Pecuária

Colheita e Pós-colheita do Maracujá

Daniel Vilar
Especialista
27 min de leitura
Colheita e Pós-colheita do Maracujá
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Introdução

Os frutos das espécies do gênero Passiflora apresentam grande diversidade de formatos, aromas, colorações, resistência aos danos mecânicos e a doenças pós-colheita. Na grande maioria dos casos, é sensível ao dessecamento, o que resulta no aspecto enrugado dos frutos armazenados.

No Brasil, a espécie mais comercializada para consumo in natura e para preparo de sucos é a Passiflora edulis Sims, popularmente denominada de maracujá azedo. A escolha do fruto se dá pelo tamanho e uniformidade da coloração, sendo preferíveis os frutos amarelos, ovalados, grandes e murchos, em virtude da crença de apresentarem maior doçura e teor de suco.

O conhecimento do ponto de colheita mais adequado e os cuidados necessários para preservar o fruto após a colheita são de extrema importância para viabilizar a comercialização e minimizar as perdas dos mesmos. Porém, ainda são poucos os resultados de pesquisa no tema que subsidiam a produção de espécies do gênero passiflora.

A composição química do maracujá pode variar em razão de vários fatores, tais como: espécie, variedade, fertilidade do solo, práticas culturais, época de colheita, estágio de desenvolvimento do fruto, grau de maturação, manuseio pós-colheita e condições de armazenamento.

A conservação dos frutos de passiflora por períodos mais longos é de fundamental importância para a comercialização eficiente do produto destinado ao mercado de frutas frescas com benefícios para toda a cadeia de produção. Dessa forma, a necessidade da utilização de técnicas que aumentem a durabilidade dos frutos de maracujá após a colheita é essencial. O maracujá é um fruto de clima tropical, muito apreciado pelo seu suco. Pode ser consumido in natura ou destinado a indústrias. Atualmente a vida útil pós-colheita do fruto em condições de temperatura ambiente é curta. Quando mantido em câmara fria pode atingir um período maior. Aliado a câmara fria, outros tratamentos podem ser utilizados com o objetivo de auxiliar no prolongamento da vida útil dos mesmos.

Além disso, para obter-se um produto de boa qualidade o manuseio adequado do fruto é fundamental. A colheita, transporte e preparo do mesmo para a comercialização ou armazenamento devem ser realizadas em horários e ambientes apropriados de forma a não danificar o produto.

Características dos frutos de algumas passifloras

A longevidade de frutos armazenados depende de características como a capacidade de continuar os processos de maturação após a colheita, espessura da casca, resistência à dessecação, fragilidade ao manuseio, incidência de patógenos e pragas pós-colheita. Portanto, a escolha da estratégia de armazenamento mais adequada depende do conhecimento básico da botânica do fruto e fisiologia do amadurecimento.

Passiflora alata Curtis

Os frutos de Passiflora alata Curtis apresentam formas ovais ou periformes, casca intensamente alaranjada, que lembra o mamão papaia, com tegumento externo pouco resistente a injúrias mecânicas. A massa dos frutos varia de 150 g a 200 g, o diâmetro longitudinal de 10 cm a 15 cm, o diâmetro transversal de seis cm a sete cm, e o volume de polpa (com semente) entre 45 ml e 65 ml (COSTA et al., 2010). A polpa é adocicada, odor forte e agradável apreciada para o consumo in natura (MELETTI, 1996; ZERAIK et al., 2010). É uma espécie brasileira consumida como fruta fresca, teor elevado de sólidos solúveis (ºBrix) acima de 15, comparativamente ao maracujá-amarelo. Para atender o mercado in natura, os produtores devem produzir frutos maiores (acima de 200 g), uniformes, de aparência atraente, isentos de pragas, doenças e injúrias. Na indústria, há preferência por frutos com menor espessura de casca e rendimento em polpa superior a 50%, maior acidez e teor de sólidos solúveis.

