovina, no entanto o movimento do grupo pode ser iniciado por diferentes animais, em diversas circunstâncias.

Para se distinguir dominância e liderança, pode-se ilustrar que o líder é aquele que é seguido ao ir ao bebedouro, enquanto que o dominante é aquele que afasta os animais que estão bebendo para que ele possa beber a água.

Características sensoriais dos bovinos
Bovinos dependem principalmente dos sentidos: visão, olfato e audição para avaliar estímulos e, assim, responder a diferentes situações, como mudanças no ambiente e ameaças. Ao se depararem com um barulho repentino, sua primeira reação é evitá-lo, ou seja, fugir. Após avaliar a situação, se não for perigosa, o bovino perderá o interesse.

Se o bovino precisar ver algo claramente, é necessário que o objeto esteja diretamente à sua frente. É por esse motivo que viram ou abaixam a cabeça para encarar o manejador, objetos ou variações no ambiente. A altura do desembarcadouro, da entrada do caminhão ou um ralo no corredor do frigorífico são exemplos de alterações no piso que fazem com que os bovinos utilizem a visão binocular.


Visão



Os bovinos conseguem distinguir algumas cores, além de terem boa visão noturna, o que ajuda na detecção de movimentos. Para facilitar o manejo, deve-se manter uniformidade de cor (paredes e pisos) nas áreas de grande circulação dos animais.


Olfato
As vacas identificam seus bezerros pelo cheiro, embora o reconhecimento pela visão e som se torne mais importante conforme o crescimento dos bezerros. Os bovinos adultos continuarão a cheirar uns aos outros durante o comportamento social.
A comunicação através do olfato é importante para a atividade sexual dos bovinos. Além disso, o olfato também contribui nas informações hierárquicas do grupo (dominância), onde há a liberação de feromônios de submissão de um subordinado para um dominante.
Em situações de tensão, pode haver liberação de feromônios através da urina, saliva, entre outras, alertando outros bovinos sobre a situação estressante em que se encontram. Se os demais responderem com medo a esses sinais, poderão dificultar o manejo.

Audição e comunicação
Bovinos são animais muito sensíveis a sons de alta frequência, quando comparados aos seres humanos. Ao percebê-los, movem as orelhas procurando ruídos de seu interesse e as posicionam no mesmo sentido do som, ainda que não virem a cabeça diretamente para os ruídos. Pode-se perceber onde está o foco da atenção de um bovino através do posicionamento de suas orelhas. Essa característica é facilmente percebida durante o manejo, quando os animais alternam a direção de suas orelhas entre a pessoa que os maneja e os demais animais do lote.
Bovinos evoluíram em ambientes abertos onde conseguiam visualizar facilmente os demais do grupo, sendo pouco utilizada a vocalização. Um benefício da ausência de vocalização e ruídos entre os animais é o fato de evitar chamar atenção dos predadores.
No frigorífico, a vocalização dos bovinos normalmente está associada a eventos aversivos, como resposta ao bastão elétrico (principalmente quando a voltagem é alta), falha na insensibilização, pressão excessiva no manejo. Por isso, monitorar a incidência de vocalizações nas instalações de manejo auxilia na detecção de problemas.
Apesar de os bovinos terem sido domesticados há milhares de anos, pouco se conhece sobre sua forma de comunicação. Sabe-se que as vacas são capazes de identificar pessoas pelos seus chamados, e que sons intermitentes, assim como para humanos, podem estressar mais os bovinos do que estímulos contínuos.
No ambiente do frigorífico, deve-se evitar ruídos de máquinas, descargas de compressores, barulhos de metais, portões batendo e gritos.

Comportamento aprendido
Os bovinos têm boa memória de longo e curto prazo, conseguem lembrar fatos que ocorreram durante a criação e podem ser condicionados à rotina de manejo. Aprendem habilidades no meio em que vivem e podem ser treinados com recompensas. A resposta dos bovinos ao manejo no frigorífico está diretamente relacionada à forma como foram manejados na propriedade ao longo de suas vidas.

Bovinos que tiveram pouco contato com humanos nas propriedades ou que foram submetidos a um manejo agressivo terão reações de medo intenso e poderão dificultar o manejo no frigorífico. Dessa forma, deve-se incentivar a mudança das práticas de manejo nas propriedades, com mais interações positivas entre manejadores e bovinos, o que proporcionará melhor qualidade de vida na criação e facilidade no manejo pré-abate.
Comportamento e genética
O comportamento é determinado pelo ambiente e pela genética, havendo diferenças entre raças. Em geral, é reconhecido que o Bos taurus indicus é mais reativo que o Bos taurus taurus. Assim como animais cruzados zebuínos podem ser mais reativos ao manejar que os bovinos europeus puros ou aqueles oriundos de cruzamentos entre raças europeias.

O ambiente de criação tem maior influência que a genética em relação ao comportamento dos bovinos, no manejo. Animais criados em sistemas extensivos, independentemente da raça, tendem a ser mais reativos que aqueles criados em ambientes fechados ou em sistemas de confinamento.
A falta de contato com humanos na fase inicial de criação resulta em animais temerosos e às vezes agressivos em relação às pessoas. Fases como pós-nascimento e pós-desmame devem receber tratamento especial, pois irão afetar diretamente o comportamento dos bovinos quando adultos.
Rebanhos de algumas fazendas podem ser mais difíceis de manejar do que de outras, devido ao modo como os animais foram tratados na criação. Por isso no frigorífico, bovinos de uma mesma raça, embora de lotes diferentes, sejam mais difíceis de manejar que outros.

Os bovinos têm capacidade de reconhecer pessoas que os manejaram de forma positiva ou agressiva. Por isso, na fazenda, um número mínimo de pessoas deve ser responsável pelos procedimentos mais aversivos, enquanto os demais deverão ficar encarregados das tarefas do dia a dia.

Os bovinos se habituam a procedimentos repetitivos não dolorosos, tais como pesagem, mas não a eventos repetitivos dolorosos. Procedimentos positivos de manejo devem ser utilizados desde o nascimento do bovino, assim ele não terá aversão à presença humana.
Abordagens práticas para melhorar o manejo dos bovinos criados extensivamente incluem a introdução de práticas de manejo regular, não aversivo, ou mais interação com humanos durante o processo de criação, assim como seleção por temperamento.

Lembre-se
- É importante conhecer o comportamento dos bovinos para melhorar as práticas de manejo;
- Os bovinos percebem o ambiente utilizando, principalmente, visão, audição e olfato;
- Bovinos enxergam, claramente e com noção de profundidade, apenas em uma estreita área a sua frente (visão binocular) e têm visão lateral ampla e panorâmica para detectar movimentos, embora sem detalhes (visão monocular);
- Possuem uma área cega de onde não conseguem enxergar nem perceber movimentos;
- Bovinos são animais sociais e devem ser manejados em grupo;
- O ambiente de criação tem maior influência que a genética em relação ao comportamento dos bovinos;
- Bovinos de algumas fazendas podem ser mais difíceis de manejar do que de outras, devido ao modo como foram tratados durante a criação.
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Fonte
LUDTKE, Charli Beatriz; et. al. Abate humanitário de bovinos. 1ª ed. São Paulo - SP: World Animal Protection, 2015.