Os frutos são capazes de completar a maturação fora da planta e podem ser colhidos quando existem aproximadamente 30% a 40% de amarelecimento da casca. Os frutos maduros são mais sensíveis ao manuseio e apresentam grande incidência de doenças de pós-colheita, destacando-se a antracnose, cujo sintoma principal é lesões de aspecto côncavo, e a fusariose, com crescimento micelial branco e cotonoso, que comprometem tanto a aparência do fruto pelas lesões na casca quanto à qualidade da polpa, e dificultam a sua comercialização (Figura 1). Em processos adiantados de maturação podem surgir na casca dos frutos bolores causados por Aspergillus spp., Penicillium spp. e Cladosporium spp. e podridão marrom causada por Rhizopus spp. Em virtude dos problemas pós-colheita os frutos são pouco comercializados nos grandes centros urbanos, o que faz com que obtenham alto valor de mercado. No comércio varejista do Distrito Federal um maracujá doce (em torno de 250 a 350 g) está custando em torno de U$3,00 à unidade, mais frete de entrega (VARANDA SINTA-SE EM CASA, 2016).

Passiflora edulis Sims

Os frutos das variedades comerciais do maracujá azedo apresentam formas ovaladas e casca com coloração amarela, vermelho ou vermelho esverdeado. A massa média dos frutos é de 250 g a 350 g, diâmetros longitudinais de 85 cm a 107 cm e transversais entre 78 cm e 95 cm, com volume de polpa (com semente) de 65 mL a 160 mL. Geralmente são colhidos ao chão, mas, por serem frutos climatéricos, é possível a colheita quando a casca apresenta mudança na coloração na ordem de 30%. Os frutos sofrem perda de água durante o período de armazenamento, sendo comum o aspecto enrugado após uma semana a dez dias da colheita. É um fruto nativo sendo a variedade de maracujá mais cultivada no País. Apresenta aroma e acidez acentuados. O pH do suco varia de 2,8 a 3,3; acidez titulável de 2,9% a 5,0%; sólidos solúveis de 12,5% a 18,0%; açúcares totais de 8,3% a 11,6%; e os açúcares redutores de 5,0% a 9,2%. Por ser mais vigoroso e mais adaptado aos dias quentes, apresenta frutos de maior tamanho e peso entre 43 g e 250 g, maior produção por hectare, maior acidez total e rendimento em suco. Tais características tornam essa espécie preferida pelas indústrias de processamento.

Os frutos são relativamente resistentes à injúria mecânica e às doenças pós-colheita, sendo a mais frequente a antracnose, mancha-parda causada por Alternaria spp. e os bolores de armazenamento provocados por Aspergillus spp., Penicillium spp. e Cladosporium spp. além de podridão causada por Rhizopus spp.

A comercialização de frutos de P. edulis Sims tem duas destinações, o mercado de frutos in natura e o de polpa/néctares. Para o mercado in natura, os frutos são classificados de acordo com a massa e uniformidade da coloração da casca. Frutos menores, apresentando danos que não comprometam a qualidade da polpa são destinados para a extração da polpa pela agroindústria.

O sistema de cultivo pode influenciar nas características dos frutos obtidos sendo que ocorreram variações no comportamento de duas variedades de maracujás comerciais (P. edulis) em relação à qualidade dos frutos obtidos no cultivo convencional e orgânico (COSTA et al., 2008). Os autores verificaram valores mais elevados de acidez titulável na polpa da var. BRS Ouro Vermelho quando cultivada no sistema orgânico. Já a BRS Sol do Cerrado teve comportamento diverso, com polpas mais doces obtidas no sistema convencional sem alterações nos valores de acidez titulável em relação ao sistema orgânico.

Passiflora setacea DeCandolle

A espécie P. setacea apresenta frutos ovoides ou globosos, com aproximadamente 4,5 cm a 5,5 cm de diâmetro longitudinal e 3 cm a 4 cm de diâmetro transversal, e massa aproximada de 47 g a 60 g. A variedade melhorada BRS PC (Registro Ministério Agricultura – data 04/12/2007 – n° 21714) apresenta, em frutos com massa média de 77 g, diâmetro longitudinal de 6,5 cm e transversal médios de 5,2 cm (CAMPOS, 2010). A casca dos frutos é de coloração verde-clara com listras verde-escuro em sentido longitudinal. Mesmo quando maduros os frutos não modificam a coloração, sendo colhidos pelos produtores ao caírem no chão, sendo muito importante estudos para a definição do ponto ideal de colheita dos frutos ainda na planta de forma a evitar contaminação pelo solo, danos mecânicos na queda dos frutos e outros. Os frutos de P. setacea apresentam boa resistência a injúrias quando comparado à espécie P. alata. A P. setacea apresenta valores de sólidos solúveis elevados, na faixa de 16 ºBrix a 18 ºBrix o que o classifica na categoria dos Maracujás Doce (FALEIRO et al., 2005; CAMPOS, 2007, 2010; LESSA, 2011).

Os frutos podem ser armazenados a temperatura ambiente (25 °C a 30 °C) por 3 a 5 dias da colheita sem alterações perceptíveis no aspecto. Após este período os frutos passam a apresentar aspecto de murchamento característico do gênero. De um modo geral, os frutos são pouco afetados por doenças pós colheita, sendo as mais frequentes: antracnose e fusariose, ambas com sintomatologia similar à descrita para P. alata (Figura 2), que de acordo com a severidade podem ou não afetar a qualidade da polpa. Os frutos podem ser consumidos mesmo quando a casca apresenta aspecto enrugado e com presença de fungos, pois, na grande maioria dos casos, os fungos não comprometem a qualidade da polpa. Contudo, se no processo de colheita forem coletados frutos caídos no solo, se faz necessária uma desinfestação dos mesmos, pois pode ocorrer infecção por Sclerotium rolfsii levando os frutos ao apodrecimento durante o armazenamento (Figura 3). Frutos caídos também podem apresentar ferimentos que são portas de entrada para Penicillium spp. e Aspergillus spp.

Passiflora tenuifila

A P. tenuifila é uma espécie não comercial e silvestre no Brasil. Existem relatos da sua distribuição geográfica por toda a América do Sul, incluindo Bolívia e Argentina (BRAGA et al., 2005). Popularmente é conhecida pelo nome maracujá alho devido ao aroma característico de seus frutos. Os frutos são amarelos, ovalados, apresentam diâmetros longitudinais médios de 40,6 mm a 51,4 mm e os transversais de 39,5 mm a 47,5 mm, e massa na faixa de 9,24 g a 17,03 g (VICENTINI et al., 2009). A espessura das cascas é de, aproximadamente, 1,18 mm e corresponde, em média, a 38% da massa total do fruto (BRAGA et al., 2005). Em comparação com as espécies P. alata, P. edulis, P. setacea e P. cincinnata a casca pode ser considerada fina, susceptível a queima pelo sol, o que diminui a qualidade do fruto. Porém, a incidência de doenças tem sido baixa, principalmente pelos frutos permanecerem aderidos às plantas no processo de maturação, protegendo-os da contaminação de fungos presentes no solo e de danos provocados pela queda. A antracnose destaca-se como enfermidade mais frequente nos frutos de P. tenuifila, contudo também podem ser encontrados frutos com sintomas de mancha parda causada por Alternaria spp.

Os frutos raramente se soltam da planta quando maduros, caindo somente após a senescência. Portanto, a colheita é realizada com o auxílio de tesoura de poda quando os frutos apresentam 70% a 80% de amarelecimento da casca. Nestas condições, os frutos apresentaram valores de sólidos solúveis que variam de 3,0 ºBrix a 6,2 °Brix, com média de 4,75 °Brix, o pH de 2,62 a 5,25 e média de 4,94, acidez titulável de 0,96% a 3,2% e média de 1,83% e Ratio de 1,25 a 3,9 e média de 3,04 (COSTA et al., 2009).

Em P. tenuifila a elevação nos teores de fósforo no solo promoveu redução nos valores da acidez titulável nos frutos (%AT), mas sem interferência na concentração de sólidos solúveis (SS), pH e Ratio, sugerindo influência deste elemento na regulação da via metabólica de ácidos orgânicos, em especial na via de síntese e acúmulo de citratos (COSTA et al., 2009).

Passiflora cincinnata

A P. cincinnata é conhecida popularmente por maracujá da caatinga e ocorre naturalmente nas regiões do Semiárido brasileiro e Semiárido transição com o Cerrado. O fruto apresenta formato e dimensões que se assemelham ao de uma pera ou de uma tangerina, conforme o ecotipo. Apresentam massa média entre 50 g e 65 g, diâmetro longitudinal de 4,4 cm e 5,5 cm; e transversal de 4,7 cm e 5,1 cm. São verdes, mesmo quando maduros, e geralmente não se destacam naturalmente da planta quando atingida a maturidade fisiológica. A polpa apresenta acidez e teores de sólidos solúveis equivalentes ao maracujá azedo, na faixa de 8,4 ºBrix a 13 ºBrix e 3,5% a 5,5% de acidez titulável, sendo apreciada para o preparo de suco, podendo a polpa e casca ser aproveitadas no preparo de doces (ARAÚJO, 2007). Com relação ao rendimento médio da polpa, o P. cincinnata pode apresentar valor superior quando comparado com o maracujá-amarelo. Para que se obtenha qualidade dos frutos e produções satisfatórias é necessário que se aprimore o manejo desta espécie, principalmente aos fatores ligados à padronização do ponto de colheita, onde no futuro poderão servir de base para o desenvolvimento de programas de melhoramento genético.

Estratégias para aumento da vida útil dos frutos de passiflora

Os frutos de passiflora apresentam como característica geral a perda de água e o enrugamento da casca ao longo do armazenamento (Figura 4). Dependendo das condições ambientais da armazenagem, observa-se, também, a ocorrência de doenças pós-colheita tais como fungos e bactérias. Conforme a espécie as doenças pós-colheita podem comprometer a qualidade sensorial do fruto e inviabilizar a sua comercialização. Para evitar o problema, algumas estratégias podem ser adotadas no sentido de permitir maior longevidade, dentre elas estão:

1. Colheita precoce 2. Redução da carga de patógenos no fruto 3. Redução da atividade fisiológica (modificações nas condições de armazenamento, como temperatura, umidade, atmosfera, utilização de ceras e outros); 4. Prevenção de danos físicos ao fruto (manuseio, embalagem).

1. Colheita precoce

Colheita precoce pode ser entendida como o ponto de colheita de frutos climatéricos em um período anterior ao ponto de colheita geralmente adotado atualmente pelos produtores de frutos de passifloras. É uma das estratégias utilizadas para o aumento da vida útil do fruto para a comercialização. É válida para frutos climatéricos, ou seja, para frutos que depois de desenvolvidos continuam seu processo de maturação, mesmo depois de colhidos, como é o caso de muitas espécies de maracujás.

Portanto, para o uso dessa estratégia é necessário conhecer o ponto ideal de colheita da espécie em questão para que o fruto consiga completar o processo de maturação, pois frutos coletados muito imaturos não completam o ciclo fisiológico. A maioria das passifloras tem a abscisão dos frutos como indicativo do ponto de maturação fisiológica, que pode ou não vir acompanhada de modificações na coloração e textura da casca (SILVA et al., 2008).

Frutos colhidos ao chão em geral possuem menor massa devido à desidratação natural que ocorre após a abscisão da planta e maior carga de contaminação por microrganismos gerando in convenientes para o armazenamento e comercialização, por resultar em perda de qualidade dos frutos e reduzir a vida útil em virtude de doenças pós-colheita (SALOMÃO, 2002). Uma estratégia adotada para ampliar a vida útil pós-colheita de frutos e evitar problemas com contaminantes do solo é por meio da antecipação da colheita no caso de frutos climatéricos (VERAS et al., 2000).

O maracujá é um fruto climatérico sendo capaz de completar o processo de amadurecimento fora da planta. Nesse processo ocorre um aumento significativo na taxa respiratória e produção de etileno, que por sua vez atua como um fitormônio desempenhando um papel importante na regulação dos processos intrínsecos da planta, que culmina com a senescência do fruto. Em termos de via metabólica, é sintetizado em plantas superiores a partir do aminoácido metionina. Sua síntese é afetada por fitopatógenos, injúrias mecânicas, estresses hídricos, térmico e salino, bem como por outros fitormônios. No caso da P. edulis f. flavicarpa Deg existem variações na capacidade de produzir etileno dentro da espécie. Quando comparada a outras fruteiras o maracujá amarelo é considerado um fruto produtor intermediário de etileno (WINKLER et al., 2002).

Os frutos iniciam a maturação quando atingem o desenvolvimento fisiológico máximo. É um processo que envolve transformações químicas e fisiológicas que resultarão no desenvolvimento da textura, sabor, aroma e cor característicos da fruta (JACQUES, 2009). Em maracujás comerciais e algumas espécies silvestres observa-se a mudança da tonalidade verde para a amarela ou amarelo-alaranjada e alteração na textura da casca. Ao se completar o processo de amadurecimento, em geral, tem-se a abscisão do fruto sendo um indicativo para a sua colheita (SILVA et al., 2008).

Frutos de P. tenuifila com coloração amarela de casca superior a 90% depois de colhidos sofrem rápido processo de dessecação. Após 3 horas de armazenamento à temperatura ambiente (25 °C a 30°C) já é possível observar o enrugamento da casca (Figura 4b).

Estudos realizados por Lima et al. (2010) com P. tenuifila indicaram que é possível colher os frutos no estádio 3 de desenvolvimento do fruto, que corresponde ao fruto já desenvolvido e no início do amarelecimento (entre 10% a 30% de modificação de cor) (Figura 5). O que resultou na antecipação da colheita em 4 a 5 dias e consequente ganho de vida útil. Dessa forma, os autores estabeleceram como ponto de colheita de frutos de P. tenuifila a etapa do início do amarelecimento, situação onde o fruto já alcançou maior desenvolvimento em termos de dimensões com capacidade para completar todo o processo de amadurecimento.

O ponto de colheita de frutos de passifloras deve ser considerado de acordo com o destino da produção. Para a indústria de processamento de suco, as frutas devem estar completamente maduras, onde apresentam maior teor de sólidos solúveis e rendimento em suco. Para o mercado de frutas in natura, deve-se colher as frutas com aproximadamente 30% de coloração amarela da casca e com o pedúnculo, uma vez que a maturidade fisiológica já foi atingida. Os frutos devem ser acondicionados em contentores plásticos e mantidos à sombra até o transporte. A embalagem para comercialização deve ser em caixas retornáveis forradas com papel para que a perda de água dos frutos seja reduzida.

O momento da colheita também é importante sendo que a qualidade da fruta que chega ao mercado e na indústria depende muito do procedimento adequado no campo. Por exemplo, a colheita de frutas com ocorrência de orvalho vai acarretar em manchas no fruto após a colheita. No entanto, frutas colhidas nas horas do dia com altas temperaturas e baixa umidade relativa tendem a murchar mais rápido acarretando em diminuição do preço, ou rejeição por parte do consumidor para consumo in natura.

Na prática, a colheita de frutos de maracujá é realizada em intervalos semanais nos meses frios e períodos em que a queima solar não é significante quando o destino é a indústria, e duas ou três vezes por semana quando o destino é o mercado in natura ou também para a indústria no período de alta radiação solar. É importante afirmar que após a colheita, os frutos perdem peso rapidamente, devendo ser comercializados ou armazenados imediatamente.

Em frutos de P. cincinata devido à dificuldade de se identificar o ponto de colheita, geralmente os frutos são colhidos quando a casca apresenta menor resistência ao ser prensada com os dedos. Os frutos estão no ponto de colheita quando a parede do fruto torna-se um pouco flexível sendo que o fruto só cai da planta quando a maturação já chegou ao extremo.

Para frutos de P. setacea, o processo de amadurecimento do fruto não é acompanhado da mudança de coloração da casca como acontece na espécie comercial. A situação vem dificultando o estabelecimento de estratégias para a antecipação do ponto de colheita. Portanto, fazem-se necessários estudos para se identificar marcadores de estado fisiológico que permita de forma prática avaliar o momento ideal para coleta. Atualmente a colheita vem sendo realizada de frutos caídos ao chão. Entretanto os frutos apresentam considerável contaminação física e microbiológica, danos mecânicos e excessiva perda de água.

Em termos práticos, é possível a colheita de frutos de P. edulis e P. alata quando a casca apresenta 30% ou mais de amarelecimento. Os frutos colhidos nestas condições são capazes de completar o seu amadurecimento. Contudo, existe carência de informações técnicas validando o conhecimento e quantificando a longevidade e condições de armazenamento. Estudos sobre a influência dos estádios de maturação sobre as características químicas do suco de maracujá-amarelo (P. edulis f. flavicarpa Deg) mostraram que a partir do amarelecimento da casca na ordem de 65% os frutos já estariam em condições adequadas para o processamento e obtenção de polpa, pois os valores de sólidos solúveis, acidez titulável e Ratio estariam na faixa de qualidade estabelecidas pela indústria de suco (SILVA et al., 2005).

2. Redução da carga de patógenos no fruto

A boa conservação dos frutos por um período mais longo é de fundamental importância para a comercialização eficiente do produto destinado ao mercado de frutas frescas e traz benefícios para toda a cadeia de produção. Assim, após a colheita, os frutos devem ser lavados, secados, tratados, classificados e embalados de acordo com os padrões estabelecidos pelo programa brasileiro de melhoria dos padrões comerciais e embalagens de hortigranjeiros (LIMA, 2002).

A qualidade inicial do produto é o principal fator a ser considerado como alternativa para aumentar a vida pós-colheita dos frutos. O manuseio adequado dos frutos no momento da colheita, transporte, armazenamento e comercialização auxiliam na redução da carga de patógenos no fruto uma vez que danos mecânicos servem de porta de entrada para a ação dos microrganismos no interior dos mesmos.

Os frutos de maracujá geralmente são lavados após a colheita buscando melhorar o aspecto visual e reduzir a carga microbiana presente nos mesmos. Agentes sanitizantes como o hipoclorito de sódio em concentrações adequadas e permitidas pela legislação também tem sido utilizado para a sanitização dos frutos após a colheita. Outras técnicas pós-colheita que aumentem a vida útil dos frutos de passifloras, entre elas, tratamento com água quente (tratamento hidrotérmico), a água ozonizada, além das condições de armazenamento, transporte e distribuição estão sendo estudadas.

O nível de dano causado por doenças pós-colheita depende da espécie de passiflora cultivada. A P. alata, por exemplo, são muito susceptíveis a doenças que afetam a qualidade da casca, principalmente podridões causadas por bactérias e fungos.

Dentre os principais agentes causadores de doenças em pós-colheita podemos citar os fungos Penicillium, Phomopsis, Fusarium, Rhizopus e Aspergillus. Esses fungos podem penetrar nos frutos por meio de ferimentos causados a eles no manuseio e durante o transporte. Outros fungos como Fusarium spp., Colletotrichum gloeosporioides e Alternaria spp., podem infectar os frutos no campo e permanecer como lesões dormentes, sem apresentar sintomas característicos. Mais tarde, durante o processo de maturação, na pós-colheita e armazenamento, essas lesões, que permaneceram assintomáticas no campo, evoluem provocando deterioração da casca e da polpa do fruto.

Para minimizar os danos pós-colheita duas estratégias podem ser utilizadas: evitar o contato do fruto com o solo e/ou promover a sua sanitização por meio de lavagem e posterior secagem do fruto. O contato do fruto com o solo pode ser evitado pela colheita precoce, utilização de palhada no pé da planta ou pela colheita em tela, como mostrado na Figura 6. Essa técnica ainda possibilita a redução de danos mecânicos ao fruto no momento da queda resultando em maior vida útil dos mesmos. Em frutos de P. setacea, P. alata e P. tenuifila devem ser realizados estudos mais aprofundados quanto às possibilidades de sanitização dos frutos após a colheita uma vez que os estudos já realizados até o momento com diferentes sanitizantes existentes no mercado não apresentaram resultados compensadores que justifiquem a recomendação de sanitização dos frutos após a colheita. Mesmo em condições refrigeradas os sanitizantes testados aumentam a perda de massa fresca dos frutos após a colheita reduzindo a sua vida útil. Em frutos de P. setacea e P. alata apenas a lavagem dos mesmos em água corrente e secagem em papel toalha apresentam bons resultados. Devido às características físicas e de alta perecibilidade dos frutos de P. tenuifila não é recomendada a lavagem dos mesmos após a colheita.

3. Redução da atividade fisiológica do fruto

A atividade fisiológica do fruto pode ser reduzida por meio da mudança nas condições de armazenamento, sendo a redução da temperatura, controle de umidade e uso de embalagens com maior ou menor permeabilidade a trocas gasosas os métodos mais comumente utilizados nas condições comerciais. Deve ser definida a condição mais adequada de armazenamento e tratamentos a ser aplicado para cada tipo de fruto considerando as suas exigências e características fisiológicas.

a) Armazenamento refrigerado

O armazenamento em baixas temperaturas vêm sendo considerado como um dos métodos mais eficientes para manter a qualidade de produtos hortifrutícolas, pois reduz a respiração, transpiração, produção de etileno responsável pelo amadurecimento, senescência, utilizadas a fim de retardar as ações enzimáticas e químicas e também retardar ou mesmo inibir o crescimento e atividade microbiana nos alimentos (KLUGE et al., 1999; SILVA, 2000). O desperdício de vegetais para o consumo in natura durante o processo de armazenamento é uma preocupação constante no setor alimentício do país. Os grandes centros de abastecimento contam com a utilização de câmaras frias para manter produtos frescos para o consumo (SIMÃO; RODRIGUEZ, 2009).

Quando o fruto é destinado ao mercado in natura, o critério mais utilizado para avaliar sua qualidade é a aparência externa. No caso do maracujá, um dos problemas identificados pela cadeia produtiva para a sua comercialização é a perda de massa e o consequente murchamento, o que confere aspecto enrugado ao fruto. Além do murchamento, também apresentam grande susceptibilidade a podridão e a fermentação da polpa, gerando curta vida útil após a colheita (TAVARES et al., 2003; DURIGAN, 1998). Em condições normais, um fruto de P. edulis ou P. alata apresenta longevidade de três a sete dias à temperatura ambiente. Após esse período, os frutos murcham rapidamente, a polpa começa a fermentar e inicia-se o ataque de fungos (ARJONA et al., 1992). Os frutos de P. alata são considerados de armazenamento difícil e a situação tem restringido à sua comercialização nos centros urbanos.

Para aumentar a longevidade após a colheita e fornecer aos consumidores frutos com qualidade, o maracujá deve ser acondicionado em câmara fria com temperatura em torno de 10 °C, com umidade relativa do ar variando de 85 a 90%. Sob essas condições, os frutos têm sua vida útil aumentada consideravelmente, em torno de 12 dias (LEONEL; SAMPAIO, 2007). Frutos de P. setacea. P. alata, P. tenuifila e P. cincinnata podem ser armazenados sob refrigeração na temperatura de 10 ºC e 90% de umidade relativa. Nestas condições os frutos apresentam vida útil significativamente superior quando comparado ao armazenamento sob condição ambiente.

O maracujá é um fruto altamente perecível após o seu desligamento da planta, o que o predispõe a uma rápida desidratação do pericarpo acompanhada de murchamento, reduzindo, assim, seu período de conservação e comercialização (DURIGAN et al., 2004). A cutícula que reveste o fruto é incapaz de conter o rápido processo de desidratação após a colheita (KAYS, 1991). O problema ocorre devido à atividade respiratória intensa e a perda significativa de água, que estão relacionadas com as diferenças na temperatura, umidade relativa e no diferencial de pressão do vapor de água entre a atmosfera e o produto (FONSECA et al., 2000).

Confira o artigo sobre a colheita e pós-colheita do maracujá, escrito por Maria Madalena Rinaldi, et all.

A conservação pós-colheita do fruto tem sido uma grande preocupação nos estados produtores sendo que frutas de melhor qualidade são remuneradas a preços significativamente superiores atingindo até 150%, que o obtido com a comercialização das frutas de classes inferiores (MELETTI; MAIA, 1999). As condições de temperatura e umidade relativa de armazenamento recomendadas para o maracujá são de 5,6 a 7,2 ºC e de 85 a 90%. Nessas condições, o maracujá roxo pode ser conservado por um período de 4 a 5 semanas e o amarelo por 3 a 4 semanas, sem que a concentração de sólidos solúveis, acidez e carotenos sejam alterados, mas os teores de ácido ascórbico, sacarose e amido diminuem, enquanto que os teores de açúcares redutores e totais aumentam (SILVA et al.,1999; DURIGAN, 1998). Ainda existe carência de informações científicas que indiquem a melhor forma para o armazenamento de frutos das passifloras brasileiras.

b) Embalagens

Na conservação de frutos in natura após a colheita as embalagens devem ser adequadas de forma a permitir a redução de oxigênio no interior da mesma até o nível mínimo aceitável pelo produto para manter-se vivo e aumento da concentração de CO2 também a um nível seguro para o produto. A redução de oxigênio e aumento de CO2 no interior das embalagens permite que o fruto respire menos aumentando a sua vida útil. Frutos de P. setacea devem ser acondicionados em bandejas de poliestireno expandido (isopor) revestidas com filme flexível de policloreto de vinila (PVC) com espessura de 10 μm a 12 μm e mantidos sob refrigeração em câmara fria na temperatura de 10 ºC e umidade relativa entre 85% e 90% por 10 a 14 dias. Em condição ambiente, a vida útil destes frutos no mesmo tipo de embalagem é de no máximo 7 dias. Para frutos de P. alata também se recomenda o acondicionamento em bandejas de poliestireno expandido (isopor) revestidas com filme flexível de policloreto de vinila (PVC) com espessura de 10 μm a 12 μm e manutenção dos frutos sob refrigeração em câmara fria na temperatura de 10 ºC e umidade relativa entre 85% e 90% por um período de 10 a 14 dias. Frutos de P. alata para comercialização in natura, mantidos sob condição ambiente, não devem ser embalados e apresentam durabilidade de 7 dias, no máximo. Para frutos de P. tenuifila a embalagem de PVC 12μm na temperatura de 10 ºC e 85% a 90% de umidade relativa apresentam bons resultados.

c) Tratamentos alternativos

O tratamento de frutos de P. alata com solução de cloreto de cálcio a 1% retardou a evolução da cor da casca, sem perda de massa fresca e rendimento de polpa em frutos armazenados a 9 °C (SILVA; VIEITES, 2000). Tratamentos com choque a frio e com choque a frio e cera não foram eficientes para a manutenção da qualidade pós-colheita do maracujá-doce quando desinfectados com hipoclorito e armazenados a 9 °C e 85-90% UR. Também não ocorreu aumento na vida útil por meio do uso de fitorreguladores (SILVA et al., 1999).

O uso de água ozonizada em frutos de maracujá roxinho do Kênia mantidos em câmara fria não induziu alterações para acidez titulável, perda de massa e potencial hidrogeniônico. Houve influência da sanitização em carboidratos, flavonoides, fenois, nitrato, carboidratos e atividade antioxidante em frutos armazenados em temperatura ambiente. O uso da sanitização de frutos de maracujá em água ozonizada mantido em temperatura ambiente não é eficiente para a manutenção da vida útil pós-colheita.

O armazenamento de frutas e hortaliças associados ao tratamento com ozônio pode ser uma alternativa que venha a diminuir as perdas pós colheita. O ozônio é um dos mais fortes agentes oxidantes comumente disponíveis, instável à pressão e temperatura ambiente com uma meia vida de cerca de 20 minutos e é decomposto a O2 a temperaturas superiores a 35 ºC (ADASKAVEG et al., 2002).

4. Prevenção de danos físicos ao fruto (embalagem)

O manuseio adequado dos frutos é essencial para a manutenção da sua qualidade. Dessa forma, a colheita deve ser realizada nas primeiras horas do dia evitando que os frutos absorvam o calor do sol. No processo de colheita devem ser evitados, batidas, cortes, arranhões e outros que possam causar injúria mecânica nos frutos, uma vez que essas injúrias aceleram o metabolismo do fruto diminuindo a sua vida útil. Além disso, o produto deve ser acondicionado em caixas adequadas previamente higienizadas de forma a não causar a contaminação dos frutos. O transporte deve ser realizado a sombra de forma a evitar a queima dos frutos pelo sol. Quando possível, o produto deve ser resfriado logo após a colheita, transportado e comercializado utilizando-se a cadeia do frio de forma a reduzir o metabolismo dos frutos aumentando assim a sua vida útil.

A prevenção de danos físicos é uma estratégia importante para a conservação de frutos com casca delicada, sujeitos a danos por impacto ou amassamento. No caso do maracujá azedo, os frutos apresentam casca com relativa resistência, sendo transportados e armazenados ensacados (Figura 7) ou em engradados plásticos.

Entretanto, a comercialização de frutos da espécie P. alata (maracujina) tem sido limitada em virtude das doenças pós-colheita e danos mecânicos. Atualmente, não existem embalagens moldadas específicas para acondicionamento de frutos desta espécie ou de outras do gênero passifloras, sendo utilizado, portanto, redes de envolvimento de frutos.

Conclusão

O maracujá é um fruto climatérico e altamente perecível após a colheita. O manuseio adequado dos frutos é essencial para a vida útil dos mesmos. É importante considerar alternativas já estudadas e definidas para a conservação destes frutos como colheita dos frutos de forma e momento adequado, formas adequadas de armazenamento, embalagens, controle de doenças pós-colheita e comercialização dos frutos.

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Fonte

MORERA, Marisol Parra; COSTA, Ana Maria; FALEIRO, Fábio Gelape; CARLOSAMA, Adalberto Rodríguez; CARRANZA, Carlos. Maracujá: dos recursos genéticos ao desenvolvimento tecnológico. Brasília - DF: ProImpress, 2018;

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